terça-feira, 28 de outubro de 2014

Dilma reeleita: Nada será como antes

Por Bepe Damasco, em seu blog

Com a alma lavada depois da vitória de Dilma sobre um dos maiores massacres midiáticos da história republicana e uma onda de ódio conservador sem precedentes, é preciso interpretar corretamente o recado das urnas e valorizar as forças e os atores sociais que emergiram da mobilização da campanha eleitoral. Só assim será possível reinventar o governo, sintonizando-o com a demanda das ruas. O modelo seguido até aqui, através do qual a criação das condições de governabilidade praticamente se limita aos acordos com partidos e suas bancadas no Congresso Nacional, se esgotou.

Não que o novo governo da presidenta Dilma deva abdicar da construção de uma sólida maioria parlamentar. O apoio consistente no Congresso é fundamental tanto para a aprovação dos projetos de interesse do governo como para impedir aventuras golpistas, ainda mais agora quando setores da oposição derrotada falam abertamente em terceiro turno, o que, na prática, é uma uma tentativa de inflar o caso Petrobras, a ponto de criar embaraços institucionais para o governo no Congresso. Isso posto, a eleição deixou claro que os requisitos de governabilidade emanados das urnas são de outro tipo.

Eles têm a ver com as reivindicações dos movimentos sociais que se aproximaram de Dilma na campanha, embora sejam críticos do seu governo, a partir da compreensão do retrocesso para o país que significaria um eventual governo tucano, com enorme potencial para provocar uma verdadeira tragédia social no Brasil.

Outro fenômeno dessas eleições não pode passar despercebido. Há muito não se via tantos jovens em eventos de campanha do PT, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Esse talvez seja o saldo mais positivo da campanha. Uma parte considerável dos jovens das tais jornadas de junho de 2013 passou olhar o PT outra vez com esperança. O governo e o partido podem estar diante da chance derradeira de reconstruir pontes com a juventude. Isso é essencial para o presente e estratégico para o futuro.

Nas entrevistas concedidas às emissoras de TV na noite desta segunda-feira, a presidente apontou como focos prioritários do seu governo os jovens, as mulheres e os negros, mantendo a atenção especial aos mais pobres e à inclusão social. Não esqueceu também de citar entre suas metas mais importantes a educação, a produtividade, a inovação e o incentivo ao empreendedorismo. Muito bem, mas só com o apoio das ruas e dos movimentos o governo terá como enfrentar e vencer o avanço do pensamento conservador e reacionário na sociedade, notadamente localizado nas classes média e alta.

No discurso da vitória, a presidenta reafirmou seu compromisso com a reforma política, com plebiscito popular. Acertou em cheio.No entanto, antes que a reforma aconteça e produza seus efeitos arejadores e democráticos na vida política do país, o governo só vai conseguir se impor diante de um parlamento de perfil ainda mais conservador se apostar na mobilização popular. E o PT tem um papel decisivo nessa virada.

A oposição, se sentido fortalecida pelos 50 milhões de votos de seu candidato, certamente buscará alianças pontuais no parlamento com a banda fisiológica dos partidos aliados., visando emparedar o governo. Se deixar aprisionar por manobras chantagistas congressuais seria um grave erro, que reduziria sobremaneira as chances de o governo cumprir os compromissos assumidos em praça pública. O desafio, portanto, é fazer da participação popular a mola mestra da governabilidade. Pouco importa se a mídia mais asquerosa do planeta chame isso de chavismo.

Por falar em mídia, atenção presidenta : novo marco regulatório das comunicações agora e já !

Alegria, orgulho, alívio, nojo, horror

Flávio Aguiar  no site Carta Maior



Ao final desta eleição levo comigo um verdadeiro coquetel de sentimentos.

Em primeiro lugar, a alegria da vitória.

Vitória suada, na raça, como se diz em jogo de futebol, uma vitória de fortes emoções. Nunca vi uma eleição com tanta reviravolta, nem com tanto ódio disseminado. Terá a ver com a internet? É possível, tanto quanto com o ódio de classe que subiu no Brasil, cuja primeira grande manfestação foi a daquela corja de granfinos insultando a presidenta Dilma a partir do camarote do Itaú no Itaquerão.

É uma alegria derrotar esta escória social disfarçada de “élite” (assim, com sotaque francês) do país. Derrotar o seu ódio, o seu desprezo pelo próprio país que a alimenta.

Depois, há um sentimento de orgulho. Orgulho pela presidenta que temos. Sei que há muita gente que não gosta do seu estilo de governar. Tudo nesta vida é passível de críticas e melhoras. Mas deu orgulho ver seu jeito a um tempo sereno e firme de aguentar o repuxo, o ódio, as agressões, com a mesma têmepra e fibra com que aguentou a tortura e a repressão na juventude, ver seu estoicismo diante do destempero do camarote acima referido, ver suas respostas firmes e decididas, não recuando diante dos chutes dos adversários e ao mesmo tempo defendendo o direito do seu povo ter direitos. Deu orgulho também ver sua capacidade de no curso da eleição admitir erros, rever estilos, comprometer-se com mudanças de rumo que seu governo precisa, e com a defesa de valores positivos, como os da reforma política indispensável.

