Renan Antunes de Oliveira - Agência Pública - Transcrito da Carta Maior
No final de outubro, eu estava internado num hospital em Porto
Alegre quando recebi um whatsApp: precisa-se de repórter para viajar
para o Mato Grosso do Sul (MS) a fim de investigar crimes no mundo
guarani – foram 138 mortes em 2014, segundo dados do Conselho
Indigenista Missionário (Cimi).
A mensagem citava os crimes mais
recentes: alguém furou a barriga do cacique Elpídio, de Potrero Guasu,
em setembro; jagunços mataram o guerreiro Simeão, em agosto, em
Marangatu; uma criança índia sumiu durante uma escaramuça com
fazendeiros, em junho, na área indígena Kurusu Amba – nesse caso, a
denúncia era do Ministério Público Federal (MPF).
Notem: era só índio tomando chumbo.
Dei uma busca no Google por “morte do índio Simeão”. Nada nos grandes portais nem nos jornalões – até aí normal.
Vapt-vupt
desconectei o soro, suspendi um exame da artéria hipogástrica e
reagendei o nefrologista para novembro: a viagem era urgente porque
nunca antes na história daqueles grotões foi tão quente o conflito entre
índios guaranis e fazendeiros brancos.
Aluguei um carro,
contratei a fotógrafa Cris Loff e toquei para as quebradas onde os
ataques ocorreram – reportagem assim tem um pouco daqueles seriados do
CSI, e seria bom a gente encontrar as provas na cena do crime.
Já
estive no MS várias vezes. Esperava rever os mesmos atores: fazendeiros
e seus pistoleiros na ofensiva, índios no modo de sobrevivência.
Desde
2013 os fazendeiros impedem na marra que a Funai demarque as áreas
indígenas, usando pistoleiros nos grotões, parlamentares no Congresso
Nacional e a conveniente lerdeza do Judiciário.
Os pistoleiros
são os que mais incomodam, mesmo sendo apenas a ponta do iceberg: eles
fazem o serviço sujo aqui e ali, botam os funcionários da Funai para
correr. Vivem protegidos nas fazendas dos mandantes, com a certeza da
impunidade.
No front político, os parlamentares da chamada
“bancada ruralista” conseguiram aprovar na Comissão Especial da Câmara
Federal a PEC 215, uma proposta de emenda à Constituição que, se
aprovada no plenário do Congresso, roubará dos índios direitos que já
estão no livrinho.
Da lentidão do Judiciário eis um exemplo
atual: a disputada área Marangatu, onde se deu o assassinato de Simeão,
foi entregue aos indígenas em 1999, quando ele tinha apenas 8 anos. Mas
os fazendeiros recorreram à Justiça e o caso subiu ao STF, de onde nunca
mais saiu – Simeão foi morto aos 24 em terra guarani sub judice…
A
rigor, os índios têm do seu lado apenas o Cimi. É verdade que existem
alguns burocratas bem-intencionados em repartições do governo Dilma, mas
estes estão quase imobilizados para não melindrar o governador Reinaldo
Azambuja (PSDB).
O impasse: na questão indígena, o governador
influencia parlamentares da bancada federal no Congresso, até mesmo
quando adversários. Dilma fica de mãos atadas porque não é boa política
afrontar os representantes do eleitorado local, ainda mais quando se
trata de uma causa tremendamente impopular – a defesa da minoria índia.
Se
você pensou na Funai como super-heroína em defesa dos guaranis, pensou
errado. Ela é só um órgão do Ministério da Justiça (MJ), logo passível
de influência política.
Para entender a big picture, eis uma
denúncia feita pelo procurador do MPF para assuntos indígenas no pedaço,
Ricardo Ardenghi. Em junho, ele pediu ao MJ apoio da Força Nacional de
Segurança (FNS) para proteger a comunidade Kurusu Amba, sob ataque de
fazendeiros e seus jagunços.
Era uma urgência urgentíssima.
A FNS não foi. Assim de simples.
O procurador requisitou a Polícia Federal, mas o delegado responsável pela área também não quis ir.
As duas forças não foram por uma decisão política: PF e FNS são órgãos do MJ.
O
procurador pediu proteção de agentes da Polícia Civil do MS – um baita
risco – e foi ele mesmo se interpor entre fazendeiros armados e índios
indefesos.
Foi tarde demais.
Ardenghi disse: “Quando
cheguei lá [na zona do conflito] havia alguns pontos de incêndio, onde
foi possível identificar utensílios de cozinha, cobertas, brinquedos e
alimentos destruídos pelo fogo. Expulsos [pelos fazendeiros e seus
jagunços], os indígenas se encontravam na estrada de acesso, a 2 km do
local do conflito”.
Na refrega, uma criança índia sumiu. Assim,
desapareceu no ar. Agora, imagine o auê se uma criança sumisse num
domingo no Parque do Ibirapuera…
E mais: índio já vive num
miserê total, mas os fazendeiros não tiveram dó. Queimaram roupas,
comida e até os brinquedos da tribo escorraçada.
O procurador
concluiu que “o Ministério da Justiça agiu com grave omissão,
desrespeitando os direitos constitucionais dos indígenas”.
Dia 2Pá
pum e ao anoitecer de um sábado chegamos a Paranhos, na fronteira com o
Paraguai. Nosso ponto de partida seria entrevistar a última vítima de
jagunços, o cacique Elpídio.
Paramos na birosca Petisco Lanches,
na avenida principal. Puxamos papo com o dono do lugar, descendente de
colonos alemães, com a perguntinha básica de como era viver em Paranhos,
cidade com três avenidas. Candidamente, ele nos disse que era ótimo e
que o único problema eram… os índios guaranis das redondezas.
Por
quê? “Porque eles bebem, brigam entre si, atrapalham a vida dos
brancos, roubam gado, matam galinhas. As fazendas hoje não valem mais
nada porque ninguém quer comprar terras invadidas por índios.”
O
dono da birosca despejou a história toda enquanto servia suco de
abacaxi e x-salada. Na certa, suspeitou da nossa profissão. Ele nos
apontou então a casa do ex-prefeito Dirceu Bettoni, do outro lado da
rua, que seria o homem que nos contaria todas as malvadezas dos índios –
certeza que ele já sabia que éramos jornalistas.
