Por Iuri Müller e Samir Oliveira
Do Sul21O
nome de Marcos Tiaraju Correa da Silva foi escolhido de forma coletiva,
mediante votação em uma assembleia com quase 10 mil pessoas. O cenário
desta decisão era a ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
(MST) na fazenda Annoni, no norte do Rio Grande do Sul, no dia 1° de
novembro de 1985.
“Marcos”, porque tratava-se do nascimento da
primeira criança em uma ocupação do movimento. “Tiaraju”, em homenagem
ao indígena Guarani Sepé Tiaraju, que liderou seu povo em uma guerra
contra os colonizadores na América do Sul. Filho da histórica militante
Roseli Nunes, Marcos Tiaraju nasceu, como ele mesmo define, “embaixo da
lona preta”.
Marcos Tiaraju nasceu sem terra, mas permaneceu anos
politicamente afastado desta condição. Muito tempo depois, retomou o
contato com MST e passou a militar na organização. Em 2006, foi estudar
Medicina em Cuba, retornando ao Brasil em setembro de 2012. Atualmente,
trabalha em três postos de saúde da rede municipal de Nova Santa Rita,
município de 20 mil habitantes, a 21 quilômetros de Porto Alegre, que
possui quatro assentamentos do MST.
Nesta entrevista ao Sul21,
Marcos Tiaraju fala sobre o ensino da Medicina em Cuba e o programa Mais
Médicos do governo federal brasileiro. Para ele, a iniciativa “vai
fazer uma grande diferença para aquelas famílias que não tem acesso a
médicos durante os 365 dias do ano”.
Podes começar
contando um pouco sobre a tua história. Tu foste a primeira criança a
nascer em uma ocupação do MST. Tu nasceste no território que, naquela
época, pertencia à fazenda Annoni, é isso?Isso. Foi no
Rio Grande do Sul que a luta do MST se iniciou de forma mais organizada e
unificada, particularmente na região Norte do estado. Na história da
luta agrária do país, o território conhecido como a antiga fazenda
Annoni é conhecido como berço da luta pela terra. Era uma propriedade
que concentrava aproximadamente 10 mil hectares e estava nas mãos de um
latifundiário que não a utilizava para produzir. A primeira grande
ocupação deste território ocorreu em 1985. E eu nasci no dia 1 de
novembro daquele ano, durante a ocupação. Já nasci embaixo da lona
preta, como parte de uma classe social excluída de um dos bens mais
importantes, que é a terra.
Como foi a adesão da tua família ao MST? Tua mãe, Roseli Nunes, foi uma militante histórica para o movimento.
Minha
família era similar a todas que se organizavam em torno desta luta. Era
uma família pobre, com filhos para criar, sem acesso à alimentação, ao
trabalho e à terra. Minha mãe assumiu um papel protagônico. Era uma
mulher, mãe de dois filhos – antes de eu nascer -, que ingressou na luta
e assumiu um papel de liderança. Ela dizia que a reforma agrária
ajudaria a transformar a sociedade. Era uma camponesa sem um grau
elevado de estudo, mas possuía a consciência social de que era
necessário lutar. Queria mostrar para a sociedade porque a luta pela
terra se desenvolvia e sabia exatamente de quem cobrar: o Estado
brasileiro. A Constituição reconhece que toda a terra que não cumpre sua
função social deve ser destinada para fins de reforma agrária.
Como foi esse período inicial na ocupação da fazenda Annoni?Na
época, como a luta pela terra estava em efervescência, muitas pessoas
foram até a região da fazenda Annoni documentar o que acontecia. Uma
delas foi a Tete Moraes, uma cineasta do Rio de Janeiro. Em uma ocasião,
ela estava filmando uma manifestação em que as famílias bloqueavam uma
rodovia e um caminhão investiu contra o grupo e acabou matando a minha
mãe. Isso ocorreu em março de 1987. Então ela acabou sendo homenageada
pelo documentário, que se chama “Terra para Rose”.
Tua família permaneceu na ocupação depois deste episódio?Meu
pai tinha três filhos para cuidar e acabou não resistindo. Ficamos mais
alguns anos no acampamento e depois fomos morar na cidade de Rondinha.
Meu pai trabalhava como pintor de casas. No verão havia trabalho, mas no
inverno, com a umidade e as chuvas, não havia como fazer pintura.
Vivíamos em uma realidade de bastante pobreza. Muitas vezes, para nos
alimentarmos, íamos para o lixo de um supermercado recolher as
mercadorias vencidas. Minha irmã, desde os 11 anos, começou a trabalhar
como doméstica. Cresci nesta realidade, com muitos questionamentos na
cabeça e muita angústia. Eu não compreendia porque a vida tinha que ser
daquela forma.
