segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Os aloprados no comando do Titanic Brasil

Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

A economia mundial está sob influência dos seguintes fatores negativos, um desmanche em toda organização que vigorou no pós-guerra.

Peça 1 – desaceleração das economias

União Europeia

Nos últimos meses houve uma redução abrupta da oferta de crédito, com reflexos nas diversas economias. E uma obsessão por ajustes fiscais que derrubou as condições sociais estimulando partidos radicais em praticamente todos os países.

Alemanha – no final do ano passado mostrou os primeiros sinais de recessão, com queda brusca na produção industrial. A dívida alemã está sendo negociada com rendimentos negativos, sinal de que se aproxima uma deflação da economia. No segundo semestre de 2018 houve uma queda de 3,2% na produção industrial da Alemanha. Em dezembro, as encomendas caíram 7% em relação ao mesmo mês do ano anterior. A recessão começou com a indústria automobilística e já se espalhou para construção, produtos químicos e farmacêuticos.

Itália – A Comissão Europeia reviu o crescimento em 2019 para 0,2%. Além disso, o país corre o risco de uma nova crise da dívida, tendo que refinanciar 400 bilhões de euros em dívidas em 2019.

Inglaterra – presa às indefinições do Brexit, sem liderança e sem estratégia clara sobre as regras de saída. Em 2016 montou-se uma campanha a favor do Brexit sem nenhuma informação mais concreta sobre as implicações da decisão na vida das pessoas. Sequer analisaram-se as implicações na política interna, como a manutenção do Acordo de Sexta Feita Santa de 1998, que celebrou a paz na Irlanda do Norte, após três décadas de guerras sangrentas. Além disso, os números da economia mostram o menor crescimento desde 2012.

EUA – o FED (Banco Central dos EUA) interrompeu momentaneamente a alta nas taxas básicas de juros. Mas ficou a dúvida no ar sobre os próximos passos.

Peça 2 – alto endividamento

Anos de juros perto de zero provocaram um megaprocesso de endividamento corporativo e de países. A tomada de empréstimos se baseia na relação entre a taxa de crescimento da economia e o volume de crédito tomado. Quando cai o crescimento, aumenta o peso dos juros. O mercado de taxas traz indicações preocupantes de deflação na zona do euro. O que significa redução do numerador.

Mais que isso. O excesso de crédito inflou os ativos internacionais. A manutenção das cotações depende, sempre, da expectativa de crescimento dos investimentos e da manutenção da liquidez internacional.

Com menos crédito, haverá menos expectativa de rentabilidade dos ativos – que já estão caros. Essa parada poderá deflagrar o chamado “overshooting” para baixo. Isto é, deflagração de ordens maciças de venda.

- Além da queda da atividade econômica global, há um conjunto de crises latentes:

- Guerra comercial entre EUA e China.

- Confisco do ouro da Venezuela em bancos europeus, trazendo um fator adicional de insegurança jurídica.

- Crise política se alastrando na França, inclusive com embates verbais com a Itália

- A indefinição em relação aos juros norte-americanos.

- A indefinição em relação ao Brexit.

Peça 3 – o fator Bolsonaro

É nesse universo turbulento que o governo Bolsonaro começa a apresentar suas fichas. Tem-se um maremoto pela frente e no leme do país um governo mais preocupado em desmontar o barco movido por dois fundamentalismos: o religiosos e o econômico.

Depois de um primeiro mês atabalhoado, começam a sair as primeiras medidas, uma sucessão infindável de propostas fundamentalistas, descoladas da realidade, e, especialmente a equipe da cota dos Bolsonaro, com um despreparo abismante.

Se a educação e as relações exteriores estão sob controle de fundamentalistas religiosos, a política econômica foi entregue a fundamentalistas econômicos. O Ministro da Economia Paulo Guedes não é uma pessoa racional, que se debruça sobre a realidade para encontrar soluções. É um ideólogo sem noção, que julga que destruindo a ordem econômica em vigor, irá brotar do caos uma nova ordem conduzida pela mão invisível do mercado.

Desde o governo Temer, vem sendo desmontadas peças centrais da economia, com reflexos terríveis nas próximas décadas.

O desmonte do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) começou com a mudança da taxa referencial de juros, procurando aproximar suas taxas de longo prazo das taxas de mercado através do expediente mais nocivo possível: elevando as taxas mais baixas do banco, em vez de trabalhar para reduzir as taxas do mercado.

O desmonte da legislação trabalhista criou duas bombas relógio.

