segunda-feira, 29 de junho de 2015

Pensamentos esparsos : ensaio



Clemente Ganz Lúcio[1]

Madrugada. Em duas horas, o sol se apresentará para encaminhar a noite, colocando-a para descansar, em um vigoroso gentil espetáculo de larga beleza. Ainda no escuro da noite, a natureza silencia à espera da troca. Quando finalmente o dia rende a noite, o silêncio explode em um vibrante espetáculo de luz e som.

Hoje, como ontem, ainda dominado pela noite, meu dia começa cedo. Já no carro que me leva ao destino longínquo, a notícia me faz pensar durante as horas da viagem. Um jovem faz a seguinte declaração ao repórter: “Não aceito traição!”

Simples, não? Claro, pois as pessoas não gostam de ser enganadas nem gostam de alguém que não cumpre acordos ou compromissos, ou de quem entrega por traição.

Na sequência, o repórter completa a notícia: o rapaz, de 19 anos, desconfiado de que a namorada, de 16, o traía, convidou a jovem para sua casa e, com uma faca, matou-a. Na sequência, a esquartejou.

Lembrei-me daquele pensamento que diz: por trás de problemas complexos, há soluções simples, infelizmente erradas ou equivocadas. A racionalidade desse jovem é de uma estúpida irracionalidade ou a irracionalidade desse jovem representa a ignorância da nossa estúpida racionalidade?

O silêncio da madrugada me oprimia e eu queria expirar até que nada mais restasse além da energia original.

Quilômetros deixam paisagens. Racionalidades! Lembrei-me do jogador do meu time que, depois da quinta derrota seguida e, com a tatuagem “Deus é fiel” inscrita no braço, não ofereceu ao seu deus aquela derrota. Sim, porque há alguns meses, esse mesmo jogador dizia ao repórter que deus era responsável pela vitória do time. Chama-me a atenção que os goleadores remetem ao céu o feito, ajoelhando-se, elevando as mãos ao alto ou mostrando a tatuagem. Interessante que o goleiro vazado não tenha naquele instante o mesmo gesto. Pelo jeito, deus tem um lado, o lado do vitorioso!

O que diria a jovem esquartejada? O que pensa o goleiro vazado?

Ainda fresca na memória, a conversa que tive no dia anterior fez-se presente. Disse-me uma amiga, depois de uma palestra que eu fizera: “Na medida em que você fala, meu peito vai contraindo e vou ficando agoniada, porque é tudo verdade, é tudo muito duro e é assim mesmo. Mas nós temos que ter saída! Você é muito pessimista!”

Na subida da serra, Saramago me faz companhia, dizendo-me na memória: “A doença mortal do homem como homem é o egoísmo”. Pessimista? Ele respondia: “Meu olhar é pessimista, mas esse é o olhar de quem quer mudar o mundo” (2001). Em 2005, ele avançou: “Ultimamente, gosto de dizer outra coisa: eu não sou pessimista, o mundo é que é péssimo”.

Imagino-me em 1880, no balneário de Ramsgate, Inglaterra, em agosto. Conta Mary Gabriel que Karl Marx e família ali estavam e, “de forma surpreendente, Marx convidou John Swinton, um jornalista reformista liberal de Nova York para visitá-lo... Swinton diria que ficara aguardando a tarde inteira o momento de fazer uma pergunta a Marx sobre o que o jornalista chamou de “a lei definitiva do ser”. Por fim, surgiu uma oportunidade e ele perguntou: “E qual é essa lei?” Marx olhou para o mar agitado e a multidão na praia e respondeu: “A luta!”

Chego ao meu destino, diferente.


[1] Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Eric Nepomuceno: A verdadeira origem de tudo

Eric Nepomuceno no Carta Maior

  
O Brasil – ou ao menos parte substancial da sociedade – anda cada vez mais maravilhado com os passos céleres da Justiça. No afã moralizador e punitivo tão ao gosto de uma classe média ignorante, desinformada pelos meios de informação e deformada pelos chamados formadores de opinião, vale tudo. Esse movimento não é de agora, há antecedentes recentes.

Bom exemplo disso foi o processo levado a cabo durante meses, muito mais dedicado aos holofotes da transmissão ao vivo que à busca da Justiça. Naquela ocasião, além de um julgamento feito ao gosto do freguês, muito bem conduzido por um cidadão – o juiz Joaquim Barbosa – que padecia evidentes sinais dos sérios efeitos de uma enfermidade grave e terminal, a hipertrofia do ego, aconteceu um tribunal de exceção.