Com essa mudança, não houve mais contato com o MST?Até
os 14 anos, não tive mais contato com a história do MST e da minha mãe.
Com a minha própria história. Na minha casa não se comentava sobre
isso. Lembro que tinha uma bandeira do MST. Era algo que meu pai
guardava com muito carinho. Mas eu não sabia o que significava e não
perguntava sobre a minha mãe. Nunca tive coragem de perguntar e meu pai
nunca teve coragem de comentar. Foi um processo muito duro para ele: ter
lutado por terra, não ter conquistado nenhum pedaço de terra e ainda
ter perdido a esposa e ficado com três filhos para criar. Até que, dez
anos depois do primeiro documentário, a Tete Moraes voltou à região para
fazer outro filme. Ela queria verificar o que havia acontecido com as
famílias que tinham participado da ocupação da fazenda Annoni.
Ela reencontrou vocês?Sim.
Ela encontrou nossa família em Rondinha e o documentário acabou
homenageando novamente minha mãe com o título “O sonho de Rose”. Esse
documentário fez ressurgir um debate dentro do MST de que era necessário
fazer se tornar realidade o sonho de Rose e dar um pedaço de terra para
que a sua família pudesse viver em condições melhores. Então, entre
1999 e 2000, minha família acabou conquistando um lote de terra em um
assentamento em Viamão. É neste momento que minha história se modifica.
Comecei a ter contato novamente com a história do MST, a compreender o
que era um assentamento e de onde vinham as famílias assentadas. Também
comecei a conhecer a história da minha mãe. Aprendi a admirar a história
da minha família, do MST e do compromisso social que existe por trás da
luta pela terra.
Foi quando te tornaste, efetivamente, militante do movimento?
Aí
comecei a militar, participar de ocupações, marchas e manifestações.
Neste contexto, fui adquirindo consciência de classe. Fui me assumindo
como sem terra por consciência social, já que nasci como um excluído da
terra. Dentro do MST, comecei a compreender e resolver as angústias que
eu tinha quando era mais novo. Compreendi que a história da minha
família não era única e singular. Era uma história que se repetia
milhões de vezes no Brasil. Compreendi que, para modificar essa
situação, é necessário se organizar, lutar, ocupar terras, bater em
governos.
Como ocorreu o convite para ir estudar Medicina em Cuba?Dentro
desse processo de crescimento de consciência social, em 2005, durante
uma marcha de Goiânia para Brasília, acabei sendo convidado para estudar
medicina em Cuba. A Revolução Cubana sempre teve como prioridade, para
si e para o mundo, a melhoria na área da saúde. Sempre foram organizadas
missões humanitárias de médicos cubanos para países pobres. Em um
determinado momento, Cuba se dá conta de é necessário formar médicos nas
próprias comunidades para onde suas missões humanitárias se destinam.
Então o governo criou a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), com a
intenção de formar jovens pobres que, concluído o curso, retornem para
as suas comunidades. Neste processo, ofereceram uma bolsa para mim e
para outros jovens brasileiros de movimentos sociais e partidos
políticos.
Tu já tinhas interesse em estudar Medicina?Nunca
tinha pensado em estudar Medicina. Até porque, geralmente, nossa cabeça
pensa onde nossos pés pisam. Qual o sonho do filho de um pequeno
agricultor sem terra? É trabalhar na terra. Não acredito que exista
vocação ou destino. O que determina essas coisas é o status social da
família que precede o indivíduo. Eu nunca havia sonhado em fazer
Medicina, mas já havia compreendido que para modificar a sociedade não
bastava só lutar, só estar organizado e protestar. Era preciso buscar o
conhecimento, a educação e elementos que ajudassem a compreender o
funcionamento da sociedade e, através disso, assumir uma posição social e
dizer: “é a este grupo que eu pertenço, é por esse grupo que eu vou
lutar e é por essas melhorias que dedicarei a minha vida”. Eu queria
estudar, me dedicar a algo e buscar conhecimento para ajudar na luta da
reforma agrária e, de forma geral, ajudar a transformar a sociedade
brasileira. Então, tendo essa compreensão, tive menos de 24h para
decidir se estudaria Medicina ou não. Em 2005 acabou não saindo a
viagem. Fui para Cuba em abril de 2006.
Em Cuba, tu encontraste a sociedade que pensavas em construir?Em
muitos aspectos, encontrei uma sociedade muito mais avançada do que a
nossa. Sonhamos com um sistema de saúde público, gratuito, universal e
equitativo. Lá em Cuba isso já existe. Toda a saúde é gratuita. A cada
três quadras existe um médico de família, que vive na própria
comunidade. Em Cuba não existem hospitais superlotados porque 80% dos
problemas de saúde são resolvidos na atenção básica pelo médico da
comunidade.
