segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Gaspari: Trensalão ultrapassa de longe mensalão


27 de outubro de 2013 | 08:53
Elio Gaspari arriscou-se a dar uma sopradinha mais forte no trombone. Em sua coluna dominical, publicada nos dois jornais de maior circulação no país (Folha e Globo), encontrei a seguinte nota, de potencial altamente explosivo:
ALSTOM
Ou o tucanato paulista tem uma estratégia capaz de causar inveja ao comissariado petista que pretende livrar seus caciques das penitenciárias pelo mensalão, ou está numa tática suicida, jogando o escândalo do propinoduto denunciado pela Siemens para dentro da campanha eleitoral do ano que vem.
Pelas provas, depoimentos e cifras, esse caso ultrapassa, de longe, o mensalão. Ali não há domínio do fato, o que há são fatos dominantes.
*
Bem, se o trensalão “ultrapassa, de longe, o mensalão”, como diz Gaspari (e eu concordo), teríamos de ver o seguinte:
1) O Ministério Público Federal teria de publicar em seu portal uma “historinha para crianças” sobre o trensalão igual àquela que fez para o mensalão petista.
2) Os jornais deveriam escalar a mesma quantidade de repórteres que usaram no mensalão para sondar os bastidores das campanhas tucanas abastecidas com dinheiro do trensalão.
3) A quantidade de editoriais sobre o trensalão, e suas implicações morais, teria que ser multiplicada por cem para chegar perto do mensalão.
4) Os jornais têm de publicar enormes infográficos, a ocupar páginas inteiras dos jornais, trazendo os rostos de todos os implicados no trensalão tucano.
5) Chico Caruso, chargista d’O Globo, teria que fazer umas duzentas charges sobre o trensalão.
6) Os movimentos anticorrupção, sobretudo no Facebook, tem que começar a fazer pressão nas autoridades, para que o trensalão chegue à cúpula do poder, e aos financiamentos de campanha.
7) Os ministros do STF deitarão discursos raivosos e épicos sobre o trensalão, dizendo que se trata do maior escândalo de corrupção da república. E que, à diferença do mensalão, não há necessidade de se usar nenhuma teoria do “domínio do fato”, porque há provas abundantes.
8) Ex-ministros do STF, como Ayres Brito, e ex-procuradores gerais da república, como Antônio Fernando de Souza e Roberto Gurgel, que atuaram de maneira tão virulenta no mensalão, darão entrevistas dizendo que o trensalão tucano é um caso muito pior, porque há provas, emails, depoimentos, além de uma investigação internacional em curso.
9) Roberto Freire denunciará essa “ignomínia” e dirá que o PPS se decepcionou profundamente com o PSDB paulista, que achava ser um grande bastidão da ética.
Eremildo, o idiota criado por Gaspari, acredita piamente que tudo isso pode acontecer.
Por: Miguel do Rosário
www.tijolaco.com.br



Sistema tributário é recessivo

Por Amir Khair, na revista Teoria e Debate:

O que marca a política tributária no Brasil é a concentração de tributos (impostos, contribuições e taxas) fundamentalmente sobre o consumo, através de altas alíquotas que incidem sobre o preço de venda de bens e serviços, elevando-os.

O ICMS, de competência estadual, é o principal causador dos preços elevados na economia, pois incide sobre a circulação de mercadorias e prestação de serviços. A alíquota mais usada é de 18% e, nos casos de comunicações por telefone fixo ou celular, energia elétrica e combustível, itens de uso geral na sociedade, varia entre 25% e 30%. Esta tem incidência por dentro, ou seja, majora o preço sem impostos em porcentagem maior. Assim, quando a alíquota é 18%, eleva o preço sem imposto em 21,95%; quando é 25%, em 33,33%.

Elevar em demasia os preços inibe o consumo, sacrificando a maioria da população, cuja maior parte da renda a ele se destina. Outra consequência é a redução da competitividade das empresas face às concorrentes de outros países.

Por outro lado essa política subtributa o patrimônio e a renda, beneficiando as camadas de maior renda e riqueza. Exemplo emblemático dessa situação é o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), que, apesar de constar como de competência da União pela Constituição de 1988, não é regulamentado pelo Congresso Nacional, pois atingiria o bolso da maioria dos deputados e senadores.