No fim, o país sorriu satisfeito: finalmente foi feita Justiça. Foi?

Agora, a situação se repete, em tom mais amplo e mais contundente. No lugar do histriônico ministro condutor da Suprema Corte, o que temos é um jovem juiz de primeira instância, devidamente acompanhado e amparado por um coro de jovens promotores e procuradores da mesma província. Os métodos – digamos – bem pouco ortodoxos são evidentes: prender figurões e mantê-los presos até que acedam ao instrumento da delação. Uma forma sutil e delicada de tortura: ou delata, ou fica preso. Qualquer pretexto é válido: muito mais do que uma justiça justa, o que importa é dar claras mostras ao país de uma justiça exemplarizante. O importante é dar o exemplo. E, desta forma, obter o aplauso morno de uma sociedade anestesiada.

Não há, é verdade, nenhuma razão para não acreditar no que diz um delator ao afirmar que fez, sim, doações de campanha e a partidos políticos para poder assegurar contratos bilionários. As doações foram feitas obedecendo a todas as exigências legais. Aqui e acolá, coisas da vida, algumas escorregadelas rumo ao caixa dois. Mas, na ampla maioria dois casos, obedeceu-se à lei.

Só que centenas de dúvidas pairam no ar. Por exemplo: só o maldito PT e seus malditos aliados foram beneficiados por esse tipo de manobra? Na oposição, será que só o furibundo senador Aloisio Nunes Ferreira e o obscuro deputado Júlio Delgado cometeram o mesmo pecadilho? Todos os demais souberam preservar seu cuidadosamente construído perfil bonachão de vestais à serviço da moral e da decência?

É compreensível que, por deter a presidência da República, o PT (e seus aliados) tenham controle praticamente total sobre estatais. Portanto, doar à sua campanha e aos partidos convém a quem quiser preservar seus negócios. Como a oposição, a começar pelo PSDB, não exerce controle algum sobre, por exemplo, a Petrobras, é óbvio que não participa da lambança insistentemente apontada como ‘o maior esquema de corrupção da história brasileira’.

Repetidas à exaustão, afirmações como essa se consolidam em mentes e corações. E enquanto isso, ninguém, nenhum meio de incomunicação, nenhum deformador de opinião pública atenta para uma evidência: todos os partidos, sem uma única exceção, se beneficiam do mesmo esquema agora imputado exclusivamente aos amaldiçoados.

O PSDB, por exemplo, não tem influência alguma na Petrobras mas governa o estado mais rico e poderoso do país, e até o ano passado governava Minas Gerais. Será que nenhuma grande obra foi realizada nesse período? Será que as grandes empreiteiras só foram vítimas dessa chantagem na esfera federal? Em estados e municípios, alguns riquíssimos, todos os contratos são exemplos angelicais de perfeição moral?

Outra coisa: será que ninguém vai mencionar a verdadeira origem desse panorama conspurcado em todos – todos – os níveis da administração pública brasileira, de Câmaras de Vereadores ao Congresso Nacional, passando por prefeituras, governos estaduais e a própria Presidência da República? Será que ninguém pretende colocar na mesa de discussão o verdadeiro alcance dos investimentos feitos pelas empresas de todos os ramos, disfarçados de doações eleitorais e políticas?

Ninguém é ingênuo, ninguém é inocente nesse minueto alucinado: empresas investem em candidaturas pensando no próprio futuro. Partidos políticos aceitam essa dinheirama sabendo que a conta terá de ser paga mais adiante. A cada ‘doação’ corresponde um contrato. Não existisse a figura esdrúxula da ‘doação empresarial’, e o cenário seria outro, bem outro.

Ao mesmo tempo, se não fosse a sanha moralizante de uma justiça provinciana que não tem limites, aliada e insuflada por agentes que vão dos ressentidos da derrota nas urnas aos responsáveis por vazamentos irresponsáveis e especialmente dirigidos, a Justiça não estaria sendo vexada a cada dia.

Ao atuar tendo como objetivo exclusivo o de satisfazer a sede de uma opinião pública claramente manipulada, todos e cada um dos passos dados pela justiça e pela polícia federal que obviamente, indiscutivelmente, age de maneira parcial, o que está sendo pintado é um quadro feio. Bem feio. E que poderá se transformar num monstrengo horroroso. E então, será tarde demais.  