Foi um alívio: a Casa Grande brasileira saiu derrotada. Por pouco, mas derrotada. O que mostra que estamos assistindo o começo do fim da Senzala que a Casa Grande sempre sonha construir e reconstruir no Brasil. Este ano de 2014 foi muito duro. Assisti a verdadeira campanha de desmoralização do país promovida pela mídia conservadora dentro e fora do Brasil, bem como ouvi o coro dos abutres, coveiros e goiabas sobre o “não vai ter Copa”. Daria para plagiar a frase do Lacerda sobre o Getúlio: “não deve haver Copa; se houver, não pode dar certo; se der certo, a gente tem que desmentir que deu certo”. O último arranque desta campanha foi dado pela Fundação Henrich Böll (ligada ao Partido Verde alemão) e o Instituto Solidar (ligado ao Partido Social Democrata da Suíça), divulgando o relatório que afirmava que “o Brasil perdeu com a Copa”, arrepanhando todos os lugares comuns malhados pela direita e pelo movimento “Não Vai Ter Copa”, às vésperas do segundo turno. Deram uma mãozinha para o Aécio: se foi sem querer, pior ainda.

Depois veio a campanha propriamente dita, e com ela a sensação de nojo. A direita brasileira acusa os sucessivos governos liderados pelo PT de estarem transformando o país numa “Venezuela”. Mas quem começou de fato a transformar o Brasil numa “Venezuela” foi a direita, cada vez mais desesperada, cada vez mais dando voz a uma camada mais abastada da população que odeia ver pobre ou ex-pobre em aeroporto, na universidade, indo à Europa pela primeira vez, odeia não poder mais exigir que empregada doméstica use apenas o elevador de serviço e odeia ter de assinar carteira para ela. Esta direita confunde direitos com privilégios, e a campanha desta vez destilou este ódio e este ressentimento, fazendo de fato que fosse a campanha mais violenta que já presenciei em termos de insultos, acusações vazias, transformando-a numa tentativa de linchamento de uma mulher e de um partido. Ou seja, a “élite” brasileira assumiu o estilo de sua congênere venezuelana, uma das mais reacionárias do continente.

O horror vem da suspeita de que este estilo veio para ficar. E também de que ele fomentará as tentativas de paralisação ou até de deposição do governo que inevitavelmente virão. Os desejos de impeachment já relampeiam no horizonte de algumas declarações mais ressentidas.

Mas noves fora, ficam dominando a alegria, o orgulho, e o alívio.




Quem ganhou e quem perdeu na eleição presidencial

Flávio Aguiar no Carta Maior

postado em: 28/10/2014

Tão importante quanto dizer quem ganhou e quem perdeu é dizer quem saiu ganhando e quem saiu perdendo. Nem sempre estas coisas coincidem, como se verá.

Dilma Rousseff – ganhou e saiu ganhando. O sucesso de sua candidatura dependeu muito de seu estoicismo (ao enfrentar os insultos no Itaquerão), da sua firmeza (ao responder de modo duro às acusações de Aécio nos debates), de sua capacidade de se comprometer com a manutenção (salário, empregos) e com a mudança (eventual correção no caso Petrobrás) de rumos. Provou e comprovou que tem luz própria e estofo de estadista.

Aécio Neves – perdeu e saiu perdendo. Provou que sua habilidade retórica não o protege de ataques porque não está preparado para isto. Achou que podia ganhar no grito, isto é, só atacando uma pauta negativa, sem se comprometer ou revelar seu verdadeiro programa para o país. Tergiversou. Conseguiu mais votos pelo antipetismo do que por si próprio. Não tem luz própria, e agora está ameaçado em seu arraial. José Serra já afia os caninos e Geraldo Alckmin planta seus chuchus na cerca de São Paulo para aprimorar seu picolé, ambos tendo em vista 2018. A vida de Aécio não será fácil.

Armínio Fraga – perdeu, mas se saiu perdendo é outra história. Cometeu um erro fatal. No debate com Guido Mantega, ao falr das dificuldades do cidadão brasileiro, falou de alguém que quer comprar ações na Bolsa. Mantega falou de quem quer trocar de geladeira. Claro: no Brasil tem mais gente preocupada em trocar de geladeira do que em comprar ações na Bolsa. Mas seu erro não foi este. Foi o de imaginar que quem assiste este tipo de debate hoje no Brasil é apenas quem quer comprar ações na Bolsa. Enterrou um pouquinho a candidatura de Aécio. Saiu perdendo? Ora ora, tem muito mundo financeiro pelo mundo afora querendo gente com Fraga.

Marina Silva – perdeu e saiu perdendo. Cresceu nas pesquisas depois da tragédia de Eduardo Campos e seus companheiros de vôo, mas se confundiu com o próprio crescimento. Atirou para todos os lados em busca de votos, rolou e enrolou, disse e desdisse, contradisse e entrou na dança e na contradança, mas o que ficou na lembrança é que quem tem poder sobre ela é o pastor Malafaia. Quem se curva à chantagem de pastor jamais vai chegar à presidência. De quebra, apresentou uma lista de reivindicações a Aécio para apoiá-lo, não viu nenhuma atendida e apoiou assim mesmo. Eu não votaria nela nem pra Associação de Pais e Mestres. Comprometeu a credibilidade de sua futura Rede, que pode virar uma rede para pescar goiabas. É pena. O Brasil precisa de um partido ambientalista forte.