Descobrimos
depois que o dono da birosca citou os índios como único problema quando,
no dia anterior, a poucos metros da Petiscos, um grupo de homens matou
seis pessoas na porta da padaria: “Ah, isto foi coisa do PCC, vieram de
São Paulo para acertar uma conta com os traficantes locais”, disse o
birosqueiro. Hã-hã, cidadezinha sem problemas exceto índios…
Dia 3Na
manhã seguinte, fomos visitar o cacique Elpídio na fazenda Potrero
Guasu, nome dado àquele chão pelos guaranis e que por décadas fora sendo
chamado pelos brancos de fazenda Ouro Verde – índio costuma dizer que
“entra” no que era seu, enquanto os brancos dizem que o índio é
“invasor”.
O lugar já foi mapeado pela Funai e é considerado
terra indígena, daquela que os índios têm direito a habitar em caráter
permanente conforme a Constituição de 1988.
Entre o que a lei
diz e a realidade existem 60 mil guaranis esperando terras no MS.
Potrero é apenas um entre dezenas de pontos de conflito.
Um
índio de uma maloca na beira da estrada nos levou até o acampamento de
Elpídio. É um conjunto de barracos de madeira, palha e lona preta,
montado em 1998!
A família de Elpídio está há 17 anos confinada
no acampamento, cercada à distância por jagunços. Os pistoleiros
monitoram cada passo dos índios para evitar que ocupem novas pastagens e
façam churrasco com alguns bois.
Entenda-se: o acampamento é o QG da ocupação. Outras dezenas de barracos estão espalhadas pelos campos da fazenda.
Para
garantirem-se contra o ataque dos brancos, que de tempos em tempos, sem
aviso, despacham jagunços para ameaçá-los, os índios se comunicam com
um apito de bambu que produz um som parecido com o pio de codornas.
A família de Elpídio está há 17 anos confinada no acampamento, cercada à distância por jagunços.
Em
minutos, todas as famílias são avisadas de qualquer movimentação dos
brancos nas terras. Os índios então acionam os celulares e tentam chamar
a PF e/ou a FNS para defendê-los – não adianta chamar a Polícia Civil
ou a Militar do MS porque muitos dos pistoleiros fazem parte dessas
forças, como bico fora do expediente.
O QG dos índios é apenas
um teto de palha suspenso por estacas, mas funciona como salão nobre da
tribo. E lá estava o cacique Elpídio. Desdentado, só de bermudas,
chinelo de dedos, no meio do lixo, cercado por um bando de crianças, na
companhia de cães sarnentos e de um periquito que teimava em caminhar
entre a criançada, só voando quando era incomodado demais – não ia
longe, ficava pelo telhado.
Elpídio, 47 anos, nos apresentou a
mulher, Anuncia Morales, 44, e seus 11 filhos: Juda, Kaialina,
Franciele, Késia (apelidada Nataly), Josilene, Hendia, Gmel, Salomão,
Sanmir, Joni e Dênis.
Elpídio roda uma cuia de mate gelado, o
tereré paraguaio. Todos bebem. Ele sorri bastante, antecipando o momento
em que vai contar o que todos querem ouvir: como foi o ataque de
pistoleiros ocorrido em 19 de setembro.
Eu tirei do carro uma
melancia enorme, botei na mesa tosca e anunciei: “É para as crianças”.
Hendia cortou pedaços pequenos, com uma faca que me lembrou uma que
minha mãe usava para servir pudim. A criançada atacou.
O cacique
sorria muito para falar do assunto sério. Contou o que fizeram com ele e
sua turma: “Nós mandamos uns guerreiros ocupar o campo lá de cima” – e
aponta para longe. Eu fiz a pergunta obrigatória, qual o motivo de
ocupar o tal campo: “Somos 60 famílias esperando a terra há anos, não
dava mais para aguentar”.
Ao amanhecer do dia 19, Elpídio disse
que foi acordado com barulho de tiros no campo lá de cima e correu para
defender o grupo de famílias que lidera: “Quando cheguei, vi um bando de
pistoleiros da fazenda Ouro Verde dando tiros e derrubando nossas
malocas” – que tinham sido erguidas no dia anterior.
Elpídio
então sacou o celular e pediu socorro para a Funai, para a PF, para o
Cimi, tudo enquanto procurava sinal da operadora e se desviava dos
tiros. Ele deu azar: “Desta vez me acertaram na barriga”, conta,
exibindo as cicatrizes de entrada e saída da bala.
Um
destacamento da FNS que estava estacionado na sede da fazenda ouviu o
tiroteio, chegou ao local do conflito e resgatou Elpídio: “Me levaram
para o hospital”. De lá, ele chamou o MPF e relatou o ataque.
O
procurador Ricardo Ardenghi ordenou que Elpídio fosse levado a Dourados,
para um hospital maior, sob escolta federal: “Ele sabia que, se eu
fosse levado pela polícia local, seria morto no caminho”.
Aí, o
cacique disse que o seu “serviço de inteligência” – a criançada –
conseguiu descobrir a identidade dos jagunços do ataque: “Quem chefiou
os pistoleiros foi o capataz da fazenda Ouro Verde”.
Ele chama uma menina de uns 10 anos, com um celular na mão, e pede que ela mostre quem são os pistoleiros.
A
menina mostra um vídeo feito pelos atacantes e explica: “Eles saíram
correndo quando a FNS chegou e deixaram cair o celular, que nosso
pessoal recolheu”.
No vídeo, homens muito abusados se dizem
“cangaceiros”, exibem arcos e flechas tomados dos índios, mostram suas
armas e dizem que vão “ponhar” os troféus na internet.
Dênis, o
filho do cacique, aponta um homem alto, de óculos, como tendo estado na
liderança do ataque – ninguém sabia o nome dele, apenas que era o
capataz da Ouro Verde.
Pedi as imagens. A menina fez a
transferência por bluetooth do Samsung dela para meu Moto X2 –
finalmente aprendi, ali, na aldeia Potrero Guasu, a usar essa
modernidade.