A primeira, os impactos gradativos sobre a receita fiscal. O que a tolice guedesiana chama de “herança getulista”, nada mais é do que um engenhosos mecanismo implementado por Roberto Campos, que transformou o desconto em folha em peça central da arrecadação fiscal, do financiamento da Previdência e do financiamento da infraestrutura, através do FGTS.

Com o desestímulo progressivo à formalização, haverá impactos de monta na receita fiscal e praticamente a inviabilização da previdência pública.

Sua proposta de reforma da Previdência – de impor a capitalização individual para os novos contribuintes – não tem pé nem cabeça. Existe um sistema em vigor, a chamada repartição simples, no qual a contribuição dos ativos banca a aposentadoria dos inativos. Se já há dificuldade em manter o sistema atual, como pretende incluir um novo sistema? Se os novos contribuintes deixarem de contribuir para a repartição simples, haverá um crescimento exponencial do déficit atuarial. Se acumular duas contribuições, o custo se tornará inviável para o empregado.

Portanto, há dois mega-rombos a caminho, caso passe a reforma: a redução da formalização do emprego; a interrupção do fluxo de contribuições ao sistema de repartição.

Tome-se a ausência completa de políticas contra cíclicas, para melhorar o nível de atividade, mais o desmonte das políticas sociais, o aumento da informalidade, um plano de segurança pública meramente bacharelesco, e a guerra religiosa que se prenuncia, para se ter um quadro complicado pela frente.

A guerra hoje não é entre centro-esquerda e centro-direita. É entre a irracionalidade mais delirante a os setores racionais do país, é entre a liberdade religiosa e o fundamentalismo mais canhestro, entre os direitos sociais e individuais e as milícias. Ou os setores formais e racionais se unem contra essa avalanche fundamentalista ou a reconstrução se tornará impossível.

Site desmascara Juan Guaidó: um falso democrata que não surgiu do nada

Do Portal Vermelho


O site uruguaio Se Puede fez a “lição de casa” e foi investigar quem é Juan Guaidó, o golpista que tenta usurpar o poder na Venezuela das mãos do presidente legítimo, Nicolás Maduro. O resultado do trabalho é uma devassa sobre a vida pregressa – e altamente condenável – do oposicionista venezuelano. Conforme o artigo, “Guaidó não surgiu do nada, e tampouco é um democrata preocupado pela vida dos venezuelanos”. Leia abaixo, na íntegra, o artigo.

Guaidó não surgiu do nada, e tampouco é um democrata preocupado pela vida dos venezuelanosGuaidó não surgiu do nada, e tampouco é um democrata preocupado pela vida dos venezuelanos
Quem é Juan Guaidó?
Por Se Puede. Tradução: Carta Maior

Estamos há um mês nos fazendo essa pergunta: quem é Juan Guaidó? Quem é esse fenômeno que apareceu com tanta força na política internacional, reconhecido por vários governos como presidente (!!!) da Venezuela, mesmo sem ser eleito, e que rapidamente também foi aceito pelos representantes da direita uruguaia. Guaidó se dá ao luxo inclusive de criticar o nosso presidente Tabaré Vázquez simplesmente porque o nosso país, junto com o México, avançou pelo único caminho possível para nós que amamos a democracia, a liberdade, a paz e especialmente o diálogo. E claro, Guaidó não está de acordo com essas posturas.

Investigando a respeito do seu passado, nos encontramos com uma matéria escrita por Pablo Pozzi para a publicação Quién es quién, a qual transcrevemos aos nossos leitores. É somente mais uma contribuição, para conhecer melhor a biografia do sujeito. Algum leitor pode considerar que não está de acordo com o relato e que Guaidó é realmente um democrata. Considere-a, então, somente mais uma fonte para ajudar a compreender os acontecimentos na Venezuela, país que tem se transformado no centro do mundo.

Abrindo o The New York Times (bom, clicando em seu sítio web), pode-se ver Juan Guaidó descrito como alguém “com um estilo refrescante e uma visão de quem quer melhorar” a Venezuela. Ao mesmo tempo, o Bloomberg News insiste em que Guaidó tenta “restaurar a democracia”, enquanto o The Wall Street Journal o declara como “o novo líder democrático”. É encantador para quem não tinha a menor noção de quem era. Por sorte, esses baluartes do jornalismo objetivo e da defesa da democracia me esclareceram.