PT – Empate técnico, graças à atuação e à vitória de Dilma Rousseff. Na verdade saiu perdendo. Perdeu cadeiras no Parlamento, mas não só isto. Em alguns momentos, em alguns lugares (sobretudo São Paulo) lembrou aquele ditado nordestino: “em tempo de murici, cada um cuide de si”. Murici vem do tupi-guarani e quer dizer “árvore pequena”. Pois é. O PT está se acostumando ao estilo “árvore pequena” tão caracterísitico da política brasileira. Fica pensando mais na próxima eleição do que nas utopias que o fundaram e o fundamentam. O PT precisa se reciclar (detesto o “refundar”, que me parece próximo do “afundar”). Ter uma política para a juventude mais efetiva. Uma política para o meio-ambiente mais visível e propositiva. Retomar a ideia de um projeto de futuro mais amplo, não apenas o de administrar este e aquele governo. Enfim...

PSDB – Desastre. Perdeu e saiu perdendo. Na mídia internacional, que pode ser conservadora em grande parte mas sempre chama os bois pelo seu nome verdadeiro, e não o de fantasia, o PSDB brasileiro é descrito como “business friendly”, o que deve ser traduzido por “amigo do mercado”. Isto quer dizer que o PSDB hoje é visto como estando à direita dos partidos da social-democracia europeia. Em termos de Alemanha, por exemplo, o PSDB de hoje é um clube misto de União Democrata Cristã, da chanceler Angela Merkel e do FDP, uma espécie de DEM (PFL) sem coronéis nordestinos por detrás. Periga entrar para a história dentro de um sarcófago de múmias sagradas. Para não dizer vacas.

Geraldo Alckmin – ganhou, mas saiu perdendo. Sua gestão da água em São Paulo foi, é e será um desastre. Ajudou Aécio a perder votos no segundo turno. Bom, pode ser que isto seja bom para ele e seu projeto. Em tempo de murici...

Lula – não ganhou porque não concorria. Mas saiu ganhando: continua sendo a principal referência de unidade do PT e seu maior cabo eleitoral, além de não se entregar à política das “árvores pequenas”. Jogou um bolão. Vão querer pegá-lo na volta da esquina e por na geladeira. Pode vir processo judicial em cima dele.

Fernando Henrique Cardoso – não perdeu, porque não concorreu. Mas saiu perdendo feio, sobretudo por ter perdido várias oportunidades de ficar quieto e não dizer nada. As mais evidentes foram a de dizer que pobre (nordestino, leia-se) vota mal não porque é pobre, mas porque é desinformado (por acaso quando pobre nordestino votava no PFL ele era bem informado?) e que o salário mínimo no seu governo era muito maior do que no governo Dilma, uma ofensa à aritmética, à geometria, à álgebra e à trigonometria, sem falar na teoria da relatividade e na física quântica. Disse tanta bobagem que foi rebaixado: de Príncipe da Sociologia (seu apelido nos meios acadêmicos, tanto pela elegância no falar e no trajar, quanto pela qualidade de seus trabalhos e seu apreço pela corte que lhe faziam admiradores, colegas e alunos, mais do que merecida) passou a Barão de Higienópolis. Que se cuide, pode virar Juiz de Luta-Livre, entre Geraldo, Aécio e José. O tempo dirá.

Luciana Genro – perdeu, mas saiu ganhando. Os elogios à sua campanha superaram as hostes pissolistas. Deu demonstração de coerência e consistência. Aguentou dedo na cara de Aécio (o que não o ajudou) e se saiu bem nas perguntas e nas respostas. É verdade que no segundo turno se enrolou brabo nas palavras, para não declarar apoio à Dilma. Seu correligionário, candidato ao governo de São Paulo, Gilberto Maringoni, se saiu melhor: “voto contra o Aécio”, e ponto. Sem vírgula.

Eduardo Jorge e o Partido Verde – que vergonha! Apoiar o Aécio no segundo turno! Viraram um puxadinho, o biocapitalismo do capitalismo selvagem. Bom, muitas cúpulas do PV aqui na Europa se comportam assim. Precisavam ter mais contato com a esquerda verde por aqui. Para não dar vexame.

Extrema-direita – saiu ganhando. Malafaia chantageou Marina com sucesso. Feliciano e Bolsonaro tiveram votações consagradoras. Levy Felix, o candidato do conduto excretor, triplicou seus votos. O Pastor Everaldo tanto latiu que mereceu audiência especial com Aécio. Esse pessoal tem um poder de fogo notável. Dá engulhos e medos.

PMDB – Empate técnico, o que para ele é vitória. Saiu ganhando. Continua sendo um partido-esponja, que tudo absorve. Parece um polvo, com tentáculos em toda a parte. É capaz de compor até com Levy Felix, Pastor Everaldo e Luciana Genro ao mesmo tempo. Tem vida longa.

