quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Jogo bruto






Por José Luís Fiori
Devemos confessar certa nostalgia pelo que ainda se pode chamar "idade de ouro da segurança", ou seja, por uma época em que mesmo os horrores eram ainda caracterizados por certa moderação e controlados por certa respeitabilidade e podiam, portanto, conservar alguma relação com a aparência geral de sanidade social". Hanna Arendt, Origens do Totalitarismo, Companhia das Letras, São Paulo, 2004, p:153
Menos de dois meses depois da queda do voo MH-17 da Malaysia Airlines, no leste da Ucrânia, o relatório preliminar da Junta Holandesa de Segurança chegou à conclusão que o Boeing 777, da Malaysia, "explodiu no ar como resultado de danos estruturais provocados por um grande numero de objetos de alta energia ("high energy objects") que penetraram no aparelho desde o exterior".
Segundo especialistas, ao contrário do que se pensou inicialmente, o avião da Malaysia Airlines teria sido atingido, portanto, por um míssil ar-ar de fragmentação que ao explodir disseminou milhares de objetos semelhantes a balas. Um tipo de armamento altamente sofisticado e de fácil identificação, que os separatistas ucranianos não têm nem nunca tiveram.
Tratados e convenções definem o "direito internacional da guerra" segundo a ética das potências ocidentais
O relatório final da junta holandesa só será publicado em meados de 2015, segundo sua porta-voz Sara Vermooij, mas seja qual for o seu veredito, parece que nenhuma das potências envolvidas no conflito está mais interessada nas verdadeiras causas e nos verdadeiros responsáveis por este homicídio coletivo de 298 pessoas estranhas à guerra. Em grande medida, porque seus efeitos políticos internacionais já foram logrados, com o afastamento entre a Alemanha e a Rússia e com o endurecimento da posição da UE, que vinha sendo defendido pelos EUA e pela Grã Bretanha.
Em 1128, São Bernardo de Clairvaux - admirado até hoje pelas igrejas católica, anglicana e luterana - cunhou a expressão "malecídio", para referir-se e para defender moralmente o homicídio dos hereges, feito em nome de Deus. São Bernardo estava pensando e justificando o extermínio dos mouros pelas Cruzadas dos séculos XI e XII, mas, de uma forma ou outra, esta mesma tese reaparece mais tarde na teoria da "guerra justa", defendida pelos teólogos espanhóis dos séculos XVI e XVII, que também consideravam ético o extermínio dos indígenas americanos que resistissem à fé e à civilização cristã.
Esta teoria mudou sua fundamentação - depois de Hugo Grotius (1583-1645) e de Samuel Pufendorf (1632-1694) - mas manteve o mesmo princípio e a mesma distinção que segue presente nos tratados e convenções dos séculos XIX e XX, que definem o "direito internacional da guerra" segundo a visão ética das potências ocidentais. Em todas as épocas, esta chamada "ética internacional" foi definida e aplicada pelas grandes potências de cada momento, começando pela Igreja Católica, e sempre distinguiu e opôs o assassinato dos "amigos", ou "homens de bem", ao "malecídio" dos inimigos, ou "homens do mal", por meio de matrizes binárias e muito simples. E foi sempre em nome destas matrizes éticas que as grandes potências de cada época arbitraram e executaram todo tipo de "malecídios", com ampla liberdade e total convencimento moral.
Durante a Guerra Fria, por exemplo, em nome da "contenção comunista", os Estados Unidos utilizaram-se do "incidente do Golfo de Tonkin" para declarar guerra ao Vietnã do Norte, em 1964. E depois de 40 anos, a Agência de Segurança Nacional americana reconheceu - em 2005 - que o incidente com as "torpedeiras norte-vietnamitas nunca foi realmente confirmado"1. Da mesma forma que os EUA e a Bélgica participaram da conspiração que levou ao assassinato do líder nacionalista africano, Patrice Lumumba, ocorrida em 1961, mas só reconheceram sua co-responsabilidade, mais de 40 anos depois2.
Da mesmo forma em que agora, no ano de 2014, uma comissão de alto nível, formada por juristas e diplomatas de renome internacional, convocados pelas Nações Unidas, reconheceu que a morte do Secretário Geral da ONU, Dag Hammarskjöld, em 1961, num acidente aéreo sobre a Rodésia do Norte, pode ter sido causada por um atentado. Como foi também o caso de outro líder africano, Samora Machel, morto em 1986, num outro acidente aéreo que teria sido organizado pelo serviço secreto soviético3.
Esta lista de "malecídios" poderia seguir e seria quase infinita. Mas neste caso qual seria a grande novidade deste novo "incidente da Ucrânia"? Antes de mais nada, a Guerra Fria parece que deixou o mundo ocidental sem uma baliza ética binária e simples, de utilização automática, e a nova tábua dos "direitos humanos" tem sido aplicada de forma absolutamente arbitrária e seletiva pelos europeus e americanos, sobretudo na sua lambança do Oriente Médio.
E o que é mais importante e novo, é que essa arbitrariedade tem ficado mais visível - ao contrário dos tempos de Tonkin - graças à instantaneidade da informação e ao vazamento cada vez mais frequente dos "segredos de Estado" das grandes potências, que revelam a existência de infinitos pesos e medidas na aplicação das regras criadas pelos próprios europeus e seus descendentes. Por último, como consequência destas incoerências e arbitrariedades explícitas das grandes potências, se pode dizer que está em pleno curso um processo de "terciarização" do arbítrio e da execução de "malecídios" banalizados como instrumento de luta política local dentro dos países considerados relevantes para a geopolítica das grandes potências.
José Luís Fiori, professor titular de economia política internacional da UFRJ, é autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, e coordenador do grupo de pesquisa do CNPQ/UFRJ "O Poder Global e a Geopolítica do Capitalismo". Escreve mensalmente às quartas-feiras.

Moniz Bandeira escreve carta ao presidente do PSB

Transcrito do Portal Forum

O renomado cientista político e historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira escreve uma carta ao presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Roberto Amaral, expondo o que simboliza a candidatura de Marina Silva, representante da sigla, na disputa à Presidência da República