Depois da criançada, pai, mãe, avós e agregados foram à melancia.
Elpídio
então chama os cartuchos, personagens da hora: “Tragam aqui”, brada
para alguém, e toda aldeia se movimenta. Logo aparecem cartuchos vazios,
usados no ataque, recolhidos pelos “peritos” indígenas… Eles jogam tudo
no meio do salão nobre.
O MPF levou alguns como evidências do ataque – o resto ficou para as crianças. O inquérito ainda está nas preliminares.
Ao
redor do cacique contando o drama, tudo o mais era festa. O pessoal
comendo melancia, brincadeiras da criançada. O zunzum era o sumiço da
pequena Nataly, de no máximo 2 anos – ela parecia ter sumido da vista de
todo mundo ao entrar num matagal no fundo da aldeia. A mãe grita “can
xá mai, xá mai”, ou coisa parecida – e a menininha reaparece.
As
crianças agora cercam o repórter e a fotógrafa. Limpam mãos de melancia
nas nossas roupas. Mexem nas mochilas. Querem entrar no carro.
O
cacique quer nos levar ao local do ataque. E vamos todos, no Ford K
alugado, eu, o cacique, o guia, a mulher dele, Nataly e um garoto, mais a
Cris.
Chegamos a um vale. O carro não pode prosseguir. E se
descortinam na nossa frente umas quebradas verdes belíssimas, com muitas
pastagens e bastante gado – é a Ouro Verde, em todo o seu esplendor de
latifúndio.
Penso: não admira que os índios queiram morrer por esta terra e os brancos matar por ela.
Lá,
chegamos ao sub QG da ocupação de setembro, agora em paz. Um velho e
outro bando de mulheres e crianças cuidam de tudo – isto é, de mais meia
dúzia de barracas de lona preta.
O velho é um rezador. Elpídio
pede que o homem faça uma cerimônia para nossas câmeras – e lá vamos,
mato adentro, morro acima, através de riachos.
No caminho, o rezador pega seu cocar e os paramentos de xamã. Ele nos leva a um tronco de árvore com água dentro, seu altar.
O
rezador pede a proteção dos espíritos. Pede paz. Pede que ninguém morra
na retomada das terras. Fecha com um terceiro canto prevendo um futuro
feliz para sua raça. Os mais jovens ficam imitando seus passos.
Um
dos jovens se aproxima do repórter – a regra é que só quem fala com
estranhos são os mais velhos. Esse jovem dá um recado que revela a
existência de um racha: “Nós queremos mais terra já, nada de esperar por
soluções no Judiciário”.
O cacique se dirige a ele em guarani, o
rapaz murcha as orelhas e some. Elpídio explica que as novas gerações
estão querendo resolver tudo pela força e que ele é mais matreiro:
“Tenho título eleitoral e votei na Dilma”, diz, embora se mostre
“arrependido, porque até agora ela não fez nada por nós”.
Terminadas
as rezas, aparece o pai de Elpídio, Nivaldo. Ele tem na memória o que
aconteceu décadas atrás, quando os índios deixaram a terra que agora
retomaram: “Os brancos nos prometeram que, se a gente se mudasse, nos
dariam muitas coisas, mas na verdade queriam era tomar o que era nosso”.
A criançada se dispersa, alguns param no caminho para um banho de igarapé. Está na hora da despedida.
No
caminho de volta, dei uma topada numa raiz que me arrancou um pedaço de
um dedo. Há males que vêm para o bem. Fui parar no hospital de
Paranhos, o mesmo onde o cacique recebeu os primeiros socorros no dia em
que levou seu tiro.
Lá, exibi para a enfermeira Marilu o vídeo
dos pistoleiros que os índios tinham me dado. A moça apontou o grandão
de óculos e não vacilou: “É o Júnior Augusto, capataz da Ouro Verde,
namorado da Elizabeth” – dona do armarinho na frente do hospital.
Agora,
faltava falar com Júnior Augusto e confrontá-lo com as imagens. Algo
assim como naquela história dos ratos que queriam colocar o sininho no
pescoço do gato. Se ele era jagunço, bom seria perguntar na saída, dando
tempo de sumir da cidade.
Dia 4O
ex-prefeito de Paranhos Dirceu Bettoni me procurou no hotel. Não queria
ser fotografado, mas queria me mostrar os proeminentes cidadãos brancos
de sua cidade molestados pelos índios guaranis.
Lembrei o nome
dele. Eu o conheci em 2011, na condição de prefeito – ele participou do
episódio da morte dos professores guaranis Genivaldo e Rolindo Verá. Na
ocasião, quando os índios retomaram a fazenda São Luiz, Bettoni cedeu
uma caminhonete da prefeitura para os jagunços despejarem os guaranis,
resultando nas duas mortes – portanto, eu falava com um contratador de
pistoleiros.
Bettoni aparenta ser um homem gentil e educado.
Disse que a culpa de todos os males do conflito entre fazendeiros e
índios é do governo federal porque nos idos de 1970 o Incra deu títulos
da terra para os fazendeiros, que os receberam em boa-fé, porque ali não
existiriam índios – e largou a frase mais usada pelos brancos
brasileiros: “Estes índios que estão aqui foram trazidos do Paraguai por
padres e por ONGs interessados em nossas terras”.
O político
nos leva à primeira vítima branca da retomada de terras por índios: dona
Virgilina Pereira Lopes, 92 anos. Ela e o marido, Safranor, viviam numa
fazenda do tamanho de 320 campos de futebol, onde, em 1998, enfrentaram
o primeiro movimento do levante índio (depois de anos de organização
subterrânea, foi naquele ano que os índios ocuparam dezenas de fazendas
em vários locais da região ao mesmo tempo, dando início à “era dos
conflitos”).
A senhora está muito bem para a idade. Vive sozinha
num casarão doado pela prefeitura, porque teria perdido suas terras
para os índios – note-se mais uma diferença: quando índio é despejado,
vai para a beira da estrada; branco ganha casa.
Dona Virgilina é
a porta-bandeira da causa dos latifundiários expropriados, testemunha
da “brutalidade” dos índios: “Eram 6h da manhã. Bateram na porta, meu
marido foi abrir e levou uma bordoada na cabeça. Nos botaram para correr
da nossa propriedade”, ela vai colorindo a história com gestos trêmulos
e voz chorosa.
