Os banqueiros são os
únicos que acham que o ajuste fiscal é fundamental. Esse
ajuste fiscal está sendo um desastre para o país.
Marco Weissheimer
O
ajuste fiscal, atualmente em curso no Brasil, está reduzindo
a demanda interna, desaquecendo a economia e produzindo
muitos desempregados, representando um desastre para o país.
A avaliação é do economista Paul Singer, Secretário Nacional
de Economia Solidária, que esteve em Porto Alegre no início
da semana, participando de um debate na Assembleia
Legislativa. Em entrevista ao Sul21, Singer
analisou o atual momento político do país e interpretou a
guinada na política econômica do governo Dilma Rousseff como
uma tentativa de agradar a burguesia para ver se ela
interrompe a greve de investidores que puxou o freio da
economia. O economista torce para que a estratégia funcione,
mas adverte para o custo e os efeitos da mesma: a cada ano
produzimos menos e, agora, começamos a produzir muitos
desempregados.
Sul21: Qual sua avaliação
sobre a política de ajuste fiscal atualmente em curso no
Brasil?
Paul Singer: Quando a
presidenta Dilma tomou posse para iniciar o seu segundo
mandato, ela fez uma volta de 180 graus sem nenhuma
explicação. Até onde eu percebo, os únicos que entenderam
por que era preciso fazer o ajuste fiscal foram os
banqueiros. Os banqueiros são os únicos que acham que o
ajuste fiscal é fundamental. Esse ajuste fiscal está sendo
um desastre para o país. A cada ano produzimos menos e,
agora, começamos a produzir muitos desempregados.
Sinceramente, eu esperava que houvesse ao menos no PT alguma
discussão sobre o ajuste fiscal para ver que sentido tem
isso e quais são as consequências.
Não é
absolutamente verdade que nós estamos com um enorme rombo
nas contas públicas. Isso é tudo invenção da imprensa mais
reacionária. Não há rombo nenhum. Todos os países têm dívida
pública, Estados Unidos, Inglaterra, Japão, China e assim
por diante. Os governos precisam de dinheiro mais do que
arrecadam e, assim, criam uma dívida pública pela qual eles
pagam juros. Dívida pública não se paga. A dívida pública
dos países que participaram das guerras mundiais não poderia
ser paga nem em um século. Ela é enorme.
O
ajuste fiscal só tem razão de ser para os banqueiros. Hoje,
no Brasil, é um bom investimento você comprar o chamado
tesouro direto. Você compra valores da dívida pública e
ganha um certo juro, que é o juro da Selic. Para isso não é
preciso fazer ajuste nenhum. Essa dívida pública pela qual
já se paga é grande. Do jeito que as coisas estão, com a
economia produzindo cada vez menos, não vai terminar de
pagar nunca e não é para pagar mesmo.
Pelas
manifestações da presidenta Dilma, eu deduzo que ela está
querendo ver se faz a economia brasileira crescer. Sendo o
Brasil um país capitalista, para que ele possa crescer é
preciso que a burguesia faça investimentos. Se a burguesia
não gosta do governo e no caso brasileiro tem todos os
motivos para não gostar -, ela não investe. Há uma expressão
para isso, que não fui eu que inventei e já foi usada várias
vezes: greve de investidores. É uma greve suicida. Imagine
um fabricante ou um dono de uma cadeia de lojas que ganhou
dinheiro, teve lucro e decidiu deixar esse dinheiro no
banco, sem investir para ampliar sua atividade. Daqui a
pouco entra alguém no mercado e tira a sua freguesia. A
greve de investidores não pode demorar muito, pois acaba
atingindo os próprios capitalistas.
Sul21: Está ocorrendo hoje uma greve de investidores
no Brasil?
Paul Singer: Sim.
Está ocorrendo desde que a Dilma assumiu o segundo mandato.
Aliás, no primeiro mandato dela já não houve investimentos e
o crescimento ficou na casa do 1% ao ano.
Sul21: Alguns defensores da atual política econômica
citam também mudanças no cenário internacional que
teria se tornado mais adverso para o Brasil. Na sua
opinião, essa associação é pertinente?
Paul Singer: Para mim
isso não faz nenhum sentido. O Brasil não tem dívida pública
externa. Pelo contrário, temos bilhões de dólares no Fundo
Monetário Internacional. A situação econômica mundial está
ruim para os outros, não para nós. Qual é o problema para o
Brasil? Se tivéssemos uma dívida como a Grécia e os credores
estivessem exigindo pagamento, aí a história seria outra.
Mas nós não temos. A nossa dívida é em reais e os portadores
dessa dívida são cidadãos brasileiros.
Sul21: A queda no preço de algumas commodities, como no caso do petróleo, não
representa um problema para a economia brasileira?