PIG e Veja em particular – perderam feio, a ver se saíram perdendo. Puseram todas as suas fichas em derrubar Dilma e o PT desta vez por todas. Não deu certo. Esqueceram de combinar com o povo brasileiro, que, acham, são o círculo externo da teoria da pedra no lago: como são ignorantes mesmo, o importante é atingir os “esclarecidos” que “esclarecerão” a “gente diferenciada”. Como a base do PIG é o Rio e São Paulo, desconfio que vão enviar seus copiadores no Norte e no Nordeste para um campo de reeducação em Miami. Daqui pra frente vão começar a pregar primeiro veladamente depois com velas acesas o impeachment, a condenação do Lula (afinal, ele não fez nada para impedir o afundamento do Titanic nem a crise econômica europeia) e coisas assim. Pode apostar. Quando digo que não sei se saíram perdendo, é porque o PIG é como o vampiro: morreu nesta eleição, mas vai renascer mais cruento e sanguinário na próxima. Com verbas de publicidade do governo e das estatais.

O camarote do Itaú no Itaquerão – perdeu, saiu perdendo, deu vexame internacional. Foi se roçar nas ostras, como se diz.

Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa e Sérgio Moro – não perderam, porque não concorriam. Mas saíram perdendo. Gilmar Mendes suspendeu um dos direitos de resposta conseguidos pelo PT em relação à Veja numa decisão por 7 x 0, postergando-a para depois das eleições. Joaquim Barbosa sumiu, depois de ser o grande herói do linchamento conhecido como processo 470 (do “mensalão”, sem provas). Pode se recuperar. Se quiser se candidatar a vereador em 2016, talvez seja eleito. Sérgio Moro vai se candidatar ao título de “Juiz Transparência”, tal é a quantidade de vazamentos em suas audiências. Deve ser coisa da National Security Agency, um caso para Snowden e Assange juntos.

O povo brasileiro – ganhou e saiu ganhando. Não precisa explicar.



Dilma Rousseff enfrenta e volta a vencer golpistas

Rede Brasil Atual

São Paulo – Foi uma vitória maiúscula. A reeleição de Dilma Vana Rousseff (PT) escreve muitos capítulos inéditos e carrega uma força simbólica que, se não é maior que a das demais disputas vencidas pelo PT no plano federal, é única. A mulher nascida em Belo Horizonte em 1947 mais uma vez deixa de joelhos, boquiaberta, a repressão que lhe tentou cassar os direitos políticos.

Se havia alguma dúvida de que esta era uma eleição do candidato do sistema patriarcal brasileiro contra todo o resto, a edição do Jornal Nacional na véspera eliminou qualquer margem de ingenuidade. Jornalismo mandou lembrança, William Bonner. Dividida entre interesses públicos e privados, a emissora dos Marinho atendeu novamente a seu chamado de classe ao exibir reportagem sobre supostas denúncias de que Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva teriam ciência de um esquema de pagamento de propinas utilizando verbas da Petrobras.

Tentou um desfecho sujo para uma temporada eleitoral eleição suja. Sob o pretexto de um “ataque” à sede do Grupo Abril, o Jornal Nacional dedicou seis minutos a narrar a “denúncia” da revista Veja, uma publicação que nunca esteve tão à altura da alcunha de “mídia golpista”. Lá pelas tantas aparecia a figura de Aécio Neves, candidato do PSDB dado a vitórias no tapetão. Fosse tão ético quanto jura ser, o tucano teria se recusado a ecoar uma reportagem feita com base num depoimento inventado – seu suposto autor, o doleiro Alberto Youssef, desmentiu que tenha feito as declarações difundidas pela publicação semanal.

Mas Aécio, a exemplo do Jornal Nacional, atendeu a seu DNA de classe, uma elite financeira que há muito chegou à conclusão de que vale qualquer coisa para tirar o PT do poder. Têm razão as pessoas que comparam essa disputa com a de 1989. Não pelo acirramento, nem pelo embate ideológico, mas pela tentativa da Globo de se fazer protagonista de um pleito do qual não é partícipe – ou, legalmente, não o é.

A divulgação de reportagem contra Dilma na véspera da eleição não se deu ao acaso: a “denúncia” já era de conhecimento público na véspera, quando os Marinho não a quiseram levar ao ar. Não quiseram por um motivo óbvio: a presidenta teria tempo de apresentar sua versão no debate daquela noite ou de buscar direito de resposta no Tribunal Superior Eleitoral, como o obtido contra a Veja.

A última edição do Jornal Nacional antes das eleições não pode ser enxergada fora de contexto. São 12 anos de bombardeio, quatro em particular, 2014 em particularíssimo. A vitória de Dilma não é uma derrota apenas de Aécio e do PSDB. É da mídia tradicional, que investiu até o último grama de força para bater no PT, chegando ao ponto da desestabilização da democracia. É do mercado financeiro, que nos últimos três meses praticou um rally eleitoral e encontrou no tucano um porta-voz de sua vontade de ter um governo que deixe a especulação comer solta. É de Marina Silva e do PSB, que, sob o pretexto da não neutralidade maltrataram suas histórias e alinharam-se à força neoliberal que tanto combateram. É do ódio visceral a um partido, de um sentimento mais vomitado e gritado do que explicado.