O prefeito pergunta pelos prejuízos causados
pelos guaranis que ocuparam as terras dela e estão lá até hoje: “Perdi
tudo, até meus frangos de raça”. Hoje ela odeia os guaranis: “Com estes
bichos eu não me meto mais”.
Bettoni quer que o repórter conheça
outro fazendeiro vítima de guaranis, Rui Escobar. Da vizinha cidade de
Amambai. Liga e marca um encontro. Escobar quer o papo numa padaria em
Dourados, a quatro horas de viagem dali – por alguma razão, age como
clandestino; só avisará o local por telefone.
Tarde toda do dia 4 perdida viajando para Dourados.
Lá,
nossa equipe aumenta com a chegada da jornalista francesa Hélène
Seingier. Ela quer viajar conosco pelos grotões para conhecer os
guaranis.
Dia 5Manhã cedinho saímos,
levando algumas melancias no carro, para visitar a família do índio
Simeão, morto em 29 de agosto na fazenda Marangatu, cidade de Antônio
João.
Passamos por barreiras do Exército, da FNS e do
Departamento de Operações de Fronteira (DOF), órgão do governo do estado
equipado e mantido pelo federal), todos na área supostamente para
evitar conflitos.
Exército e FNS chegaram em julho, depois que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal forçou a barra.
O
DOF é local. Na prática, seu pessoal atua protegendo as fazendas.
Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Justiça, “o órgão
assume muitas tarefas [na questão indígena] que seriam das autoridades
federais porque o Estado é muito grande e elas nem sempre podem
atendê-lo”.
A assessoria informa que o DOF é integrado por
policiais civis e militares, tornando-se “amado pelos cidadãos de bem e
odiado pelos bandidos” – neste caso, por todos os relatos, os índios
temem o DOF, assim como o pessoal da Rocinha teme o Bope.
A
Marangatu é um conjunto de cinco grandes latifúndios, do tamanho de 10
mil campos de futebol. Os índios estão lá desde o governo Lula, em área
já reconhecida como deles pela Funai. Os brancos resistem a entregar
tudo, amparados em liminares na Justiça e jagunços nas porteiras.
Os
índios já foram despejados pelo STF, reintegrados, despachados para a
beira das estradas, reintegrados, retomados, reocupados, redespejados e,
claro, alguns assassinados. Mas continuam firmes.
Os índios temem o DOF, assim como o pessoal da Rocinha teme o Bope.
O
conflito da hora foi a tomada de mais duas sedes de fazendas, em 22 de
agosto. Igualzinho ao que aconteceu em Potrero: os índios de Marangatu
cansaram de esperar pela Justiça e invadiram as casas dos fazendeiros. A
proximidade das datas das invasões sugere que os índios, embora
isolados, agiram de forma coordenada.
Dessa vez os índios foram
atrás da mãe de todas as fazendas – aquela do casal Roseli Ruiz e Pio
Queiroz, ela presidente do sindicato dos fazendeiros de Antônio João.
O casal lidera as ações de expulsão dos guaranis do pedaço – e do planeta –; então atacá-la foi um golpe audacioso.
No
caminho entre as barreiras policiais e a sede da fazenda Roseli/Pio
está o QG dos índios, um casarão que já foi galpão dos peões. Sua joia
mais preciosa é um motor d’água elétrico que os índios cuidam como se
fosse sagrado. De tempos em tempos um deles o aciona e todos ficam
maravilhados de ver água jorrando das torneiras e mangueiras. Há um
guerreiro encarregado só de vigiar o motor.
O líder local é
Loretito, um sujeito que parece ter sido desenhado por Antoine de
Saint-Exupéry para seu livro clássico O pequeno príncipe.
O
homem veste um blazer azul muito curto, com um recorte originalíssimo,
que ele usa com jeans, tênis, boné de beisebol e óculos amarrados num
cordão.
Ele nos recebe com desconfiança, até que mencionamos o
nome do antropólogo Rubem Thomaz de Almeida, amigo da turma. Eles se
tornam sorridentes. Índio é assim, sem meio-termo: ou cara fechada, ou
sorrisos o tempo todo. Eles nos abraçam e começam a contar seu drama,
direto ao ponto: “Foram os pistoleiros da Roseli que nos atacaram”, diz
Loretito. Ele desfia um rosário de queixas contra a fazendeira.
Loretito nos leva ao local do conflito do dia 29 de agosto.
E
lá, na beira de um rio, numa cova rasa, está enterrado o corpo de
Simeão Vilhalva, 24 anos, “meu irmão”, apresenta Loretito. Ele e mais
alguns parentes montam guarda por alguns minutos, em silêncio, enquanto
um vira-lata permanece deitado na sepultura.
Uma nota importante:
A
morte de Simeão fez desabar na região uma força-tarefa do governo
federal, com o ministro da Justiça José Eduardo Cardoso à frente.
Uma
comissão de 23 pessoas se reuniu com o governador Azambuja. O objetivo
era obter dos índios a promessa de não invadir mais terras e dos
fazendeiros o compromisso de não recorrer à Justiça pelas áreas já
homologadas pela Funai.
Todas as pessoas presentes eram brancas e talvez por isto o papo gorou.
Enquanto
estávamos na beira do túmulo de Simeão, se podiam ver, do outro lado do
rio, tropas da FNS e do DOF estacionadas na fazenda disputada.
Deixei
Loretito falando sozinho e fui lá ouvir a versão dos fazendeiros.
Primeiro problema, um oficial da FNS, acordado da soneca pela tropa,
ficou furioso… com a fotógrafa Cris. Encheu ela de desaforos, culpando-a
por tudo que acontece de errado naquele pedaço do mundo. Queria que ela
apagasse as fotos. Ele nos expulsou da fazenda em nome do governo
federal e da paz da galáxia. Lição: melhor nunca acordar um oficial
dorminhoco.
Demos uma enorme volta e fomos à casa de Roseli e
Pio, por outro caminho, sem FNS. Encontramos na sede da fazenda uma
escolta armada paga pelo dinheiro público: havia um carro do DOF na
porta. E vários policiais espalhados pela propriedade.