Internet e privatização




Por MAURO SANTAYANNA

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As multinacionais que receberam todo tipo de benefícios na privatização, cobram muito mais caro do cidadão brasileiro do que de seus próprios compatriotas

O Procon-SP multou as quatro maiores operadoras de telefonia do país em R$ 22,6 milhões por cortar a conexão de usuários. Por decisão da Justiça, Claro, Oi, TIM e Vivo estavam proibidas de bloquear o acesso à internet após o término do pacote de dados em São Paulo. A liminar, concedida no final do mês passado ao PROCON, vale para todos os clientes do estado que contrataram, até o dia 11 de maio, pacotes de internet com redução de velocidade. Desde a obtenção da liminar, o PROCON recebeu mais de 20 mil reclamações de quebra de contrato.


A Oi foi multada em R$ 8 milhões, a TIM em R$ 6,6 milhões, a Claro em R$ 4,5 milhões e a Vivo em R$ 3,5 milhões. De acordo com o PROCON, as multas foram estipuladas com base nos problemas localizdos nos contratos e nas vantagens que as operadoras tiveram com os cortes.

A multa, de pouco mais de menos de 30 milhões de reais, é irrisória, e equivale ao faturamento dessas operadoras em alguns minutos.

A regulamentação da Anatel, aprovada no criminoso esquartejamento e privatização da Telebras no Governo PSDB/FHC, que só falta ridicularizar o usuário, de tanto que protege as operadoras, permite que as empresas façam a alteração que quiserem nos contratos desde que os clientes sejam informados com pelo menos 30 dias de antecedência.

No entendimento do Procon-SP e de alguns juízes, as regras da Anatel não podem, no entanto, ultrapassar o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe qualquer mudança unilateral de contrato.

Quem critica o valor de um telefone no Brasil antes da privatização se esquece que ele vinha com um pacote de ações, que transformava automaticamente o detentor da linha em sócio da Telebras na bolsa, ações que foram “tungadas” de seus proprietários no processo de privatização, em mais um roubo que está sendo contestado até hoje na justiça.

Ela abre, no entanto, a possibilidade de que a ação se repita em outros estados, pelos PROCONS locais, chamando a atenção para a inutilidade gritante da Anatel, que, das multas de 5,8 bilhões aplicadas entre 2008 e 2010 sobre as operadoras, só conseguiu receber, efetivamente, até agora, cerca de 4% desse valor, ou 250 milhões de reais.

Enquanto isso, pesquisa recente da União Geral de Telecomunicações, do final de maio, aponta que a internet é mais cara no Brasil do que nos países mais ricos. Segundo a UIT, enquanto o custo médio de um plano de banda larga pós-pago é de 16,30 dólares, em média, na Europa e nos EUA, no Brasil o preço fica em 29,51, ou quase duas vezes mais, em dólares.

Isso quer dizer que o brasileiro, que ganha muito menos que o usuário estrangeiro, paga o dobro. E que as multinacionais que receberam todo tipo de benefícios na privatização, cobram muito mais caro do cidadão brasileiro do que de seus próprios compatriotas, em seus países de origem, para onde enviam os lucros que são obtidos aqui."

FONTE: escrito por MAURO SANTAYANNA e publicado no portal "Brasil 247"  (http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/186310/Internet-e-privatização.htm).

Crise grega indica que o Brasil deve priorizar seu mercado interno

http://cut.org.br/noticias/crise-grega-indica-ao-brasil-priorizar-mercado-interno-3fe8/

Delivery ao poder do atraso

Juliano Giassi Goularti
Doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da UNICAMP