A insignificante tributação sobre o imóvel rural é outra evidência da subtributação do patrimônio. O Imposto Territorial Rural (ITR) mal chega a 0,01% do Produto Interno Bruto (PIB) ou 0,04% da arrecadação tributária do país. O Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) tem, também, baixa expressividade no total de arrecadação, alcançando apenas 1,3% dela.

Atingem o consumo os seguintes tributos: na esfera federal, o Programa de Integração Social (PIS), a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e o Imposto de Importação; na esfera estadual, o ICMS, principal tributo do país em arrecadação; e na esfera municipal o Imposto sobre Serviços (ISS).

Um produto cujo preço sem impostos vale R$ 100 é majorado em R$ 37,46, considerando as alíquotas que incidem por dentro: ICMS de 18%, Cofins de 7,6% e PIS de 1,65%. O preço de venda fica em R$ 137,46. Se o ICMS fosse de 25%, como é em geral nas comunicações, energia elétrica e combustíveis, o preço de venda saltaria de R$ 100 para R$ 152(!).

Quanto ao IPTU, vale ressaltar o potencial tributário que possui, caso os prefeitos se dispusessem a cobrá-lo, sem sacrificar a população, por meio de alíquotas progressivas conforme o valor venal dos imóveis.

Nos municípios brasileiros, é importante destacar que existe, de forma geral, forte concentração de valor venal global da cidade em um percentual reduzido de imóveis. Assim, caso fosse possível aplicar alíquotas mais altas para esses imóveis, ter-se-ia substancial crescimento da arrecadação desse imposto.

Existe, no entanto, exagero na cobrança do IPTU na cidade de São Paulo. Há alguns anos, o município tem o maior IPTU por habitante entre as capitais e, como cerca de um terço dos imóveis de menor valor é isento, os dois terços restantes, em que se situam principalmente a classe média e as pequenas e médias empresas, são fortemente tributados. Com a anunciada elevação do IPTU bem acima da inflação a partir de 2014, essa situação pode levar à forte reação dos atingidos, especialmente por se tratar de ano eleitoral, quando não faltam motivos para combater a candidatura presidencial e de governadores do PT.

A subtributação sobre a renda é caracterizada por baixa incidência na pessoa física devido à limitação da alíquota máxima de 27,5%, a menor entre os países da América Latina e uma das mais baixas do mundo.

O não enfrentamento do desgaste político que pode ser causado pela elevação dessa alíquota para os contribuintes de faixa de renda mais alta, aliado à difícil aprovação no Congresso Nacional, com a maioria dos parlamentares que seria atingida pela elevação da alíquota, coloca o Brasil como um país dos que menos tributam a renda no confronto internacional.

Na média dos últimos seis anos, o consumo respondeu por 43,7% da tributação, seguido pela mão de obra, com 37,5%. Essas duas bases de incidência superaram quatro quintos da tributação no país. O lucro nas empresas representou 10,7%, o patrimônio 3,7% e a intermediação financeira 1,8%. A baixa incidência tributária sobre a intermediação financeira é outra característica do sistema tributário vigente.

A tributação sobre a mão de obra é, também, elevada, encarecendo esse fator de produção, o que restringe seu uso. Em agosto de 2011, no entanto, o governo federal iniciou o processo de desoneração da mão de obra de vários setores econômicos pela substituição da incidência da tributação de 20% sobre o valor da folha de pagamentos (cota patronal) por uma alíquota que varia entre 1% e 2% sobre o faturamento bruto das empresas.

Uma crítica à desoneração da cota patronal é que possa causar prejuízo nas contas do regime geral da Previdência Social. A arrecadação diminuiu seu ritmo, e em consequência analistas tucanos já se assanham para pregar nova reforma da Previdência Social, com forte redução de direitos dos segurados.

Em síntese, o país tem uma política tributária que penaliza o consumo e subtributa a renda e o patrimônio. Isso torna o sistema tributário regressivo e recessivo, funcionando como trava ao crescimento econômico e à distribuição do uso da renda.