Liguei
para a assessoria de comunicação do DOF para entender o quadro. A
explicação para a presença deles foi: “Nosso pessoal não pode dormir em
barracas, então busca pontos de apoio nas fazendas”. E isso ajuda na
remuneração, já que eles ganham diárias. Ah, tá explicado.
Na
fazenda, a turma uniformizada e armada do DOF rolava pelo sofás da
casa-grande, vendo TV, puxando ronco. Gente tão íntima do lar que abria a
geladeira. Óbvio que os DOFs estavam lá para impedir a revanche dos
índios naquele jogo de gato e rato: invasão em 22 de agosto, despejo
forçado em 29, situação tensa desde então – nada como um destacamento
policial à disposição.
Aparece o fazendeiro Pio Queiroz, 57
anos, também, como Bettoni, um sujeito de aparência afável e educado.
Estava ressabiado com jornalistas. Não queria dar entrevista. Apresenta
os policiais como visitantes “que precisam de um ponto de apoio em sua
jornada diária”, hospedagem e alimentação por cortesia da casa.
Ele
ligou para a mulher, a furiosa Roseli – índios e brancos tremem ao
ouvir o nome dela. A resposta foi: “Estou chegando, segura eles”, eles
sendo nós.
Juntos, Pio e Roseli proibiram fotos e anotações. Menos mau que nos serviram café e nos deixaram ir ao banheiro.
A
casa da fazenda é toda de madeira de lei e tijolos coloniais, digna de
uma reportagem da Casa Cláudia. Há um armário na sala, feito de um
tronco, que parece uma enorme canoa, na vertical, com portas feitas da
própria casca da árvore. O dono calcula que vale uns R$ 20 mil.
O
casal, eu já sabia, pertence ao núcleo duro dos fazendeiros. Roseli
bravateia que só vai sair das terras morta, ou, e aí vem a sutileza, se
for indenizada pelo governo federal.
Vamos aos preços? Qualquer um ficaria rico comprando a terra pelo que ela vale e revendendo pelo preço que os fazendeiros pedem.
Roseli
chega com uma câmara de vídeo ligada e vai enquadrando todo mundo. Ela
se apresenta como três vezes doutora, “sou advogada, antropóloga e
arqueóloga”. Disse que tem tantos títulos porque “me formei nos três
para poder bater de frente com a turma que defende os índios” – Roseli
parece ter consagrado sua vida a expulsar os guaranis da região.
Pio
sabe que queremos saber como foi o despejo dos índios dia 29: “A gente
soube que os índios estavam aqui e cerca de 100 vizinhos se reuniram
espontaneamente para nos ajudar” – é a turba que se vê pilotando dezenas
de caminhonetões off-road Hilux, Amarok e Mitsubishi, no vídeo gravado
pelas índias.
Indigena registra chegada dos fazendeiros from Agência Pública on Vimeo.
“Um
índio estava aqui onde eu estou quando alguém já veio dando porrada,
quebrou o nariz dele e o botou para correr”, conta Pio, entusiasmado.
Perguntei quem foi que deu a paulada: “Não sei, não vi, só vi o índio
correndo, todo ensanguentado”.
No vídeo gravado pelas índias,
não aparece o momento exato do conflito na casa porque os brancos usaram
uma tática diversionista. Eles queimaram uma moto dos índios que estava
do lado de fora, fazendo com que todos ficassem impressionados com as
chamas. Foi quando uma parte daquele grupo de vizinhos atacou pelos
fundos e espancou os índios que estavam dentro – com a paulada no nariz
que Pio contou.
Pio insiste que os vizinhos se juntaram
espontaneamente na cidade e vieram para a fazenda em caravana por
solidariedade. “Espontâneos” e “solidários” significa que nem ele nem a
mulher querem assumir responsabilidade.
“Eu fiz e faria de novo
qualquer violência, porque meu pai comprou estas terras em 1948, eu
trabalhei nelas toda vida. Não é justo que uns índios vagabundos venham
aqui tomá-las”, disse o fazendeiro. Roseli continuava ao lado do marido,
de câmera na mão, destilando ódio.
Eu, Cris e Hélène sentimos que não havia clima para perguntar nada.
A
furiosa dona Roseli se descreveu como uma benfeitora da causa indígena.
Ela disse que antes dos conflitos, lá pelos anos 1980, vestiu sua filha
Luana (hoje advogada e militante da causa latifundiária) de coelhinho e
de Papai Noel para presentear adivinhe quem? Eles mesmos, os guaranis.
“Eles
nunca tinham comido chocolate até o dia em eu dei pra eles”, conta,
registrando o quanto os índios lhe foram ingratos. Pio reforça: “No
tempo do meu pai, havia um índio aqui e outro acolá; quando passavam na
fazenda, a gente dava comida pra eles”.
Pio também se acha um benfeitor: “Um índio velho teve catarata e eu dei carona para ele ir ao médico na cidade”, lembra.
Arriscamos
perguntar se eles, fazendeiros, andavam armados. Roseli: “Comprei uma
espingarda calibre 12 e uma pistola. Eu e meu marido estamos aprendendo a
nos defender, porque daqui só vamos sair mortos. Os índios não vão nos
expulsar” – a mulher dava suas repostas aos gritos, ensandecida.
Roseli
disse: “Nossa organização tem que ser feita aqui mesmo, por nós,
fazendeiros, porque a CNA [Confederação Nacional da Agricultura] da
Kátia Abreu [hoje ministra] não nos representa. Ela é muito próxima da
Dilma”.
O que mais impressiona na mulher é seu ódio manifestado
sem pudor: “Eu aprendi que aqui tudo na propriedade é meu domicílio.
Quem entrar aqui sem autorização eu posso matar. Se eles invadirem de
novo, vamos matar ou morrer”.
E o casal falou da morte do índio
Simeão no dia descrito pelo deputado como o da batalha campal: “Ele foi
morto a mil metros da minha casa, com um tiro de calibre 22, arma usada
em pequenas distâncias, logo foi coisa dos índios mesmo, para criar um
mártir”, afirma Roseli.