É de todo um sistema repressor da democracia. O segundo turno clareou o que estava em jogo. De um lado alinharam-se movimentos sociais comprometidos com avanços, centrais sindicais em busca de melhorias para a vida do trabalhador, partidos que carregam no histórico a tentativa de transformação do país. De outro estiveram meios de comunicação a serviço da especulação financeira, representantes de segmentos fundamentalistas apavorados com qualquer avanço social, partidos que carregam no histórico a marca do elitismo e da divisão de classes.

A vitória de Dilma, por isso, jamais poderá ser entendida como um sucesso alcançado sozinho. É o êxito que coroa uma união de forças progressistas. É o êxito das ideias democráticas sobre o ideário que considera que Brasil bom é o que se divide entre pobres e ricos e que vê como intento autoritário a proposta de ampliar a participação popular, já que o exercício do sistema político deve se dar entre quatro paredes.

É esta corrente que a presidenta terá de encabeçar no exercício do mandato. Se a primeira vitória foi celebrada por trazer no bojo a maior base aliada da história no Congresso, a segunda deve ser motivo de comemoração para a esquerda por uma rara união. União que só poderá ser mantida mediante avanços institucionais em diversas áreas.

A reeleição da presidenta carrega o poder simbólico da foto em que aparece, menina, com gesto imponente perante militares que representavam a tortura e a cassação de seus ideais. Deixou a repressão de joelhos ao sobreviver às sevícias, retomar sua militância política, se tornar secretária no Rio Grande do Sul, ministra de Lula, presidenta do Brasil e uma das mulheres mais influentes do mundo.

Ao longo dos quatro anos, e particularmente desde julho, foi submetida a uma surra inesquecível. As cicatrizes, carregará para sempre. Tentarão deixar outras marcas, buscando agora um terceiro turno que já haviam tentado em 2010, ao tratar por ilegítima uma vitória obtida com a superação de dificuldades, mentiras, acusações. Dilma deixou a repressão de joelhos, mais uma vez. Não será perdoada, e terá de travar uma batalha definitiva contra os fantasmas do passado.



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dilma derrota o ódio: 2018 é logo ali!


Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador:

Existem vitórias maiúsculas pela margem obtida sobre o oponente. E existem vitórias gigantescas, obtidas por estreita margem.

A reeleição de Dilma é uma vitória do segundo tipo. Gigantesca, pela onda conservadora que a candidata teve que enfrentar.

Dilma derrotou o ódio, derrotou a maior onda conservadora no Brasil desde 1964.

Muita gente comparou essa campanha de 2014 à eleição de 1989 – que opôs Collor a Lula. Concordo, apenas em parte. O grau de tensão e terrorismo midiático foi semelhante. Mas há uma diferença importante…

Collor era um líder solitário, com apoio da Globo e um discurso messiânico. Aécio representa outra coisa: a direita orgânica, com apoio dos bancos, de toda a velha mídia, da classe média raivosa, do pensamento econômico conservador, dos pastores mais reacionários, dos pitboys de academia que querem pendurar negros nos postes, do discurso antipetista, anitinordestino.

Ganhar, contra uma onda desse quilate, significa uma vitória gigantesca – que precisa, sim, ser comemorada. Com serenidade. Mas também com alegria.

Dilma derrotou Aécio Neves, o típico garotão arrogante da elite brasileira. Derrotou o sorriso de deboche e a (falsa) superioridade que Aécio exibiu nos debates. Derrotou o discurso de ódio que ele ajudou a disseminar – dizendo que pretendia “libertar o Brasil do PT”.

O Brasil se libertou de Aécio e seus aeroportos privados, de Aécio e sua irmã das sombras, de Aécio e sua corja de apoiadores na imprensa mais porca que o Brasil já teve.

Dilma derrotou a revista da marginal e seus colunistas de longas e conhecidas carreiras. Nos momentos de euforia, esses colunistas enxergam-se gigantes. Mas são anões do jornalismo.

Dilma derrotou os blogueiros apopléticos e seus castelos de areia, derrotou os comentaristas gagos, as mirians, os mervais e outros quetais.

A vitória de Dilma é a derrota de ex-cineastas e ex-roqueiros que se afogam agora na baba elástica do ódio.

Mas Dilma também derrotou os neoliberais, os armínios e fhcs. Esses, talvez, os mais honestos adversários – posto que apresentaram seu programa e o debateram de forma aberta.

O Brasil rejeitou, pelo voto, o discurso de combate aos programas sociais, de redução do Estado: foi a quarta derrota seguida do liberalismo tucano – que quebrou o país nos anos 90.

Também derrotados foram a Globo e Ali Kamel. Quarta derrota seguida – apesar dos pequenos golpes e das edições malandras na véspera do voto. O JN perdeu peso. Kamel é o comandante de um império jornalístico em decadência.