            O título deste artigo é uma referência a suas obras difundidas no meio acadêmico: “Brasil delivery” da economista Leda Paulani e do cientista social José de Souza Martins “O poder do atraso”. O primeiro trabalho retrata as contradições dos primeiros meses do governo Lula e sustenta a tese que o Brasil atual foi entregue ao capital internacional transformando-se numa plataforma de valorização financeira e o segundo traz uma interpretação sociológica do clientelismo e da estrutura de poder oligárquica (rural) numa aliança entre capital e a terra que corrompe os homens públicos e impede a construção de uma nação. Em ambos os trabalhos, a elite nativa patrimonialista associada menor e vagabunda à nova dinâmica da acumulação capitalista, em seu estágio financeirizados, demonstra-se incapaz de construir um projeto de nação soberana.
Dentro de uma associação menor e vagabunda, torna-se evidente que a ideologia dominante da classe dominante que governa as instituições é senão exógena e infiel a seu povo. Tampouco e tão permanente o patriarca bonachão que perpassa pelo Nordeste (açúcar), desce a Minas Gerais (ouro), transita pelo Norte (borracha) e concentra-se em São Paulo (café) renegou sua missão histórica. Poderíamos dizer que G. Vargas bem que tentou despertar o espírito animalesco do nacionalismo, porém “as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais ...  Não querem que o povo seja independente”. A questão, portanto, é que a dominação política patrimonial do Brasil Colonial ao Brasil República está envolvida num extenso laço de relação clientelista do tipo “Estado Servil” que não faz distinção entre público e privado. O que prevalece são as relações de clientelismo político numa extensa rede de favores. Todavia, o que temos no Brasil é uma República inacabada.
            Quando o século XX começou, a oligarquia agrária ainda estava em ascensão. Trinta anos depois, com a Revolução de 1930 pareceria que iria ocorrer uma inversão da estrutura de poder do senhor rural para o industrial. A industrialização tenderia a sacramentar a figura do senhor bonachão pondo um fim no estatuto colonial. Particularmente, como renegar quatro séculos de acumulação primitiva permanente e dominação rural? Toda a estrutura da nossa sociedade colonial teve sua formação fora dos meios urbanos. Como também, no seu conjunto, toda nossa produção sustentada pela grande propriedade, pela monocultura e pelo trabalho escravo estava destinada ao proveito do comércio europeu. Desta forma, sob estes dois pontos, qualquer tentativa de implantação da cultura e do sentimento nacional em extenso território frente a cultura europeia e os comportamentos eurocentrista do patriarca significaria romper com a tradição herdada. Não somente penso, com acredito, que G. Vargas imprimiu forças para romper, em parte, com essa herança. Porém, como demonstra sua carta testamento, “Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida”.
            Do ponto de vista da formação econômica do Brasil, que perpassa pela acumulação mercantil para a Metrópole ao longo dos séculos XVI ao XVIII, seguido da acumulação primitiva ao Centro nos séculos XIX até fins do século XX e pela atual acumulação financeira no século XXI, a “rapina” internacional e a ideologia eurocentrista de nossa elite patrimonialista estabeleceu uma relação de submissão política, dependência econômica e imitação de estilo de vida. A modernização e o desenvolvimento pela via nacional ensaiada por G. Vargas esbarraram no agrarismo rustico, no estatuto colonial, no plano internacional e no pacto de dominação interna das elites patrimoniais. Assim a modernização foi conservadora, a revolução não foi burguesa, as forças populares foram aniquiladas, o capitalismo nacional foi associado ao grande capital internacional de modo que a Ordem e Progresso estampado na nossa bandeira significassem a dominação sobre a terra, sobre a força de trabalho, sobre os recursos públicos e sobre a acumulação. Dessa perspectiva, a nova elite (industrial) criada no governo Vargas não se ergueram contra a estrutura da sociedade colonial, se associaram, combinando o arcaico e o moderno.
            Ao longo dos séculos, penso que dentro do triângulo da tutela colonial, da tutela da ave de rapina e da tutela do pacto de dominação das elites é condição sine qua non para a situação de desequilíbrio (em seu amplo sentido) da formação da sociedade nacional. Isso nos leva a refletir que a história do Brasil contemporâneo também é uma história da espera do progresso. Por isso o status quo da Ordem patrimonialista e do Progresso conservador diante de uma elite entreguista que não pensa com sua própria cabeça e um Estado patrimonialista que está estruturado em relações políticas estritamente atrasadas (como o clientelismo) conscientemente estar delivery ao poder do atraso é uma certa forma de manter as relações de dominação e de poder. Nesse esquema em que o Estado está dominado pelo poder do atraso, assistimos a grilagem de terras públicas, a usurpação indevida dos recursos públicos, a institucionalização corrupta da dívida pública, o desmatamento da Amazônia Legal e o achincalhamento de qualquer iniciativa popular de caráter mais progressista.
            No meu modo de ver, a situação atual requer uma reflexão sociopolítica e socioeconômica de modo a buscar interpretações sobre o porquê do poder do atraso. As relações promiscuas da elite política com a sociedade e a pacificidade da sociedade com a promiscuidade é um ponto que requer mais atenção. A parcimônia social em relação as posturas arcaicas do Congresso Nacional é outra questão a ser discutida com maior atenção. Ora, o jeitinho brasileiro é nada mais nada menos que uma forma corrupta. Por isso penso que a explicação de nossa sociedade mal formada e de nossa República inacabada perpassa pelos traços dominantes da matriz raízes de nossa cultura e por nossa herança rural estruturada na estabilidade do sistema de dominação patrimonial.