* Amir Khair é mestre em Finanças Públicas pela FGV e consultor

R$ 143 bilhões devem ser injetados na economia a título de 13º salário




Florianópolis, 28 de outubro de 2013
Nota à Imprensa

 
Até dezembro de 2013 devem ser injetados na economia brasileira pouco mais de R$ 143 bilhões em decorrência do pagamento do 13º salário. Este montante representa aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e será pago aos trabalhadores do mercado formal, inclusive empregados domésticos; aos beneficiários da Previdência Social, e para aposentados e beneficiários de pensão da União e dos estados. Cerca de 82,3 milhões de brasileiros serão beneficiados com um rendimento adicional de R$ 1.740, em média, segundo estimativas do DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos.
Os valores estimados pelo DIEESE levam em conta dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), ambos do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Também foram consideradas informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referente a 2012, e informações do Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) e da Secretaria Nacional do Tesouro (STN).
No caso da Rais, o DIEESE considerou todos os assalariados com carteira assinada, empregados no mercado formal, nos setores público (celetistas ou estatutários) e privado que trabalhavam em dezembro de 2012, acrescido do saldo do Caged do ano de 2013 (até setembro). Da Pnad, foi utilizado o contingente estimado de empregados domésticos com registro em carteira. Foram considerados ainda os beneficiários – aposentados e pensionistas – que, em agosto de 2013, recebiam seus proventos do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e os aposentados e pensionistas pelo regime próprio da União e dos Estados. Com relação aos valores, para a estimativa do montante a ser pago aos beneficiários do INSS, foi usado o total referente a agosto deste ano. Para os assalariados, o rendimento foi atualizado pela variação média do INPC no período janeiro-setembro de 2013 sobre igual período de 2012.
Para efeito do cálculo, o DIEESE não leva em conta os autônomos, assalariados sem carteira ou trabalhadores com outras formas de inserção no mercado de trabalho que, eventualmente, recebem algum tipo de abono de fim de ano, nem os valores envolvidos nesses abonos, uma vez que esses dados são de difícil mensuração.
Além disso, não há distinção dos casos de categorias que recebem ao menos parte do 13º antecipadamente, por definição, por exemplo, de Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) ou Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). Da mesma forma, o valor recebido pelos beneficiários do INSS é considerado pelo montante total, independentemente de a primeira parcela já ter sido paga em agosto. Assim, os dados apresentados constituem uma projeção do volume total de reais que entra na economia ao longo do ano, a título de 13º salário, e não necessariamente nos dois últimos meses de 2013. Entretanto, estima-se que a maior parte, cerca de 70% do total dos valores referentes ao 13º, seja paga no final do ano.
Dos cerca de 82 milhões de brasileiros que devem ser beneficiados pelo pagamento do 13º salário, aproximadamente 30,76 milhões, ou 37,4% do total, são aposentados ou pensionistas da Previdência Social. Os empregados formais (50,6 milhões de pessoas) correspondem a 61,4% do total. Entre estes, os empregados domésticos com carteira de trabalho assinada somam 1,780 milhão, equivalendo a 2,2% desse conjunto de beneficiários do abono natalino. Além desses, aproximadamente 979 mil pessoas (ou 1,2% do total) referem-se aos aposentados e beneficiários de pensão da União (Regime Próprio). Há ainda um conjunto de pessoas constituído por aposentados e pensionistas dos estados (regime próprio) que vai receber o 13º e que não pode ser quantificado.
Do montante a ser pago a título de 13º, cerca de 20% dos R$ 143 bilhões, ou seja, pouco menos de R$ 30 bilhões, serão pagos aos beneficiários do INSS. Outros R$ 100 bilhões, ou 70% do total, irão para os empregados formalizados; incluindo os domésticos. Aos aposentados e pensionistas da União, caberá o equivalente a R$ 7,2 bilhões (5%) e aos aposentados e pensionistas dos Estados, R$ 6,3 bilhões (4,4%).