“Estimado colega, Prof. Dr. Roberto Amaral
Presidente do PSB,
A Srª Marina Silva tinha um percentual de intenções de voto bem maior do que o do governador Eduardo Campos, mas não conseguiu registrar seu partido – Rede Sustentabilidade – e sair com sua própria candidatura à presidência da República.
O governador Eduardo Campos permitiu que ela entrasse no PSB e se tornasse candidata a vice na sua chapa. Imaginou que seu percentual de intenções de voto lhe seria transferido.
Nada lhe transferiu e ele não saiu de um percentual entre 8% e 10%. Trágico equívoco.
Para mim era evidente que Sra. Marina Silva não entrou no PSB, com maior percentual de intenções de voto que o candidato à presidência, para ser apenas vice.
A cabeça de chapa teria de ser ela própria. Era certamente seu objetivo e dos interesses que representa, como o demonstram as declarações que fez, contrárias às diretrizes ideológicas do PSB e às linhas da soberana política exterior do Brasil.
Agourei que algum revés poderia ocorrer e levá-la à cabeça da chapa, como candidata do PSB à Presidência.
Antes de que ela fosse admitida no PSB e se tornasse a candidata a vice, comentei essa premonição com grande advogado Durval de Noronha Goyos, meu querido amigo, e ele transmitiu ao governador Eduardo Campos minha advertência.
Seria um perigo se a Sra. Marina Silva, com percentual de intenções de voto bem maior do que o dele, fosse candidata a vice. Ela jamais se conformaria, nem os interesses que a produziram e lhe promoveram o nome, através da mídia, com uma posição subalterna, secundária, na chapa de um candidato com menor peso nas pesquisas.
O governador Eduardo Campos não acreditou. Mas infelizmente minha premonição se realizou, sob a forma de um desastre de avião. Pode, por favor, confirmar o que escrevo com o Dr. Durval de Noronha Goyos, que era amigo do governador Eduardo Campos.
Uma vez que há muitos anos estou a pesquisar sobre as shadow wars e seus métodos e técnicas de regime change, de nada duvido. E o fato foi que conveio um acidente e apagou a vida do governador Eduardo Campos. E assim se abriu o caminho para a Sra. Marina Silva tornar-se a candidata à presidência do Brasil.
Afigura-me bastante estranho que ela se recuse a revelar, como noticiou a Folha de S.Paulo, o nome das entidades que pagaram conferências, num total (que foi, declarado) de R$1,6 milhão (um milhão e seiscentos mil reais), desde 2011, durante três anos em que não trabalhou. Alegou a exigência de confidencialidade. Por que a confidencialidade? É compreensível porque talvez sejam fontes escusas. O segredo pode significar confirmação.
Fui membro do PSB, antes de 1964, ao tempo do notável jurista João Mangabeira. Porém, agora, é triste assistir que a Sra. Marina Silva joga e afunda na lixeira a tradicional sigla, cuja história escrevi tanto em um prólogo à 8ª edição do meu livro O Governo João Goulart, publicado pela Editora UNESP, quanto em O Ano Vermelho, a ser reeditado (4a edição), pela Civilização Brasileira, no próximo ano.
As declarações da Sra. Marina Silva contra o Mercosul, a favor do subordinação e alinhamento com os Estados Unidos, contra o direito de Cuba à autodeterminação, e outras, feitas em vários lugares e na entrevista ao Latin Post, de 18 de setembro, enxovalham ainda mais a sigla do PSB, um respeitado partido que foi, mas do qual, desastrosamente, agora ela é candidata à presidência do Brasil.
Lamento muitíssimo expressar-lhe, aberta e francamente, o que sinto e penso a respeito da posição do PSB, ao aceitar e manter a Sra. Marina Silva como candidata à Presidência do Brasil.
Aos 78 anos, não estou filiado ao PSB nem a qualquer outro partido. Sou apenas cientista político e historiador, um livre pensador, independente. Mas por ser o senhor um homem digno e honrado, e em função do respeito que lhe tenho, permita-me recomendar-lhe que renuncie à presidência do PSB, antes da reunião da Executiva, convocada para sexta-feira, 27 de setembro. Se não o fizer – mais uma vez, por favor, me perdoe dizer-lhe – estará imolando seu próprio nome juntamente com a sigla.
As declarações da Sra. Marina Silva são radicalmente incompatíveis com as linhas tradicionais do PSB. Revelam, desde já, que ela pretende voltar aos tempos da ditadura do general Humberto Castelo Branco e proclamar a dependência do Brasil, como o general Juracy Magalhães, embaixador em Washington, que declarou: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”
Cordialmente,
Prof. Dr. Dres. h.c. Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira”
Che Guevara se reúne com Jânio Quadros; Moniz Bandeira acompanha a reunião de pé, ao fundo

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, mais conhecido como Moniz Bandeira é professor universitário, cientista político e historiador, especialista em política exterior do Brasil e suas relações internacionais, principalmente com a Argentina e os Estados Unidos, sendo autor de várias obras.
No tempo da ditadura militar no Brasil, Moniz Bandeira foi filiado ao PSB, dentro do qual foi um dos organizadores da corrente denominada Política Operária (Polop), asilou-se no Uruguai, acompanhando o presidente João Goulart, em conseqüência do golpe militar no Brasil, em 1964.
Algum tempo depois, voltou clandestinamente ao Brasil e esteve dois anos (1969-1970 e 1973) como preso político, por ordem do Cenimar (Centro de Informações da Marinha). Mesmo perseguido pelo regime militar e na clandestinidade, Moniz Bandeira não cessou suas atividades literárias e de pesquisa. (Wikipédia)


Brasil sai do mapa da fome mundial

https://www.youtube.com/watch?v=8OSDveDvT4c&feature=youtu.be

O comportamento da imprensa na hora de escolher candidatos

 

É comum na imprensa escrita americana, na véspera das eleições, os grandes jornais assumirem abertamente em editorial o apoio a um candidato. Com isso expõe a posição justificada do dono do jornal, que se distingue da posição do jornal em seu noticiário cotidiano. Esta deve ser, na cobertura da campanha, a mais imparcial possível. Claro, nunca será totalmente imparcial. Mas ao menos se finge fazer um esforço nesse sentido.
Não tenho nenhuma simpatia especial pelo sistema político americano, que é uma democracia elitista dominada por grupos de interesse, mas gosto desse comportamento espontâneo da imprensa escrita do país, que a “Folha”, entre nós, costuma copiar. Ninguém pode negar ao dono do jornal uma opinião política. Mas o dono de jornal que permeia o noticiário comum do jornal com sua opinião parcial está manipulando a notícia.
O colunista tem mais graus de liberdade pois “vende” a sua opinião pessoal. No meu caso, já expus a minha, mais de uma vez, no plano federal: votarei em Dilma pelos méritos dela, não só pelos defeitos de Marina e Aécio. Coloco-me entre os que são contra o neoliberalismo, contra a suposta auto-regulação dos mercados que levou à crise de 2008 (que  se arrasta), contra o Estado mínimo que avilta as políticas públicas, como na atual Europa, e acho que Dilma pode ser um seguro contra isso.
Aliás, não entendo por que políticos como Marina e Aécio lutam tanto para tomar as rédeas do Estado quando, no plano doutrinário, querem reduzir ao máximo o seu papel na sociedade. Mais do que isso, no meu entender, só um Estado forte, com amplo apoio social, será capaz de continuar a promover o movimento de reinserção internacional brasileiro com BRICS e a Unasul, o qual é a única real opção estratégica para escaparmos de uma recessão permanente e de uma regressão econômica sob as bênçãos dos EUA e da Europa.
Mas temos também eleição estadual. Nesse campo, acompanho com esperança a candidatura de Crivella no Rio. Poderia dar vários motivos para isso mas me limitarei a um: é um dos poucos políticos brasileiros que buscam conscientemente o poder com o objetivo explícito de promover políticas públicas estruturantes, capazes de fazer mudar para melhor o marco administrativo do Rio. Seu plano de governo reflete isso, atacando os pontos centrais de saúde, educação, mobilidade urbana, segurança e desenvolvimento econômico.
Com 12 anos como senador ou ministro, Crivella conseguiu, paulatinamente, remover os preconceitos religiosos que pretenderam transformá-lo num fundamentalista evangélico, omitindo o fato de que, em todo esse tempo como político eleito, não há uma única iniciativa sua no Congresso – e são dezenas – que privilegia segmentos confessionais.  É um típico republicano, refletindo o nome do partido que construiu com José Alencar, de quem foi amigo e correligionário íntimo.
A população fluminense tem sido vítima de políticos inescrupulosos, corruptos, demagogos ou fisiológicos desde o golpe de 64. Na chamada “revolução”, os principais líderes políticos da Guanabara, núcleo do que seria o Estado do Rio, foram cassados pelo regime ditatorial, sendo o poder local entregue a Chagas Freitas, linha auxiliar da ditadura. O Estado nunca se recuperou disso. Depois de um curto período de administração relativamente sadia, na fusão, o Estado voltou às mãos de Chagas, seguindo-se Brizola, Moreira, Marcelo Alencar, e agora Garotinho, Rosinha e Cabral. Parece que enterraram uma caveira de burro no jardim do Palácio Guanabara. Insistir, no Rio, com Cabral-Pezão ou Garotinho é um excesso! É preciso desenterrar a caveira do palácio com Crivella.
J. Carlos de Assis - Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