Como é o ensino da Medicina em Cuba?Durante
dois anos, ficamos alojados na ELAM e temos aulas relacionadas às
ciências básicas da Medicina: bioquímica, anatomia, fisiologia,
microbiologia… Já no primeiro ano somos colocados em contato com os
consultórios dos médicos de família. Então podíamos visualizar para que
sistema o médico é preparado. Desde muito cedo íamos despertando para
essa necessidade de que um país que respeita seu sistema de saúde deve
apostar na atenção básica. A partir do terceiro ano do curso começamos a
ter contato com os hospitais cubanos. Saímos da ELAM e somos
distribuídos pelas províncias do país. Neste processo, damos mais ênfase
ao interrogatório médico – a anamnese – e à relação médico-paciente,
reforçando o exame físico de qualidade. Boa parte do diagnóstico final
depende de uma boa anamnese e de um bom exame físico. Os exames
complementares muitas vezes não são necessários.
Com a ida aos hospitais, há um distanciamento da atenção básica?Mesmo
a partir do terceiro ano mantivemos contato com a atenção básica. Havia
uma matéria chamada MGI – Medicina Geral Integral. É aquele médico que
sai do ambiente hospitalar e vai para a comunidade fazer visita às
famílias. É uma prática que abarca os diferentes aspectos da comunidade:
o biológico, o psicológico e o social. Não basta diagnosticar uma
doença e prescrever um medicamento. É preciso conhecer a comunidade em
que vive o indivíduo. É preciso compreender a história do paciente. Quem
se forma como médico na sociedade cubana assume um papel social; não se
vê somente como um profissional, mas como parte integrante de um todo
que, de acordo com a sua formação, vai aportar para o avanço da
sociedade desde a sua área. É um indivíduo que preza pela defesa da vida
em primeiro lugar.
Ao final do curso, tu te formas em alguma especialidade?No
final da formação, somos reconhecidos como médico geral integral – o
que, no Brasil, chamamos de clínico geral. É uma formação generalista
que não abarca nenhuma especialidade e, ao mesmo tempo, é o médico que
consegue intervir em várias frentes, desde a infância até a pessoa
idosa. Claro, essa intervenção se dá até um certo nível. Se a situação é
mais complexa, é necessário um atendimento mais especializado. Em Cuba
não se nega isso. Inclusive em Cuba existem vários especialistas de
ponta, de qualidade.
Depois que tu te formaste, como foi o retorno ao Brasil?Depois
que eu me formei, em 2012, cheguei no Brasil e tive que passar pelo
processo de revalidação do diploma. Desde 1998, todo médico que se forma
no exterior não pode chegar no país e começar a trabalhar. Até 2010,
cada universidade desenvolvia seu próprio processo de revalidação do
diploma. Em 2010, o governo federal vem tentando unificar esse processo
no exame nacional de revalidação, que é o Revalida. Foi a esse exame que
me apresentei em 2012. Ele consta de duas etapas: uma teórica e uma
prática. A teórica é dividida em questões objetivas e discursivas. Desta
etapa consegui ser aprovado. A segunda etapa é realizada em Brasília,
no Hospital das Forças Armadas. São apresentados dez casos clínicos para
serem resolvidos, cada um, em 10 minutos. É preciso ter uma porcentagem
de acerto de 60%. Existe um tribunal que avalia e o processo é todo
filmado.
Qual é a tua posição sobre esta prova? É um processo justo?O
conteúdo da prova e o grau de dificuldade são o que de fato se espera
de um médico generalista. Mas a elaboração da prova é injusta, no
sentido de que são 110 questões para serem resolvidas em cinco horas.
Nenhum médico consegue atender, com qualidade, 110 pacientes em cinco
horas. São dois minutos por questão. Nenhum médico consegue atender um
paciente, realizar um interrogatório, um exame físico, solicitar exames
complementares, fechar um diagnóstico e prescrever um tratamento em dois
minutos. Por mais que as questões estejam dentro da capacidade de
resolução dos profissionais formados no exterior, a forma como elas são
elaboradas cria muita dificuldade.
A prova precisaria ser diferente?Não
somos contrários à realização da prova. Sabemos que temos capacidade
para ser aprovados nesse exame. Mas deve ser uma prova justa. O Conselho
Federal de Medicina vive utilizando os índices de reprovação para dizer
que os médicos formados no exterior não estão preparados para exercer a
Medicina no Brasil. Gostaria de ver qual seria o grau de aprovação se
esta prova fosse feita por médicos formados no Brasil.
Como foi o processo de escolha do teu futuro local de trabalho?Depois
de passar na prova, começamos um processo de discussão interna no MST.
Fui para Cuba na condição de militante do movimento que retornaria
depois com o compromisso de atuar nas áreas de maior necessidade.