O Brasil rejeitou Kamel e suas teses de negação do racismo. O Brasil apostou no combate à desigualdade, que deve seguir. O Brasil apostou num governo que enfrentou a maior crise da história, desde 1929, sem jogar o peso do ajuste nas costas dos trabalhadores.

O Brasil votou pelo planejamento e contra o privatismo que entrega até água para o mercado – matando São Paulo de sede.

Foi a vitória da razão de Estado contra o fundamentalismo do Mercado.

Foi a vitória do trabalhismo contra o moralismo rastaquera.

Foi a vitória de Vargas contra Lacerda, de Brizola contra Roberto Marinho.

De quebra, Dilma enfrentou e derrotou o oportunismo marinista. A Rede – criada como aposta na “terceira via” e na “nova política – terminou a eleição abraçada ao conservadorismo tucano.

Depois de destruir dois partidos (PSB e a própria Rede), Marina destruiu a própria imagem e o patrimônio politico acumulado.

Dilma derrotou o ódio nas urnas. Agora é preciso derrotar o ódio e o golpismo midiático.

Na última semana de eleição, já estava claro que o aparato midiático conservador apostaria num terceiro turno.

O PSDB e a velha mídia partirão para o ataque agora, porque sabem que em quatro anos terão que encarar outro osso duro de roer: Lula.

O Brasil deve dizer a eles que tenham paciência. 2018 é logo ali.

Os tucanos que se recolham às fronteiras de 1932. E façam o debate com Lula em 2018.

Dilma certamente sabe que sua vitória gigantesca só foi possível porque a campanha caminhou alguns graus à esquerda – incorporando jovens e coletivos populares que são até críticos ao governo petista, mas sabem que significa o tucanato.

Com a onda popular no segundo turno, a presidenta deixou de ser a “gerente”, a administradora escolhida por Lula. Dilma virou a líder de um projeto que só avançará se tiver coragem para colher nas ruas o apoio que talvez lhe falte no Congresso.

Alianças ao centro serão necessárias, mas o apoio popular é que vai garantir apoio verdadeiro, se o aparato conservador partir mesmo para o terceiro turno.

O Brasil ficou mais forte. O ódio perdeu. De novo.

Obrigado, direita!

Por Rafael Castilho*    no GGN


Obrigado, direita por mostrar tão nitidamente a sua face mais destrutiva e violenta.

Obrigado, direita por tornar visíveis os seus preconceitos e o desejo de restauração das velhas hierarquias.

Obrigado por deixar a olho nu o seu autoritarismo. Por mostrar o seu desprezo pelas escolhas alheias. Por desconsiderar uma visão de mundo que não seja a de vocês.

Obrigado por nos xingar de desinformados, ignorantes, acomodados, preguiçosos, corruptos. Obrigado por não nos acolher e nos deixar de fora deste camarote VIP eleitoral onde só entra quem se supõe mais esclarecido e iluminado que os outros.

Senhores reacionários, agradeço por defenderem tão explicitamente a ditadura militar e a tortura. Ficou muito mais fácil para identificar o real projeto político de vocês e encorajou muito mais as nossas escolhas.

Damos graças aos eleitores conservadores que despejam ódio nos fóruns de internet. Vocês explicitaram tudo aquilo que fica oculto numa candidatura oficial e escancararam os desejos mais inconfessáveis.

Agradecemos até mesmo as perseguições. Os ataques de fúria. As agressões físicas em praça pública aos companheiros que usavam camiseta vermelha. Foi bom que vocês fizeram isso antes da eleição. Pensando bem, até que vocês foram honestos. Normalmente as candidaturas nos afagam e depois do pleito nos enchem de porrada. Vocês não! Já nos dão mostras grátis do tamanho da opressão que iríamos sofrer. Prometem justamente o que iriam cumprir.

Obrigado direita pela Guerra Fria requentada. Por mostrar como vocês estão atrasados. Que não superaram nem o fim da escravidão, que dirá a ameaça de "golpe comunista". Obrigado por defender tão ardorosamente o neoliberalismo. Ficou mais fácil perceber qual seria o nosso futuro olhando para as grandes economias, agora decadentes, sem potencial econômico e sem vitalidade social.

Obrigado por criticarem tanto os programas sociais. Ficou fácil perceber o egoísmo e indiferença de vocês frente à fome e a miséria.

Direitona, obrigado por revelarem ao grande público estes humoristas yuppies tão ruins. Que reivindicam o direito de fazer piada sobre qualquer barbaridade, violência e exploração. Por serem emissários, através de suas "piadas", do preconceito e do servilismo de vocês. Por não deixarem oculto o desejo de reestabelecer os velhos privilégios e colocar novamente os negros, as mulheres, os gays e os pobres em seu "devido lugar".

Obrigado por resgatarem alguns antigos "astros do rock". O problema é que eles ressurgiram meio carcomidos e caquéticos. Fazendo Cover de si mesmos. Muito bobos e imaturos, mas foi legal perceber como a mídia pode colocar as pessoas no esquecimento ou dar uma canja final, desde que os palhaços estejam dispostos a servir o rei.

