segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Equacionar a questão fiscal, mas sem cair no abismo da recessão



                                                                                        José Álvaro de Lima Cardoso*
        Está em discussão no senado o Projeto de Lei de Resolução (PRS nº 84/2007), que estabelece os limites para o endividamento público da União. O senador José Serra, ao longo do debate sobre o Projeto de Lei, apresentou uma subemenda que visa estabelecer um limite para a dívida pública da União, objetivando superávits fiscais primários próximos de 3% do PIB durante vários anos. A proposta do senador é substituir a dívida consolidada líquida pela dívida consolidada (bruta) como objeto de limitação, e definir o limite em um valor muito inferior ao que é verificado atualmente.
        Em julho de 2015 a relação Dívida Consolidada/Receita Corrente Líquida (DC/RCL) estava em cerca de 5,6 vezes.  Serra queria reduzir essa relação para 4 vezes.  Depois da Secretaria do Tesouro Nacional se posicionar francamente contra a proposta, o senador Serra mudou a proposta. O projeto passou a admitir que nos próximos cinco anos a razão DC/RCL seja elevada para 7,1 e, a partir de 2021, a razão seria reduzida para 4,4 até 2030.  Isto significa que a relação DC/RCL teria que sair, em 10 anos, de uma relação de 7,1 para 4,4, o que exigiria um esforço fiscal monstruoso.  É importante levar em conta que essa razão, atualmente é de 5,6 vezes, como vimos, ou seja, representa um esforço fiscal bem inferior ao que seria se a razão fosse de 4,4 e, mesmo assim, estamos vendo uma queda da arrecadação de impostos, em termos reais, neste ano.
        A subemenda de Serra está sendo contestada pelo senador Roberto Requião como antirregimental, o que pode implicar na sua rejeição antes da discussão de mérito. Mas a ilegalidade da proposta de Serra não é o principal problema, e sim o prejuízo que, se aprovada, poderá causar à gestão da política fiscal. Conforme denunciado por manifesto público assinado por alguns dos grandes economistas e intelectuais do Brasil, o projeto engessaria as políticas fiscal, monetária e cambial do país, com base em uma compreensão tecnicamente equivocada das relações entre o Tesouro Nacional e o Banco Central. Como a proposta veio através de um projeto de resolução do Senado, se aprovado não seria discutido pela Câmara dos Deputados e nem poderia ser vetado pela Presidência da República.
        Se aprovado o projeto o governo federal terá que adotar por um longo prazo uma política de austeridade que engessará a política fiscal e que será muito mais dura que o ajuste fiscal praticado atualmente. Segundo cálculo de alguns senadores, pela proposta, o governo deveria obter um superávit primário superior a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) anual, o que levaria a cortes drásticos nos programas sociais e nas políticas de investimentos. Engessar a possibilidade do Estado se endividar é limitar as condições de operação da política econômica. É ainda mais grave quando os limites são impostos à operação da política fiscal, fundamental nos programas sociais e nos investimentos públicos, que são vitais para o Brasil, especialmente num cenário de baixo crescimento mundial, como o que se vislumbra.
        Apesar da complexidade do projeto e de suas graves implicações, o senador Serra quer aprová-lo a toque de caixa, sem debate público. O parlamentar alegou à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) que já concedeu entrevistas, elaborou artigos e já debateu com os seus pares sobre o projeto. A proposta que o senador não quer debater, surge num contexto de crise mundial, no meio de um ajuste fiscal, onde caem salários reais e arrecadação de impostos. Se for aprovada, teríamos pelo menos nos próximos 15 anos uma austeridade ainda maior do que a que o país está submetido em 2015.
     Os argumentos de Serra para justificar seu projeto se baseiam no pressuposto neoliberal de que todo o endividamento público é ruim para o país. Não leva em conta que a dívida pública em termos técnicos é uma forma de complementar o financiamento do Estado. Em princípio, não há nada errado no fato de um país, de um estado ou de um município se endividar, porque o que está acima de tudo é o atendimento do interesse público. Se o Estado não arrecada o suficiente, em princípio, ele pode se endividar para viabilizar o financiamento do conjunto de obrigações que tem. Teoricamente, a dívida é isso: complementação dos recursos necessários para o Estado cumprir com as suas obrigações. A dívida não é um problema em si. Depende da razão para a qual ela foi gerada (por exemplo, uma dívida para obtenção da casa própria normalmente é extremamente vantajosa), do custo de seu serviço, e das condições de pagamento.