Até que chegou à redação uma mensagem de um amigo, o sindicalista canadense Sid Shniad, que incluía uma longa investigação dos jornalistas Dan Cohen e Max Blumenthal sobre o personagem. Ambos devem ser muito mal intencionados (e também Sid, que sempre foi um desses vermelhinhos ranzinzas), porque se dedicaram simplesmente a fazer algo que os outros jornalistas não fizeram: revisar na web, entrevistar especialistas, ler diversos informes de ONGs sobre a Venezuela, etc. E então, para surpresa nossa, percebemos que o jovem democrata não veio do nada. Tampouco é a cara da democracia na Venezuela (e em nenhum outro lugar). Mas, quem é Juan Guaidó? O que nos dizem Cohen e Blumenthal?

Primero, o mais simples: Guaidó é membro do partido Vontade Popular, fundado por Leopoldo López e protagonista das chamadas “guarimbas”, enfrentamentos que custaram a vida de centenas de venezuelanos entre 2014 e 2017 (o que ninguém diz é que 70% dos mortos foram chavistas). O partido Vontade Popular pertence ao setor mais pró-estadunidense, neoliberal e intransigente da oposição antichavista, que rechaça qualquer tipo de negociação que não se baseie na derrota total dos aderentes de Chávez e um desmantelamento de todos os programas reformistas das últimas duas décadas. López, ademais de ser neoliberal e de ultradireita, recebeu quase 50 milhões de dólares em “ajuda democrática” por parte das organizações USAid (ligada ao governo norte-americano) e National Endowment for Democracy (NED: ligada à CIA), isso segundo o instituto espanhol FRIDE. Guaidó foi eleito deputado com 26% dos votos em 2016, pelo pequeno estado de La Guaira, graças a uma fragmentação de outras candidaturas opositoras ao chavismo; ou seja, também nesse sentido não é o que espera de um representante do povo. E se tornou presidente da Assembleia Nacional em circunstâncias ainda hoje pouco claras (na verdade, a presidência legalmente deveria ser de um tal Juan Andrés Mejía).

Por si só, os dados anteriores já mostram Juan Guaidó como uma pessoa mais ou menos desconfiável. Mas Cohen e Blumenthal buscaram mais um pouquinho, e descobriram que Guaidó era um dirigente estudantil da Universidade Andrés Bello. Aparentemente foi um dos cinco estudantes venezuelanos enviados pela NED a Belgrado em 2005 (nesse então, tinha apenas 21 anos), para ser capacitado pelo CANVAS, um grupo de treinamento sobre como organizar “protestos não violentos”, cujos alunos foram responsáveis por várias “revoluções coloridas”, como a dos neonazistas na Ucrânia. Em 2007, Guaidó recebeu seu diploma universitário e viajou a Washington, para estudar com Luis Enrique Berrizbeitia, um ex-diretor executivo do FMI. Cohen e Blumenthal não discutem nem especulam sobre como esse garoto de La Guaira conseguiu se conectar tão facilmente com um dos principais economistas neoliberais da América Latina. Isso sim, pouco depois de começar seus “estudos”, Guaidó já era parte do grupo fundador da Geração 2007, uma organização de estudantes treinados pelo CANVAS e financiado por Washington, cujo objetivo era derrotar a reforma constitucional chavista daquele ano. Segundo os emails do embaixador norte-americano na Venezuela em 2007, “o objetivo da Geração 2007 era forçar o governo venezuelano a reagir com repressão”, tudo para criar um “evento internacional”. Guaidó foi um dos personagens identificados como dirigentes desses protestos.

Em novembro de 2010, Guaidó e outros dirigentes do Vontade Popular participaram de um seminário secreto de cinco dias no hotel Fiesta Mexicana, na Cidade de México. O evento foi organizado pela Otpor, uma instituição dedicada às “mudanças de regime” e financiada por Washington. Por sua vez, o dinheiro do seminário veio da petroleira mexicana Petroquímica del Golfo e do banco JP Morgan. Durante o evento, segundo os emails de um dos participantes, foi planejada uma estratégia de desestabilização do governo da Venezuela, incluindo o assassinato de Hugo Chávez, e depois o de Nicolás Maduro. As “guarimbas” de 2014 foram parte dessa campanha, e é possível ver em diversos vídeos os dirigentes estudantis com camisetas do partido Vontade Popular. Entre eles estava Guaidó.