Obrigado, direita pelas machetes, noticias e capas escandalosas. Por não deixar nenhuma dúvida que não há nada na velha imprensa que não seja entreguismo e interesses corporativos.

Aliás, obrigado por divulgarem em capa aquela foto da Dilma presa, encaminhada para a tortura nos porões da ditadura. Eu sei que a intenção de vocês era escandalizar a sociedade e causar pânico. Mas vocês humanizaram ainda mais a figura da presidenta. Mostraram ao grande público uma Dilma jovem, corajosa e combativa, que inspira milhões de pessoas que não se conformam diante da injustiça. Agora, aquela imagem ficou eternizada e se tornou uma grande bandeira.

Por tudo isso que foi dito, agradecemos muito a direita!

Seremos eternamente gratos por não nos roubar ilusões e fazer com que a gente entenda de uma vez por todas que não se pode confiar em vocês nem um tantinho assim, nada!

Porque nunca estivemos tão unidos e tão fortes. Porque a truculência de vocês nos mobilizou e nos fez agir.

Vocês aproximaram todos aqueles que não fecham com este discurso violento, rancoroso, preconceituoso, homofóbico e cruel.

Nos unimos num fraterno abraço. Um abraço tão gostoso que promete durar décadas.

Dessa vez, o crédito pela vitória não será de nenhuma aliança espúria com vocês. Pois vocês tiveram que arrancar a máscara, sujar a mão de graxa para no final das contas engolir mais uma derrota.
*Rafael Castilho é sociólogo da FESPSP, Pós-Graduado em Política e Relações Internacionais e em Gestão Pública pela FESPSP. É Consultor e Coordenador de Projetos da FESPSP.


O Brasil dobrou a aposta na democracia social


Saul Leblon  no Carta Maior
postado em: 27/10/2014


Não foram apenas três milhões de votos.

A importância histórica deste 26 de outubro de 2014, quando as urnas deram um segundo mandato à Presidenta Dilma Rousseff, e um quarto e sucessivo governo progressista ao Brasil,  não pode ser medida apenas pela  margem de três pontos que marcou a derrota conservadora.

Em primeiro lugar, não foram apenas três pontos.

Por trás deles, a sustentá-los com desassombro e resistência, estão 53,5 milhões de brasileiros que decidiram avalizar o passo seguinte do projeto iniciado em 2003, dando-lhe mais quatro anos no comando do país.

É uma vitória tão monumental quanto o gigantesco aparato que foi preciso derrotar para atravessar essa dúzia de anos e obter a dianteira nas urnas no último domingo.

Há um filme à espera de um diretor, e ele precisa ser feito para que se possa visualizar o conjunto dos interesses, as massas gigantescas de forças que se uniram, dentro e fora do país, na tentativa de capturar o processo democrático brasileiro em um torvelinho de incerteza, medo, crispação política, sabotagem econômica, boatos, manipulação midiática e envenenamento do imaginário social.

A disputa  encerrava uma dimensão geopolítica capaz de influenciar os acontecimentos na América Latina e a agenda da luta pelo desenvolvimento em diferentes partes do mundo.

Não era pouco o que estava em jogo, portanto.

De um lado,  a agenda da restauração neoliberal no país; de outro, o aprofundamento de um projeto de desenvolvimento soberano, associado à justiça social.

Avulta até aos mais distraídos os lances de audácia golpista desfechados contra o discernimento da sociedade nos meses, nas semanas, nos dias e horas que antecederam o escrutínio dessa disjuntiva.

Enganou-se quem imaginava que a capa criminosa de Veja, na edição delivery para a campanha de Aécio, em que buscava incriminar diretamente Dilma e Lula com o escândalo da Petrobrás, seria o auge, a bala de prata da véspera.

Não era.

Com o país já nas filas da urna veio o novo petardo.

Um boato de envenenamento do delator do caso Petrobrás, tinha o ardiloso propósito de confirmar o enredo fraudulento veiculado por Veja, e induzir o voto pelo medo e a indignação.

O assunto mereceu uma entrevista ao vivo, feita pela rádio CBN, com o candidato Aécio Neves.

Repita-se: isso, enquanto milhões de eleitores se encaminhavam para as urnas.

Foi um ensaio de golpe paraguaio, talvez só abortado pela presunção conservadora de que a eleição estava ganha.

Portanto, é preciso reafirmar alto e bom som: em 26 de outubro Dilma conquistou uma vitória histórica.

 Aécio Neves foi derrotado. E duplamente, porque perderia de novo em seu estado natal, onde Dilma abriu uma vantagem de cinco pontos sobre o tucano.

Vale dizer que ali onde o candidato do PSDB   governou por duas vezes e fez  toda a sua carreira,  Dilma conquistou uma vantagem superior à obtida na média nacional.

Está longe de ter sido uma vitória qualquer.

Mas, sobretudo, foi uma vitória da coragem do eleitor humilde e solitário que enfrentou, resistiu e não se dobrou diante do paredão midiático  antipetista, confiando seu voto em Dilma.

É evidente que um Presidente da República, vencido esse Rubicão tormentoso, tem a obrigação de conduzir a pacificação, como Dilma já acenou  que o fará em  pronunciamento, em Brasília,  logo depois de proclamada a vitória.

