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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Tarso: mídia deforma sentido da vitória do Syriza
Marco Weissheimer, no site Carta Maior
“A vitória do Syriza na Grécia não representa a vitória de uma extrema-esquerda que defende a ruptura com a União Europeia, como vem repetindo um setor dominante da mídia, na Europa e no Brasil, mas sim a vitória de uma força política de esquerda que retoma propostas que podem ser inscritas na agenda original da social democracia europeia. Como essa social democracia foi toda para o centro, o Syriza é apresentado como radical”. A avaliação é do ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, que está em Sevilha (Espanha), onde participou como painelista de um seminário sobre a recuperação da memória nas ditaduras.
Tarso Genro aponta uma série de simplificações e deformações que vêm sendo reproduzidas na imprensa a propósito do significado do resultado das eleições na Grécia. “O Syriza não quer que a Grécia saia da União Europeia e da zona do euro. O que está propondo é a reestruturação do pagamento da dívida para dar uma folga ao tesouro grego e possibilitar a retomada dos investimentos em infraestrutura no país. Não está propondo o calote da dívida, mas sim uma renegociação”. A proposta defendida pelo novo primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, acrescenta Tarso, não representa tampouco uma ruptura com o estado democrático de direito, mas sim um projeto de reconstrução do Estado, de reincorporação de servidores públicos demitidos e de recuperação de serviços desmantelados.
A proposta do Syriza em relação à dívida, diz Tarso, é muito parecida com a que defendemos no Rio Grande do Sul, em cima de três pontos: desvalorização da dívida, aumento dos investimentos e novos financiamentos para modernizar a economia do Estado.
A Grécia tem hoje a situação econômica mais dramática da Europa, com uma dívida que equivale a 170% de seu Produto Interno Bruto (PIB). A dívida do Rio Grande do Sul, compara Tarso Genro, representa hoje 20% do PIB gaúcho. Vários países intermediários da Europa, assinala ainda o ex-governador do RS, já estão fazendo propostas similares às do Syriza, querendo a renegociação da dívida para retomar o caminho do crescimento. E não só países intermediários. François Hollande, primeiro ministro da França, já manifestou simpatia pelas ideias de Tsipras e o convidou para conversar.
Do ponto de vista político, avalia Tarso Genro, a proposta mais importante que está sendo levantada por Alexis Tsipras é o pedido de uma indenização, junto a Alemanha, pelos crimes de guerra cometidos pelos nazistas contra o povo grego durante a Segunda Guerra Mundial. Logo após assumir o cargo de primeiro-ministro, Tsipras deixou uma coroa de flores em um monumento às vítimas dos nazistas em Atenas, um gesto inédito entre os chefes de Estado gregos. Em 1º de maio de 1944, cinco meses antes de deixarem Atenas, os nazistas fuzilaram 200 comunistas no local onde está o monumento, na periferia de Atenas, um dos piores massacres do período da ocupação alemã na Grécia.
Um grupo de trabalho do governo grego já estimou que o montante desta reparação seria de cerca de 162 bilhões de euros (cerca de 221 bilhões de dólares). O governo alemão, por sua vez, sustenta que a questão das indenizações de guerra já foi resolvida durante os acordos da Conferência de Paris, em novembro de 1945.
Tarso também contesta a afirmação que vem sendo reproduzida pela imprensa em vários países dando conta que o Syriza teria feito acordo com um partido de direita para formar o governo. A aliança, na verdade, observa, foi feita com um partido nacionalista, moderado, de centro direita, em cima de dois pontos: apoio à renegociação da dívida com a União Europeia e apoio à proposta de compensação financeira, pela Alemanha, em função dos crimes cometidos na Segunda Guerra Mundial.
A vitória do Syriza na Grécia, assinala ainda Tarso Genro, abre as portas para importantes inflexões políticas na Europa o que pode levar a mudanças no funcionamento da União Europeia. O Financial Times, lembrou, questionou se Tsipras será um Lula ou um Hugo Chávez. “Essa disjuntiva colocada pelo Financial Times mostra que é falsa a afirmação de que tivemos uma vitória da extrema esquerda na Grécia. O que é o Syryza quer não é uma ruptura com a Europa, mas sim a reconstrução do Estado grego e um novo patamar de funcionamento para a União Europeia”.