domingo, 28 de junho de 2015

Tempo político de Dilma está se esgotando

Por Luis Nassif, no Jornal GGN. Transcrito do Blog do Miro.

O cenário político que se tem atualmente é o seguinte:

1- Estrangulamento gradativo de todas as ações de governo, ainda que à custa do comprometimento da economia. MPF (Ministério Público Federal) e Lava Jato se empenham em desmontar a cadeia produtiva de petróleo e gás. O TCU (Tribunal de Contas da União) mira suas armas nas hidrelétricas da Amazônia. O Congresso fuzila o ajuste fiscal. O torniquete continuará apertando enquanto o governo não recuperar legitimidade.

2- Polícia Federal e MPF impondo um cerco severo a todas as atividades do PT e de seus candidatos e o TCU ameaçando rejeitar as contas de Dilma. Esse cerco continuará aumentando.

3- Ampliação da recessão e do desemprego, agravados pela política monetária do Banco Central. Não há sinais de arrefecimento no horizonte. Vai piorar muito, antes de melhorar.

4- Incapacidade da presidente de articular um conjunto mínimo de propostas que se assemelhe a um programa de governo, de recriar algum sonho na opinião pública.

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No momento, o quadro é de dispersão ampla do conjunto de forças que, de alguma maneira, apoiaria Dilma.

Em entrevista ao Washington Post, Dilma endossou as ações da PF. Na planície, Lula começa a preparar estratégias de imagem que o descolem do governo Dilma e do PT. E o PT trata de reforçar seus princípios, distanciando-se do governo Dilma.

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Paradoxalmente, há um amplo espectro de forças disponível na sociedade, à procura de uma alternativa contra a frente heterogênea, confluência de ódio, preconceito e uma gana tão ampla de destruir empresas que alguém, no meu Blog, taxou a esse movimento de ofensiva do país improdutivo contra o país que produz.

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Em que pese a crise e a desesperança, há uma enorme energia pronta para vir à tona, quando se resolver o nó político. O país acumulou um enorme acervo de conceitos, organizações, empresas, estruturas.

Hoje em dia, há grupos organizados e conceitos claros sobre políticas industrial, de inovação, há uma experiência acumulada no mercado de capitais, nas parcerias público-privadas, nos programas de gestão, na organização de modelos de atendimentos às pequenas e micro empresas. As políticas sociais estão no estado da arte, tanto no setor público quanto nas organizações privadas, e a nova economia e nova sociedade estão formando uma nova geração de empreendedores e militantes digitais com um perfil totalmente distinto da geração de seus pais.

Nas universidades, acumula-se um conhecimento amplo sobre uma extensa variedade de temas de desenvolvimento, da geografia das médias cidades ao modelo urbano das metrópoles.

Tudo isso confere à crise atual sua verdadeira dimensão: é uma crise política.

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No Planalto se alimenta a esperança de que, passado o ajuste fiscal, possa avançar a agenda positiva, provavelmente sob a batuta do Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa.

Mas há um problema de “timing”.

Se a presidente não antecipar ações concretas de aproximação com os diversos segmentos sociais, econômicos, acadêmicos para começar a desenhar um plano de governo minimamente factível, não vai chegar até lá.

Seu tempo político encurtou drasticamente. Ou mostra agora alguma capacidade de iniciativa e começa a desenhar a fundo seu segundo governo agora, ou não chegará ao final do ano.

Jatos que mancham

Jânio de Freitas - Folha de São Paulo

 
Como inquérito “sob segredo de Justiça”, a Operação Lava Jato lembra melhor uma agência de propaganda. Ou, em tempos da pedante expressão “crise hídrica”, traz a memória saudosa de uma adutora sem seca.