O governo venezuelano prendeu vários dirigentes do Vontade Popular, acusados de terrorismo e posse ilegal de armas de guerra. Entre eles estavam Freddy Guevara, Lester Toledo, Carlos Graffe, David Smolansky, Yon Goicoechea e Leopoldo López. Vários deles foram liberados posteriormente, para que esperassem pelo julgamento, e nesse então quase todos saíram ao exílio, ficando somente Leopoldo López, que se encontra hoje em prisão domiciliar. Convenhamos que, para ser acusada de ser uma ditadura selvagem, as penas que a Venezuela dá a esses opositores que promovem desestabilizações sociais e políticas têm sido incrivelmente leves. Mais ainda: Smolansky escapou do país sem muitos problemas, disfarçado de padre, e foi primeiro ao Brasil e logo aos Estados Unidos. Uma vez em Washington, tuitou que teve uma “amável reunião” com Elliot Abrams, o famoso arquiteto da estratégia de alimentar quadrilhas paramilitares na América Central durante os Anos 80, e que hoje é um “enviado especial” de Trump na Venezuela. Para pobres estudantes democráticos, estes garotos têm um acesso notável a muitos dos personagens mais obscuros da política norte-americana.

A saída de tantos dirigentes do país favoreceu Guaidó, que passou de ser um fundador secundário a se erguer como porta-estandarte do Vontade Popular. Em dezembro de 2018, Guaidó viajou em segredo a Washington, para planificar as mobilizações contra Maduro, que ocorreram em janeiro de 2019. Ali recebeu o compromisso de apoio dos senadores trumpistas Marco Rubio e Rick Scott, e do deputado Mario Díaz Ballart. Depois, se reuniu com o secretário de estado Mike Pompeo. No dia 5 de janeiro, antes de regressar à Venezuela, ele foi nomeado presidente da Assembleia Nacional, e 18 dias depois se autoproclamou “presidente encarregado” do país (um título que constitucionalmente não existe). Rapidamente, Washington se mobilizou para reconhecê-lo, e ao mesmo tempo começou sua pressão aos aliados e títeres para que fizessem o mesmo.

Guaidó não surgiu do nada, e tampouco é um democrata preocupado pela vida dos venezuelanos. Isso está muito claro no informe de Cohen e Blumenthal. Evidentemente, nem o The New York Times, nem o The Wall Street Journal repercutiram a investigação desses dois jornalistas. Para que? Se o Departamento de Estado sempre diz a verdade e o que é preciso saber.

    quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

    Uma Vale e muitos crimes

    Por Paulo Kliass, no site Carta Maior:

    A criação da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) foi mais uma das muitas decisões estratégicas adotadas por Getúlio Vargas. Com um projeto bastante definido a respeito dos rumos de um desenvolvimento nacional autônomo, ele deixou um legado fundamental para o futuro da sociedade brasileira. A constituição de uma empresa pública federal para se ocupar da exploração da riqueza do subsolo (em especial o minério de ferro) ocorreu mais de uma década antes do lançamento da Petrobrás.

    Em junho de 1942, Getúlio publica um Decreto Lei portando sobre a criação dessa empresa estatal. Não terá sido por mera coincidência que dois meses depois, em agosto, o País declararia oficialmente sua participação no bloco militar dos aliados na Segunda Guerra, na luta contra o nazifascismo. A constituição de um parque produtivo moderno à época tinha como pré requisito a formação da indústria siderúrgica nacional e a implantação de uma sólida rede de infraestrutura (energia, transportes, comunicações) de apoio às atividades econômicas. O minério de ferro já se apresentava como matéria prima essencial para tal empreitada.

    Na verdade, o surgimento da CVRD veio no mesmo pacote da criação, um ano antes, da primeira empresa brasileira em condições de produzir aço em grande escala. Em abril de 1941 foi realizada a assembleia de fundação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), também por iniciativa de Vargas. A atividade produtiva da estatal federal foi inaugurada apenas em 1946. Ao longo da década seguinte foram sendo constituídas outras empresas estatais federais do mesmo ramo em outros estados. Esse foi o caso da Companhia Siderúrgica Paulista (COSIPA, em 1953) e depois a Usiminas (1956), culminando mais tarde na montagem da “holding” Siderbrás e sua rede de siderúrgicas controladas por quase todo o território nacional.

    Criação em 1942 e privatização em 1997

    O interessante é que a CVRD sobreviveu a períodos e processos políticos bastante distintos de nossa História. Sua natureza pública e estatal acompanhou a vida da empresa na ditadura varguista pré 1945. Se manteve assim no processo de democratização na Constituinte de 1946. Atravessou a fase democrática do desenvolvimentismo até o golpe de 1964 e se fortaleceu ainda mais no período da ditadura militar. A empresa se mantém assim durante toda a transição democrática e o pacto da Constituição de 1988 confirma que os recursos do subsolo são bens da União e que a exploração de minério também é de exclusividade da União.