Marco Aurélio Garcia critica propostas de política externa de Marina

Pablo Giuliano, Radio Intereconomia (Espanha)
Via Carta Maior 

São Paulo - O assessor especial para assuntos internacionais da presidenta Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, afirmou sábado (20) que o Brasil não tem uma "vocação imperial", em resposta ás declarações da candidata opositora Marina Silva, sobre Cuba. "O Brasil não tem vocação imperial, não é uma agência de certificação que distribuiu definições sobre outros países. Respeitamos Cuba, assim como respeitamos Estados Unidos, França e China, por exemplo", disse Garcia em uma entrevísta à Agência EFE.

Marco Aurélio García, que mantem seu cargo desde a época de Luiz Inácio Lula da Silva (2003 - 2010) e foi presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), objetou a declaração de Marina à imprensa dos Estados Unidos sobre Cuba. A candidata opositora disse que "melhor forma de ajudar ao povo cubano é compreender que podem fazer a transição do atual regime para a democracia e que não precisamos cortar nenhum tipo de relações" e que ajudará, caso eleita, com esforços diplomáticos para defender valores como os direitos humanos.

Para o assessor da presidência, qualquer tentativa de opinar sobre a situação interna de outro país vai contra a posição da diplomacia brasileira. "Não temos posição de intervir em nenhum país do mundo e respeitamos o princípio da autodeterminação. isso presidiu nossa relação na América Latina e no Caribe. Os rumos do Estado cubano devem ser decididos pelos próprios cubanos", defendeu Garcia.

O governo brasileiro financia a modernização do Porto de Mariel, em Cuba, com um custo aproximado de 957 milhões de dólares, a maior parte em empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O porto é visto como estratégico para o comércio brasileiro na região caribenha.

Marco Aurélio Garcia também rechaçou a ideia de Marina Silva de que é preciso "retomar" as relações com os Estados Unidos. "Que eu saiba não houve nenhuma ruptura de relações", observou.

A presidenta Dilma Rousseff cancelou em 2013 uma visita oficial a Washington em função da revelação de que ela e outros funcionários brasileiros foram vítimas de espionagem por parte da Agência Nacional de Segurança (NSA), denúncia feita por Edward Snowden.

Garcia contou que esteve reunido no início de setembro com a secretária de Estado dos EUA poara Assuntos do Hemisfério Ocidental, Roberta Jacobson, e qualificou o episódio da espionagem contra Dilma como uma "mancha" ou uma "sombra".

 "Se a candidata (Marina Silva) não considera isso relevante me surpreende muito, não é algo irrelevante, o que não quer dizer que crie um clima de hostilidade permanente entre nossos países, mas vamos ter que discutir como superar esta mancha", avaliou Marco Aurélio Garcia. Ele disse ainda que o governo do Brasil que estabelecer uma relação "simétrica" com Washington.

 "O Brasil sabe da importância que os EUA têm no mundo e nas Américas e temos que ver as formas para que estes episódios não voltem a acontecer. Queremos ter uma relação aimpetrica e não uma relação assimétrica".

Para Garcia, as propostas de governo apresentadas por Marina "são contraditórias". Ele lembrou que o governo de Dilma a partir de 2010 foi marcado pela crise mundial e o papel do G-20. Destacou ainda que as crises financeiras dos EUA e Europa geraram vários cenários, sobretudo a partir dos BRICS (Brasil, Rússia, India, China e África do Sul). "Em 2010, os BRICS eram apenas uma ideia, hoje tem uma consistência maior, com um fundo de reservas, o banco dos BRICS".

O assessor criticou a flexibilização do Mercosul (integrado por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) proposta por Marina Silva para poder negociar unilateralmente e com velocidades diferentes um acordo de livre comércio que se negocia com a União Europeia. "Atualmente a única proposta consistente que temos é sobre um acordo Mercosul-União Europeia e estamos dispostos a concluí-lo. Entregamos uma proposta comum e o que sabemos até agora é que a União Europeia não tem uma posição comum". Ele assegurou que a intenção dos países sulamericanos é apostar em um acordo dentro da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Segundo Garcia, a diplomacia do Brasil quer "consolidar o Mercosul e convertê-lo em uma união aduaneira, persistindo nisso na relação com seus membros", à espera dos próximos possíveis sócios, como Bolívia e Equador.  "O comércio intra-Mercosul é muito relevante. A Argentina é um dos três principais sócios comerciais do Brasil. Se a expensão nesse comércio não é maior é em função de dificuldades mundiais e regionais", declarou.


Tradução: Louise Antônia Leon

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A Petrobrás, a PNAD e o coro da insignificância nacional


Saul Leblon no Carta Maior

postado em: 22/09/2014
Imagine-se que o México, por exemplo, do novo herói de Wall Street, Enrique Peña Nieto; ou a Espanha, do imperturbável ‘austericida’, Mariano Rajoy; ou mesmo os EUA, do flácido Barack Obama, reunisse, em uma única semana, essa que passou, as seguintes conquistas no portfólio do seu governo:

1. O país fosse declarado pela FAO um território livre da fome, praticamente erradicada nos últimos 11 anos;

2. Tivesse a notícia de que a miséria extrema fora igualmente reduzida em 75%, no mesmo período;

3. Constatasse que após seis anos de uma interminável crise mundial, a renda média mensal das famílias continuasse a crescer, tendo se elevado em 3,4% acima da inflação em 2013 (dado da PNAD já corrigida);

4. E que o rendimento médio dos trabalhadores assalariados, no mesmo período, registrou um aumento de 3,8% acima da inflação e acima do PIB, de 2,5%;