O resultado da eleição na Grécia, aponta o ex-chefe do Executivo gaúcho, já tem repercussões na Espanha. “Na região da Andaluzia, onde haverá eleições regionais e março, o Partido Socialista rompeu o governo de unidade que tinha com a Esquerda Unida para fazer um movimento na direção de um acordo com o Podemos. O Partido Socialista e o Partido Popular, os dois partidos mais tradicionais da Espanha, vem se esforçando em dizer que o caso espanhol é diferente do grego. A divergência das duas siglas em relação à União Europeia é de grau, mas o resultado da eleição grega favorece a ala mais à esquerda do Partido Socialista que defende mudanças mais profundas na relação da Espanha com a UE. Pode surgir daí um novo sistema de alianças na Europa, em defesa de outros padrões de integração”.
Em Sevilha, Tarso Genro conversou com o professor Juan Torres Lopez, um dos responsáveis pela redação do programa de governo do Podemos. A partir dessa conversa, ele relata: “Quando ele terminou de redigir a parte econômica do programa, Pablo Iglesias, uma das principais lideranças do Podemos, sugeriu mudanças no texto para que ele não configurasse uma proposta de ruptura com a União Europeia. Tsipras e Iglesias têm admiração pelas políticas de combate à pobreza e à desigualdade social feitas no Brasil a partir dos governos do presidente Lula. E essas agendas estão na ordem do dia hoje em países como Grécia e Espanha”.
Hora de avançar com coragem
Hora de
avançar com coragem
*José
Álvaro de Lima Cardoso
Nas últimas décadas as desigualdades sociais
têm aumentado, de uma forma geral, nos países desenvolvidos, asiáticos e africanos.
Os dados são dramáticos e vêm piorando nos anos recentes, especialmente após a
crise de 2007/2008, cujos desdobramentos continuam. Atualmente, 1% das famílias
detém aproximadamente 46% da riqueza mundial. No outro extremo a metade mais
pobre da população mundial possui uma riqueza inferior à apropriada pelas 85
pessoas mais ricas do mundo. Sete em cada dez pessoas residem em países cuja
concentração da renda aumentou nos últimos anos. Ao mesmo tempo, as “saídas”
adotadas para enfrentar a crise, especialmente a “financeirização” da gestão
empresarial e a primazia do curto prazo na administração das empresas só
agravaram esse processo. As políticas de austeridade adotadas na Zona do Euro
tornam isso muito evidente. Os cortes nos gastos públicos empobrecem as pessoas
e as empresas de uma forma dramática e, ademais, o crédito desaparece.
No Brasil, apesar da
pobreza e
superficialidade no nível do debate, o perfil de distribuição da renda está
na melhor situação da história. Em função da adoção de uma série de políticas, a trajetória da distribuição da renda no Brasil vem
caminhando na direção oposta ao que ocorre nos países desenvolvidos. Entre
2002 e 2012, as despesas sociais no país com impacto redistributivo aumentaram
183% em termos reais (acima da inflação). Somente o aumento real do salário
mínimo (SM), de 76,62%, entre 2002 e 2015, propiciou aumentos reais no
rendimento de milhões de trabalhadores que recebem este valor, além dos
beneficiários da Seguridade Social com benefícios de valor até um SM. Os
aumentos reais do SM têm, também, reflexos nos valores dos pisos das
categorias, que acabam pressionando para cima uma parte significativa da escala
salarial, especialmente na base da pirâmide de rendimentos.
O Programa Bolsa Família, o preferido dos críticos mais rasteiros, é uma
das ações mais importantes e com o melhor custo/benefício de todas as
iniciativas. Retira 55 milhões de brasileiros da fome, com um investimento que
representa apenas 0,45% do PIB, insignificante no contexto do orçamento
federal. Para termos ideia do
significado do custo do Bolsa Família, o governo federal desembolsa em média
por ano, com os juros da dívida pública, cerca de R$ 250 bilhões, equivalente a
10 vezes o gasto com o Programa Bolsa Família. São alguns milhares de super ricos, também conhecidos como “rentistas”, que levam
anualmente, sem maiores esforços e sem colocar o pé na fábrica, 6% do sétimo
PIB do planeta. E praticamente não se fala sobre isso, seja pela complexidade
do assunto para os não “especialistas”, seja em decorrência da influência que
os rentistas têm sobre a formação da opinião pública nacional. A compreensão
deste tema é vital, especialmente neste momento em que as margens de definição de
políticas macroeconômicas se reduziram em função da estagnação econômica e do
déficit externo do Brasil.