    No entanto, a onda neoliberal da década de 1990 coloca esse modelo em questão. Durante o governo de FHC um conjunto de setores estratégicos e empresas estatais passam a ser objeto de privatização. Um dos exemplos mais emblemáticos foi justamente o da CVRD. O controle acionário da empresa foi transferido em uma única martelada no cenário teatral especialmente montado pelo financismo no espaço da Bolsa de Valores. Com isso, foram-se embora pelo ralo mais de 55 anos de vida da empresa no âmbito do setor público. Independentemente das críticas que se possam oferecer ao percurso da empresa ao longo dessas décadas, o fato é que ela estava respondendo de alguma maneira a interesses estratégicos do Estado brasileiro.

    A onda privatizante foi devastadora. Ao final, o valor pago pelo consórcio vencedor foi irrisório. Foram contabilizados apenas US$ 3,3 bilhões, quando várias avaliações independentes estimavam que os valores patrimoniais da CVRD superavam os R$ 70 bi. Além disso, o modelo de privatização aceitava o pagamento dos ativos com as chamadas “moedas podres”. Tratava-se de títulos do Tesouro Nacional que eram negociados por alguns centavos no mercado secundário e que foram aceitos por seu valor nominal de face na hora da privatização. Uma verdadeira negociata em prol dos investidores. Um tremendo crime de lesa pátria contra a maioria da população brasileira.

    O primeiro crime foi a privatização


    É bem verdade que as pessoas ficaram bastante chocadas com as catástrofes mais recentes de Mariana e Brumadinho. E esse sentimento generalizado de indignação e impotência é mais do que justificado. Afinal, os prejuízos são incomensuráveis – humanos, ambientais, materiais, financeiros. Ao contrário do que tentam passar os grandes meios de comunicação e os próprios órgãos públicos envolvidos, estes eventos não podem ser qualificados como “acidentes”. Na verdade, foram crimes cometidos em nome da busca ensandecida pelo lucro. Eu sei que é duro apresentar uma análise com esse tipo de frieza nesse momento de tanta dor e tristeza. No entanto, infelizmente, é simples assim.

    Mas não nos esqueçamos de que o primeiro grande crime foi até anterior. Ele ocorreu com a decisão de promover a privatização. Ao vender a Vale para o capital privado, o governo passou a sinalizar que a exploração do minério de ferro (e outros minerais) entrava em nova fase. Ao transferir a propriedade e a direção da empresa para uma articulação liderada pelo capital financeiro nacional e internacional, nossa elite política rompeu com o modelo que pressupunha a existência de um projeto nacional articulado para promover a exploração do subsolo com alguma racionalidade que fosse um pouco além da ganância pura e simples.

    A Vale passou a orientar suas ações única e exclusivamente em busca da chamada “maximização de seus resultados”. Traduzindo esse financês sofisticado, isso significa que a empresa iria correr atrás de lucros e mais lucros a qualquer preço. E ponto final! Sim, pois esse era exatamente o argumento usado à época da negociata. Vivíamos sob o reinado supremo e absoluto dos ditames do Consenso de Washington e de suas receitas liberal privatizantes. A grande imprensa não cansava de repetir o eterno blá-blá-blá a respeito da suposta ineficiência intrínseca do setor público e da suprema eficiência da gestão privada das empresas. Os resultados estão por aí.

    As pessoas se assustam com as revelações dos bastidores da vida da empresa que agora passam a vir à tona. É doloroso e revoltante. Mas é exatamente assim que funciona a lógica do capital privado. O interesse que comanda é a busca do retorno financeiro dos investidores, em particular os estrangeiros que operam na Bolsa de Valores de Nova Iorque. E para esse povo, pouco importa o que, o como e onde a empresa esteja atuando. Eles querem lucro e nada mais conta. Se alguém pensou em projeto nacional, esqueça. A Vale exporta minério de ferro extraído das montanhas de Minas Gerais e ela mesma importa - para construir suas estradas de ferro - os trilhos produzidos pelo conglomerado em plantas industriais no exterior.

    Capital privado e lucro a qualquer preço


    A Vale não incorpora em suas ações nenhum tipo de compromisso com a sustentabilidade ambiental, social ou econômica. O que já era sabido e denunciado pelo mundo afora, agora passou a ser tragicamente comprovado pelos crimes de Mariana e Brumadinho. A partir da privatização, a lógica de acumulação de capital obedece ao princípio de obtenção do máximo potencial de lucro no menor intervalo de tempo possível. Assim, sob tais condições, os aspectos relativos a segurança na operação, a prudência nos processos, o respeito às populações locais, a preservação do meio ambiente e outros se enquadram naquilo que o governo do capitão chama genericamente de “marxismo cultural”. 

