Por Pedro Pomar
Nelson Jobim, Tasso Jereissati, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia. São
estes os nomes lembrados com insistência, nos círculos golpistas e na
mídia a eles associada, como possíveis candidatos a presidente da
República nas eleições indiretas que se pretende emplacar, tão logo
Michel Temer renuncie ou seja removido do cargo. A Folha de S.Paulo
apresentou, até mesmo, uma fórmula alternativa que é um governo já
montado: “Aliados testam hipótese de Tasso candidato, com Jobim na
Justiça” (e Meirelles na Fazenda). Já O Estado de S. Paulo sugeriu, na
mesma data, que não são bem esses os planos do ex-ministro da Defesa e
ex-presidente do Supremo Tribunal Federal: “Jobim procura FHC e Serra
para medir apoio em eventual eleição indireta”.
Pois bem: Tasso, Meirelles e Maia são golpistas de primeira hora.
Meirelles está queimadíssimo, “respira por aparelhos”, pois seu
ministério coleciona reveses. Ademais, como executivo do grupo JBS, está
no olho do furacão, tendo explicações complicadas a dar à Operação Lava
Jato. A seu favor só mesmo a medíocre cantilena midiática de que
“agrada o mercado” (o que, a essa altura, é mera suposição).
Maia e Tasso são a cara do golpe. Muito ligado a Temer, e genro do
multidelatado Moreira Franco, Maia seria a pura continuidade do governo
ilegítimo e corrupto do ex-vice-presidente. Tasso, por sua vez, é o
único cacique tucano que permaneceu imune à Lava Jato. Assumiu a
presidência do PSDB após a defenestração do seu colega Aécio Neves,
“comido na bandeja” pela delação da JBS. E só por isso o senador pelo
Ceará aparece nessa história. Sua eventual consagração como presidente
indireto seria a completa vitória do golpe dentro do golpe, recolocando o
poder político nas mãos do PSDB, sem intermediários como Temer.
Pois bem: mas e Nelson Jobim?
Jobim apoiou o golpe, mas ao que parece se manteve discreto durante o
processo de impeachment. E, nos últimos meses, procurou se cacifar como
opção à direita e à esquerda: criticou os procedimentos ilegais da Lava
Jato e chegou até a defender Lula (de quem foi ministro).
Concomitantemente, foi citado na mídia por seu “bom trânsito” tanto no
PSDB quanto no PT e por seu perfil “conciliador”. Exemplo de construção
dessa imagem mitológica de Jobim é o título de matéria publicada no
Estadão: “O nome sempre lembrado nas crises políticas”.
Também
na esquerda há quem veja com simpatia a “solução Jobim”. É o caso do
jornalista Luís Nassif (Jornal GGN). Embora venha realizando impactante
trabalho de análise e denúncia do golpe em curso (mediante a publicação
da interessantíssima série de artigos intitulada “Xadrez do golpe”),
Nassif parece não enxergar os vínculos orgânicos de Jobim seja com o
golpismo, seja com a classe dominante brasileira (termos que, no período
recente, indicam quase a mesma coisa).
Em artigo publicado em
setembro de 2016 (“Xadrez da volta das vivandeiras dos quartéis”), ao
comentar os planos de setores golpistas de envolver os militares na
repressão às manifestações contra o golpe, o jornalista confere a Jobim
nada menos do que o status de “gigante” da nacionalidade: “Na última
década, no Brasil houve enorme avanço na Política Nacional de Defesa
graças a três gigantes: José Genoíno, Nelson Jobim e Celso Amorim, três
grandes brasileiros de formação política distinta, mas que entenderam
perfeitamente o papel das Forças Armadas em uma nação moderna” (
https://goo.gl/GGuO8q).
Mais recentemente, Nassif passou a defender Jobim como um tertius, um
nome “que pudesse fazer a mediação” entre as diferentes forças políticas
numa “nova eleição”, como alternativa para a crise, ainda que reconheça
ser ele ligado aos tucanos: “Com todas as restrições que se possa ter
contra ele, a pessoa que mais encarna essa possibilidade é o Nelson
Jobim”.