O número de pessoas que receberá o 13º salário em 2013 é cerca de 2,9% superior àquele calculado para 2012. Estima-se que mais de 2 milhões de pessoas passarão a receber o benefício, por terem requerido aposentadoria ou pensão, por se incorporarem ao mercado de trabalho ou ainda devido à formalização do vínculo empregatício. Para efeito de comparação com 2012, quando o DIEESE estimou que cerca de R$ 131 bilhões entrariam na economia em consequência do pagamento do 13º, o valor apurado neste ano indica um crescimento da ordem de 9,8%.
Distribuição por região
Refletindo a maior capacidade econômica da região, a parcela mais expressiva do 13º salário – 51% ‑ deve ficar nos estados do Sudeste, região que concentra também a maior parte dos trabalhadores, aposentados e pensionistas. Outros 15,6% do total devem ser pagos na região Sul, enquanto no Nordeste devem entrar em circulação 15,4%. Para as regiões Centro-Oeste e Norte, irão, respectivamente, 8,4% e 4,7%. Os beneficiários do regime próprio da União respondem por 5% do montante e podem viver em qualquer região.
O maior valor médio para o 13º (considerando todas as categorias de beneficiados) deve ser pago em Brasília - R$ 3.174 – e o menor, é encontrado nos estados do Maranhão e Piauí - ambos com média próxima a R$ 1.100,00. Estas médias, porém, não incluem o pessoal aposentado pelo regime próprio dos estados, cujo quantitativo não foi possível obter.
Estimativa setorial para o mercado formal
Para os empregados do setor formal, a estimativa é de que R$ 99 bilhões serão pagos a título de 13º salário, até o final do ano, aos 48,8 milhões de trabalhadores formais do setor público e privado no Brasil, excluídos os empregados domésticos.
A maior parcela do montante a ser distribuído caberá aqueles que estão empregados no setor de serviços (incluindo administração pública), que nesse cálculo representam 60,1% do total destinado ao mercado formal; aos empregados da indústria caberão 19,8%; para os comerciários destinam-se 12,9%; entre aqueles que trabalham na construção civil será pago o correspondente a 5,2% e 2% serão destinados aos trabalhadores da agropecuária brasileira, conforme pode ser observado na Tabela 2.
Em termos médios, o valor do 13º salário pago ao setor formal corresponde a R$ 2.029. A maior média deve ser paga para os trabalhadores do setor de serviços, e corresponde a R$ 2.314; o setor industrial aparece com o segundo valor, equivalente a R$ 2.151 e o menor 13º salário foi verificado entre os trabalhadores do setor primário da economia (R$ 1.215).

O 13º na economia catarinense
A economia catarinense deverá receber, até o final de 2013, a título de 13° salário, cerca de R$ 5,5 bilhões, aproximadamente 3,8% do total do Brasil e 24% da região Sul. Esse montante representa em torno de 2,9% do PIB estadual.
O contingente de pessoas no estado que receberá o décimo terceiro foi estimado em 3,4 milhões, o correspondente a 4,1% do total que terá acesso ao benefício no Brasil. Em relação à região Sul, esse percentual é de 24%. Os empregados do mercado formal, celetistas ou estatutários, representam 64%, enquanto pensionistas e aposentados do INSS equivalem a 36%. O emprego doméstico com carteira assinada participa com 1,2%.
Em relação aos valores que cada segmento receberá, nota-se a seguinte distribuição: os empregados formalizados ficam com 73% (R$ 4 bilhões) e os beneficiários do INSS, com 27% (R$ 1,5 bilhões), enquanto aos aposentados e pensionistas do estado do Regime Próprio caberão 4,4% (R$ 243 milhões). Santa Catarina registra um valor médio de R$ 1.508,72.

Apesar de ter atingido níveis recordes, o endividamento das famílias brasileiras é baixo em relação a outros países

Por Wellton Máximo, repórter da Agência Brasil

"Apesar de ter atingido níveis recordes, o endividamento das famílias brasileiras é baixo em relação a outros países. Segundo levantamento divulgado pelo Banco Central (BC) na última sexta-feira (25), os brasileiros tinham 45,36% dos rendimentos comprometidos com dívidas, no maior nível registrado desde o início da série, em janeiro de 2005.

O número refere-se à comparação entre as dívidas das famílias com o Sistema Financeiro Nacional e os rendimentos acumulados nos últimos 12 meses. Há oito anos, esse percentual correspondia a apenas 18,39%, mas subiu gradualmente até ultrapassar 40% em março de 2011. Mesmo com esse salto, os brasileiros ainda usam pouco o crédito na comparação com as economias avançadas.