Se eles invadirem de novo, vamos matar ou morrer
Perguntei
para Roseli se o grupo de vizinhos que ajudou na retomada da fazenda
estava armado e se foi algum deles que atirou em Simeão:“Não vi nada”.
O
marido explica: “Temos 1300 hectares [quase 1.300 campos de futebol]. É
um grande patrimônio, mas sem dinheiro. Não tenho passaporte, nunca
viajei. Vai ver minha conta bancária, estou no vermelho. Preciso
defender isto com unhas e dentes”.
Pio dá um discurso mais
político: “Os padres que ajudam os índios são comunistas. As ONGs
representam organizações internacionais que querem se beneficiar do
subsolo. Os índios são os primeiros que eles vão querer acabar”, diz,
como se estivesse mesmo preocupado com o destino guarani.
Roseli
acha que encontrou uma tribuna e despeja: “Nossa fazenda é pequena
comparada com as do Lula e do Lulinha. Eles têm fazendas por aqui. Os
maiores fazendeiros são eles. E a Friboi não é ligada a eles, eles são a
Friboi”.
Pio sai da casinha e avisa: “Inglaterra, Dinamarca e Holanda estão interessados nesse conflito para se beneficiar”.
Peço
para ele a solução para o impasse com os guaranis: “Quero que fiquem
com a terra, mas quero indenização total” – este é um tema difícil de
resolver porque, quando uma terra é declarada indígena, a União não pode
pagar pelo que já tem dono.
Estamos da saída. Pio e Roseli
nunca admitiram que contrataram jagunços para defender sua terra em
outras épocas. No caso do último incidente, parece verdade, porque desde
então eles dispõem de policiamento privado pelo DOF e daquela turba de
vizinhos prestativos.
A versão do deputado ruralistaHá
um atestado diferente para os mesmos fatos nos anais da Câmara Federal,
feito pelo deputado Luis Henrique Mandetta (DEM-MS), que estava na
fazenda na hora da desocupação violenta.
Ele contou ao plenário
da casa que, ao contrário do que disse o casal de fazendeiros, ele e
dezenas de fazendeiros foram convocados por Roseli para expulsar os
índios, durante uma reunião do sindicato rural, naquele sábado: “O
pessoal todo se reuniu e depois foi para a fazenda, eu também fui”,
ressalvando: “No meu caso, fui com intenção de ser mediador”.
Mandetta
disse aos colegas deputados que os índios ocupantes eram cerca de 25,
sendo 15 deles mulheres com crianças de colo, ressaltando que do lado
dos fazendeiros havia também mulheres e crianças – estas não aparecem
nos vídeos.
O deputado disse que, quando os fazendeiros chegaram
à fazenda de Roseli, houve “uma batalha campal”, vencida pelos brancos,
que expulsaram os índios da fazenda, quando então o relato de Mandetta
passa a ser idêntico ao do fazendeiro Pio.
Outro detalhe chama
atenção no pronunciamento do deputado Mandetta na Câmara. É quando ele
fala da morte do índio Simeão: “Os índios começaram a se movimentar.
Depois de 15 minutos vieram pelo fundo, trazendo um corpo. Se houvesse
alguém ferido, eu faria o primeiro atendimento. Não me foi permitido ir.
Eu fiquei a 25 ou 30 metros. Tive a impressão de que não havia
flacidez, mas não examinei. Não posso afirmar nada sobre o tempo de
morte, mas tive a impressão de que havia rigidez”.
Com este
depoimento, o único de um médico, Mandetta quis dizer que o índio já
estaria morto bem antes de ser trazido à cena da “batalha campal” – o
que inocentaria os brancos recém-chegados ao cenário.
Na despedida, puxo Pio para um lado e pergunto: “Por que você é acusado de assassinar índios?”.
Ele
reage com frieza: “No dia da invasão, cheguei com um grupo de 70
camionetas. Devia ter uns 70-80 índios [bem mais dos que os 25 vistos
pelo deputado], inclusive mulheres e crianças. Meus vizinhos eram
voluntários. Eles se organizaram para ajudar. Eu pedi para não matarem
ninguém. Os índios começaram a correr. Eu protegi uma mulher com uma
criança, bem ali na minha porta, dei um abraço nos dois para protegê-los
da correria. Falei para não matarem ninguém”.
Pio mostra uma
porta coberta com um colchão: “Os índios quebraram esta porta”,
denuncia, como se eles tivessem feito uma ação equivalente à queda da
Bastilha. “Não podemos aceitar isto.”
Pergunto de novo por que
ele é acusado de assassinato. E aí ele se defende usando o argumento
preparado pelo deputado Mandetta: “De repente, escutamos um tiro
estranho do lado direito. Ficamos surpresos porque nesse lado não tinha
ninguém dos nossos. Os índios correram, passaram o rio e voltaram todos
embolados, fazendo como uma parede. Carregavam um corpo. Eu me dei conta
que era um defunto mesmo, eu vi uma mão “rígida” assim [ele imita]. O
deputado falou pra nós que aquele cara estava morto no mínimo havia oito
ou 10 horas”.
Eu, a fotógrafa e a jornalista francesa
percebemos que não havia mais espaço para conversar com o casal. Um
jagunço estava sempre por perto, além da desagradável companhia dos
policiais do DOF, rondando como cães de guarda.
Deixamos o ambiente sufocante da fazenda e voamos para reencontrar Loretito, seguidos à distância por um peão do casal.
Já
em segurança na aldeia, perguntei para o pequeno cacique se ele não
temia Roseli, o marido e a jagunçada deles: “Eles também têm medo de
nós. O que nos diferencia é que temos direito às terras”.
Loretito
pede um minuto de silêncio pelo irmão Simeão. Ele parece ter a
compreensão da tragédia. Para ele, Simeão não é só mais um índio morto:
“Era um lutador, sabia que a terra era nossa e foi na frente. Por isto
acabou baleado na cabeça” – fala, mas não derruba nenhuma lágrima.
O
cacique dá um discurso sobre a audácia, a prudência e a firmeza
necessárias à luta. Relembra histórias contadas por velhos guaranis.