O processo
de melhoria da questão social é tão importante no país que, segundo relatório
recente da ONU, o Brasil reduziu em 75% a pobreza extrema, definida como o
número de pessoas com renda inferior a US$ 1 ao dia, entre 2001 e 2012. Segundo
a FAO (organismo da ONU responsável pela questão alimentar), desde 1990, o
percentual dos brasileiros que passam fome caiu de 14,8% para 1,7% da
população, equivalente a 3,4 milhões de pessoas. Para o referido organismo da
ONU, percentual abaixo dos 5% indica que o país não tem mais fome estrutural,
mas somente bolsões isolados de famintos. O acontecimento é um dos mais
importantes no Brasil nas últimas décadas – se não o mais - considerando que
cerca de 800 milhões de pessoas em todo o mundo enfrentam uma luta diária para
obter comida, a maioria delas concentrada em regiões em situações de conflitos
ou com situações climáticas adversas.
Mesmo sendo fundamentais, as melhorias do
Brasil são apenas o começo, pois o país ainda se encontra no grupo das nações mais
desiguais do mundo. O desafio principal nesse campo consiste em manter o ritmo de
diminuição da desigualdade, o que pressupõe acelerar o crescimento da economia.
O que não é simples, pois a economia mundial vive uma grave crise desde 2008,
que não poupou nenhum país. Inclusive os emergentes, que de forma diferenciada
também foram atingidos (no caso da China significou uma desaceleração do
crescimento de 11% para 7,5%). Todo esse processo sofre um agravante: as
conquistas recentes da sociedade brasileira no campo da renda já foram
metabolizadas pelas novas gerações. Para os jovens é como se as menores taxas
de desemprego da história e a gradativa melhoria da distribuição de renda não
fossem uma dura conquista da sociedade, mas um elemento presente na paisagem
política e social do país, desde sempre.
*Economista e supervisor técnico do
Dieese em Santa Catarina.
Levy, santo de Davos
João
Vicente Goulart no Repórter Sindical
Elogiado por Christine Lagard, chefona do FMI, e por nossos “Mervais” diariamente nos jornalões de plantão e revistas-pasquins da direita no Brasil, vem assumindo uma posição um tanto quanto de cacique, ao ponto de podermos chamá-lo de Santo Davos Levy, tal a inquestionabilidade de suas palavras e repercussão em outros ministérios que não a sua Pasta.
Depois bradou ao mundo sobre a nossa “obsoleta” legislação do seguro-desemprego, como ignorando os direitos conquistados por nossos trabalhadores e a história do trabalhismo na conquista de outros direitos na relação capital-trabalho tão duramente alcançada durante a trajetória das lutas sindicais em nosso País, sem ao menos pedir licença à nossa história e à nossa evolução, da CLT e Justiça do Trabalho.
Onde está a resposta do nosso ministro do Trabalho Manoel Dias, ante esse impropério vomitado pelo Santo Davos Levy, na frente dos donos do mundo, lá na longínqua Suíça?
Nenhuma palavra em defesa dos nossos trabalhadores? Nenhuma manifestação?
Entendemos: o silêncio só pode ser fruto do loteamento do poder e não do interesse público e dos direitos trabalhistas, que vêm sendo covardemente esquecidos na prioridade do ortodoxismo econômico implantado pela sustentação do status quo dos partidos políticos.
Para que um ministro calado ante essas medidas que atingem os trabalhadores brasileiros?
Ainda bem que hoje tivemos de parte de Miguel Rossetto, secretário-geral da Presidência da República, declaração que assume o papel do Ministério do Trabalho ao vir a público dizer que “o seguro-desemprego é uma clausula pétrea. Assim como o salário mínimo, jornada de trabalho, férias e aposentadoria fazem parte do núcleo duro dos direitos dos trabalhadores e representam conquistas civilizatórias”.
Está na hora de definir no quadro ministerial quem fala por quem, de quem são as atribuições de resposta quando são atropelados os direitos e conquistas da classe trabalhadora do Brasil.
Está na hora de que, para o Santo Davos Levy não virar Deus, pelo menos haja um Rossetto para dar um aviso, mesmo que não seja o titular do Trabalho.
João Vicente Goulart é filho
do ex-presidente Jango. É signatário da “Carta de Lisboa”, de 1979 e preside o Instituto
João Goulart.
Site:
www.institutojoaogoulart.org.br
Joseph Stiglitz: As políticas da estupidez econômica
no site Carta Maior
Os países em desenvolvimento se saíram melhor, mas mesmo lá as notícias foram desagradáveis. A economia mais bem sucedida entre elas, tendo baseado seu crescimento em exportações, continuou a crescer no início da crise financeira, mesmo com o endurecimento dos mercados de exportação. Mas sua performance começou a cair significativamente em 2014.