    Ora, não é mesmo verdade que boa parte das receitas da Vale advém da exportação de minério de ferro? Pois então, a tarefa do suposto “gestor eficiente” é aumentar o volume a ser extraído a qualquer preço. Sim, pois sobre a cotação da tonelada da commodity no mercado internacional ela não consegue atuar. Essa verdadeira sangria - literal e simbólica – a que a sociedade brasileira está sendo submetida é convertida em bônus e ganhos exorbitantes para os dirigentes da empresa, além dos dividendos bilionários religiosamente pagos aos investidores nacionais e estrangeiros. A velha e conhecida ampliação e reprodução das desigualdades de todos os tipos.

    Ora, sob tais circunstâncias, não seria o caso de nos indagarmos qual o ganho que a maioria da nossa população tem com a continuidade desse modelo altamente espoliador? A realidade objetiva é que reproduzimos um sistema baseado no pós-colonialismo, onde permanecemos especializados na exportação de riquezas naturais de baixíssimo valor agregado e importamos produtos manufaturados de alto valor agregado do resto do mundo. Ou seja, terminamos por reforçar um modelo que nos eterniza na condição de subalternos e dependentes. Exatamente o oposto do sonho de Getúlio e de qualquer projeto de desenvolvimento social e econômico.

    A Vale precisa ser pública!

    Esse tipo de atividade recolhe pouquíssimo tributo e compromete de forma severa nosso meio ambiente e nosso tecido social. No entanto, a Vale é uma das empresas que mais participa do financiamento de campanhas eleitorais pelo Brasil afora. Com seu imenso poder econômico, ela interfere nas eleições “colaborando” com chapas nos executivos federal, estaduais e municipais, bem como na votação de candidatos aos legislativos dos três níveis. Talvez essa seja uma característica essencial para compreendermos a complacência e a passividade da administração pública em promover uma regulação séria e punir esse tipo de atividade criminosa.

    A crise está escancarada. Esse é o momento para se debater e reverter o crime da privatização. O futuro da Vale em simbiose de respeito ao meio ambiente e à maioria da sociedade exige uma mudança efetiva em seu comando. A empresa precisa recuperar de forma urgente sua natureza pública, para evitar a continuidade desse tipo de prática criminosa. Já passou da hora da União retomar as rédeas de controle da empresa, evitando que a sanha avassaladora do lucro a qualquer custo continue a orientar a gestão do grupo.

    A Vale precisa voltar a ser uma organização pública e estatal. Uma empresa preocupada com o futuro do Brasil e não com a satisfação dos interesses mesquinhos dos investidores do capital especulativo. Basta!

    Quem é Juan Guiadó, o opositor venezuelano que se autonomeou presidente?


    https://www.facebook.com/brasildefato/videos/2142767952704234/?t=73

    domingo, 27 de janeiro de 2019

    O fantasma do Vietnã na Venezuela

    Por Paulo Moreira Leite, em seu blog: extraído do Blog do Miro

    Para quem imaginou que seria possível derrubar o chavismo através de um golpe parlamentar iniciado por Donald Trump e liderado por Juan Guaydó, um deputado de extrema-direita com 35 anos de idade e nada de notável na biografia até o início da semana, está claro que a América Latina foi envolvida numa situação grave e dramática, que está longe de ser um passeio.

    Neste domingo, cinco dias depois de Caracas amanhecer com protestos de grande porte, será possível assistir ao desfecho do primeiro lance de um confronto que o mundo acompanha numa tensão cada vez maior, desde que exóticas imagens do Mike Pence, vice-presidente dos EUA, surgiram na TV, para apoiar as mobilizações contra Maduro.

    "Hola, I'm Micke Pence", iniciava o vídeo, em inglês com legendas, um marco inesquecível na história das intervenções norte-americanas no Continente. "Maduro é um ditador sem qualquer direito legítimo ao poder. Nunca ganhou a presidência numa eleição livre e justa e tem mantido o poder prendendo qualquer um que ouse se opor a ele".

    Ao determinar a expulsão dos diplomatas norte-americanos com posto em Caracas, Maduro mobilizou uma parcela considerável da população na defesa da soberania do país e, acima de tudo, recuperou a iniciativa numa guerra de movimentos na qual estará em jogo o futuro de um dos mais influentes projetos da esquerda latino-americana depois da Cuba de Fidel Castro.

    Mesmo repetindo que considera Guaydó "presidente legítimo" do país, a diplomacia norte-americana não custou a suavizar a postura. Determinou que seus diplomatas "não essenciais" fizessem as malas para retornar aos EUA, divulgando também a recomendação de que cidadãos norte-americanos estabelecidos na Venezuela "considerem seriamente" a possibilidade de deixar o país.

    Quando se encerrar o prazo fixado, caberá a Maduro mover suas peças, num cálculo no qual será preciso combinar dois elementos. Se não pode ficar de braços cruzados, o que seria um gesto equivalente à rendição, também não pode exagerar num contra-ataque, que poderia servir de pretexto sob medida para Washington partir para ações mais duras, num horizonte de possibilidades -- sim, possibilidades -- que incluem versões variadas de uma intervenção militar, que não interessa ao povo venezuelano nem aos demais países da América Latina nem a população dos EUA.

    Armadas e bem equipadas, reestruturadas por Hugo Chávez depois do golpe de 2002, as Forças Armadas da Venezuela são o elemento decisivo da situação. Constituem hoje o principal fator de dissuasão contra uma intervenção estrangeira.

    Mais do que apoiar o governo, estão entrelaçadas nas raízes do Estado venezuelano, seja nos ministérios, seja em postos estratégicos nas estatais, a começar pela petroleira PDVSA, que zela pela a grande riqueza nacional. Não surpreende que tenham multiplicado manifestações de fidelidade ao chavismo. Em maio do ano passado, os comandantes militares se perfilaram diante das câmaras de TV para manifestar seu reconhecimento pela vitória de Maduro, contestada por adversários dentro e fora do país. Na quarta-feira passada, o ministro da Defesa Vladimir Padrino Lopes, um velho discípulo de Hugo Chávez, se referiu a Juan Guaydó como "um presidente imposto nas sombras de interesses escusos", dizendo ainda que foi "proclamado à margem da lei".

    O risco de encarar um confronto contra um adversário bem estruturado chega a provocar divisões importantes dentro da oposição, que consideram a auto-proclamação de Guaydó uma precipitação irresponsável. Derrotado por Maduro por diferença de 200 000 votos na eleição presidencial de 2013, o ex-governador de Miranda, Henrique Capriles, chegou a publicar um artigo, dez dias antes dos protestos da semana passada, para manifestar suas dúvidas sobre a operação que iria inventar o "presidente Guaydó".

    Em linguagem cifrada, mas fácil de ser compreendida pelos que já estavam a par das discussões internas da conspiração, Capriles lançou uma advertência contra quem pretende "arrancar do poder aqueles que o exercem de forma ilegítima sem contar com o apoio da Força Armada, por exemplo. Ou pelo menos sem gerar uma importante fratura interna dentro dessa estrutura que hoje agrupa aqueles que possuem o monopólio do poder de fogo."

    Com histórico oposto ao voluntarismo violento que marca o Vontade Popular de Guaidó, Capriles sugere no texto, sempre em linguagem cifrada, que os responsáveis pela investida contra Maduro "pedem que se assuma o governo sem ter o poder físico para fazê-lo". A mensagem faz sentido.

    Sem abrir ao menos uma cunha no interior das Forças Armadas, tanto a oposição como seus aliados de Washington terão uma imensa dificuldade para sustentar um conflito militar de envergadura.

    A possibilidade de um conflito convencional, semelhante à Guerra do Vietnã, atoleiro do qual os EUA se retiraram derrotados, após uma intervenção traumática e prolongada, parece impensável nos dias de hoje. As dificuldades são políticas e militares, num país que está se retirando da Síria, não pagou a conta do Iraque e Afeganistão e assiste a defecção das estrelas da linha dura republicana do Casa Branca de Trump.

    A hipótese de se montar uma força de paz para intervir no país, a mais considerada nos últimos dias, envolve dois inconvenientes. O primeiro é transformar a juventude de países vizinhos, que não tem nada a ver com o conflito interno venezuelano, em escudo humano para os interesses de Washington, solução que irá produzir cenas de repúdio e protesto depois que os primeiros cadáveres forem entregues às respectivas famílias. O grande inconveniente é de natureza militar, porém. As forças de paz são opção ideal para intervenções limitadas, com poucos riscos para as forças agressoras. Parecem recurso ideal para confrontos com movimentos armados pouco estruturados -- situação nada comparável a um confronto com o Exército venezuelano, consolidado, senhor de seu terreno, armas modernas, na posição legítima de quem defende o país contra o invasor estrangeiro.

    A verdade é que os últimos dias trouxeram boas e más notícias para Maduro. As manifestações de protesto reuniram um grande número de manifestantes que portava cartazes que diziam : "não quero bono, não quero CLAP. Quero que Nicolás se vá".

    Fazendo referências a programas sociais criados pelo chavismo, os cartazes funcionavam como um cartão de visitas dos manifestantes, numa visão de mundo que desconhece o sentido de palavras como fome, frio, doença. Um dos grandes pontos de de aglutinação do protesto, no Chacal, típico bairro nobre da capital venezuelana, é outro indício na mesma direção. Não é o único sinal, contudo.

    O 23 de janeiro mostrou a presença nítida de antigos eleitores do chavismo, hoje inconformados com a falta de emprego, as prateleiras vazias e a carência de produtos, descontentes com um governo que até agora não foi capaz de virar a situação e derrotar a sabotagem econômica.

    O ponto que preocupa é este descontentamento real. Em maio de 2018, Maduro levou 6,1 milhões de votos para casa. Venceu a eleição com mais de 67% dos votos válidos mas recolheu um sinal da dificuldade dos tempos. Cinco anos antes, ele obteve uma vitória apertada contra Capriles mas fez um cesto de votos maior, 7,5 milhões. Desta vez, a presença de uma parcela de eleitores desgarrados do chavismo nos protestos de quarta-feira foi um sinal claro de perigo em sua base de sustenção.

    No plano internacional, a vantagem inicial da conexão Trump-Guaidó permanece mas não é tão grande assim. A mudança no governo brasileiro, onde Jair Bolsonaro responde por um país que até há pouco era governado por Lula e Dilma, representa uma perda considerável, até porque não é um caso único. A maioria dos países de papel politicamente relevante no Continente se alinharam aos EUA no apoio ao golpe parlamentar, com a gloriosa exceção do México. A OEA também confirma sua atuação como braço auxiliar do Departamento de Estado do governo norte-americano, escancarada nos anos 60 com o bloqueio a Cuba de Fidel Castro. Ex-presidente que chegou a ser uma referencia regional, reforçada por uma atuação firme contra o golpe de 2002, Fernando Henrique Cardoso perdeu uma ótima chance de preservar a memória quando se uniu ao coro Guaidó-Trump para dizer Fora Maduro.

    Nesse ambiente, a Rússia e a China, aliados de Lula e Dilma nos BRICS, jogam um peso importante a favor de Maduro. Numa linguagem que favorece o governo venezuelano, Hua Chunying, porta voz do Ministério das Relações Exteriores da China, falou em "respeito a Constituição". Empregando palavras como "diálogo" e "consulta", recomendou que as partes evitem "conflitos violentos".

    Aliado profundo do chavismo, inclusive no plano militar, o telefonema de Vladimir Putin a Maduro produziu o esperado conforto em Caracas. Putin não só disse que a intervenção dos Estados Unidos quebra as regras do Direito Internacional. Também anunciou a intenção de reforçar novos projetos de cooperação internacional, perspectiva mais do que benvinda para um governo em risco de isolamento.

    Em Caracas, aliados de Maduro sonham com a repetição de uma cena ocorrida em novembro de 2018, quando quatro bombardeios russos -- dois eles com capacidade para transportas armas nucleares -- pousaram no aeroporto Simon Bolívar, em Caracas, num gesto escancarado de apoio ao aliado venezuelano. "Estamos nos preparando para defender a Venezuela até o último momento, caso seja necessário", disse na época o ministro Vladimir Pedrino. "Temos amigos que defendem relações amistosas e respeitosas".

    Numa demonstração de que já possuía sinais sobre o movimento que iria chegar a Assembléia Nacional no mês seguinte, o próprio Maduro se manifestou, denunciando uma tentativa "coordenada diretamente pela Casa Branca de perturbar a vida democrática na Venezuela e tentar dar um golpe de Estado contra o governo constitucional, democrático e livre do país".

    Mesmo que se conclua, cedo ou tarde, que a operação Guaidó-Trump só produzirá um vexame imperial, não é preciso esperar por uma retirada rápida da intervenção norte-americana, cujo resultado seria a desmoralização sem remédio de Donald Trump.

    Em 2020 o presidente dos Estados Unidos estará em plena disputa pela reeleição -- época ideal para aventuras externas, como demonstrou George W Bush, um morto-vivo que ganhou o segundo mandato graças a invasão do Afeganistão, logo após o ataque de 11 de setembro. O reconhecimento de Guaidó como presidente "legítimo" pelo governo norte-americano, abriu uma possibilidade de reforçar monetariamente a ajuda aos adversários de Maduro. Hoje a Venezuela possui bilhões de dólares bloqueados por ordem de Washington, medida que empobrece os venezuelanos e limita drasticamente toda tentativa de recuperar a economia. O receio do governo é que, num escandaloso ato de truculência financeira, Trump decida liberar parte dessa fortuna para alimentar os cofres golpistas, permitindo o financiamento de tropas mercenárias para agir no país.