Segundo levantamentos mais recentes, em grande parte dos países desenvolvidos, a população deve mais do que a própria renda. Nos Estados Unidos, de acordo com o órgão responsável pelo censo, o endividamento médio das famílias equivale a 101,7% dos rendimentos.

Na Europa, as dívidas superam 100% da renda na Estônia, na Espanha, na França, em Portugal, na Finlândia, na Suécia e no Reino Unido, conforme o Eurostat – órgão oficial de estatísticas da União Europeia. Na Dinamarca, na Irlanda, no Chipre, na Holanda e na Noruega, a proporção supera 200%.

De acordo com o economista Fabio Gallo, especialista em crédito da Fundação Getúlio Vargas, o que impede o endividamento dos brasileiros de atingir os níveis dos países desenvolvidos são os juros altos, que se refletem no alto valor das prestações. "A grande diferença do Brasil em relação aos países avançados nessa questão não está somente no nível de endividamento, mas no serviço da dívida, que é muito mais alto no Brasil do que em outros países", explica.

Segundo o levantamento do Banco Central, as famílias brasileiras comprometem, em média, 21,4% da renda mensal com prestações. Desse total, 12,74% referem-se a juros e somente 8,66% dizem respeito à amortizações, pagamento do principal da dívida que reduz o saldo devedor.

"Nos Estados Unidos ou na Europa, as famílias se endividam além da renda, mas pagam prestações relativamente pequenas e com prazos longos. No Brasil, é justamente o contrário. O endividamento é baixo, pelo menos em relação a esses países, mas as prestações consomem boa parte do salário", pondera o especialista da FGV.

Por causa dos altos juros e da inadimplência, o professor diz que o maior endividamento dos brasileiros deve ser visto com cautela. "Boa parte desse endividamento não está relacionada a investimentos de longo prazo, como a casa própria, mas ao próprio consumo. Muita gente comprou carro em 2009 e não conseguiu pagar. Daí, recorre a financiamentos para pagar dívidas de consumo", ressalta.

Segundo o professor, os juros altos no Brasil criam um círculo vicioso em que a inadimplência que se reflete em taxas ainda mais altas para os tomadores de crédito. "Infelizmente, a inadimplência em geral é repassada para as taxas dos bancos. O cadastro positivo [relação de bons pagadores] pode melhorar isso, mas o processo ainda está no início", avalia."

FONTE: escrito por Wellton Máximo, repórter da Agência Brasil (Edição: Davi Oliveira). Publicado no "Jornal GGN"  (
http://jornalggn.com.br/noticia/apesar-de-recorde-endividamento-dos-brasileiros-e-baixo-em-relacao-a-outros-paises)

DESAFIOS DO MOVIMENTO SINDICAL PARA O DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO PARTE 2

 Segunda parte do artigo produzido para a rede Plataforma Política Social – Agenda para o Brasil do Século XX. 

Clemente Ganz Lúcio[1]

2. OS DESAFIOS DO FUTURO

A ação sindical é marcada pela capacidade de mobilizar os trabalhadores, evidenciando seus interesses e os negociando em diferentes espaços institucionais, desde o local de trabalho, passando por setor e categoria, local e regional, e chegado ao nível nacional.

O desafio geral, a partir do presente e na perspectiva do longo prazo, é aprofundar a estratégia de desenvolvimento, seja ampliando e sustentado o mercado interno de consumo, aumentando o emprego e a renda do trabalho, observando a qualidade dos postos de trabalho, incluindo por meio do emprego os pobres e os ainda milhões de excluídos, ou promovendo a ampliação sustentada no investimento em infraestrutura econômica e produtiva (portos, aeroportos, estradas, ferrovias, energia, armazenagem), em infraestrutura social (mobilidade urbana, saneamento, habitação, saúde, educação). Ou então, pela ampliação da capacidade produtiva das empresas, por meio da agregação de valor e recomposição de elos das cadeias produtivas, com ciência, tecnologia e inovação, superando as graves desigualdades, inclusive regionais. Isso tudo, no sentido de promover bem estar social e qualidade de vida, com sustentabilidade ambiental, cujos ganhos de produtividade permitam a todos trabalharem menos e desfrutarem dos bens da vida, da cultura, do esporte e do convívio social. Chegaremos lá com muita luta e capacidade de formulação e negociação de estratégias de desenvolvimento econômico e social. As práticas que nos levam às escolhas fazem parte da essência da política em sentido amplo e radical e esse é o campo da atuação do movimento sindical que quer ser protagonista da história de seu país.

No bojo desse desafio geral, na visão de futuro, destacamos, de maneira pontual, alguns desafios fundamentais para que processos (organização, mobilização, negociação) e conteúdos (temas, questões, projetos, programas) deem sentido e significado às estratégias. Formularemos esses desafios como diretrizes de ação, considerando-se que cada uma delas trata de superar problemas e obstáculos.

No âmbito do movimento sindical destacamos os seguintes desafios:

·      Investir no fortalecimento da ação conjunta constituída no campo da unidade de ação, na medida em que essa forma de atuação abre, diante de empresários, governo e parlamento, outro nível de relação e interlocução a partir da força que essa unidade evidencia.
·      Para o fortalecimento da unidade de ação será necessário aprofundar a capacidade de construção das propostas e das estratégias a serem formuladas, considerando-se que há diferenças relevantes nesses dois campos entre as centrais sindicais.
·      Fortalecer a ação conjunta das centrais sindicais no âmbito nacional e, ao mesmo tempo, criar processos semelhantes locais, para que temas regionais e locais sejam negociados no âmbito das políticas municipais e estaduais, tais como: mobilidade urbana, saneamento, habitação, saúde, educação, ciência e tecnologia, entre outros.
·      Articular as ações sindicais com os outros movimentos sociais, constituindo novos espaços de unidade de ação.
·      Preparar quadros para processos negociais complexos, muito distintos daqueles que fazem parte da agenda sindical cotidiana constituído pelas negociações salariais. As negociações nacionais ou locais de temas de interesse geral, envolvendo diferentes atores, exigem novas competências políticas de elaboração de estratégia, de domínio temático e de capacidade analítica.
·      Ampliar a cooperação sindical para a atuação conjunta e articulada nos espaços institucionais nos fóruns, conselhos e processos de conferências, com atenção especial para as propostas e políticas de interesse específico e geral dos trabalhadores.
·      Investir na organização sindical no local de trabalho como instrumento de ampliação da representatividade, da participação, da negociação e solução de conflito, ampliação a prática democrática na vida dos trabalhadores, o que favorece a promoção dos direitos em cada situação concreta.
·      Investir na articulação dos trabalhadores em redes por empresas no âmbito nacional e internacional, favorecendo a construção de Acordos Marco Globais.
·      Investir no regramento – em lei ou de autorregulação – que enfrente os problemas da fragmentação sindical, do financiamento da organização sindical e da democracia na vida sindical.
·      Propugnar avanços no sistema sindical visando favorecer e incentivar a negociação coletiva, o aumento da representatividade e a solução ágil dos conflitos laborais.
·      Investir na pactuação de compromissos nacionais setoriais, capazes de criar bases para uma homogeneização que supere discrepâncias e distorções presentes nas relações de trabalho em um mesmo setor.

No âmbito temático destacamos os seguintes desafios:

·      Manter e sustentar a política de valorização do salário mínimo.
·      Manter ganhos salariais que promovam o incremento da participação da renda do trabalho na distribuição funcional da renda.
·      Regulamentar a terceirização, pela relevância que o setor de serviços tem na relação com os demais setores da economia, pelo contingente de trabalhadores que envolve e pela característica de precarização que domina esse tipo de relação laboral.
·      Pautar a questão da redução da jornada de trabalho, promovendo-a em vários níveis – local, setorial, nacional.
·      Aprofundar a agenda da segurança e saúde no trabalho, com especial atenção às condições de trabalho em cada local.
·      Regulamentar o direito de negociação coletiva para os servidores públicos.
·      As mudanças tecnológicas (informática e comunicação) e a expansão do setor de serviços trazem inúmeros novos desafios para as condições de trabalho e para sua regulação.
·      Olhar atento para as questões da juventude na inserção no mundo do trabalho e na vida sindical.
·      Tratar das questões das discriminações de gênero e raça presentes na vida laboral e sindical.
·      Enfrentar as questões da alta rotatividade dos trabalhadores, especialmente aqueles com menores salários.
·      Atuar para reduzir a informalidade caracterizada, nas relações e condições de trabalho, como ausência de proteção social e laboral.
·      Tratar da questão previdenciária, tanto pelo que acarretará a mudança demográfica, quanto para corrigir as distorções atuais do sistema, entre elas, a questão do fator previdenciário.
·      Propugnar a urgência da constituição de um sistema público de emprego, trabalho e renda que integre as políticas públicas desse campo, dando a cada uma delas (intermediação, formação e seguro-desemprego) a envergadura que o tamanho da força de trabalho e do país exige.

No âmbito da perspectiva geral do desenvolvimento, destacamos os seguintes desafios:

·      Participar da construção de um campo de entendimento capaz de promover acordos sociais que definam os objetivos e as estratégias de desenvolvimento do país.
·      Considerar que a estratégia de desenvolvimento deve orientar processo de desenvolvimento industrial que fortaleça elos das cadeias produtivas, incentive a produção nacional e integre nossa economia à economia internacional.
·      O incremento da produtividade e qualidade oriundo dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação deve ser partilhado entre a indústria e os setores de serviços, comércio e agropecuária.
·      A política de inovação, base para o incremento da produtividade e qualidade, deve ter diretriz específica para as micro, pequenas e médias empresas (no campo, a agricultura familiar), unidades que dependem diretamente da capacidade de investimento do estado (assistência, crédito, gestão, projeto, comercialização, entre outros) para seu desenvolvimento econômico.
·      Reafirmar o papel estratégico que o investimento tem para sustentar o desenvolvimento de longo prazo. Cabe ampliar a capacidade de investimento do estado e mobilizar o investimento privado.
·      Afirmar que investimentos em infraestrutura econômica, produtiva e social são frentes que dependem em grande medida do estado e que a participação do setor privado deve ser objeto de clara regulação pública.
·      Olhar para as questões do campo, da reforma agrária e das políticas de investimento produtivo na agricultura familiar.
·      Evidenciar a urgência de uma reforma tributária que altere o atual sistema regressivo de tributação, simplificando-o e dando-lhe maior transparência, mas que também promova o investimento e a justiça social e elimine a guerra fiscal.
·      Propor uma agenda econômica que busque a desindexação da economia, a redução dos juros, o aumento do investimento, a manutenção de um câmbio que favoreça o desenvolvimento industrial e a inserção nas cadeias globais de agregação de valor, entre outros.
·      Sustentar a prioridade do investimento em educação, seja pela dimensão da promoção geral da cidadania, seja pelo direito ao trabalho e ao desenvolvimento profissional.
·      Conceber processos e instrumentos (negociações e acordos) políticos capazes de sustentar no médio e longo prazo as estratégias de desenvolvimento econômico e social, administrando os custos de transição que os processos de transformação exigem; monitorando a realização dos investimentos necessários ou observando os resultados distributivos almejados.

O atual contexto, os desafios que o movimento sindical brasileiro tem são no sentido de sustentar e aprofundar transformações econômicas e sociais promovidas na ordem da democracia que continuamos construindo. Essas transformações ocorrerão no sentido desejado se a sociedade for capaz de apontar o rumo, conceber e promover as estratégias necessárias de mudança. Espera-se que isso ocorra com base no diálogo social e se materialize em acordos sociais que favoreçam políticas de estado consistentes com os objetivos do desenvolvimento como processo de construção do bem estar social, de qualidade de vida e do equilíbrio ambiental. Nos processos de transformação que nos conduzem ao Brasil do futuro, a superação das diferentes formas de desigualdade é um desafio permanente.

Por isso, as políticas distributivas, em todas as dimensões, devem favorecer a igualdade como elemento dinamizador do mercado interno, pela inclusão econômica de milhões de brasileiros, pela melhoria na distribuição da renda e da riqueza e pela desconcentração do desenvolvimento para todo o território.


 

[1] Diretor Técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.