Trata-se de erguer pontes entre as margens extremadas da disputa. Desarmar a crispação conservadora. Desautorizar o revanchismo dos que não aceitam a urna quando perdem. E fustigar o preconceito dos que desvalorizam o voto do pobre que não elege o rico.

Mas que fique claro a natureza do que aconteceu no último domingo de outubro no Brasil: o país dobrou a aposta na construção de uma democracia social no século XXI no coração da América Latina.

A negociação, portanto, deve ocorrer em torno desse projeto.

E não de qualquer outro que o desautorize, ou pretenda emasculá-lo.

A negociação deve contribuir para dotar o projeto vitorioso nas urnas das ferramentas democráticas e institucionais necessárias à pavimentação do seu percurso na vida da nação.

É nesse ponto que a reflexão sobre a vitória se entrecruza com outra questão central.

Aquela não poucas vezes tratada neste espaço e que na verdade antecede e se superpõe ao resultado da urna.

A esfinge que desafia o campo progressista brasileiro é uma versão turbinada da encruzilhada que assola a esquerda mundial, desde que ela passou a disputar os votos da sociedade para gerir o Estado, ainda sem ter o poder de modifica-lo.

E, portanto, com o desafio de construir uma correlação de forças capaz de viabilizá-lo.

A assimetria não é ignorada pelo PT.

“(o partido) é  prisioneiro de um sistema eleitoral que favorece a corrupção e de uma atividade parlamentar que dificulta a mudança, a despeito da vontade das forças progressistas (...) As medidas de reforma do Estado não foram capazes de remover os obstáculos burocráticos que criam empecilhos para o avanço mais rápido dos grandes projetos de infraestrutura, vitais para dar nova qualidade a nosso desenvolvimento” .

O trecho acima consta do texto-base do V Congresso do PT e grita a sua atualidade diante das expectativas e tarefas postas pela vitória deste domingo.

Não por acaso, em seu pronunciamento, já reeleita, a Presidenta Dilma   reiterou o compromisso matricial do segundo mandato com  a reforma política e a Constituinte exclusiva para implementá-la.

Não se trata apenas de arejar as instituições contra o efeito corrosivo do financiamento de partidos e candidatos pelas plutocracias.

É também uma questão de vida ou morte da engrenagem do desenvolvimento.

Transformações democráticas fornecem, muitas vezes, a única alavanca capaz de remover obstáculos econômicos intransponíveis quando abordados no âmbito de sua própria lógica.

Os impasses sobrepostos na engrenagem do desenvolvimento brasileiro –de natureza cambial, industrial e monetária--   implicam romper estruturas anacrônicas, descontentar interesses calcificados e construir novas turbinas de dinamismo.

Durante boa parte de seu ciclo de governo, o PT acreditou que era possível reacomodar essas variáveis com ajustes a frio, ao largo de uma contrapartida de maior participação democrática dos principais beneficiados por essas transformações.

Os acontecimentos da mais feroz campanha eleitoral travada na história do  país deram ao campo progressista uma segunda chance de se desfazer dessas ilusões.

O trunfo nas urnas foi crucial para aliviar o torniquete conservador que imobiliza a ação econômica do governo desde meados de 2013.

 Mas está longe de encerrar a disputa.

A curto prazo ela talvez até se acirre.

Construir uma alternativa à lógica rentista que exaure a sociedade, tem maioria no legislativo, detém meios financeiros para sabotar a economia e dispõem de um oligopólio midiático especializado em subordinar   as expectativas da sociedade aos seus desígnios, não se faz do dia para a noite.

Sobretudo, não se fará sem um protagonista social que a conduza.

Justamente porque avançou muito nos últimos anos, explorando as linhas de menor resistência, mas também indo além delas em algumas áreas, o Brasil talvez esteja muito perto de ter atingido o limite nessa trajetória a frio.

Não avançará muito mais a partir de agora se menosprezar os interesses catalisados pelas políticas populares dos últimos dez anos.

Os avanços concretos amplamente reconhecidos no cotidiano do país –tanto que deram um novo mandato a Dilma--   formam os pilares dessa travessia.

Mas o que consolida a ponte entre o velho e o novo é o salto no discernimento histórico da sociedade.

Sua emergência requer informação plural e participação direta nas grandes decisões que dirão presente na agenda do segundo mandato da Presidenta Dilma.

Desse conjunto poderá nascer a nova hegemonia, da qual a democracia social brasileira depende para existir.

Mas ela ainda não existe. E há quem pretenda que isso nunca venha a ocorrer.

O escândalo da revista ‘Veja’  mostrou apenas  a ponta de um iceberg que se mantém intacto após o resultado das urnas.

Subestimar seu poder de fogo, mais uma vez, envolve o sério risco de se criar um desencontro definitivo entre a construção negociada de uma democracia social no país e as forças sociais  dispostas a bancá-la.

Dilma e o Brasil ganharam mais quatro anos para evitar esse desfecho.

Convém não desperdiçar o tempo.

O outro lado não o fará.