Debatemos isso com o MST, junto com outro companheiro que se formou
comigo, durante três meses. Visitamos várias comunidades e
assentamentos. Vendo as diferentes condições, acabamos decidindo
coletivamente que iríamos trabalhar no município de Nova Santa Rita. É
um município onde existem quatro assentamentos do MST e onde boa parte
da população vive na zona rural e ainda é desassistida em termos de
atenção médica. Desde abril deste ano estamos desenvolvendo o trabalho
lá. Ainda estamos em uma fase inicial. O município não tem nenhuma
equipe de saúde da família, tem quatro postos de saúde, não tem
hospital. A cidade carece não só de atenção médica, mas de organização
do sistema municipal de saúde.
Como tu avalias a eficácia do programa Mais Médicos no teu trabalho, por exemplo? Em cidades como Nova Santa Rita?
Acredito
que o programa Mais Médicos é um momento onde se passa a ver de fato a
saúde do povo como prioridade. A iniciativa surge com a ideia de
interiorizar os médicos, levá-los aos municípios onde não existe atenção
médica. Geralmente os médicos, quando se formam, não querem se
distanciar dos grandes centros urbanos. Isso ocorre por vários fatores:
querem seguir estudando, não querem morar no interior ou querem manter
um padrão de vida com o qual já estão acostumados. Eu apoio o programa
Mais Médicos porque é um avanço social. Vai fazer uma grande diferença
para aquelas famílias que não tem acesso a médicos durante os 365 dias
do ano.
Uma das críticas ao programa é o fato de que
somente a presença de um médico não resolve muitos outros problemas da
área da saúde, como condições de trabalho e estrutura, por exemplo.É
claro que o médico, sozinho, não consegue resolver os problemas da
saúde brasileira. Esse médico precisa de uma equipe que dê suporte ao
seu trabalho, de condições estruturais e do apoio dos demais níveis da
área da saúde. Mas não podemos dizer que, se não tiver tudo isso, o
programa Mais Médicos se torna sem serventia. O programa vai resolver
muitas coisas, sim, principalmente do ponto de vista mais imediato. Vai
fazer uma enorme diferença para as pessoas que não possuem atenção
médica em suas comunidades. O que precisamos fazer é, ao longo do tempo,
criarmos as condições que faltam para que os médicos tenham o suporte
necessário ao seu trabalho. É preciso dar o primeiro passo, e esse
primeiro passo é a ida do médico para a comunidade.
Como
tu vês as reações mais exacerbadas ao programa? Um médico cubano e negro
foi vaiado e chamado de escravo por colegas brasileiros.É
muito contraditório que um profissional que jurou defender a vida negue
auxílio a um colega só porque ele é de outro país. Será que esses
médicos brasileiros que fizeram isso estão cumprindo o juramento que
assumiram? Será que estão cumprindo a função social da Medicina ou estão
defendendo interesses pessoais e corporativos? Comentários como esses
são vergonhosos. Acredito que quem diz uma coisa dessas não deve ter
estudado história. A sociedade cubana, no que diz respeito a direitos
trabalhistas, é muito mais avançada do que a nossa. Esses profissionais
não vêm como escravos. Eles vêm ao Brasil porque assumiram para si o
compromisso humanitário da Medicina.
Em outra ocasião, uma jornalista disse que as médicas cubanas têm “cara de empregada doméstica”.São
comentários racistas e xenófobos. A sociedade se mostrou contrária a
isso. Quer dizer, então, que, para ser médico neste país, é preciso ser
loiro e ter olhos azuis? Morenos, negros, mulatos e pessoas que vêm de
uma classe social menos favorecida não podem ser médicos? Imagina o meu
caso, então: não sou loiro, não tenho olhos azuis e não estou dentro dos
padrões estéticos que o mundo prega. Além de tudo, sou sem terra. Eu só
me tornei médico na sociedade brasileira graças ao processo
revolucionário cubano. Os médicos cubanos não vêm para ferir o interesse
de ninguém, mas para ajudar os interesses do povo brasileiro que
necessita de atenção médica. Os médicos brasileiros que não estão
apoiando os colegas estrangeiros deveriam repensar se de fato são
médicos. Será que esse indivíduo que não quer ajudar os colegas a
resolver o problema de saúde do Brasil é, de fato, um médico? Será que
ele assumiu um compromisso social com aquilo que estudou?
Como tu vês a falta de interesse em se trabalhar com saúde da família no Brasil? A
Medicina de família ainda no Brasil não foi encarada como uma
prioridade. Não existe um incentivo durante a formação para que os
profissionais atuem como médico de família. Já ouvi de bons colegas
brasileiros que, durante a faculdade, é dito que trabalhar com saúde da
família não dá status. Como se ser médico fosse defender um status. Os
alunos são incentivados pelos professores a trabalhar em super
especialidades, porque é o que dá dinheiro, status e faz crescer o nome
do indivíduo.