5. Ainda: que enquanto a renda dos 10% mais ricos cresceu 2,1%, a dos lares mais pobres, incluindo-se os benefícios das políticas sociais, avançou 2,9%, o que contribuiu para um pequeno, mas persistente recuo da desigualdade, em declínio desde 2004;

6. Mais: que o trabalho infantil em 2013 caíra 12,3%; a matrícula na pré-escola atingira 81% das crianças e o trabalho com carteira assinada já englobaria 76% dos assalariados;

7. Não só; a consolidação dos indicadores sociais dos últimos 11 anos, embora não tenha quebrado os alicerces de uma das construções capitalistas mais desiguais do mundo, mexeu em placas tectônicas. A renda média da sociedade aumentou 35% acima da inflação entre 2004 a 2013. Mas a dos 10% mais pobres cresceu o dobro disso (cerca de 73%); e entre os 50% mais pobres, avançou mais de 60%, com repercussões óbvias no padrão da produção e da demanda, no conforto doméstico e nas expectativas em relação ao futuro;

8. A mesma semana generosa incluiria ainda a informação de que as novas reservas de petróleo desse país, responsável por 40% das descobertas mundiais nos últimos cinco anos, já representam 24% da produção nacional; 9. E, por fim, que o investimento em infraestrutura, depois de três décadas de declínio sistemático --repita-se, três décadas de recuos sucessivos-- registrou uma inflexão e passou a crescer o equivalente a 2,4% do PIB, em média, de 2011 a 2013.

Qual seria a reação do glorioso jornalismo de economia diante desse leque de vento bom, se a mão que o abanasse fosse a dos titãs dos mercados?

Não seríamos poupados de manchetes faiscantes, a alardear a eficácia das boas práticas do ramo.

Mas as boas notícias tem como moldura o Brasil.

Presidido pela ‘intervencionista’ Dilma Rousseff, candidata petista à reeleição e detentora de teimosa liderança nas pesquisas do 1º turno.

Isso muda tudo.

Muda a ponto de um acervo desse calibre ser martelado como evidência de retrocesso social no imaginário brasileiro.

Muda a ponto de Marina valer-se dessa ocultação da realidade para decretar que Dilma entregará um país ‘pior do que o que recebeu'.

O padrão ‘Willian Bonner’, como se vê, faz escola.

A indigência do debate impede não apenas que o Brasil se enxergue como o país menos desigual de toda a sua história, mas, sobretudo, interdita a autoconfiança da sociedade nos seus trunfos para avançar um novo passo nessa direção.

Não se subestime aqui a persistência de gargalos significativos nessa trajetória. Juros descabidos, por exemplo. E uma paridade cambial fora de lugar há duas décadas. Com toda a guarnição de perdas e danos que esse desajuste de dois preços essenciais pode acarretar.

Embora sejam apresentados como prova do genuíno fracasso petista, a verdade é que desarranjos macroeconômicos não constituem exceção na história econômica do país.

Será necessário recordar, à nova cristã do tripé, que sob o comando de Armínio Fraga, virtual ministro dela ou de Aécio , o BC elevou a taxa de juro a 45%, em março de 1999?

Que a dívida pública explodiu sob a gestão do festejado herói dos mercados?

E que a defasagem cambial sob FHC exigiu uma maxidesvalorização de 30% em janeiro de 1999, escalpelando o poder de compra das famílias assalariadas?

Ou que as perspectivas da inflação então oscilavam entre 20% e 50% ao ano; maiores que as da enxovalhada Argentina hoje?

O banco de dados do glorioso jornalismo de economia dispõe desses dados.

Que ali hibernam a salvo da memória nacional.

O fato é que se alguns desequilíbrios se repetem –em escala muito menor, caso do juro de 11% e da paridade cambial de R$ 2,25-- os trunfos, ao contrário, caracterizam uma auspiciosa singularidade.

E não avançam apenas da esfera social para o mercado, mas vice versa.

A economia brasileira dispõe agora de reservas em moeda estrangeira da ordem de US$ 400 bi, com um fiador estratégico de peso muito superior a esse.

Uma poupança de petróleo e gás, que pode chegar a 100 bilhões de barris, avaliada em cerca de R$ 5 trilhões, revestida de domínio de tecnológico e escala para traduzir-se em soberania, autossuficiência e receitas, pavimenta o futuro do crescimento nacional.

Não só.

Em plena crise mundial, o país alicerçou um dos mercados de massa mais cobiçados do planeta e um mercado de trabalho que flerta com o pleno emprego.

A sociedade brasileira é uma das poucas em todo o planeta a desfrutar de uma combinação vital ao futuro humanidade: autossuficiência alimentar e fontes abundantes de energia limpa.

Sua dívida pública é estável, proporcionalmente baixa em relação ao PIB (37%) e aos padrões mundiais.

A planta industrial embora esgarçada, carente de competitividade, preserva escala e encadeamentos que ainda distinguem o país em relação às demais nações em desenvolvimento. Ainda que setores respirem por aparelhos, não está morta.

As empresas estão líquidas, são lucrativas, têm caixa suficiente –hoje alocado no rentismo-- para deflagrar um novo ciclo de expansão.

O país conta, ademais, com uma invejável rede de bancos públicos e possui um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo (o BNDES é maior que o Banco Mundial); o nível de endividamento das famílias é proporcionalmente baixo em relação à média internacional e o sistema de crédito é sólido.

Não é pouco, mesmo considerando-se as novas condições de mobilidade de capitais que restringem o poder dos governantes para ordenar o desenvolvimento.

Com muito menos que isso, Getúlio Vargas afrontou o cerco conservador nos anos 50.

Se dependesse das restrições da época, e do imediatismo das elites, ele não teria criado a Petrobrás, por exemplo.

Tampouco insistido na industrialização.

Assim como Juscelino não teria feito Brasília.

Ou Celso Furtado –desdenhado pela assessoria ‘moderna’ de Marina-- teimado em erradicar o apartheid nacional, que tinha no Nordeste um quê de bantustão avant la lettre.

A determinação de viabilizar cada uma dessas agendas extraiu do engajamento popular e dos fundos públicos a viabilidade sonegada pelas elites, seus sócios estrangeiros e seu aparato emissor.

A seta do tempo não se quebrou: hoje a Petrobrás é a empresa que tem a maior carteira de investimento do mundo; o Nordeste é a região que lidera o crescimento do poder de compra popular; o Centro-Oeste é um dos polos agrícolas mais dinâmicos do país.

Operadores de Marina e Aécio fazem gestos nervosos na lateral de campo da disputa eleitoral.

Apontam o relógio para dizer que o tempo do jogo da soberania com justiça social esgotou.

Exigem que o eleitor encerre a disputa e aceite a derrota definitiva desse capítulo na história nacional.

O jogral tem experiência no ramo dos vereditos incontrastáveis.

O desdém pelo Brasil mais justo que progressivamente emerge das PNADs é uma prova.
O diabo é a Petrobrás. E as arrancadas do pré-sal.

A dupla adiciona uma dissonância não negligenciável ao discurso da insignificância brasileira na coordenação do futuro do seu desenvolvimento.