Paul Singer: Sim, mas
não é um problema só para a economia brasileira e sim para
todos os produtores de commodities no mundo. Nós tivemos um
período onde os preços das commodities estavam em alta
porque a China estava crescendo e comprando esses produtos
feito louco. A China se tornou o principal parceiro
comercial do Brasil e isso foi muito bom. Mas agora a China
está crescendo muito menos, em torno de 7% ao ano. Chegou a
crescer 11%. Mas 7% ainda é relativamente alto na atual
situação mundial.
A
nossa moeda se desvalorizou muito porque os nossos
investidores, ao invés de aplicar dinheiro na nossa
economia, compram dólares. Então, o dólar acaba se
valorizando, mas isso é pura especulação. Na verdade, isso
acaba favorecendo o Brasil pois, na medida em que o real
vale um quinto de um dólar, nossos produtos ficam mais
baratos. A indústria brasileira já está exportando um pouco
mais do que exportava antes.
Eu
sou economista, mas não sou especialista nisso. Mas, por
tudo o que sei, um país que tem estocado algumas dezenas de
bilhões de dólares no Fundo Monetário Internacional, tem
qual problema no cenário externo exatamente? Nós temos um
problema interno, que são um milhão e quatrocentos mil
desempregados e a economia crescendo para trás. A cada ano
estamos produzindo menos do que no ano anterior. Isso sim é
um problema, mas não tem absolutamente nada a ver com a
economia mundial, pelo menos até onde eu sei.
Sul21: O senhor tem participado de algum debate ou
conversa com integrantes do governo ou dentro do PT?
Paul Singer: Não. No
PT não se discute nada disso, infelizmente. Tenho falado
sobre esse tema com jornalistas, nada mais do que isso. A
minha posição não é única. Tem muita gente dizendo o que
estou dizendo, mas fui um dos primeiros a dizer o que estou
repetindo aqui.
Sul21: A que atribui esse
giro de 180 graus que mencionou a respeito da posição da
presidenta Dilma?
Paul Singer: Atribuo
ao que ela própria diz e ela está sendo sincera. A
presidente espera com essa política, que, na minha opinião,
não é nada boa para a classe trabalhadora, agradar a
burguesia para ver se ela passa a investir e interrompe a
greve. A verdade é que a burguesia brasileira não gosta nem
um pouco da Dilma, tanto assim que quer ver se consegue
afastá-la com o impeachment. Ela foi um tanto agressiva no
primeiro mandato. Não esqueçamos que ela baixou os juros dos
bancos públicos para obrigar os bancos privados a cobrar
menos. Os banqueiros não perdoam isso. Ela está procurando
agora se redimir junto à classe dominante para ver se eles
voltam a investir e a economia volte a crescer. Essa é, para
mim, a lógica da atual política econômica.
Isso
não é traição a nada. Se ela conseguisse fazer com que a
burguesia brasileira voltasse a investir nós não teríamos
nem a recessão nem o desemprego. O efeito disso que está
sendo feito aparece em algumas entrevistas. Uma que me
impressionou muito foi a do Klabin, um dos maiores
fabricantes de papel do Brasil, publicada na Folha de S.
Paulo. Ao ler essa entrevista, pensei: Uai, a política dela
está dando algum resultado. Foi uma entrevista elogiosa a
Dilma. Estou torcendo para que seja um sinal de que tudo vai
melhorar.
Sul21: Em 1980, a indústria
representava cerca de 34% do Produto Interno Bruto (PIB)
do país. Hoje, representa apenas cerca de 9%. Qual é, na
sua opinião, o impacto desse processo de
desindustrialização na economia brasileira?
Paul Singer: Tenho a
impressão de que falar em desindustrialização é um pouco
exagerado. Agora, se você comparar a indústria com a
agricultura o contraste é enorme. O Brasil é hoje o maior
exportador de alimentos do mundo e o agronegócio ganha muita
força econômica e política com isso. Já a indústria
brasileira não é exportadora e está voltada fundamentalmente
para o mercado interno. A política de ajuste fiscal
certamente prejudica a indústria porque há menos demanda. O
governo arrecada, em média, algo em torno de 37% do PIB. Se
ele não gasta, e é isso que é o ajuste fiscal, isso é um
desastre e resulta em recessão.
Estes
1,4 milhão de desempregados não foram de graça. Eu não posso
nem achar ruim com os caras que mandaram embora. Se eu for
um industrial, comerciante ou fazendeiro, seja o que for, se
eu não conseguir vender o que meus trabalhadores produzem, o
que vou fazer? Não terei como seguir pagando os salários
deles. A indústria está sem mercado, é isso que está
acontecendo. Agora, com o dólar alto, está exportando um
pouco mais, mas ela não é uma grande exportadora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário