terça-feira, 29 de abril de 2014
Assim o Ocidente ressuscita a Guerra Fria
Além de não representar ameaça militar ou econômica, Rússia suportou provocações em série. Mas militares, petroleiras e mídia querem fabricar um demônio
Por Roberto Sávio | Tradução: Antonio Martins
Transcrito do site Outras Palavras
Faz várias semanas, agora, que toda a mídia mainstream está engajada em denunciar primeiro a suposta ação de Putin na Crimeia – e em seguida, na Ucrânia. A última capa de The Economist mosta um urso engolindo a Ucrânia, sob o título “Insaciável”. A unanimidade na mídia é sempre constrangedora, porque significa algum ato de dobrar joelhos. Será possível que os quarenta anos de Guerra Fria estejam sendo ressuscitados?
A inércia desta guerra, na verdade, nunca foi rompida. Diga “o presidente comunista de Cuba, Raúl Castro”, e ninguém ficará chocado. Use a mesma lógica, e chame o presidente Obama de “capitalista” e repare nas reações. Na Itália, Sílvio Berlusconi foi capaz, durante vinte anos, de ganhar as eleições contra a “ameaça” do comunismo – representada, segundo ele, pelo partido à esquerda, agora no poder, sob Matteo Renzi, um católico devoto.
No caso da Ucrânia, há pelo menos quatro pontos fulcrais de análise que estão sendo ocultados pelo coro de mídia. O primeiro é que nunca se mencionam as responsabilidades do Ocidente no caso. Deveríamos lembrar que Mikhail Gorbachev, presidente russo ao final dos anos 1990, negociou com os chefes de Estado dos EUA (Ronald Reagan), Grã-Bretanha (Margareth Thatcher), Alemanha (Helmut Kohl) e França (François Mitterrand) que aceitaria a reunificação da Alemanha; mas que que o Ocidente, em contrapartida, não deveria tentar invadir a área de influência da Rússia. Sobre isso, há grande quantidade de documentos.
Mas assim que Gorbachev foi eliminado, o jogo foi reaberto. A total docilidade de Boris Yeltsin, seu sucessor, diante dos Estados Unidos, é bastante conhecida. Muito menos debatido é o fato de o Fundo Monetário Internacional ter oferecido um empréstimo de 3,5 bilhões de dólares, para sustentar o rublo. O empréstimo, porém, foi dirigido ao Bank of America, que o distribuiu entre várias contas russas. Nenhum centavo chegou ao Banco Central russo. O dinheiro desembarcou nas contas de oligarcas, que puderam comprar praticamente todas as empresas públicas russas. Em seu livro Farewell Russia, Gioulietto Chiesa explica o processo em detalhes. E o FMI jamais sequer balbuciou um protesto. Quando um desconhecido Vladimir Putin foi levado ao poder por Yeltsin, ele foi obrigado a aceitar um acordo de proteção aos oligarcas.
Depois de Yeltsin, Putin apoiou a invasão iminente do Afeganistão por Washington, de uma forma que teria sido inimaginável durante a Guerra Fria. Aceitou que aviões norte-americanos sobrevoassem o espaço aéreo da Rússia, que os EUA usassem as bases militares nas repúblicas da ex-União Soviética na Ásia Central, e ordenou aos militares que compatilhassem sua experiênia no Afeganistão. Então, em novembro de 2001, Putin visitou George Bush em seu rancho no Texas, em meio a declarações amistosas (“Putin é um novo líder que ajuda a paz mundial… trabalhando em proximidade com os Estados Unidos”). Poucas semanas depois, Bush anunciou que os EUA estavam abandonando o Tratado de Mísseis Anti-balísticos, para poder construir um sistema de guerra no espaço destinado, em palavras a proteger a OTAN do… Irã. Era uma ação claramente voltada, na prática, contra a Rússia, para espanto de Putin.
Na sequência, em 2002, Bush convidou sete nações da ex-União Soviética – entre elas, Estônia, Lituânia e Letônia – a somar-se à OTAN, o que se concretizou em 2004. Em 2003, a invasão do Iraque, sem consentimento da França, Alemanha e Rússia, transformou Putin num crítico aberto dos Estados Unidos e de sua proposta de promover a democracia passando por cima do direito internacional. No mesmo ano, na Geórgia, a Revolução Rosa levou Saakashvili, um pró-ocidental, ao poder. Quatro meses depois, na Ucrânia, a Revolução Laranja empoderou outro presidente pró-ocidental, Yushcenko. Em 2006, a Casa Banca pediu permissão para reabastecer o avião de Bush em Moscou, mas deixou claro que Bush não teria tempo para saudar Putin. E em 2008, houve a declaração unilateral de independência de Kososo da Sérvia, com o apoio dos Estados Unidos e contra as posições da Rússia. Então, Bush pediu à OTAN para incorporar a Ucrânia e a Geórgia – um tapa na cara de Moscou. Em face disso, não deveria ter causado surpresa o gesto de Putin, que interveio militarmente na Geórgia em 2008, quando este país tentou incorporar as regiões da Ossétia do sul e Abkhazia, de maioria russa. Ainda assim, é fácil lembrar que a mídia tratou o movimento como ação sem motivos.
Obama tentou reparar os danos provocados por Bush nas relações internacionais dos EUA. Ele propôs uma retomada (“reset”) nas relações com a Rússia, que foi, de início, bem sucedida. Moscou aceitou oferecer seu espaço aéreo para transporte de suprimentos militares norte-americanos destinados ao Afeganistão. Em 2010, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um novo tratado Start, reduzindo seu arsenal nuclear. E a Rússia apoiou as sanções aprovadas pela ONU contra o Irã, desistindo de vender seis mísseis terra-ar S/300 ao Teerã.
Mas logo a seguir, em 2011, tornou-se claro que os Estados Unidos tentaram intervir nas eleições parlamentares russas. Toda a mídia ocidental colocou-se contra Putin, que acusou os EUA de financiarem, com centenas de milhões de dólares, grupos oposicionistas. O embaixador norte-americano, McFaul, afirmou tratar-se de um grande exagero, e acrescentou que apenas algumas dezenas de milhões de dólares haviam sido doados a grupos da sociedade civil. Putin foi eleito novamente para a presidência em 2012 [após quatro anos como primeiro-ministro], já então obcecado com as ameaças ocidentais a seu poder. Em 2013, ele deu asilo ao ex-agente norte-americano Edward Snowden. Em represália, Obama cancelou um encontro bilateral – a primeira vez em que uma reunião de cúpula entre Washington e Moscou foi desmarcada, em cinquanta anos.
Em meio a tudo isso, houve a Primavera Árabe. A Rússia autorizou ação militar na Líbia, mas apenas para garantir ajuda humanitária. Ela foi utilizada para provocar mudança de regime, e Moscou sentiu-se enganada. Protestou, inutilmente. Então, surgiu a crise na Síria e o Ocidente tentou obter novamente o apoio da Rússia para uma mudança de regime – irritando-se com a recusa de Putin. Finalmente, agora, houve a bem conhecida intervenção na Ucrânia, para colocar o país na União Europeia e distante do bloco econômico eurasiano que a Rússia tenta criar.
O segundo ponto é que nenhuma ação política, exceto uma guerra, pode reduzir a Rússia à condição de um poder apenas local. É o maior país do mundo, em território. Estende-se das fronteiras da União Europeia até o Extremo Oriente. É, ao mesmo tempo, Europa e Ásia. Mantém rivalidade com a China na Ásia, tem conflitos territoriais com o Japão e está diante dos EUA no Estreito de Behring. É um produtor destacado de petróleo, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e tem um arsenal nuclear. Qualquer esforço para cercá-la ou enfraquecê-la, agora que o confronto ideológico ficou para trás, só pode ser visto como parte da velha política imperial.
A Rússia não é uma ameça, ao contrário da União Soviética. Seu PIB é 15% da Europa – que tem 500 milhões de habitantes e 16% das exportações mundiais. A China tem 1,3 bilhão de habitantes, e 9% do comércio mundial. A Rússia, apenas 145 milhões e 2,5% das exportações mundiais. Tem poucas indústrias, também porque Putin não está interessado na modernização do país, que inevitávelmente produziria um crescimento da classe de profissionais instruídos, que já se opõe a ele.
O terceiro ponto é que, portanto, a crise ucraniana deveria ser examinada melhor. É um Estado muito frágil, em que a corrupção controla a política e que vive problemas econômicos estruturais. Seu Oeste é mais rural; o Leste, mais industrializado. Os trabalhadores desta região sabem que um ingresso na Europa representaria o fim de muitas fábricas. No Oeste, muitos colocaram-se ao lado dos nazistas na II Guerra Mundial e há um movimento nacionalista forte, próximo ao fascismo. A Ucrânia é um problema muito caro e complicado.
É evidente que intervir apenas para desafiar Putin, e oferecer dinheiro (basicamente, o que fez a União Europeia) parece um pensamento muito tacanho. Estaria a UE preparada para mudar os critérios de pertencimento ao bloco, para aceitar um país que claramente não se adequa a eles; e a assumir um enorme peso, para aparecer como vencedora, na disputa contra um “homem forte”?
Isso finalmente nos leva ao quarto ponto. Putin é um ex dirigente da KGB, para quem a Rússia foi tratada injustamente, na dissolução da União Soviética. Todos os esforços para chegar a um entendimento com o Ocidente foram traídos, com sucessivas ampliações da OTAN, uma rede de bases militares cercando o país, um claro apoio do Ocidente a todas as oposições, um tratamento comercial medíocre. Ele sabe que estas opiniões sobre o declínio russo são compartilhadas por uma ampla maioria de cidadãos. Mas ele também é um autocrata arrogante, para dizer o menos, que nada tem feito para promover modernização econômica – porque, ao manter a produção e o comércio em suas mãos, conserva seu controle.
Para ele, a Ucrânia foi politicamente inaceitável. Ele está apresentando-se como defensor dos cidadãos russos, algo que lhe permite atuar em todos os lugares onde há minorias russas. A questão é: se Putin se for, haverá uma Rússia democrática, participatória, limpa, incorrompida? Aqueles que conhecem bem o país não acreditam nesta hipótese. Há inúmeros exemplos de que a remoção de autocratas não conduz à democracia por si mesma.
Portanto, haveria lógica em continua a cercar Putin, em nome da democracia? Isso não fortaleceria o próprio jogo do presidente, que associa sua imagem à de defensor dos russos? Eles também sofrem com a inércia da Guerra Fria e não veem o Ocidente exatamente como um aliado. Putin é hoje a única força de coesão na Rússia. Se ele se fosse, haveria, muito provavelmente, um longo período de caos. Isso certamente não interessa aos cidadãos russos… e é sempre perigoso praticar jogos de poder sem levar em conta a estabilidade da Europa… Claro, este não é o cálculo dos estrategistas ocidentais, que adorariam eliminar qualquer outro poder…
Como escreve Naomi Klein, o único vencedor, nesta disputa, são as empresas de energia. Elas estão fazendo campanha para que o mundo torne-se independente do petróleo russo. Portanto, vamos acelerar a produção petroleira nos EUA, a despeito dos notórios prejuízos ao ambiente. E vamos torcer para que a Europa deixe de usar gás russo – “nós exportaremos para eles”. Na verdade, não há estruturas para fazê-lo e seriam necessários muitos anos para criá-las… Mas exatamente no momento em que o mundo debate como controlar a mudança climática, e reduzir o uso de combustíveis fósseis, uma contra-estratégia importante é colocar o tema em segundo plano… Tarzi Vittach, um autor do Sri Lanka, disse, certa vez: “no fundo de tudo, há outra coisa”. Não há muitos exemplos de petróleo e democracia caminhando lado a lado…
Sobre o nosso pessimismo e o complexo de vira-lata
Transcrito do Democracia & Política
Por Osvaldo Pereira
"Porque eu espero que o Brasil jamais copie modelo algum mundo afora, ou de como nenhum país entre os graúdos ou grandes pode ser modelo para nós. E não venham falar de Chile, Colômbia ou México, sem paralelos com a dimensão ou importância econômica e política do Brasil.
O Brasil tem sido achincalhado, maltratado, menosprezado, vulgarizado, simplificado, desmemorializado e apequenado com intensa e inaudita persistência desde as tais “jornadas” de junho de 2013.
Esse fenômeno intenso de disseminação de algo que não existia com tamanha proporção nestes trópicos, quero dizer, o baixo astral, o pessimismo e, ouso dizer, a "viralatice" escancarada, antes intramuros, tem recebido a colaboração absolutamente inequívoca de algo que muito apropriadamente o ilustríssimo jornalista Luis Nassif denominou recentemente de "midiatite".
Talvez jamais tenhamos passado por um movimento desse calibre em nossa história recente. Em junho de 2013, na sequência das depredações criminosas de símbolos do que temos de melhor (dentre eles edifícios públicos centenários e outros recentes, mas igualmente simbólicos, como o Itamaraty em Brasília, máquinas de serviços bancários automatizados – setor altamente modernizado e eficiente se comparado a qualquer outro país), até a FIFA, organização internacional manchada por escândalos, falcatruas e esquemas mafiosos passou a ser parâmetro para nossas escolas e hospitais!
A amnésia generalizada que tomou conta do país também esqueceu que hospitais públicos brasileiros são referências mundiais do que há de mais moderno em pesquisas na área de saúde e medicina, a ponto de São Paulo, o maior polo desses serviços públicos de altíssimo nível, ter intenso turismo de saúde, principalmente de cidadãos de nossos vizinhos de toda a América Latina. Sinceramente, eu não desejo para o Brasil escola alguma padrão FIFA e muito menos hospitais padrão FIFA, onde a “bola” (o verdadeiro padrão FIFA), poderia resultar na escolha de quem deve viver ou morrer.
Nessa onda de pessimismo desencadeada de forma artificial (a mencionada "midiatite"), a despeito dos números muito positivos que encontrará qualquer análise sensata e científica da evolução do país em indicadores socioeconômicos de livre escolha do freguês dos últimos 10, 20 ou 30 anos, parece que estamos nos tornando cada vez mais céticos, amargurados e descrentes de nossas próprias forças e virtudes e cinzentos naquele sentido europeu da palavra, e mais, sem que nenhuma catástrofe do porte de uma grande destruição humana e material, como uma guerra ou uma desintegração real da nossa percepção de civilização, de pertencimento a um lugar “abençoado por Deus” esteja realmente ocorrendo.
Sem dúvida, esse fenômeno que nos abate é incrivelmente interessante. O que não é nada interessante, do ponto de vista das suas repercussões no mundo real, quero dizer, da produção das coisas e das ideias, são as repercussões deste momento para o futuro, quais sejam, sobre as decisões de investimentos e consumo dos agentes produtivos (Estado, famílias e empresas) e sobre a produção do conhecimento em todas as áreas com repercussões para o futuro.
Esse clima que espero seja passageiro e que ignora que criamos uma civilização inovadora, virtuosa, riquíssima em soluções para tudo, conflituosa porém democrática (após duas décadas de uma ditadura militar subserviente aos interesses internacionais, violentíssima e que ceifou novas ideias que poderiam dar sua contribuição para um projeto de nação e de poder mundial diferenciado e original já nos anos 60), violenta pelas desigualdades sociais conservadas por 500 anos e que começamos a desmontar há pouco tempo, tem feito muito mal ao Brasil nesta quadratura de crise global internacional em que deveríamos pensar em ser nós mesmos, em persistir em nossa criatividade e em nossa marca que tem sido a busca incessante de caminhos alternativos. Tanto é assim que novamente setores importantes do país voltam a flertar com o modelo golpeado de morte em 2008 e que levou à maior crise do sistema capitalista desde 1929.
Ora, é mais do que necessário livrarmo-nos dessa urucubaca, desse manto cinza, desse inverno sem luz que setores absolutamente minoritários em nossa democracia querem nos impingir, como se nosso verão, outono, inverno e primavera fossem sem cores. Isso decididamente não é o Brasil. Como nosso mestre de reflexões Darcy Ribeiro trombeteou em seus anos finais entre nós, somos e devemos nos comportar como uma CIVILIZAÇÂO, uma criação absolutamente original e que, por sua originalidade, deve ser nosso orgulho e essa ideia nada tem a ver com qualquer nacionalismo barato nem com o patriotismo vulgar dos anos de chumbo exaltados à época pelos mesmos setores que hoje querem que sejamos alemães, estadunidenses, australianos ou ingleses, envergonhados de nosso legado multicultural.
Jamais o Brasil será uma Alemanha. O racionalismo alemão e o seu desejo de unificação diante de uma fragmentação feudal não fazem parte da nossa história. O desejo nacional alemão ainda hoje persistente de controlar povos e territórios além das suas fronteiras e levar a eles sua “ratio” não existe aqui. O Brasil é um continente que se basta. Não temos que provar a ninguém nossa eficiência e racionalidade para dominar quem quer que seja. Também jamais seremos os Estados Unidos com sua “aparente” eficiência acobertada por uma mídia sobretudo a serviço da guerra. O Rio de Janeiro não foi incendiado pelos portugueses como foi Washington pelos ingleses na guerra de 1812. Os portugueses adoravam este paraíso tropical.
Também jamais seremos os Estados Unidos, já que adoramos abraços e visitas sem aviso. Eles não. Damos beijinhos e abraços virtuais ao final de emails e telefonemas, eles não. Por mais que eu ache (e muitos estudiosos acham o mesmo) que o país americano mais parecido com o Brasil sejam os EUA, nós não precisamos abdicar da nossa formidável civilização para sermos iguais a esse país. E isso não significa de forma alguma ser antiamericano. Um país marcado pelo racismo secular, como os EUA, de certa forma fez o mesmo que nós ao eleger um negro à presidência. Aqui levamos um nordestino migrante que fugiu da fome do nordeste e depois se tornou um operário ao maior posto da República. E isso deveria ser motivo de orgulho para todos os brasileiros, como deveria ser motivo de orgulho para todos os estadunidenses o fenômeno Obama.
Mas , mais óbvio que isso não acontecerá agora nos dois países, apenas por enquanto. No futuro, será motivo de orgulho nos dois países. Lá Obama e cá Lula. A despeito de muitos acharem que o Obama fez uma adesão total ao 'establishment', diferente do que Lula fez no Brasil, podemos explicar isso em parte às diferenças entre o sistema republicano dos EUA e do Brasil. Aqui, presidentes podem mais, lá muito menos. Mas decididamente quem quer aeroportos brasileiros como shoppings, tal qual nos EUA, muito em breve os encontrará em toda a parte. No entanto, isso não modificará milimetricamente nossa cultura e nossa civilização. Nós macunaimicamente fagocitamos tudo o que vem do exterior.
Esta civilização meio anárquica, mística, religiosamente pilantra e escancaradamente evangélica sem a ética protestante de Max Weber, onde pastores e fundadores de capelinhas e seitas se enriquecem e em que padres, bispos e cardeais católicos querem ser todos franciscanos no ascetismo sem abrir mão do prazer, é absolutamente incrível em sua riqueza.
Não podemos querer ser alemães, nem estadunidenses, nem suecos em sua pretensão de ensinar ao mundo ser cordatos e com regras que façam o sistema funcionar como uma máquina e muito menos espanhóis, gregos ou portugueses em sua submissão absoluta ao mundo das finanças. Muito menos italianos, que disfarçam seu terceiro-mundismo dentro da EU com comportamentos piores no trânsito do que em São Paulo e com esquemas mafiosos na política e nos meios de comunicação ainda mais nefastos do que o que temos no Brasil.
Não podemos esquecer que, na Itália, Berlusconi seria como Roberto Marinho em vida reinando como presidente da República, mas com um harem para a prática de sexo que o velho apoiador da ditadura e criador da "Globo" em nosso país nunca ousaria ter. Somos mais católicos e moralistas que os italianos, kkkkkkk.
Ficaria muito infeliz se meu país resolvesse autorizar a construção de edifícios de 50/60 andares em suas praias mais lindas como vemos na Austrália em seu litoral como pretendem alguns em nossa bela Santa Catarina. Isso jamais será sinônimo de progresso. Muito ao contrário.
Quero que o Brasil continue anárquico, meio desorganizado e nada opressivo como em cidades como as da China, de Singapura, do Japão ou da Coréia, todos países que produzem uma arquitetura urbana que esmaga a cidadania. Muito mais, espero que mantenhamos longe de nós o modelo de horários de trens em segundos para demonstrar falsamente uma eficiência germânica, desmontável com uma chuva intensa ou nevasca comum por lá. Que nunca se converta o Brasil numa Suíça que recebeu o ouro nazista da pilhagem alemã sobre fortunas e arcadas dentárias de milhões de judeus e ciganos calcinados nos fornos nazistas e que ainda recebe dinheiro sujo do narcotráfico internacional, da corrupção internacional e do terrorismo internacional e que posa de nação civilizada e "neutra" com vaquinhas em montanhas em cumes cobertos de neve. Isso não nos interessa como nação!
Quero que o Brasil continue com suas quintas-feiras, sextas-feiras e sábados fervilhantes de vida jovem em suas ruas por todas as partes e cidades e sem preocupações com o dia seguinte. Nós somos uma civilização única, nos trópicos e vencedora dos desígnios coloniais, orgulho dos nossos irmãos portugueses e africanos de língua portuguesa e dos nossos vizinhos na América do Sul de língua espanhola. Temos a agricultura mais produtiva do mundo, mais terras do que qualquer país do mundo para ampliá-la, mais água e infindáveis recursos energéticos que nos impossibilitam de ter apagões energéticos, como a "mídiatite" exacerbada quer que acreditemos. No Brasil, jamais poderá faltar energia se houver gestão apenas razoável desses recursos. Apenas razoável!
Não podemos jamais como uma civilização, sim, somos uma civilização única no mundo, a civilização brasileira, nos abater ou deixarmo-nos levar por setores que desconhecem nossa história, que desconhecem ou não reconhecem a luta dos negros por sua liberdade, dos indígenas pela sua autonomia e terras, e do povo brasileiro em geral em querer sempre ser mais do que é rumo à felicidade. Nós brasileiros não seremos nada se abdicarmos de nossa característica essencial e unificadora nacional que é a nossa crença de que vivemos num país abençoado por Deus (não sou cristão, mas sei muito bem a força dessa ideia), de que nada nos abalará e que temos um destino delicioso e brasileiro que nós construiremos, com praia, sol, futebol, cerveja, muito trabalho, mas muito espaço para sermos gentis, altruístas e abertos pro mundo, características muito nossas, motivo do nosso progresso e em falta em muitos países.
Não precisamos copiar modelo algum. Temos que nos descobrir, e mesmo na nossa esculhambação que é o motor da nossa cultura, muito nos fortalecemos como espaço de experimentações e de criatividade no rumo de uma civilização da qual devemos nos orgulhar e muito. Chega de ouvir que o Brasil não presta! Estamos fartos disso!"FONTE: escrito por Osvaldo Pereira no "Jornal GGN" (http://jornalggn.com.br/noticia/sobre-o-nosso-pessimismo-e-o-complexo-de-vira-lata).
Por Osvaldo Pereira
"Porque eu espero que o Brasil jamais copie modelo algum mundo afora, ou de como nenhum país entre os graúdos ou grandes pode ser modelo para nós. E não venham falar de Chile, Colômbia ou México, sem paralelos com a dimensão ou importância econômica e política do Brasil.
O Brasil tem sido achincalhado, maltratado, menosprezado, vulgarizado, simplificado, desmemorializado e apequenado com intensa e inaudita persistência desde as tais “jornadas” de junho de 2013.
Esse fenômeno intenso de disseminação de algo que não existia com tamanha proporção nestes trópicos, quero dizer, o baixo astral, o pessimismo e, ouso dizer, a "viralatice" escancarada, antes intramuros, tem recebido a colaboração absolutamente inequívoca de algo que muito apropriadamente o ilustríssimo jornalista Luis Nassif denominou recentemente de "midiatite".
Talvez jamais tenhamos passado por um movimento desse calibre em nossa história recente. Em junho de 2013, na sequência das depredações criminosas de símbolos do que temos de melhor (dentre eles edifícios públicos centenários e outros recentes, mas igualmente simbólicos, como o Itamaraty em Brasília, máquinas de serviços bancários automatizados – setor altamente modernizado e eficiente se comparado a qualquer outro país), até a FIFA, organização internacional manchada por escândalos, falcatruas e esquemas mafiosos passou a ser parâmetro para nossas escolas e hospitais!
A amnésia generalizada que tomou conta do país também esqueceu que hospitais públicos brasileiros são referências mundiais do que há de mais moderno em pesquisas na área de saúde e medicina, a ponto de São Paulo, o maior polo desses serviços públicos de altíssimo nível, ter intenso turismo de saúde, principalmente de cidadãos de nossos vizinhos de toda a América Latina. Sinceramente, eu não desejo para o Brasil escola alguma padrão FIFA e muito menos hospitais padrão FIFA, onde a “bola” (o verdadeiro padrão FIFA), poderia resultar na escolha de quem deve viver ou morrer.
Nessa onda de pessimismo desencadeada de forma artificial (a mencionada "midiatite"), a despeito dos números muito positivos que encontrará qualquer análise sensata e científica da evolução do país em indicadores socioeconômicos de livre escolha do freguês dos últimos 10, 20 ou 30 anos, parece que estamos nos tornando cada vez mais céticos, amargurados e descrentes de nossas próprias forças e virtudes e cinzentos naquele sentido europeu da palavra, e mais, sem que nenhuma catástrofe do porte de uma grande destruição humana e material, como uma guerra ou uma desintegração real da nossa percepção de civilização, de pertencimento a um lugar “abençoado por Deus” esteja realmente ocorrendo.
Sem dúvida, esse fenômeno que nos abate é incrivelmente interessante. O que não é nada interessante, do ponto de vista das suas repercussões no mundo real, quero dizer, da produção das coisas e das ideias, são as repercussões deste momento para o futuro, quais sejam, sobre as decisões de investimentos e consumo dos agentes produtivos (Estado, famílias e empresas) e sobre a produção do conhecimento em todas as áreas com repercussões para o futuro.
Esse clima que espero seja passageiro e que ignora que criamos uma civilização inovadora, virtuosa, riquíssima em soluções para tudo, conflituosa porém democrática (após duas décadas de uma ditadura militar subserviente aos interesses internacionais, violentíssima e que ceifou novas ideias que poderiam dar sua contribuição para um projeto de nação e de poder mundial diferenciado e original já nos anos 60), violenta pelas desigualdades sociais conservadas por 500 anos e que começamos a desmontar há pouco tempo, tem feito muito mal ao Brasil nesta quadratura de crise global internacional em que deveríamos pensar em ser nós mesmos, em persistir em nossa criatividade e em nossa marca que tem sido a busca incessante de caminhos alternativos. Tanto é assim que novamente setores importantes do país voltam a flertar com o modelo golpeado de morte em 2008 e que levou à maior crise do sistema capitalista desde 1929.
Ora, é mais do que necessário livrarmo-nos dessa urucubaca, desse manto cinza, desse inverno sem luz que setores absolutamente minoritários em nossa democracia querem nos impingir, como se nosso verão, outono, inverno e primavera fossem sem cores. Isso decididamente não é o Brasil. Como nosso mestre de reflexões Darcy Ribeiro trombeteou em seus anos finais entre nós, somos e devemos nos comportar como uma CIVILIZAÇÂO, uma criação absolutamente original e que, por sua originalidade, deve ser nosso orgulho e essa ideia nada tem a ver com qualquer nacionalismo barato nem com o patriotismo vulgar dos anos de chumbo exaltados à época pelos mesmos setores que hoje querem que sejamos alemães, estadunidenses, australianos ou ingleses, envergonhados de nosso legado multicultural.
Jamais o Brasil será uma Alemanha. O racionalismo alemão e o seu desejo de unificação diante de uma fragmentação feudal não fazem parte da nossa história. O desejo nacional alemão ainda hoje persistente de controlar povos e territórios além das suas fronteiras e levar a eles sua “ratio” não existe aqui. O Brasil é um continente que se basta. Não temos que provar a ninguém nossa eficiência e racionalidade para dominar quem quer que seja. Também jamais seremos os Estados Unidos com sua “aparente” eficiência acobertada por uma mídia sobretudo a serviço da guerra. O Rio de Janeiro não foi incendiado pelos portugueses como foi Washington pelos ingleses na guerra de 1812. Os portugueses adoravam este paraíso tropical.
Também jamais seremos os Estados Unidos, já que adoramos abraços e visitas sem aviso. Eles não. Damos beijinhos e abraços virtuais ao final de emails e telefonemas, eles não. Por mais que eu ache (e muitos estudiosos acham o mesmo) que o país americano mais parecido com o Brasil sejam os EUA, nós não precisamos abdicar da nossa formidável civilização para sermos iguais a esse país. E isso não significa de forma alguma ser antiamericano. Um país marcado pelo racismo secular, como os EUA, de certa forma fez o mesmo que nós ao eleger um negro à presidência. Aqui levamos um nordestino migrante que fugiu da fome do nordeste e depois se tornou um operário ao maior posto da República. E isso deveria ser motivo de orgulho para todos os brasileiros, como deveria ser motivo de orgulho para todos os estadunidenses o fenômeno Obama.
Mas , mais óbvio que isso não acontecerá agora nos dois países, apenas por enquanto. No futuro, será motivo de orgulho nos dois países. Lá Obama e cá Lula. A despeito de muitos acharem que o Obama fez uma adesão total ao 'establishment', diferente do que Lula fez no Brasil, podemos explicar isso em parte às diferenças entre o sistema republicano dos EUA e do Brasil. Aqui, presidentes podem mais, lá muito menos. Mas decididamente quem quer aeroportos brasileiros como shoppings, tal qual nos EUA, muito em breve os encontrará em toda a parte. No entanto, isso não modificará milimetricamente nossa cultura e nossa civilização. Nós macunaimicamente fagocitamos tudo o que vem do exterior.
Esta civilização meio anárquica, mística, religiosamente pilantra e escancaradamente evangélica sem a ética protestante de Max Weber, onde pastores e fundadores de capelinhas e seitas se enriquecem e em que padres, bispos e cardeais católicos querem ser todos franciscanos no ascetismo sem abrir mão do prazer, é absolutamente incrível em sua riqueza.
Não podemos querer ser alemães, nem estadunidenses, nem suecos em sua pretensão de ensinar ao mundo ser cordatos e com regras que façam o sistema funcionar como uma máquina e muito menos espanhóis, gregos ou portugueses em sua submissão absoluta ao mundo das finanças. Muito menos italianos, que disfarçam seu terceiro-mundismo dentro da EU com comportamentos piores no trânsito do que em São Paulo e com esquemas mafiosos na política e nos meios de comunicação ainda mais nefastos do que o que temos no Brasil.
Não podemos esquecer que, na Itália, Berlusconi seria como Roberto Marinho em vida reinando como presidente da República, mas com um harem para a prática de sexo que o velho apoiador da ditadura e criador da "Globo" em nosso país nunca ousaria ter. Somos mais católicos e moralistas que os italianos, kkkkkkk.
Ficaria muito infeliz se meu país resolvesse autorizar a construção de edifícios de 50/60 andares em suas praias mais lindas como vemos na Austrália em seu litoral como pretendem alguns em nossa bela Santa Catarina. Isso jamais será sinônimo de progresso. Muito ao contrário.
Quero que o Brasil continue anárquico, meio desorganizado e nada opressivo como em cidades como as da China, de Singapura, do Japão ou da Coréia, todos países que produzem uma arquitetura urbana que esmaga a cidadania. Muito mais, espero que mantenhamos longe de nós o modelo de horários de trens em segundos para demonstrar falsamente uma eficiência germânica, desmontável com uma chuva intensa ou nevasca comum por lá. Que nunca se converta o Brasil numa Suíça que recebeu o ouro nazista da pilhagem alemã sobre fortunas e arcadas dentárias de milhões de judeus e ciganos calcinados nos fornos nazistas e que ainda recebe dinheiro sujo do narcotráfico internacional, da corrupção internacional e do terrorismo internacional e que posa de nação civilizada e "neutra" com vaquinhas em montanhas em cumes cobertos de neve. Isso não nos interessa como nação!
Quero que o Brasil continue com suas quintas-feiras, sextas-feiras e sábados fervilhantes de vida jovem em suas ruas por todas as partes e cidades e sem preocupações com o dia seguinte. Nós somos uma civilização única, nos trópicos e vencedora dos desígnios coloniais, orgulho dos nossos irmãos portugueses e africanos de língua portuguesa e dos nossos vizinhos na América do Sul de língua espanhola. Temos a agricultura mais produtiva do mundo, mais terras do que qualquer país do mundo para ampliá-la, mais água e infindáveis recursos energéticos que nos impossibilitam de ter apagões energéticos, como a "mídiatite" exacerbada quer que acreditemos. No Brasil, jamais poderá faltar energia se houver gestão apenas razoável desses recursos. Apenas razoável!
Não podemos jamais como uma civilização, sim, somos uma civilização única no mundo, a civilização brasileira, nos abater ou deixarmo-nos levar por setores que desconhecem nossa história, que desconhecem ou não reconhecem a luta dos negros por sua liberdade, dos indígenas pela sua autonomia e terras, e do povo brasileiro em geral em querer sempre ser mais do que é rumo à felicidade. Nós brasileiros não seremos nada se abdicarmos de nossa característica essencial e unificadora nacional que é a nossa crença de que vivemos num país abençoado por Deus (não sou cristão, mas sei muito bem a força dessa ideia), de que nada nos abalará e que temos um destino delicioso e brasileiro que nós construiremos, com praia, sol, futebol, cerveja, muito trabalho, mas muito espaço para sermos gentis, altruístas e abertos pro mundo, características muito nossas, motivo do nosso progresso e em falta em muitos países.
Não precisamos copiar modelo algum. Temos que nos descobrir, e mesmo na nossa esculhambação que é o motor da nossa cultura, muito nos fortalecemos como espaço de experimentações e de criatividade no rumo de uma civilização da qual devemos nos orgulhar e muito. Chega de ouvir que o Brasil não presta! Estamos fartos disso!"FONTE: escrito por Osvaldo Pereira no "Jornal GGN" (http://jornalggn.com.br/noticia/sobre-o-nosso-pessimismo-e-o-complexo-de-vira-lata).
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Democracia social X oligarquia argentária
Saul Leblon, no site Carta Maior
postado em: 28/04/2014
O jogo de 2014: democracia social X oligarquia argentária. O PT topa?
A prostração política e ideológica nas fileiras progressistas é talvez o mais grave desafio à reeleição da Presidenta Dilma.
Sem superá-lo -- ao menos mitigá-lo-- fica difícil esperar da sociedade a compreensão mais que nunca necessária sobre o que está em jogo em outubro de 2014.
A dissipação que reduz tudo a uma grande noite dos gatos pardos é a lenha na fornalha do conservadorismo. A isso se dedica em tempo integral a emissão conservadora.
Para reagir é preciso desassombro na identificação dos problemas.
O primeiro passo é admitir os erros de avaliação estratégica na origem do desalento.
Não se trata do varejo das perdas e danos intrínsecos a um governo de coalizão, determinado pela correlação de forças existente na sociedade e no cenário internacional.
Esse ônus sempre existiu, desde que o PT optou por ser uma força eleitoralmente competitiva.
O partido, todavia, tinha –e tem— a obrigação histórica de manter viva a tensão política e ideológica decorrente das suas escolhas.
O conflito entre o respeito ao jogo institucional e o compromisso com a construção de uma democracia social no país tornou-se endógeno ao PT.
Lula personifica essa contradição que manteve viva, transparente, em seus dois governos.
A superlativa presença do seu discurso na cena política era a evidencia mais crua de uma tentativa de negociar e repactuar , diariamente quase, o equilíbrio entre os dois polos.
O que se fez nos últimos anos, em certa medida, foi a tentativa de hibernar essa tensão insolúvel nos marcos da democracia representativa brasileira.
Em vez de expressá-la, adotou-se a aposta economicista , ancorada na suposta repetição de um desempenho de indicadores convencionais semelhantes ao do ciclo Lula.
A premissa mostrou-se incompatível com a transição de ciclo em curso no capitalismo mundial, refletida internamente na anemia do investimento , da exportação, da receita fiscal e da renda.
O conjunto trouxe o conflito redistributivo --despolitizado pelo governo-- para o campo desgastante do terrorismo inflacionário, a ser combatido com juros siderais, segundo o mantra argentário.
Expectativas expansionistas imaterializáveis fizeram o resto, contratando frustrações que o conservadorismo agora se esmera em hipertrofiar, salgando o preço da luta eleitoral.
Hoje parece claro que a superação da ênfase no consumo (correta durante a crise), rumo a um novo ciclo de investimento, deveria ter sido precedida da obsessiva construção de linhas de passagem para impulsionar um salto da passividade política ao discernimento engajado nas escolhas do desenvolvimento.
Não foi feito.
A evidência mais crua dessa omissão, que deu ao conservadorismo a hegemonia narrativa do processo, foi o fato de o PT, seus principais líderes e dirigentes, ademais de o governo, terem subestimado a importância de uma regulamentação da mídia para, ao menos, criar um contraponto de pluralidade ao monólogo plutocrático.
O conjunto obriga agora o campo progressista a disputar a narrativa econômica nos termos insolúveis impostos pela emissão conservadora, a saber: descontrole inflacionário versus juros argentários.
Mais que isso.
A avalanche ofuscou o discernimento ideológico dos quadros progressistas mais avançados, rebaixando a sua percepção sobre a verdadeira natureza do embate histórico em curso no país.
O nome do jogo não é inflação versus arrocho, mas democracia social negociada versus anomia conservadora.
Ou alguém acredita que um governo Aécio Neves --ou Campos/Marina, tanto faz, teria outro lubrificante para sua receita ortodoxa que não um vergalhão de desemprego e esmagamento do poder aquisitivo do mercado de massa criado nos últimos anos?
Por força dessa omissão, o saldo desses 12 anos de conflito – objetivamente favorável à sociedade brasileira como o demonstram as estatísticas sociais-- vem sendo pulverizado entre as pás de um moinho satânico.
Interesses rentistas insaciáveis , uma coalizão conservadora desprovida de proposta defensável em palanque e uma guerra aberta midiática unem-se na determinação de sepultar, de uma vez por todas, o último obstáculo eleitoral à hegemonia absoluta dos mercados no país: o PT.
O tempo e o terreno perdidos nesse rally têm uma chance de ser parcialmente recuperados na campanha eleitoral de 2014.
Desde que se dê a ela a destinação correta que não poder ser confundida com a mera formalidade publicitária.
Trata-se de um momento condensado da luta política.
Assim entendido pode corrigir o passado com a pactuação de um futuro distinto do mero compromisso com a inércia do presente.
O divisor de águas consiste em devolver ao programa de 2014 uma dimensão crucial do desenvolvimento esmaecida nos últimos anos: a sua determinação política.
Não se pode mais atribuir à economia aquilo que compete à correlação de forças decidir.
É preciso trazer para o embate eleitoral a verdade nua e crua temida pelo conservadorismo: a repactuação negociada de um novo ciclo de investimento com a distribuição da riqueza é indissociável de um avanço da democracia.
O resto é arrocho.
E há requisitos incontornáveis para que não seja arrocho.
O principal deles é equilibrar a presença do grande capital na mídia e no sistema político.
A regulação da estrutura de comunicação audiovisual e a reforma do sistema político, subtraindo de ambos a supremacia do dinheiro sobre a pluralidade, constitui o grande requisito à retomada do investimento, do crescimento e da reordenação do futuro.
Nada disso é estranho à história do PT e à trajetória do campo progressista brasileiro.
Essa aderência –repita-se, com as contradições e conflitos que lhe são intrínsecos— precisa retomar o espaço nobre no discurso e na prática petista.
Ignorar a centralidade da democracia na campanha de 2014 pode transformá-la num gigantesco buraco negro da esperança progressista.
A democracia, como diz o historiador e ensaísta italiano Luciano Canfora, em entrevista recente no El País, não consiste no governo da maioria simplesmente por dar à contagem dos votos a sua representação política.
Ela o será na medida em que exista um Estado social diante do qual quem não detém a riqueza na sociedade, ainda assim, tem peso efetivo na vida política e instrumentos para exercê-lo.
Ainda que ziguezagueante e contraditório quem guarda coerência com essa agenda no Brasil é o campo progressista liderado pelo PT. Mas não raro empurrado por outros partidos e movimentos sociais, ademais de arguido pela crítica de intelectuais que se colocam à esquerda nesse espectro político.
A essência do conflito com o qual o PT fundiu o seu destino consiste –para emprestar mais uma vez as lições de Canfora-- em entender a democracia como um experimento político que, sem expropriar radicalmente a riqueza, assume como imperativo coloca-la a serviço da finalidade social do desenvolvimento.
Até onde essa contradição poderá evoluir nos marcos de um sistema produtor de mercadoria não é um problema meramente teórico, mas de prática política.
É também, em essência, a grande esfinge que habita a alma do PT.
Mas que ainda não o devorou.
Ao contrário.
Os últimos 12 anos deram ao partido e a seus militantes um conjunto objetivo de conquistas a defender contra a regressividade intrínseca ao projeto conservador para o Brasil.
Mas revelaram, também, desafios incontornáveis a encarar.
O principal deles é a rebelião rentista que insiste em subordinar a democracia aos seus desígnios, amputando sua capacidade de dar à riqueza uma finalidade social.
O economista Thomas Piketty, professor da Escola de economia de Paris, autor do elogiado ‘O capital no século XXI’ (leia a série de resenhas sobre o livro nesta pág), demonstra como a regressividade patrimonialista, inerente à hegemonia financeira em nosso tempo, está promovendo uma mutação na sociedade capitalista.
Ela conduz a uma desigualdade extremada, que aprofunda e perpetua as diferenças de berço, caminhando exatamente no sentido de destruir o papel social da democracia, pelo qual lutam as forças progressistas de todo o mundo. Sendo o PT uma de suas expressões relevantes.
Piketty mediu a regressão em marcha calibrada pela supremacia financeira nas últimas décadas.
Nos EUA e na Inglaterra, por exemplo, antes da Primeira Guerra Mundial, o 1% mais rico detinha 20% da renda nacional. Por volta de 1950, essa proporção cairia a menos da metade. De 1980 para cá a parcela reservada ao 1% disparou de novo.
Nos Estados Unidos ela já retornou ao ponto em que estava um século atrás.
É como se o ciclo neoliberal tivesse varrido do mapa histórico, de fato, a revolução russa e a construção do Estado do Bem Estar Social dela decorrente.
Daí para configurar aquilo que Piketty denomina como a consolidação de uma desigualdade de castas hereditárias, basta acrescentar o declínio de bandeiras republicanas como a taxação da herança e dos lucros superlativos do rentismo.
As conquistas sociais e o crescimento do emprego no Brasil nos últimos anos, na contramão da restauração neoliberal pós-crise, não excluem o país do risco de se tornar também uma correia de transmissão da perversidade hereditária --quase biológica.
A causa apontada por Piketty nas economias ricas está presente no capitalismo brasileiro.
Ganhos sempre superiores ao crescimento médio da economia, deslocam para o capital a juros –o rentismo-- fatias progressivamente mais gordas da riqueza social.
A dilatação da desigualdade daí decorrente, não sendo corrigida por políticas públicas de taxação de lucros e herança, semeia os alicerces de uma sociedade oligárquica ordenada pela posse original do patrimônio, transmitido de pai para filho.
Uma rápida comparação entre a série histórica do PIB e a evolução da taxa de juro no país (fontes: IBGE, FGV, Ministério da Fazenda e BC) mostra que no período entre 1995 e 2012, ou seja, por 17 anos, a taxa de juro real praticada no Brasil só ficou abaixo da variação do produto uma única vez, em 2010 (6,2% e 7,5%, respectivamente).
No segundo governo FHC, para um crescimento médio do PIB da ordem de 2%, a taxa de juro real ficou em 18,5%.
No segundo governo Lula, para um PIB médio de 4,5% a taxa de juro real foi da ordem de 11,7%.
Nos três primeiros anos de Dilma (2010-2013), o PIB médio foi da ordem de 2%.
A taxa de juro real foi caiu para 3,3%.
O estreitamento progressivo da diferença explica uma fatia expressiva do jogral do Brasil aos cacos recitado incansavelmente pela colunismo isento, a serviço do dinheiro grosso.
A rebelião contra a ‘Dilma intervencionista’, nesse sentido, é a rebelião da república rentista e de seus porta-vozes de orelhada ou holerite contra a redução real da Selic.
Ademais de corroer as pontes que levam a uma convergência da riqueza, o interdito preserva um confortável bunker de rentabilidade líquida para o capital a juro, imiscível com as urgências de investimento do país.
O conjunto remete à esfinge que povoa a alma do PT : o dinheiro não pode determinar o limite da democracia que, ao contrário, deve subordina-lo aos interesses da sociedade.
A palavra de ordem do conservadorismo em 2014 é deixar ao mercado o escrutínio desse conflito.
A campanha progressista, ao contrário, deve repactuar com o eleitor as linhas de passagem –que incluem sacrifícios, prazos e avanços, mas que deem à democracia a hegemonia do processo.
Foi abraçado a essa bandeira que o PT nasceu e se tornou a principal força política do país.
Deve agora reafirmar ao eleitor a sua capacidade de aprofundar esse compromisso na direção do país por mais quatro anos.
Em última instância, significa fazer do embate entre democracia social versus oligarquia argentária o grande duelo da eleição de 2014. E do futuro brasileiro.
O PT topa?
O jogo de 2014: democracia social X oligarquia argentária. O PT topa?
A prostração política e ideológica nas fileiras progressistas é talvez o mais grave desafio à reeleição da Presidenta Dilma.
Sem superá-lo -- ao menos mitigá-lo-- fica difícil esperar da sociedade a compreensão mais que nunca necessária sobre o que está em jogo em outubro de 2014.
A dissipação que reduz tudo a uma grande noite dos gatos pardos é a lenha na fornalha do conservadorismo. A isso se dedica em tempo integral a emissão conservadora.
Para reagir é preciso desassombro na identificação dos problemas.
O primeiro passo é admitir os erros de avaliação estratégica na origem do desalento.
Não se trata do varejo das perdas e danos intrínsecos a um governo de coalizão, determinado pela correlação de forças existente na sociedade e no cenário internacional.
Esse ônus sempre existiu, desde que o PT optou por ser uma força eleitoralmente competitiva.
O partido, todavia, tinha –e tem— a obrigação histórica de manter viva a tensão política e ideológica decorrente das suas escolhas.
O conflito entre o respeito ao jogo institucional e o compromisso com a construção de uma democracia social no país tornou-se endógeno ao PT.
Lula personifica essa contradição que manteve viva, transparente, em seus dois governos.
A superlativa presença do seu discurso na cena política era a evidencia mais crua de uma tentativa de negociar e repactuar , diariamente quase, o equilíbrio entre os dois polos.
O que se fez nos últimos anos, em certa medida, foi a tentativa de hibernar essa tensão insolúvel nos marcos da democracia representativa brasileira.
Em vez de expressá-la, adotou-se a aposta economicista , ancorada na suposta repetição de um desempenho de indicadores convencionais semelhantes ao do ciclo Lula.
A premissa mostrou-se incompatível com a transição de ciclo em curso no capitalismo mundial, refletida internamente na anemia do investimento , da exportação, da receita fiscal e da renda.
O conjunto trouxe o conflito redistributivo --despolitizado pelo governo-- para o campo desgastante do terrorismo inflacionário, a ser combatido com juros siderais, segundo o mantra argentário.
Expectativas expansionistas imaterializáveis fizeram o resto, contratando frustrações que o conservadorismo agora se esmera em hipertrofiar, salgando o preço da luta eleitoral.
Hoje parece claro que a superação da ênfase no consumo (correta durante a crise), rumo a um novo ciclo de investimento, deveria ter sido precedida da obsessiva construção de linhas de passagem para impulsionar um salto da passividade política ao discernimento engajado nas escolhas do desenvolvimento.
Não foi feito.
A evidência mais crua dessa omissão, que deu ao conservadorismo a hegemonia narrativa do processo, foi o fato de o PT, seus principais líderes e dirigentes, ademais de o governo, terem subestimado a importância de uma regulamentação da mídia para, ao menos, criar um contraponto de pluralidade ao monólogo plutocrático.
O conjunto obriga agora o campo progressista a disputar a narrativa econômica nos termos insolúveis impostos pela emissão conservadora, a saber: descontrole inflacionário versus juros argentários.
Mais que isso.
A avalanche ofuscou o discernimento ideológico dos quadros progressistas mais avançados, rebaixando a sua percepção sobre a verdadeira natureza do embate histórico em curso no país.
O nome do jogo não é inflação versus arrocho, mas democracia social negociada versus anomia conservadora.
Ou alguém acredita que um governo Aécio Neves --ou Campos/Marina, tanto faz, teria outro lubrificante para sua receita ortodoxa que não um vergalhão de desemprego e esmagamento do poder aquisitivo do mercado de massa criado nos últimos anos?
Por força dessa omissão, o saldo desses 12 anos de conflito – objetivamente favorável à sociedade brasileira como o demonstram as estatísticas sociais-- vem sendo pulverizado entre as pás de um moinho satânico.
Interesses rentistas insaciáveis , uma coalizão conservadora desprovida de proposta defensável em palanque e uma guerra aberta midiática unem-se na determinação de sepultar, de uma vez por todas, o último obstáculo eleitoral à hegemonia absoluta dos mercados no país: o PT.
O tempo e o terreno perdidos nesse rally têm uma chance de ser parcialmente recuperados na campanha eleitoral de 2014.
Desde que se dê a ela a destinação correta que não poder ser confundida com a mera formalidade publicitária.
Trata-se de um momento condensado da luta política.
Assim entendido pode corrigir o passado com a pactuação de um futuro distinto do mero compromisso com a inércia do presente.
O divisor de águas consiste em devolver ao programa de 2014 uma dimensão crucial do desenvolvimento esmaecida nos últimos anos: a sua determinação política.
Não se pode mais atribuir à economia aquilo que compete à correlação de forças decidir.
É preciso trazer para o embate eleitoral a verdade nua e crua temida pelo conservadorismo: a repactuação negociada de um novo ciclo de investimento com a distribuição da riqueza é indissociável de um avanço da democracia.
O resto é arrocho.
E há requisitos incontornáveis para que não seja arrocho.
O principal deles é equilibrar a presença do grande capital na mídia e no sistema político.
A regulação da estrutura de comunicação audiovisual e a reforma do sistema político, subtraindo de ambos a supremacia do dinheiro sobre a pluralidade, constitui o grande requisito à retomada do investimento, do crescimento e da reordenação do futuro.
Nada disso é estranho à história do PT e à trajetória do campo progressista brasileiro.
Essa aderência –repita-se, com as contradições e conflitos que lhe são intrínsecos— precisa retomar o espaço nobre no discurso e na prática petista.
Ignorar a centralidade da democracia na campanha de 2014 pode transformá-la num gigantesco buraco negro da esperança progressista.
A democracia, como diz o historiador e ensaísta italiano Luciano Canfora, em entrevista recente no El País, não consiste no governo da maioria simplesmente por dar à contagem dos votos a sua representação política.
Ela o será na medida em que exista um Estado social diante do qual quem não detém a riqueza na sociedade, ainda assim, tem peso efetivo na vida política e instrumentos para exercê-lo.
Ainda que ziguezagueante e contraditório quem guarda coerência com essa agenda no Brasil é o campo progressista liderado pelo PT. Mas não raro empurrado por outros partidos e movimentos sociais, ademais de arguido pela crítica de intelectuais que se colocam à esquerda nesse espectro político.
A essência do conflito com o qual o PT fundiu o seu destino consiste –para emprestar mais uma vez as lições de Canfora-- em entender a democracia como um experimento político que, sem expropriar radicalmente a riqueza, assume como imperativo coloca-la a serviço da finalidade social do desenvolvimento.
Até onde essa contradição poderá evoluir nos marcos de um sistema produtor de mercadoria não é um problema meramente teórico, mas de prática política.
É também, em essência, a grande esfinge que habita a alma do PT.
Mas que ainda não o devorou.
Ao contrário.
Os últimos 12 anos deram ao partido e a seus militantes um conjunto objetivo de conquistas a defender contra a regressividade intrínseca ao projeto conservador para o Brasil.
Mas revelaram, também, desafios incontornáveis a encarar.
O principal deles é a rebelião rentista que insiste em subordinar a democracia aos seus desígnios, amputando sua capacidade de dar à riqueza uma finalidade social.
O economista Thomas Piketty, professor da Escola de economia de Paris, autor do elogiado ‘O capital no século XXI’ (leia a série de resenhas sobre o livro nesta pág), demonstra como a regressividade patrimonialista, inerente à hegemonia financeira em nosso tempo, está promovendo uma mutação na sociedade capitalista.
Ela conduz a uma desigualdade extremada, que aprofunda e perpetua as diferenças de berço, caminhando exatamente no sentido de destruir o papel social da democracia, pelo qual lutam as forças progressistas de todo o mundo. Sendo o PT uma de suas expressões relevantes.
Piketty mediu a regressão em marcha calibrada pela supremacia financeira nas últimas décadas.
Nos EUA e na Inglaterra, por exemplo, antes da Primeira Guerra Mundial, o 1% mais rico detinha 20% da renda nacional. Por volta de 1950, essa proporção cairia a menos da metade. De 1980 para cá a parcela reservada ao 1% disparou de novo.
Nos Estados Unidos ela já retornou ao ponto em que estava um século atrás.
É como se o ciclo neoliberal tivesse varrido do mapa histórico, de fato, a revolução russa e a construção do Estado do Bem Estar Social dela decorrente.
Daí para configurar aquilo que Piketty denomina como a consolidação de uma desigualdade de castas hereditárias, basta acrescentar o declínio de bandeiras republicanas como a taxação da herança e dos lucros superlativos do rentismo.
As conquistas sociais e o crescimento do emprego no Brasil nos últimos anos, na contramão da restauração neoliberal pós-crise, não excluem o país do risco de se tornar também uma correia de transmissão da perversidade hereditária --quase biológica.
A causa apontada por Piketty nas economias ricas está presente no capitalismo brasileiro.
Ganhos sempre superiores ao crescimento médio da economia, deslocam para o capital a juros –o rentismo-- fatias progressivamente mais gordas da riqueza social.
A dilatação da desigualdade daí decorrente, não sendo corrigida por políticas públicas de taxação de lucros e herança, semeia os alicerces de uma sociedade oligárquica ordenada pela posse original do patrimônio, transmitido de pai para filho.
Uma rápida comparação entre a série histórica do PIB e a evolução da taxa de juro no país (fontes: IBGE, FGV, Ministério da Fazenda e BC) mostra que no período entre 1995 e 2012, ou seja, por 17 anos, a taxa de juro real praticada no Brasil só ficou abaixo da variação do produto uma única vez, em 2010 (6,2% e 7,5%, respectivamente).
No segundo governo FHC, para um crescimento médio do PIB da ordem de 2%, a taxa de juro real ficou em 18,5%.
No segundo governo Lula, para um PIB médio de 4,5% a taxa de juro real foi da ordem de 11,7%.
Nos três primeiros anos de Dilma (2010-2013), o PIB médio foi da ordem de 2%.
A taxa de juro real foi caiu para 3,3%.
O estreitamento progressivo da diferença explica uma fatia expressiva do jogral do Brasil aos cacos recitado incansavelmente pela colunismo isento, a serviço do dinheiro grosso.
A rebelião contra a ‘Dilma intervencionista’, nesse sentido, é a rebelião da república rentista e de seus porta-vozes de orelhada ou holerite contra a redução real da Selic.
Ademais de corroer as pontes que levam a uma convergência da riqueza, o interdito preserva um confortável bunker de rentabilidade líquida para o capital a juro, imiscível com as urgências de investimento do país.
O conjunto remete à esfinge que povoa a alma do PT : o dinheiro não pode determinar o limite da democracia que, ao contrário, deve subordina-lo aos interesses da sociedade.
A palavra de ordem do conservadorismo em 2014 é deixar ao mercado o escrutínio desse conflito.
A campanha progressista, ao contrário, deve repactuar com o eleitor as linhas de passagem –que incluem sacrifícios, prazos e avanços, mas que deem à democracia a hegemonia do processo.
Foi abraçado a essa bandeira que o PT nasceu e se tornou a principal força política do país.
Deve agora reafirmar ao eleitor a sua capacidade de aprofundar esse compromisso na direção do país por mais quatro anos.
Em última instância, significa fazer do embate entre democracia social versus oligarquia argentária o grande duelo da eleição de 2014. E do futuro brasileiro.
O PT topa?
A SEGUNDA RAINHA
28/04/2014
por Mauro Santayama em seu blog
(Hoje em Dia) - Até pouco tempo atrás se acreditava que o xadrez surgiu na
Índia, mas novas evidências indicam que foi inventado possivelmente na China,
no século III antes de Cristo.
Os russos gostam de xadrez, e a ida do ministro das Relações
Exteriores, Serguei Lavrov, a Pequim, onde se encontrou com seu colega chinês,
Wang Yang, e com o próprio Presidente Xi Jinping, em momento decisivo para a
questão ucraniana, equivale a atravessar com um peão o tabuleiro e transformá-lo
em uma segunda rainha.
Na Ucrânia, a OTAN e os EUA cometeram vários erros:
– Derrubaram – ou
ajudaram a derrubar – um governo eleito, que, com todos seus defeitos, mantinha
o país unido e funcionando.
– Subestimaram a reação russa, acreditando que Moscou
permitiria passivamente que Kiev se transformasse em um novo enclave da OTAN em
suas fronteiras, e que se jogasse no lixo os acordos assinados quando da saída
do país da URSS, no final dos anos 1980.
– Não se prepararam para oferecer – até porque não têm
condições para isso – apoio financeiro para manter em pé um país que deve quase
200 bilhões de euros.
– Não conseguiram estabelecer qualquer alternativa viável
para substituir o gás russo do qual os ucranianos dependem como sangue para continuar vivendo.
– Acharam que a população ucraniana era, em sua maioria,
contra a Rússia, quando, na verdade, o país tem milhões de habitantes que falam
russo, descendem de antepassados russos, vivem em cidades “russas”, e não
aceitam ser governados por neonazistas, estes sim, uma minoria virulentamente
anti-russa e anti-comunista, o que não é apenas ridículo, como anacrônico, quando
se considera que o governo Putin não é, nem nunca foi, um governo comunista.
– Subestimaram a posição da Alemanha, achando que ela iria comprar
briga com Moscou, quando depende fortemente do mercado russo para suas
exportações, e do gás russo para manter em funcionamento sua economia.
A soma de todos esses equívocos explica porque, enquanto a OTAN
e os EUA continuam sendo atropelados
pelos acontecimentos, Putin segue avançando, a cada movimento, fortalecendo-se
e estreitando seus laços com outros países, e especialmente com a China.
Ao enviar Lavrov a
Pequim antes das reuniões com a UE, EUA e Ucrânia e advertir que
qualquer ataque ucraniano aos civis pró-russos pode abortar as
negociações, Moscou deixa claro ao Ocidente que está longe de se sentir
isolada
diplomaticamente, e que conta com poderoso aliado, caso a situação se
complique.
Os chineses têm um ditado que não tem nada a ver com xadrez,
mas que serve de alerta para a gula da OTAN em sua expansão rumo às antigas repúblicas soviéticas
e ao espaço euroasiático compartilhado por russos, chineses e indianos: “quando
o rato cresce até ficar do tamanho do gato, já está passando da hora de empunhar
a vassoura”.
EUA são colonialistas na internet
Do site Vermelho: transcrito do Blog do Miro
Estados Unidos, Reino Unido e seus aliados têm agido como colonialistas na internet, afirmou Julian Assange nesta quinta-feira (24). O fundador do WikiLeaks participou, por meio de videoconferência, do evento Arena NET Mundial, que teve debates sobre o espaço virtual.
Vestido com uma camisa da seleção brasileira de futebol, Assange disse que tem ocorrido uma “apropriação de terras” na internet, sendo a aliança de serviços de inteligência “Cinco Olhos” (formada por EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá e Nova Zelândia) a liderança desse processo.
Além disso, para ele, conquistar a internet significa conquistar a própria sociedade. “Não existe mais diferença entre internet e sociedade. As que ainda existem estão desaparecendo”, declarou Assange.
“Estamos lidando com organizações que não são democráticas, nem inteligentes”, disse o fundador do Wikileaks. Assange destacou a importância do Brasil como um centro de criação de espaços alternativos na internet, que são uma ameaça reconhecida pelos EUA. “Se produzirmos nossas próprias associações, iremos muito mais adiante”, afirmou.
Falando do Brasil, Assange elogiou a aprovação do Marco Civil da Internet, sancionado na última quarta-feira (23) pela presidente Dilma Rousseff, durante a abertura do NET Mundial, mas também fez um alerta: “Quando algo é aprovado, não significa que seja aplicado. É preciso pressão popular”.
O jornalista e ciberativista australiano Julian Assange está alojado na embaixada do Equador em Londres desde o dia 19 de junho de 2012, quando conseguiu asilo político. Se deixar o edifício, ele pode ser preso e extraditado para os Estados Unidos.
Estados Unidos, Reino Unido e seus aliados têm agido como colonialistas na internet, afirmou Julian Assange nesta quinta-feira (24). O fundador do WikiLeaks participou, por meio de videoconferência, do evento Arena NET Mundial, que teve debates sobre o espaço virtual.
Vestido com uma camisa da seleção brasileira de futebol, Assange disse que tem ocorrido uma “apropriação de terras” na internet, sendo a aliança de serviços de inteligência “Cinco Olhos” (formada por EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá e Nova Zelândia) a liderança desse processo.
Além disso, para ele, conquistar a internet significa conquistar a própria sociedade. “Não existe mais diferença entre internet e sociedade. As que ainda existem estão desaparecendo”, declarou Assange.
“Estamos lidando com organizações que não são democráticas, nem inteligentes”, disse o fundador do Wikileaks. Assange destacou a importância do Brasil como um centro de criação de espaços alternativos na internet, que são uma ameaça reconhecida pelos EUA. “Se produzirmos nossas próprias associações, iremos muito mais adiante”, afirmou.
Falando do Brasil, Assange elogiou a aprovação do Marco Civil da Internet, sancionado na última quarta-feira (23) pela presidente Dilma Rousseff, durante a abertura do NET Mundial, mas também fez um alerta: “Quando algo é aprovado, não significa que seja aplicado. É preciso pressão popular”.
O jornalista e ciberativista australiano Julian Assange está alojado na embaixada do Equador em Londres desde o dia 19 de junho de 2012, quando conseguiu asilo político. Se deixar o edifício, ele pode ser preso e extraditado para os Estados Unidos.
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