Tem peso e medida para representar um indutor de crescimento mais consistente e duradouro que o ciclo recente de valorização das commodities, ao qual o discurso conservador atribui toda a extensão dos avanços sociais registrados nos últimos anos.

Nesse sentido, a simbologia da Petrobrás ficou até maior do que foi nos anos 50.

Hoje ela deixou de significar apenas petróleo nacional. Para se tornar o espelho de uma dissidência poderosa aos interditos dos mercados no século XXI.

Fortemente imbricada nas encomendas cativas de toda a cadeia da extração, refino e usos sofisticados da petroquímica, a regulação soberana do pré-sal facultou ao país um novo berçário industrializante.

Não é o canto do cisne da luta pelo desenvolvimento, como querem alguns.

Pode ser o aggiornamento de um modelo.

A integração entre compras direcionadas à indústria brasileira e o investimento em cadeias produtivas relevantes, já funciona, de forma similar, e com sucesso, nas aquisições de medicamentos para o SUS, com fomento da rede de laboratórios nacionais pelo BNDES.

Se esse modelo entrar em voo de cruzeiro, o discurso da insignificância brasileira na definição do passo seguinte do seu crescimento entrará em coma.

O pré-sal é o ponteiro decisivo da corrida contra o ultimato conservador dos operadores de Marina e Aécio.

É coerente que tenha merecido apenas uma única e mísera linha no pr0grama de 242 páginas de Marina Silva ; assim: “Destinar ao orçamento da educação os royalties do petróleo em áreas do pré-sal já concedidas”. Ponto.

É mais que isso o que está em jogo.

No ciclo do próximo governo –e por isso é crucial ele seja progressista-- o pré-sal, mantida a regulação soberana do regime de partilha, avançará exponencialmente para responder por 50% da produção brasileira em 2018.

O país estará, então, no limiar de dispor de 4,2 milhões de barris/dia, o dobro da oferta atual, com excedentes exportáveis robustos e crescentes.

Não são apenas negócios.

Cerca de 75% dos royalties do pré-sal vão para a educação; 25% para a saúde.

Mais de 300 mil jovens brasileiros serão treinados diretamente nos próximos anos pelo Promimp, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural.

Um parque tecnológico de ponta em pesquisa de energia, com adesão de inúmeras multinacionais, está nascendo no Fundão, junto à Universidade Federal do Rio de Janeiro, colado à agenda do pré-sal.

A indústria naval brasileira que havia desaparecido nos anos 90 agora é a quarta maior do mundo e emprega 100 mil pessoas.

As receitas do refino –filé da indústria do petróleo—ficarão em boa parte no país, graças a um esforço hercúleo da Petrobrás de investir em uma rede de refinarias, heresia sepultada pelo PSDB e a turma da Petrobrax nos anos 90.

Desqualificar a estatal criada por Getúlio –‘o PT colocou um diretor lá por 12 anos par assaltar os cofres da empresa’, diz a doce Marina-- significa para o conservadorismo uma vacina de vida ou morte contra um perigo maior.

Aquele que pode levar o discernimento nacional a enxergar no épico contrapelo do pré-sal, sob o guarda-chuva de uma estatal poderosa, a inspiração para um modelo capaz de destravar o arranque de um novo ciclo de expansão em outras áreas.

Não se trata de uma gincana acadêmica.

Trata-se de ter ou não a soberania sobre o crescimento e a produtividade indispensáveis aos bons indicadores de futuras PNADs.

Que reúnam avanços iguais, ou maiores, que esses que o glorioso jornalismo de economia se esmerou em desqualificar na semana passada. Mas para os quais não oferece nenhuma alternativa, exceto o coro mórbido da insignificância nacional na construção do futuro.


Celso Furtado, golpe de 1964 e as eleições de 2014


Pedro Paulo Zahluth Bastos no Carta Maior

postado em: 23/09/2014

Celso Furtado é provavelmente o mais conhecido economista brasileiro. Seus livros contam com várias edições, foram traduzidos em diversos idiomas e são redescobertos ainda hoje, dez anos após sua morte, por estudantes universitários e cidadãos interessados. Como é também uma referência para aqueles que lutam por desenvolvimento com maior autonomia nacional e justiça social, não surpreende que Furtado seja periodicamente o alvo de economistas neoliberais.

Em 2006, Eduardo Gianetti dividia mesa em um simpósio na PUC-SP sobre os 50 anos do Plano de Metas comigo e Francisco de Oliveira, quando fomos forçados a ouvir dele que Celso Furtado nunca escrevera uma linha sobre a importância da educação para o desenvolvimento. Depois de ouvir respostas fundamentadas em leituras mais atentas de Furtado, desconheço se Gianetti escreveu alguma linha sobre o assunto. Essas linhas abundam, no entanto, na lavra de Samuel Pessoa, economista da FGV ligado ao PSDB, e agora de Alexandre Rands, professor e empresário do setor de telemarketing, coordenador do programa econômico de Marina Silva.

Sobre Furtado, Pessoa já afirmou que “em nenhum momento da vida produtiva dele, de 50 anos, achou que havia qualquer relação entre falta de educação e subdesenvolvimento” (Época, 10/09/2012). Pessoa considera que, com doses suficientes de educação, a especialização produtiva do país nada importa para seu potencial de crescimento. Rands chama Furtado diretamente para a campanha eleitoral:

“Na visão de Marina, as reformas institucionais são importantes, mas mais importante ainda é o impulso da educação... Na visão de Dilma, desenvolvimento é feito por demanda (consumo). É impressionante porque, mesmo com pleno emprego, ainda mantêm isso, junto com a visão estruturalista de privilegiar um ou outro setor com políticas discricionárias... É um modelo econômico altamente inflacionário, baseado no Celso Furtado.” (O Globo, 14/09/2014).

As duas assertivas são caracterizações extremamente empobrecedoras da riqueza do pensamento de Furtado. É difícil afirmar que seus autores tenham lido Furtado com atenção, como mostrarei, nesse primeiro artigo, para a relação entre consumo, inflação e desenvolvimento. Como se sabe, a obra de Furtado influenciou internacionalmente na direção da ampliação dos temas relativos ao desenvolvimento econômico em pelo menos duas direções.

Primeiro, Furtado demonstrou a inexistência de leis universais que descrevam e expliquem a trajetória de desenvolvimento de diferentes economias. Fascinados pelas ciências da natureza, economistas liberais viviam e ainda vivem à procura de explicações simples e universais, a-históricas, para o desenvolvimento econômico, entendido como aumento da produtividade e da riqueza das nações: livre concorrência (local e internacional), preços livres de intervenção estatal ou conluio monopolista, um Estado garantidor de contratos e ofertante apenas das poucas externalidades que o mercado não oferece adequadamente (como educação, infraestrutura e, pelo menos depois de 2008, regulação financeira...). Qualquer país poderia trilhar o caminho dos países desenvolvidos caso repetisse a mesma fórmula liberal que supostamente tinham seguido, mesmo que não copiasse também seus ramos intensivos em ciência e tecnologia e mantivesse a especialização em ramos de menor valor agregado.

Desenvolvimento e subdesenvolvimento

Furtado rejeitou essa fórmula fácil e incorporou o tempo e o espaço na equação do desenvolvimento, aprofundando ideias do economista argentino Raul Prebisch e outros. Propôs pensar desenvolvimento e subdesenvolvimento como polos de um mesmo sistema: o sistema Centro-Periferia, herdeiro direto do antigo sistema colonial. Os países desenvolvidos, a partir da industrialização precoce, eram os centros criadores de tecnologias cada vez mais complexas, emitiam moedas fortes e controlavam serviços financeiros, produtivos e de comercialização de alto valor agregado. Desde sua origem, os países subdesenvolvidos foram periferias subordinadas que se especializaram em ramos de menor valor agregado, particularmente commodities primárias demandadas pelas antigas metrópoles coloniais que se transformaram nos países desenvolvidos industrializados.

Comparados à indústria, os ramos produtores de commodities tinham demanda menos dinâmica a longo prazo, menores barreiras à entrada de novos concorrentes e horizontes de progresso tecnológico bastante restrito. O horizonte tecnológico limitado não resultava apenas da precariedade do sistema de ciência, educação e tecnologia nos países pobres e da falta de recursos excedentes para financiar sua transformação: não se pode desconsiderar as próprias restrições físicas do objeto natural cultivado ou extraído, que limitam a agregação possível de valor, e a geração de excedentes, antes de sua transformação industrial. O setor primário nunca gerará excedentes nem será tão intensivo em ciência, tecnologia e educação quanto as inovações que transformam o setor industrial e, em menor medida, os serviços a ele associados.

Ao contrário das narrativas lineares do liberalismo, Furtado demonstrou que os países subdesenvolvidos não estavam simplesmente atrasados no mesmo percurso trilhado pelos desenvolvidos: ocupavam uma posição integrada a um sistema favorável aos países desenvolvidos. A estes interessava difundir o mito liberal da harmonia entre países que controlavam ramos e tecnologias tão assimétricos, a agropecuária e a extração mineral, de um lado, a indústria de transformação e serviços elaborados, de outro. Um país subdesenvolvido não estava, portanto, apenas atrasado, mas fadado a reproduzir sua pobreza relativa e sua heterogeneidade interna (entre ramos, regiões e populações) caso aceitasse passivamente os mitos liberais e não se libertasse das restrições estruturais determinadas por sua posição periférica.

Crescimento e desenvolvimento

A segunda contribuição notável de Furtado foi distinguir claramente crescimento e desenvolvimento econômico, de duas maneiras. Inicialmente, Furtado defendeu que, embora qualquer país subdesenvolvido pudesse crescer por algum tempo sem modificar sua estrutura econômica, o crescimento só seria sustentado caso mudanças estruturais fossem realizadas de modo planejado, uma vez que não resultariam espontaneamente das decisões de agentes guiados pelos incentivos de preços relativos em livre mercado.

A principal restrição ao crescimento dos países subdesenvolvidos é a de balanço de pagamentos, que se manifesta sempre que não conseguem pagar importações de maior valor agregado e serviços financeiros e produtivos externos, com suas exportações de menor valor agregado e preços instáveis. A receita liberal padrão, imposta ainda hoje pelo Fundo Monetário Internacional, é a do ajuste recessivo com desvalorização cambial, doa a quem doer. Abstraindo por ora a que grupos sociais se destinam as dores e os ganhos, Furtado alegava que o ajuste recessivo pode ter resultados a curto prazo, mas não assegura que a restrição não retorne assim que o país volte a crescer. Para aumentar o potencial de crescimento, portanto, é necessária uma diversificação da estrutura produtiva que, a longo prazo, aumente exportações e substitua importações.

Ao contrário do que as narrativas liberais veiculam, a chamada industrialização por substituição de importações não foi iniciada pelo conluio de planejadores estatistas e empresários predadores de rendas, a partir da década de 1930 para alguns países subdesenvolvidos, e pós-Segunda Guerra para outros. Resultou, sim, da resposta espontânea de agentes de mercado à mudança de preços relativos provocada por crises cambiais. A cada crise cambial, contudo, a substituição de importações simples aumentava a demanda por bens de produção e serviços importados cuja substituição posterior era mais difícil. De fato, a nova pauta de importações tendia a concentrar-se em bens e serviços cuja oferta interna era barrada por exigências de tecnologia, financiamento e escala de mercado que afastavam empresas nacionais e estrangeiras, umas por incapacidade, outras por cálculo de rentabilidade e risco.

Como o livre mercado não resolvia espontaneamente a situação, não bastava ao Estado oferecer externalidades, como infraestrutura ou educação, sem influenciar indiretamente na alocação dos recursos privados através de impostos e subsídios ou mesmo alocar diretamente recursos através de empresas e bancos públicos. Furtado compreendeu que não havia solução duradoura para as restrições ao crescimento senão através da orientação de investimentos em ramos específicos e a superação de estrangulamentos de oferta com apoio estatal. Isso significa estimular a demanda e o consumo indiscriminadamente, como sugere os ortodoxos?

Muito pelo contrário, Furtado argumentou que a abertura comercial indiscriminada – defendida por neoliberais como Pessoa e Rands – desperdiçaria reservas cambiais escassas com importações de bens de consumo supérfluos ou bens necessários na produção de bens de consumo supérfluos. Logo, era necessário inibir tanto sua importação quanto sua produção local. Por quê? Exatamente para canalizar recursos escassos para investimentos que ampliam a capacidade de produção local de bens essenciais. O que seria essencial para superar o subdesenvolvimento? Insumos e bens de capital que realimentam o potencial de crescimento, assim como bens de consumo básico e infraestrutura social para reduzir desigualdades de acesso ao consumo e de capacitação entre os cidadãos.

A escolha política na destinação do excedente social

Isto nos leva à segunda forma de distinguir crescimento e desenvolvimento. Ao longo de sua obra, Furtado estendeu o significado de desenvolvimento para abarcar não apenas mudanças na estrutura econômica e nas instituições políticas que alargassem o potencial de crescimento econômico, mas que apontassem na direção da homogeneidade socioeconômica e justiça social. Furtado não era contrário ao crescimento econômico acelerado, porém tampouco defendia qualquer estilo de crescimento. Seu ideal era uma sociedade com menor concentração da propriedade e da renda, que eliminasse a pobreza extrema e superasse racionalmente os desequilíbrios e estrangulamentos inerentes ao processo de desenvolvimento.

Como direcionar investimentos para a superação de estrangulamentos e, ao mesmo tempo, não comprimir a capacidade de consumo dos desfavorecidos? Furtado não se colocou a questão apenas abstratamente, mas no embate contra um sistema político conservador e uma potência estrangeira que boicotaram o Plano Trienal em 1963. O Trienal ocorreu em uma conjuntura de desaceleração cíclica trazida pela maturação dos investimentos do Plano de Metas do governo JK, que internalizara ramos novos de material elétrico, mecânico e de transporte, e ampliara ramos de insumos básicos e a infraestrutura de energia e transporte, colocando a economia brasileira em estágio superior de incorporação de progresso técnico.

A desaceleração foi acompanhada por restrições de balanço de pagamentos, em vista de nova fase de declínio de preços do café, da incompressibilidade das importações essenciais e do aumento das remessas de juros, lucros e dividendos em razão do passivo externo acumulado contra filiais e bancos estrangeiros. A desvalorização cambial também teve forte impacto inflacionário, seja ao encarecer importações seja ao induzir elevação de margens de lucro de empresas endividadas externamente ou interessadas em remeter lucros em moeda forte. Ontem como hoje, a ortodoxia liberal desconsiderava pressões de custo e explicava a inflação pelo excesso de demanda monetária, culpando sobretudo os bancos e o déficit públicos pelo excesso e propondo o corte de crédito e gasto (preferencialmente ao aumento de impostos).

Furtado não negava que o déficit público pudesse ser um motivo da inflação, mas alegava que a existência de estrangulamentos de oferta era mais importante que o nível de demanda agregada para explicar a inflação – o que era correto na conjuntura de desaceleração. O problema era que o processo de diversificação produtiva de uma economia periférica era heterogêneo e desequilibrado: a oferta em certos ramos não era facilmente ampliada por causa da existência de barreiras financeiras e tecnológicas, de modo que, para um certo nível de demanda agregada, diferentes ramos teriam diferentes graus de capacidade ociosa. Por isto, uma política de contenção da demanda agregada para combater a pressão inflacionária, que se localizava apenas em certos ramos onde havia estrangulamento de oferta (industrial ou agrícola), deixaria a economia como um todo crescendo muito aquém de seu potencial. Isto significava que controles de demanda podiam unicamente comprar tempo para as reformas que propiciariam a adequada programação do desenvolvimento.

Para uma solução duradoura, seria preferível orientar a destinação de investimentos públicos e privados para superar estrangulamentos de oferta, e influenciar o estilo de consumo dispendioso de reservas cambiais por meio do sistema de impostos e subsídios. Em geral, a arrecadação tributária deveria aumentar, com a maior justiça distributiva possível, para financiar necessidades de investimento exigidas pelo desenvolvimento e pela estabilidade de preços. Em outras palavras, a programação do desenvolvimento seria o único remédio estrutural contra a inflação. A curto prazo, contudo, sem uma reforma tributária preliminar, e sem renegociação dos prazos de pagamento da dívida externa, os desequilíbrios não podiam sequer começar a ser enfrentados.

O maior obstáculo ao Plano Trienal foi a incapacidade política de destinar o excedente para investimentos tal como propunha Furtado, educador incapaz de educar nossas elites. O Congresso Nacional, controlado por partidos conservadores, vetou até a correção monetária de impostos, para não falar do aumento da progressividade da tributação. Os mais ricos não estavam dispostos a moderar seu consumo diferenciado para financiar o planejamento de investimentos e a infraestrutura de bens públicos. O governo estadunidense não apoiou reescalonar a dívida externa exatamente para desestabilizar o governo Goulart, com sucesso.

Os economistas que apoiaram a ditadura militar, por sua vez, afirmavam que a raiz dos problemas eram o abuso de demandas salariais acima da produtividade do trabalho, preços relativos definidos politicamente e a sobrecarga de serviços públicos acima da capacidade de poupar, pressionando lucros e reduzindo investimentos. Vetos conservadores à reforma tributária, margens de lucro crescentes, desaceleração cíclica ou crise cambial? Não, o culpado último pela crise seria um sistema político em que as decisões eram influenciadas por pressões democráticas e por um governo “irresponsável” às leis da economia.

Desse diagnóstico, deduziu-se outra escolha de destinação do excedente: reduzir o salário de base à força (administrado, o salário mínimo real caiu 35% entre fevereiro de 1964 e março de 1967), liberar preços administrados para elevar lucros, criar uma poupança compulsória formada a partir da folha salarial para subsidiar a construção de subúrbios que segmentavam burguesia e camadas médias, de um lado, e a população desprovida de condições adequadas de moradia e serviços públicos, do outro lado do muro. Os latifúndios aumentaram e receberam subsídios para a modernização técnica, enquanto o êxodo rural inchou a periferia insalubre das grandes cidades e rebaixou o salário dos trabalhadores desqualificados.

Furtado considerou, inicialmente, que o agravamento da concentração da renda e da propriedade levariam à estagnação. Sua maior discípula, Maria da Conceição Tavares, demonstrou que a concentração de renda animou a construção civil, a automobilística e a indústria de bens duráveis, gerando um estilo de crescimento excludente e acelerado mas quase antípoda ao desenvolvimento furtadiano, estilo esse que nada tinha de “tecnicamente” necessário, eis que resultado de uma escolha imposta pela ditadura.

Ajuste para quem?

O “milagre” econômico, contudo, não nos legou apenas uma infraestrutura urbana e de serviços talhada para uma minoria: também deixou uma dívida externa que quebrou o Estado brasileiro, produziu hiperinflação e agravou a concentração de renda. Para rolar a dívida externa, a ditadura nos legou também uma dívida pública interna que, na década de 1990, os neoliberais afirmavam ser possível pagar com a venda de patrimônio público, apenas para deixar-nos sem o patrimônio mas com uma dívida várias vezes maior.

É evidente que, uma vez que a economia voltasse a crescer depois das crises financeiras e cambiais provocadas pelos “milagres” da ditadura e dos neoliberais, como faz desde 2004, a infraestrutura social construída para minorias seria pressionada pela demanda, explicitando seus estrangulamentos.

Isso não significa que o investimento tenha crescido, desde 2004, a taxas menores que o consumo, muito menos que isso ocorresse porque a poupança foi “estrangulada” pela ampliação do consumo. O mito foi usado em 1964 para justificar a política de rendas da ditadura militar: seus economistas diziam que os salários de base precisavam cair para que os lucros aumentassem e, com eles, o investimento. Durante o “Milagre”, contudo, o consumo de bens duráveis e o investimento residencial (financiados a crédito além da poupança corrente) anteciparam e induziram o investimento produtivo privado. Lucros e ordenados de classe média foram direcionados antes para comprar casas, automóveis e eletrodomésticos do que para ampliar capacidade de produção.

A experiência histórica pouco importa aos herdeiros ideológicos dos economistas da ditadura que repetem, hoje, os mitos convenientes de 1964. A repetição do mito tampouco procede: durante o ciclo de expansão com redução das desigualdades de renda da última década, “no acumulado entre 2005 e 2013, o investimento cresceu 89% em termos reais, período este em que consumo cresceu 61%” [1]. Mesmo na automobilística, objeto de incentivos à sustentação da demanda que são alvos de crítica, os investimentos crescem bem adiante da demanda e devem levar a excesso de capacidade no ramo, o que provavelmente o obrigará a exportar para defender rentabilidade.

É inegável que a infraestrutura social ainda precisa crescer, uma vez que foi constituída para minorias que experimentam, hoje, a concorrência de milhares de cidadãos que passaram a auferir renda suficiente para migrar da rodoviária para os aeroportos, do SUS (desfinanciado pela CPMF) para planos de saúde privados, ou do transporte coletivo para o sonho acalentado desde a modernização excludente da ditadura: o veículo individual.