Nassif pensa assim, mas sempre bateu de frente com os
golpistas. Há porém, entre os simpatizantes da alternativa Jobim, também
petistas que parecem ignorar que houve um golpe no país. O diretor da
Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e deputado federal Vicente
Cândido (PT-SP), por exemplo, assim se manifestou: “Seria um nome de
acordo nacional. É difícil o Lula falar mal dele”. O líder da bancada na
Câmara dos Deputados, Carlos Zaratini (PT-SP), ao ser questionado a
respeito, defendeu a realização de eleições diretas, mas apresentou uma
objeção secundária à virtual candidatura do ex-presidente do STF numa
eleição indireta: “Jobim, embora seja um perfil interessante, não
sabemos o que está pensando”.
Portanto, vamos a Nelson Jobim
É amigo de José Serra há trinta anos. Quando o senador tucano, hoje
investigado pelo STF, tomou posse no Itamaraty como ministro do governo
golpista, há pouco mais de um ano, Jobim homenageou o amigo por
intermédio de um artigo publicado no jornal Zero Hora, de Porto Alegre (
https://goo.gl/OFCdHE).
Nesse texto, o ex-ministro de Lula e Dilma diz o que pensa da política
externa brasileira. Elogia “o pragmatismo da agenda” proposta por Serra,
endossa o que chama de “abandono da instrumentalização ideológica do
Itamaraty” (que teria ocorrido nos governos petistas) e afirma: “O que
passa a importar são os interesses do Brasil e não as simpatias
ideológicas paralisantes”.
Ainda segundo Jobim: “O Itamaraty, nos
últimos tempos, porque lhe impuseram ser instrumento de proteção de
ideologias, tornou-se inexpressivo”. “Não haverá espaço para
proselitismos e retórica vazia. O Brasil tem pouco tempo. Serra saberá
utilizá-lo. Sou testemunha, nestes últimos 30 anos, do dinamismo,
competência e intransigente dedicação ao Brasil de José Serra”.
Tal apreciação depreciativa da política exterior “altiva e ativa” do
Brasil não surpreende quem acompanhou as revelações do Wiki Leaks sobre
nosso país, em 2010. “Documentos vazados pelo Wikileaks mostraram que a
diplomacia dos Estados Unidos enxergava em Jobim um contraponto ao
Itaramaty, considerado anti-norte-americano”, registrou o jornalista
João Peres (RBA, 4/8/2011:
https://goo.gl/1wIuPw).
“Para a Embaixada em Brasília, o ex-ministro era ‘talvez um dos mais
confiáveis líderes do Brasil’. O embaixador Clifford Sobel anotou, em
2009, que Jobim havia confirmado o boato de que o presidente da Bolívia,
Evo Morales, tinha um tumor no nariz — informação que causou uma saia
justa à chancelaria brasileira após ser desmentida pelo país vizinho”.
Também a propósito dos ataques de Jobim, então ministro da Defesa de
Lula, à política conduzida à época por Celso Amorim, ministro das
Relações Exteriores, outro jornalista, Leandro Fortes, anotou: “Jobim
reunia-se com representantes da embaixada norte-americana no Brasil para
falar mal da política externa conduzida pelo então colega de governo”.
Outro diplomata atacado por Jobim nessas ocasiões foi o então
secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães (
https://goo.gl/1WpPpj, 30/11/2010).
O comportamento descrito acima não combina com as narrativas de
conciliação, consenso, mediação. Mas há diversos outros episódios, na
sua hoje longa carreira política, que indicam que, ao contrário da
imagem que se pretende propalar, Jobim não hesitava em torpedear quem
estivesse à sua frente, sempre que necessário, e servir aos objetivos de
seus aliados. Ele sempre teve lado: o da classe dominante. Uma
cronologia de alguns fatos marcantes pode comprovar essa afirmação:
1988. Altera por conta própria, quando deputado federal constituinte, o
texto de dois artigos da Constituição, sem que passassem pela devida
votação. Em 2003, ele próprio revelou o episódio, que o respeitado
jornalista Jânio de Freitas classificou como “contrabando
constitucional” (Folha de S. Paulo, 7/10/2003:
https://goo.gl/kGjZIS).
1996. Ministro da Justiça de FHC, providencia a blindagem que eximirá o
governador do Pará, Almir Gabriel, da responsabilidade direta pelo
massacre de Eldorado dos Carajás, que resultou no assassinato, pela
Polícia Militar, de dezenove trabalhadores sem terra (Conjur, 20/6/2002:
https://goo.gl/2MeKmO).