Em princípio, os vazamentos seriam uma transgressão favorável à opinião pública ansiosa por um sistema policial/judicial sem as impunidades tradicionais. Mas, com o jorro contínuo dos tais vazamentos, nos desvãos do sensacionalismo não cessam os indícios que fazem a “nova Justiça” — a dos juízes e procuradores/promotores da nova geração — um perigo equivalente à velha Justiça acusada de discriminação social e inoperância judicial.

É preciso estar muito entregue ao sentimento de vingança para não perceber um certo sadismo na Lava Jato. O exemplo mais perceptível e menos importante: as prisões nas sextas-feiras, para um fim de semana apenas de expectativa penosa do preso ainda sem culpa comprovada. Depois, a distribuição de insinuações e informações a partir de mera menção por um dos inescrupulosos delatores, do tipo “Fulano recebeu dinheiro da Odebrecht”. Era dinheiro lícito ou provou-se ser ilícito? É certo que o recebedor sabia da origem, no caso de ilícita?

A hipocrisia domina. São milhares os políticos que receberam doações de empreiteiras e bancos desde que, por conveniência dos candidatos e artimanha dos doadores, esse dinheiro pôde se mover, nas eleições, sob o nome de empresas. Nos últimos 60 anos, todos os presidentes tiveram relações próximas com empreiteiros. Alguns destes foram comensais da residência presidencial em diferentes mandatos. Os mesmos e outros viajaram para participar, convidados, de homenagens arranjadas no exterior para presidente brasileiro. Banqueiros e empreiteiros doaram para os institutos de ex-presidentes. Houve mesmo jantares de arrecadação no Alvorada e pagos pelos cofres públicos. Ninguém na Lava Jato sabe disso?

Mas a imprensa é que faz o sensacionalismo. É. Com o vazamento deformado e o incentivo deformante vindos da Lava Jato.

A partir de Juscelino, e incluídos todos os generais-presidentes, só de Itamar Franco e Jânio Quadros nunca se soube que tivessem relações próximas com empreiteiros e banqueiros. A íntima amizade de José Sarney foi mal e muito comentada, sem que ficasse evidenciada, porém, mais do que a relação pessoal. Benefícios recebidos, sob a forma de trabalhos feitos pela Andrade Gutierrez, foram para outros.

Ocorre mesmo, com os vazamentos deformantes, o deslocamento da suspeita. Não importa, no caso, o sentido com que o presidente da Odebrecht usou a palavra “destruir”, referindo-se a um e-mail, em anotação lida e divulgada pela Lava Jato. O episódio foi descrito como um bilhete que Marcelo Odebrecht escreveu com instruções para o seu advogado, e cuja entrega “pediu a um policial” que, no entanto, ao ver a palavra “destruir”, levou o bilhete ao grupo da Lava Jato.

Muito inteligível. Até que alguém, talvez meio distraído, ao contar o episódio acrescentasse que Marcelo, quando entregou o bilhete e fez o pedido ao policial, já estava fora da cela e a caminho de encontrar seu defensor.

Então por que pediria ao policial que entregasse o bilhete a quem ele mesmo ia encontrar logo?

As partes da historinha não convivem bem. Não só entre si. Também com a vedação à interferência na comunicação entre um acusado e seu defensor, considerada cerceamento do pleno direito de defesa assegurado pela Constituição.

Já objeto de providências da OAB, a apreensão de material dos advogados de uma empreiteira, em suas salas na empresa, foi uma transgressão à inviolabilidade legal da advocacia. Com esta explicação da Lava Jato: só os documentos referentes ao tema da Lava Jato seriam recolhidos, mas, dada a dificuldade de selecioná-los na própria empresa, entre 25 mil documentos, foram apreendidos todos para coleta dos desejados e posterior devolução dos demais.

Pior que uma, duas violações: a apreensão de documentos invioláveis, porque seus detentores não são suspeitos de ilicitude, e o exame violador de todos para identificar os desejados. Até documentos secretos de natureza militar, referentes a trabalhos e negócios da Odebrecht na área, podem estar vulneráveis.

Exemplos assim se sucedem. Em descompasso com uma banalidade: condenar alguém em nome da legalidade e da ética pede, no mínimo, permanentes legalidade e ética. Na “nova Justiça” como reclamado da “velha Justiça”.