Em 1992, Bill Clinton baseou sua campanha vitoriosa para a presidência dos EUA em um slogan simples: "É a economia, estúpido." Da perspectiva de hoje, as coisas naqueles tempos não pareciam tão ruins; a renda do americano médio hoje é menor. Mas nós podemos nos inspirar nos esforços de Clinton. O mal-estar que aflige a economia global hoje pode ser refletido em dois slogans simples: "é a política, estúpido" e "demanda, demanda, demanda."
A estagnação quase global testemunhada em 2014 é obra do ser humano. Ela é o resultado de políticas em algumas grandes economias - políticas estas que sufocaram a demanda. Na ausência da demanda, o investimento e os trabalhos não se materializarão. Simples assim.
Em nenhum lugar isso está tão claro quanto na Zona do Euro, que adotou oficialmente as políticas de austeridade - cortes nos gastos do governo que aumentam a fragilidade do setor privado. A estrutura da Zona do Euro é parcialmente culpada por ter impedido os ajustes necessários quando do choque da crise; na ausência de uma união bancária, não é nenhuma surpresa que o dinheiro tenha fugido dos países mais afetados, o que enfraqueceu seu sistema bancário e diminuiu os empréstimos e investimentos.
No Japão, uma dos três pontos do programa do Primeiro Ministro Shinzo Abe para a revitalização econômica foi lançado na direção errada. A queda do PIB que se seguiu ao aumento da taxa de consumo em Abril conferiu maior evidência a favor da economia keynesiana - isso se não havia evidências suficientes.
Os EUA impuseram a menor dose de austeriade, e tiveram a melhor performance econômica. Mas, mesmo nos EUA, há cerca de 650.000 funcionários públicos a menos do que antes da crise; normalmente, nós esperaríamos dois milhões a mais. Como resultado, os EUA também estão sofrendo com um crescimento tão anêmico e os salários se mantêm basicamente estagnados.
Muita da desaceleração do crescimento em países emergentes e em desenvolvimento refletem a desaceleração da China. A China é hoje a maior economia do mundo (em termos de paridade de poder aquisitivo), e ela tem sido há tempos a maior contribuinte do crescimento global. Mas o sucesso chinês criou seus próprios problemas, que mais cedo ou mais tarde serão apontados.
A mudança da economia chinesa da quantidade para a qualidade é bem-vinda - e quase necessária. E apesar da luta do presidente Xi Jinping contra a corrupção ter feito com que o crescimento econômico diminuisse, pois paralisou contratos públicos, não há razão para Xi afrouxar. Pelo contrário, outras forças que minavam a confiança em seu governo - problemas ambientais generalizados, um alto e crescente nível de desigualdade e a fraude no setor privado - devem ser apontados com igual vigor. Em suma, o mundo não deve esperar que a China escore a demanda global agregada em 2015. Talvez haja um buraco maior ainda para ser preenchido.
Enquanto isso, na Russia, podemos esperar que as sanções do ocidente façam com que o crescimento diminua, com efeitos adversos a já enfraquecida Europa. (Este não é um argumento contra as sanções: o mundo tinha de responder à invasão russa da Ucrânia, e os CEOs ocidentais que argumentaram o contrário, buscando proteger seus investimentos, demonstraram uma completa falta de princípios.)
Nos últimos seis anos, o Ocidente acreditou que a política monetária pode salvar tudo. A crise levou a grandes déficts orçamentários e um aumento das despesas, e a necessidade de desalavancagem, alguns acham, significa que a política fiscal deve ser posta de lado. O problema é que baixas taxas de juros não motivarão as empresas a investirem se não houver demanda por seus produtos. Nem irão fazer com que os consumidores peguem emprestado para consumir se eles estão apreensivos quanto ao futuro (e com razão). O que a política monetária pode fazer é criar bolhas nos preços dos ativos. Isto até pode sustentar os preços dos títulos da dívida do governo na Europa, prevenindo uma crise da dívida. Mas é importante que sejamos claros: a probabilidade de que políticas monetárias frouxas restaurarão a prosperidade global é zero.
Isso nos traz de volta à política e às políticas públicas. A demanda é o que o mundo mais precisa. O setor privado - mesmo com um apoio generoso das autoridades monetárias - não poderá fornecer isso. Mas uma política fiscal pode. Temos uma ampla gama de escolhas de investimentos públicos com retornos elevados - muito maiores do que o real custo do capital - e isso fortaleceria os balanços dos países que empreendessem nesta direção.
O grande problema que o mundo enfrenta em 2015 não é econômico. Nós sabemos como escapar do atual mal-estar. O problema são nossas políticas estúpidas.
Tradução de Roberto Brilhante
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