        Se o projeto de Serra estivesse em vigor em 2008, provavelmente o Brasil não poderia adotar as políticas anticíclicas que foram encaminhadas naquela ocasião, e que permitiram ao Brasil praticamente manter o crescimento em 2009 (queda do PIB foi de -02%) e retomar o crescimento no ano seguinte (7,6%). Tudo indica que o projeto de Serra tenha se inspirado na Legislação estadunidense, país em que existe um teto para a dívida pública, que é periodicamente renovado pelo Congresso, sempre que a realidade exige. Entre os anos 40 até esta década, o teto já foi mudado pelo Congresso norte-americano cerca de cem vezes (ver o artigo do economista José Carlos de Assis: O projeto de Serra para estrangular o Estado), sempre que a realidade orçamentária assim o exigiu.  Ou seja, o teto é uma convenção, que muda a partir da conjuntura econômica.
        A ideia defendida por Serra ignora o fundamental, que são os gastos com a dívida pública. Segundo o economista Adriano Benayon, os gastos com a dívida pública brasileira, desde a Constituição de 1988 até agosto último, atualizados monetariamente, superam os R$ 20 trilhões. O déficit nominal do setor público (resultado do balanço entre as receitas totais e as despesas totais), neste ano alcançará 6,4% do PIB no Brasil. O ajuste fiscal em curso, inclusive, piorou a situação porque fez cair a arrecadação real. Mas não são os salários do funcionalismo público federal (estacionados em pouco mais de 4% do PIB) ou os gastos com os programas sociais que levarão a este resultado, e sim os gastos com a dívida pública, turbinados pelos seguidos aumentos da taxa básica de juros, a Selic.  É fato conhecido que, a cada ponto percentual de aumento da taxa Selic, o gasto com a rolagem da dívida aumenta em cerca de R$ 20 bilhões.  Isto revela que há um evidente conflito entre o gerenciamento do chamado Sistema da Dívida, que transfere recursos fundamentais da sociedade para um grupo restrito de privilegiados, e os direitos da sociedade. Mas a proposta do senador Serra ignora tudo isso.
        A confusão do momento econômico e político favorece a apresentação de propostas deste tipo. Os problemas econômicos se agravaram em função da crise mundial e pelos impactos da crise política sobre a estabilidade econômica. Presenciamos queda drástica do câmbio, que saiu de R$ 2,65, em dezembro, para R$ 3,93 (em 22/10), o que representa uma desvalorização de 48,3% em menos de 10 meses. Um dos efeitos imediatos é pressão sobre inflação, estimada entre 2,5% a 3%.  Além disso, o pais enfrenta os efeitos de um ajuste que cortou gastos sociais, pegando diretamente os de menor renda e que ajudou a deteriorar as contas públicas. No campo externo há o fim do super ciclo de alta das commodities, em parte devido à desaceleração do crescimento chinês. O país sofre os efeitos desta conjuntura internacional e também dos equívocos da política econômicas interna, como, por exemplo, praticar a maior taxa de juros do planeta.
     Nesse contexto, pode-se constatar a piora da situação fiscal, mas que nem de longe justifica a retórica utilizada pelos analistas, Serra inclusive, para defender suas propostas. Disciplina fiscal é sempre fundamental, mas deve ser inteligente e ter o objetivo de garantir o desenvolvimento, com investimentos prioritários e manutenção das políticas sociais. O ajuste fiscal deve ser combinado com uma agenda de crescimento, que inclua a diminuição gradativa dos juros reais e a ampliação do crédito.
        Como lembrou o iminente economista Carlos Lessa, em entrevista recente ao site Carta Maior: ‘Se existe um déficit você terá que equacioná-lo buscando recursos onde há superávit. Quem, afinal, é superavitário hoje no Brasil? Por certo não é a família assalariada, tampouco o investimento, que há anos sequer resvala a mínima necessária ao crescimento sustentável, uma taxa da ordem de 20% do PIB, pelo menos. (...) Quem é superavitário nesta sociedade hoje, e há muito, são os bancos e os rentistas. Essa gente precisa ter brio e admitir um pacto, na forma de uma taxa, para ajustar as contas fiscais, sem esmagar o emprego, o investimento público e os direitos sociais. Ou então afundaremos na gosma” (Carta Maior, Caderno Especial O golpe fiscal e o impeachment do Brasil, 2/22/2015).
        Tudo indica que a crise mundial e a desordem financeira irão se prolongar. Soluções conservadoras e inviáveis em termos práticos, como o ajuste fiscal em curso ou a proposta de Serra, não dão conta do tamanho do desafio.  No mundo de hoje as perspectivas estão entre uma longa estagnação, com risco de deflação e, quem sabe, um crescimento medíocre. Na dúvida, nada é mais importante do que preservar o emprego, manter o poder de compra das famílias e os programas sociais. Como diz Carlos Lessa, na situação atual o Brasil não pode se dar ao luxo de desperdiçar o mercado interno. 
*Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.


      

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