Descreve a terra com gestos amplos: “Vamos lutar por ela até a vitória”.
Aí ele se cala, deixando falar o silêncio do campo.
Era final de tarde.
Ficamos mais alguns minutos entre aqueles índios audaciosos contemplando o sol poente na fazenda Marangatu.
Dia 6Acordamos cedo, já em Dourados, esperando a hora de entrevistar Rui Escobar.
Rui
quem? Um homem que é engenheiro agrônomo, 55, rico, sarado, bem vestido
à caipira universitário, de fala articulada (como o ex-prefeito Bettoni
e como Pio), com um plus: réu aguardando julgamento pelo assassinato
de… dois guaranis.
Segundo o MPF, Rui liderou o ataque usando
pistoleiros na tentativa de desocupar sua fazenda São Luiz, em 2011,
naquele incidente da morte dos professores guaranis.
Para azar
de Rui, as vítimas eram celebridades no circuito internacional de defesa
da causa indígena. A morte deles repercutiu em Londres, Paris, Nova
York e até na Antuérpia, forçando o governo a despachar uma força-tarefa
para saber quem fez aquela barbaridade – um índio foi encontrado
baleado num igarapé e o corpo do outro nunca mais foi visto.
Rui
nos recebe numa confeitaria muito chique de Dourados, num salão
privativo, com ar condicionado. Não revela seu endereço nem aceita
fotos.
O fazendeiro exibe títulos de terra do século retrasado
para provar que seu pai, hoje com 84 anos, herdou tudo de seu avô e blá,
blablá. Para tirar fotos dos documentos, acaba aceitando ser
fotografado junto.
Ele lidera um movimento nas sombras chamado
“força rural”. É uma ligação por canais secretos entre os fazendeiros do
sul (onde está sua fazenda invadida, São Luiz) e os sindicalizados de
Roseli (do norte, onde está a fazenda invadida dela).
Dourados-ParanhosVeja
no mapa o que está em jogo: Dourados/Antônio João/Paranhos, um
triângulo de terras férteis onde cada palmo é disputado por índios na
batalha desigual contra fazendeiros e seu tripé de apoio composto por
políticos, advogados e pistoleiros.
“Precisamos ganhar o coração
e a mente da sociedade”, diz Rui. “Ser fazendeiro passou a ser uma
ofensa. Ninguém mais quer ser associado com a atividade. Temos que
mostrar que ajudamos este país, que botamos comida na mesa do povo, que
nossa atividade é legal e que não somos matadores de índios.”
Ele deu a deixa e eu puxei o assunto: “Mas você é acusado de assassinato e irá a julgamento”.
Rui
aperta os olhos, dá uma espalmada nas mãos, se recompõe: “Meu amigo, eu
não matei ninguém”, num tom de voz e com um olhar de arrepiar.
Mensagem
entregue, ele relaxa. Como prova de inocência, oferece sua conversão
religiosa: “Em 21 de outubro de 2000, portanto 11 anos antes de ser
acusado, eu recebi um chamado de Deus, enquanto assistia uma palestra do
pastor Magno Malta. Desde então mudei minha vida. Não poderia fazer mal
a outro ser humano”.
Ele retoma seu discurso dizendo que a
fazenda São Luiz está há oito gerações em sua família. Em seguida, muda
de gente para números e faz contas: “No ano passado, colhi 80 mil sacos
de soja, o que rendeu 5,6 milhões. 70 mil sacas de milho, 1,4 milhões. E
vendi mil cabeças de gado, quase 1 milhão. Portanto minha receita foi
de 8 milhões. E quer saber? Não tenho mais nada, nem como sustentar
minha família”.
Ele se queixa da vida cara. Reclama que precisa
sustentar filhos em universidades e viagens ao exterior. Conta que teve
que tirar o pai da fazenda e instalar o velho numa casa na cidade. E vai
desfiando seu rosário – sem mencionar a maior de todas as derrotas:
aqueles índios de que ele é acusado de ter matado o venceram, mesmo
mortos.
Horas depois de sair da entrevista, eu fui até a
Ypoi/São Luiz para reencontrar a tribo que conheci em 2011. Encontrei os
caciques Emiliano e Jerônimo, muito chefes, no galpão que fora dos
Escobar.
No portão de entrada da sede da fazenda onde oito
gerações de brancos mandaram, os índios escreveram uma palavrinha com
cal branco: “Ypoi”. O nome índio da fazenda.
É deles. Está
reconhecida pela Funai. Uma liminar mantém os índios na fazenda. Os
Escobar já não podem voltar lá e, talvez, nem matar mais ninguém –
claro, a confusão ainda está na Justiça Federal, sem prazo.
Na
padaria, Rui Evaldo Escobar reclama do governo e da Justiça, cerra os
dentes e sussurra daquele jeito ameaçador: “Sou contra matar. Nunca fiz,
nunca faria. Jamais! Só Deus é soberano”.
É esta a acusação do
MPF contra ele: na tarde do dia do assassinato dos guaranis, ele teria
saído de megafone pelas ruas de Paranhos na camionete da prefeitura de
Bettoni convidando jagunços a subir na carroceria. Ele garantiu o
pagamento de uma diária, churrasco e cachaça para quem o ajudasse a
despejar os guaranis – naqueles cafundós, muita gente mataria apenas
pela cachaça.
Por todos os relatos, ele chefiou pessoalmente o
ataque. No inquérito policial, os peritos apresentaram cartuchos
recolhidos no local do crime disparados por uma pistola Luger, a
preferida da Gestapo, arma que mais tarde foi apreendida na propriedade
dos Escobar.
Pergunto se ele entende do negócio de contratar
jagunços através de empresas de segurança. “Isto sempre existiu, custa
200, 250 por dia. É um peão como outro qualquer, fácil de arrumar por
aí”, ressalvando: “Eu sou contra”.
No meio da tarde, eu e as
meninas Cris e Hélène saímos da padaria chique e voltamos para a
miserável Paranhos, para localizar os jagunços da fazenda Ouro
Verde/Potrero Guasu. Queremos entrevistar o Júnior Augusto do vídeo
recolhido pelos índios.