Qual o ajuste entre oferta e demanda é proposto por aqueles inspirados por Furtado e por seus críticos?

O horizonte furtadiano é, a meu ver, o do desenvolvimento que não se confunda meramente com crescimento, que incorpore a demanda crescente por direitos sociais e bens públicos como alavanca de investimentos, na direção de uma sociedade de consumo de massas com maior homogeneidade socioeconômica e justiça social. Rejeita o mito ortodoxo de que a expansão dos salários não possa, via ocupação e expansão da capacidade produtiva, implicar elevação simultânea dos lucros. Tampouco aceita passivamente o mito liberal que a especialização produtiva do país nada importa para seu potencial de crescimento.

Isso implica intervenção do Estado, democrático e republicano, para alocar excedentes dos mais ricos e recursos extraordinários gerados não por “milagres”, mas inovações tecnológicas – como o Pré-Sal - para financiar a construção da infraestrutura de bens públicos; reduzir impostos dos mais pobres, assim como desigualdades de acesso ao consumo (inclusive residências) e de capacitação (não apenas educação) entre os cidadãos; eliminar a pobreza extrema; e influenciar a ampliação do investimento em capacidade produtiva, para superar racionalmente os desequilíbrios e estrangulamentos inerentes ao processo de desenvolvimento, sem confiança cega no livre mercado. A receita neoliberal padrão continua a ser ajuste recessivo com abertura comercial e desvalorização cambial, doa a quem doer, daí a necessidade de blindar um Banco Central Independente. É claro que doerá menos aos portadores da dívida pública, proprietários de excedentes que renderiam juros maiores: um Banco Central Independente “... teria subido os juros antes. Não teria reduzido o compulsório,” nos informa o empresário que é coordenador do programa econômico de Marina Silva.

A crítica neoliberal é que os estímulos ao investimento (desoneração fiscal, juros subsidiados, compras governamentais) e à demanda (elevação de salários reais e do gasto social, defesa do emprego e isenção de impostos) têm impacto inflacionário: em uma situação de “pleno emprego... é um modelo econômico altamente inflacionário”, segundo o mesmo empresário. O neoliberalismo também é contrário a incentivos seletivos aos investimentos para superar gargalos específicos de oferta. Assim, sem qualquer ponderação de choques de custo independentes do nível de atividade, propõe-se o banco central independente, capaz de gerar desemprego para assegurar a estabilidade de preços.

Os neoliberais também são contrários a reduções compensatórias de alguns preços administrados ou custos tributários para complementar e limitar a austeridade que, alegam, o BC independente deve promover. Logo, toda a economia teria que operar abaixo de sua capacidade se apenas poucos setores sofressem estrangulamentos de oferta ou choques de custos. Defendem, por exemplo, elevação de preços de energia elétrica e petróleo, ou seja, que não haja qualquer administração compensatória de preços mesmo em momento de choque agrícola e desvalorização cambial, alegando que a elevação de juros e o corte do gasto público devem “compensar” sozinhos o impacto dos choques. Dado o “tarifaço” proposto, não surpreende que Rands afirme ser necessário elevar o centro da meta de inflação para 6,5% no primeiro ano do governo Marina, antes do esforço do Banco Central Independente para reduzi-lo até 3% no final do governo. [2]

É claro que uma economia muito aquecida pode ter mais gargalos de oferta que pressionem custos e preços, mas hoje os neoliberais já dizem que o crescimento potencial (máximo) da economia teria caído para algo entre e 1,0% e 1,5% ao ano! Ou seja, mais do que isso, teríamos pressão inflacionária que deveria ser contida com aumento do desemprego:

“Se olharmos para inflação alta, desemprego baixo e déficit em conta corrente elevado e amplo, de fato parece que o PIB potencial do país caiu bastante e não deve estar distante de 1% a 1,5%... O fato é que 2015 será um ano de ajuste e vamos partir de uma economia estagnada... O ajuste fiscal é essencial. Tem que achar um ponto percentual de receita de forma recorrente... O Brasil vem subsidiando consumo, com desoneração da cesta básica, da tarifa de energia elétrica, em cerca de 1 ponto percentual do PIB. Não dá para manter essa política e o grau de investimento. São medidas que tiram 1,7 ponto da inflação, mas não sem custo, e não dá para sustentar impacto fiscal indefinidamente.” (Valor Econômico, 01/09/2014).

Quem afirma é Mário Mesquita, sócio do Banco Brasil Plural e polemista que considera, como outros, que ideais antigos precisam ser arejados “sob a luz do sol”. Agradecemos o conselho, mas o fato de que neoliberais preservem antiga fixação em criticar Celso Furtado e seus herdeiros é, para estes, provavelmente um dos maiores elogios que podem receber.

(*) É professor associado (Livre Docente) do Instituto de Economia da Unicamp e ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE).

NOTAS

[1] Ver o excelente artigo de Laura Carvalho, “A mística das expectativas e a retomada do investimento privado” no site Brasil Debate, 25/08/2014.

[2] Folha de São Paulo, “Aliado de Marina propõe aumentar meta de inflação”, 14/09/2014. Nas palavras de Eduardo Gianetti, o principal consultor econômico de Marina Silva, “eu tendo a crer que vale a pena fazer o que precisa ser feito rapidamente. Em relação a preços administrados, por exemplo, se não convencer de que o que tinha que ser feito foi feito, a expectativa do que falta fazer vai alimentar a expectativa de inflação futura, o que dificulta fazer as expectativas convergirem de novo para o centro da meta.” (Valor Econômico, “Programa de Marina será cumprido quando conta fiscal permitir”, 08/09/2014). Para Samuel Pessoa, “o próximo presidente receberá inflação entre 6,5% e 7%, com serviços rodando a 8,5%, com atraso tarifário que aumentará no momento de sua correção a inflação em 1,5 ponto percentual... Para piorar a situação, para um déficit de transações correntes acumulado em 12 meses de 1,6% do PIB em dezembro de 2002, temos hoje 3,7%, a caminho de 4%. Serão necessárias novas rodadas de desvalorização do câmbio, além, evidentemente, de outras medidas para conter a demanda, para trazer esse déficit para mais próximo de 1,5% do PIB. A desvalorização do câmbio colocará nova pressão sobre a inflação... Se considerarmos o primário líquido de receitas extraordinárias, neste ano o Tesouro entregará resultado de 0,8% do PIB. Será necessário em 2015 recompormos o superávit primário para algo entre 2,5% e 3% do PIB. Diversas medidas de desoneração tributária terão que ser desfeitas, além de, possivelmente, ser necessário criar novas bases tributárias. Ambas as medidas pressionarão a inflação. Por esses motivos, afirmo que os 6,5% de inflação de dezembro de 2014 serão mais difíceis de trazer de volta para a meta do que os 12,5% de dezembro de 2002.” (Folha de São Paulo, “A conta ficou salgada”, 04/05/2014).