1997. Acusa o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) de ser
“aparelho político utilizado por grupos” e declara não haver “nenhuma
justificativa, num estado de direito, [para] que alguém sustente suas
razões pela via da delinquência” (UOL, 20/2/1997:
https://goo.gl/GUImkY).
2002. Na condição de ministro do STF, atua de modo a impedir que o PMDB
opte por candidato próprio para disputar a eleição (Itamar Franco ou
Roberto Requião). Jobim cassou uma liminar concedida horas antes pelo
corregedor-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que suspendia a
convenção nacional do PMDB. Uma vez realizada, esta sacramentou a
aliança nacional com o PSDB e apoiou a candidatura presidencial de José
Serra (Conjur, 20/6/2002:
https://goo.gl/2MeKmO).
2009. Ministro da Defesa do governo Lula, alia-se aos comandantes das
Forças Armadas, seus subordinados, para atacar o Programa Nacional de
Direitos Humanos (PNDH-3). Seu principal alvo: o projeto de criação da
Comissão Nacional da Verdade (CNV), acusado de conter “trechos
revanchistas e provocativos”. Foi um verdadeiro motim: pelo menos Jobim e
o general Enzo Peri, comandante do Exército, ameaçaram demitir-se. O
presidente Lula cedeu à chantagem: o PNDH-3 e o projeto de lei da CNV
foram desfigurados. Na ocasião, Jobim defendeu a impunidade dos
torturadores: “Leis de anistia são definitivas. Quem foi anistiado, foi
anistiado. Não se pode ser desanistiado”. Em entrevista ao jornalista
Fernando Rodrigues, Jobim foi adiante: “Quando houve a Lei da Anistia
[em 1979], nós entendemos, e foi o que aconteceu, houve uma negociação
política para assegurar a transição do regime militar para o regime
civil, e que limpava-se [sic] os dois lados. Ou seja, a anistia atingia
aqueles que participaram da luta armada, os chamados subversivos da
época etc. e também os militares”. Mais: “Na proposta inicial [da
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República] a Comissão
da Verdade era unilateral. Ou seja: era uma busca da apuração da verdade
histórica em relação à conduta dos agentes do Estado. Eu disse: isso eu
não aceito” (
https://goo.gl/4Q64UP).
2016. Depois de atuar como advogado de empreiteiras acusadas pela
Operação Lava Jato, torna-se sócio, membro do conselho de administração e
responsável por relações institucionais e compliance do banco BTG
Pactual. Após a prisão do seu principal proprietário e executivo, André
Esteves, o banco precisava “retomar a confiança” (José Roberto Castro,
Nexo:
https://goo.gl/thIwYd).
Nada melhor do que contar com um ex-presidente do STF nos seus quadros.
Jobim receberá R$ 60 milhões, segundo Maurício Lima, de Veja (
https://goo.gl/rlypZF).
“Quem convenceu o conselho do BTG a acolher Nelson Jobim como novo
sócio do banco foi o próprio André Esteves. Jobim agora é banqueiro”,
definiu o insuspeito blogue de direita O Antagonista, de Diogo Mainardi.
De modo que...
A lista acima inclui apenas parte dos
episódios reveladores em que Jobim se envolveu, mas é mais do que
suficiente para demonstrar que sua “folha corrida” política não coincide
com a imagem que vem sendo difundida. Por outro lado, repassá-los deixa
evidentes os motivos pelos quais ele é um dos nomes preferidos do
golpismo para a sonhada eleição indireta: sempre foi homem de absoluta
confiança tanto de FHC como de Serra. Além disso, tornou-se interlocutor
dos generais ao alinhar-se não apenas com a “agenda positiva” dos
militares (reaparelhamento das Forças Armadas), como igualmente com suas
pautas mais retrógradas: a impunidade dos torturadores por meio da
defesa da Lei da Anistia, o bloqueio dos arquivos da repressão
ditatorial, a desqualificação dos movimentos sociais etc. Por fim, tem
boa relação pessoal com Lula.
Não há dúvida, portanto, de que é
um nome perfeito para o golpe dentro do golpe. Do ponto de vista da
oligarquia golpista, uma vez descartado o mequetrefe Temer nada seria
tão reconfortante como eleger o confiável Jobim presidente da República
em eleição indireta. Legitimidade zero, porém com total apoio da mídia e
do “mercado”. Uma verdadeira Ponte para o Futuro.