Dia 7Começamos pela namorada, Elisabeth. Ela diz que Júnior Augusto está na fazenda e faz um mapa.
Saímos
do Brasil para usar uma estrada do lado do Paraguai e chegamos na Ouro
Verde. No portão, dois guardas armados da empresa terceirizada MG.
Não
nos deixam entrar na fazenda nem para falar com o capataz. A ordem
deles: “É imobilizar, do jeito que for preciso, quem tentar fazê-lo sem
autorização”.
Se vale para jornalistas, com certeza vale mais ainda para índios.
A
Ouro Verde que eles defendem tem 12 mil campos de futebol e milhares de
cabeças de gado nelore. Seu dono mora bem longe daqueles cafundós, na
avenida Paulista, em São Paulo, capital. Há dezenas de guardas no
perímetro dele. Cada um custa R$ 300 por dia – aí eu lembro que Rui
disse que em propriedades super-rentáveis vale a pena pagar por
jagunçada, quer dizer, segurança privada.
A mais célebre das
empresas de segurança foi a Gaspem, com sede em Dourados, cujos
guardinhas tiveram a audácia de fazer desaparecer o cacique Nísio em
2011.
A PF investigou o caso com a dificuldade que têm seus
delegados quando é coisa que acontece tão longe de seus gabinetes – se
usassem a décima parte dos recursos que dedicam à Lava Jato já teriam
prendido centenas de pistoleiros e patrões.
Descobriram-se os
assassinos do cacique Nísio porque a namorada de um dos jagunços sabia
de tudo. Quando brigou com ele, foi à polícia e fez uma delação sem
prêmio, só para se vingar do ex. Caiu a casa e a Gaspem foi fechada pelo
MPF.
Um dos condenados pela Justiça em primeiro grau foi o dono
da Gaspem, Aureliano Arce, policial militar aposentado do MS,
confirmando o que já se sabia: muitos da tropa fazem bico de jagunços,
ainda mais quando um colega é o empresário.
A francesa foi falar
com ele em Dourados. Ele é réu de assassinato, mas responde ao processo
em liberdade. E continua no ramo, desafiando a condenação: “A Gaspem
está suspensa, mas eu tenho outra empresa, a Miragem. Eu acho os
contratos, tenho meus clientes”.
Os fazendeiros pagavam entre R$ 50 mil e R$ 60 mil para retirar índios nas primeiras 24 horas de uma invasão
Em
seu depoimento, numa casa nos fundos da sede da antiga Gaspem, Arce
lembra o auge da empresa: “Comecei com segurança de prédios e outros
lugares. Mas em 2011 o negócio com fazendas estava bombando. Fazia quase
metade da minha receita. Eu era o empresário da vez, cheguei a faturar
R$ 3,5 milhões por ano. Os fazendeiros pagavam entre R$ 50 mil e R$ 60
mil para retirar índios nas primeiras 24 horas de uma invasão” (antes
que eles conseguissem liminares na Justiça).
Arce conta que o
trabalho é fácil porque os índios têm apenas facas, foices, flechas e
espingardas artesanais. A polícia e as empresas privadas têm armas:
“Nossa arma mais comum é o revólver calibre 38. E sempre podemos contar
com os fazendeiros da região para ajudar”.
Ele disse que, quando
algum juiz manda a polícia para as porteiras de invasões, muitas vezes
quem faz o serviço são os pistoleiros: “Tudo mundo sabe que se invade
vai morrer gente. Sempre tem um morrendo. É aí que nós entramos, porque
os oficiais de carreira têm medo de sujar seus nomes com as mortes”.
No
caso do desaparecimento do Nísio, dez funcionários da Gaspem (inclusive
Arce) e oito fazendeiros foram presos, tudo por causa daquela namorada
furiosa. Ele passou um ano e oito meses na cadeia; os fazendeiros,
apenas dois meses. O caso está parado na Justiça.
Dia 8Voltamos
a Potrero Guasu para entrevistar uma personagem ignorada na primeira
passagem. Anuncia Morales, a mulher de Elpídio. Ela estava sempre
sorridente na aldeia, mas nunca falava.
A índia conta sua
história, guerreira, capaz de criar 11 filhos, cercada por jagunços,
vendo outros índios morrerem e o marido baleado. Alimentando a criançada
com cesta básica, tratando os indiozinhos com ervas do mato.
Anuncia
chora durante a entrevista. Não de mágoa, mas de fúria – e se revela,
como todos ali sabem, a líder por trás do líder da aldeia. É o nome a
ser temido pelos brancos, porque, se o cacique algum dia sonhar em
desistir, ela assumirá o cacicado.
Depois, vamos atrás de Júnior
Augusto, estacionando em Paranhos. No meio da tarde, bolamos deixar uma
mensagem intrigante no bazar da namorada, mostrando as imagens do vídeo
para desentocar o rapaz.
Funcionou.
Júnior liga.
Explica que não pode sair da fazenda, mas queria saber onde foi que
conseguimos as imagens dele e de amigos se exibindo com as armas dos
índios.
Aviso que vou “ponhar” na internet, como ele sugeriu.
Mando as imagens, ele se vê entre jagunços.
Aí telefona e diz: “É uma montagem, alguém fez uma montagem”.
Eu
digo que não há nenhuma chance de os índios terem conseguido montar
imagens dele, e que aquelas imagens já foram entregues à PF e ao MPF.
Júnior Augusto fica furioso e desliga o telefone.
Momentos depois, ele liga e está mais calmo:
“Senhor, eu não matei ninguém”.
Eu respondi: “Júnior, eu não disse que você matou, só quero saber o que você estava fazendo naquelas imagens”.
Ele parecia surdo: “Pode perguntar para a Elisabeth, eu sou da igreja dela, sou um homem muito religioso”, patatipatatá.
Dia 9A Hélène voa de Dourados para o Rio.
Cris assume o volante e voltamos para casa.
Viajei meio que dormindo no banco reclinado. Sonhei. Guaranis e cavalos povoaram meu sonho.
Nele,
as imagens de guaranis me apareciam borradas, mas eu podia ver
claramente cavalos correndo livres pelos cerros da aldeia Marangatu, até
que um solavanco da estrada me despertou.
Fim.