sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Só brasileiro leva a sério a Economist

Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:
Uma das primeiras coisas que aprendi ao chegar a Londres, em 2009, é que ninguém dá a menor bola para a Economist. A revista, idolatrada no Brasil, é simplesmente ignorada em sua terra.

Ninguém fala nela. Você não encontra no metrô ou no ônibus gente a lendo. Jornalistas de primeira linha não trabalham nela – mas na BBC, no Guardian, no Times, ou mesmo em tabloides como o Sun. A Economist, de certa forma, é hoje uma invenção brasileira.

Rio comigo mesmo quando vejo, como agora, a repercussão intensa de alguma reportagem da Economist sobre o Brasil.

É uma prova de imensa caipirice nacional. Lembro uma vez em que fui a Rio Claro, no interior de São Paulo, quando dirigia a Exame. Fui nota na coluna social do principal jornal da cidade, e fui tratado como um Platão. Só para minha mãe, ou talvez nem para ela, eu fazia jus a tanta deferência.

É mais ou menos o que os brasileiros fazem com a Economist, e com outros títulos como o Financial Times.

A Economist não consegue resolver seus próprios problemas, nem os da sua Inglaterra, e mesmo assim tem a pretensão de resolver os problemas da humanidade.

É professoral, como os editoriais do Estadão também são, só que não existem entre os britânicos alunos dispostos a levá-la a sério.

A revista vai minguando, e minguando, e minguando na Era Digital, para a qual não encontrou resposta, talvez por estar demasiadamente entretida em salvar o mundo. Mas, no apogeu da desimportância, não perde a pose.

O Brasil terá chegado à maturidade quando reagir às lições da Economist — e do FT, ou de quem for – da seguinte maneira: ignorando-as.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Requião diz que ANP comete crimes contra a soberania nacional

http://www.youtube.com/watch?v=zBAbNL5hZGA&feature=player_embedded

Washington Araújo: E se fosse a Rússia (ou o Irã) que espionasse o Brasil?



publicado em 25 de setembro de 2013 às 22:48

Os presidentes do Irã, Hassan-Rohani, e da Rússia, Vladimir Putin
por Washington Araújo, do blog Cidadão do Mundo
Jamais pode uma soberania firmar-se em detrimento de outra. Jamais pode o direito à segurança dos cidadãos de um país ser garantido mediante a violação de direitos humanos fundamentais dos cidadãos de outro país. Sem respeito à soberania, não há base para o relacionamento entre as nações (Dilma Roussef, abrindo a 68ª Assembléia Geral das Nações Unidas, em 24/9/2013).
‘Dois pesos e duas medidas’ – expressão geralmente usada para denunciar injustiça patente, evidente, clamorosa, é máxima recorrente para identificar julgamento parcial, faccioso, eivado de segundas e terceiras intenções, quando o bem maior a ser protegido passa a ser o interesse particular em detrimento ao interesse coletivo.
 Mas, nos dias atuais, a expressão cai como luva para certo tipo de jornalismo.
O jornalismo que manda às favas a busca da verdade, que tem partido, ideologia, interesses econômico-financeiros. O jornalismo que abdica de sua função de bem informar, de ouvir o outro lado, de conferir as fontes e as informações, de distinguir entre fatos e versões, entre evidências e meras suposições.
É o jornalismo que prefere encampar como recurso procedimental a teoria do domínio do fato. Teoria em que as intenções pesam mais que as ações realizadas, verificáveis, constatáveis. Em grande medida, o jornalismo brasileiro nos dias que correm.
Façamos breve exercício mental sobre o enfoque jornalístico de temas muito atuais que vez por outra tomam de assalto as capas da revistas semanais, as capas dos jornais diários, a escalada dos telejornais mais tradicionais e de maior audiência aferível:
A espionagem orquestrada e executada pelo governo dos Estados Unidos em solo brasileiro e tendo como alvos nada menos que a Presidenta da República e a sua mais importante empresa, a Petrobras, isto para circunscrevermos apenas dois dos mais vistosos e importantes alvos, seria razoável supor que muitas outras autoridades, personalidades estão sendo alvos de espionagem de Washington.
Não estaria sendo espionado o Ministério da Defesa?
Vejamos, é ele que coordena a megalicitação para aquisição de 36 caças para reequipar a Força Aérea brasileira, negócio exuberante que ultrapassa os US$ 15 bilhões e, com um detalhe, concorrendo com a Boeing dos Estados Unidos, encontram-se o Rafale da França e o Gripen NG, da sueca Saab. Outro detalhe, a concorrência se arrasta já há mais de uma década.
Não estaria sendo espionado o Ministério das Minas e Energia?
Vejamos, é ele que coordena, estuda e discute políticas de governo para a extração do petróleo no pré-sal, significando para especialistas em energia novo Eldorado mundial fornecedor de petróleo. Seria deixado de fora da bisbilhotice norteamericana?
Não estaria sendo espionado o Ministério da Agricultura?
Vejamos, o Brasil está há muitos anos à frente da moderna pesquisa agropecuária e sua principal estrela na área é a Embrapa, ganhadora de diversos prêmios do setor, seja no campo da pesquisa pura de sementes e defensores agrícolas, seja no aspecto inovação, todos atuando na otimização de crescentes safras agrícolas.
Não estaria espionando o Ministério das Relações Exteriores?
Vejamos, o Brasil, à custa de muito esforço e perseverança conseguiu por de pé o seu bloco econômico e político de integração continental – o Mercosul, e, ademais, firmou sua liderança em organismos multilaterais como o G-20, o BRICs, tendo atuação de destaque tanto nos Foruns Mundiais Sociais (por sinal, criado no Brasil) quanto no Forum de Davos, na Suiça; iniciou parcerias estratégicas com a China (que já suplantou os EUA como maior parceiro comercial do país) e com os vizinhos Bolívia, Argentina, Venezuela; atuou junto ao governo turco para encontrar solução pacífica para os muitos problemas criados pelo Irã, como aqueles relacionados ao desenvolvimento de energia nuclear, beligerância permanente com Israel, escalada de violação dos direitos humanos.
Não estaria sendo espionada toda a região da Amazônia Legal?
Vejamos, não é de hoje que estudantes do ensino médio dos Estados Unidos aprendem a ler mapas geográficos em que a Amazõnia brasileira ao invés de fazer parte do Brasil, é nada menos que um enclave governado pelo Sistema Nações Unidas e, também, considerando sua condição de “pulmão do planeta” e de possuir o mais extenso e volumoso reservatório de água potável do mundo, além de sua exuberante fauna e flora para pesquisas no campo da biotecnologia e dos fármacos, dificilmente estaria distante das preocupações dos serviços de inteligência dos Estados Unidos.
Tendo o Brasil assumido – e em larga medida – sua condição de líder latino-americano, sua pujante economia, com o êxito de suas políticas públicas de erradicação da fome e da miséria, tais contornos tornam o país alvo preferencial para espionagem, em especial, por quem nutre históricos anseios imperialistas e hegemônicos.
Em meio a essa avalancha de informações vazada de dentro do próprio coração de seus organismos de inteligência (espionagem e contraespionagem), causa espécie observar a tibieza quando não a leniência com que o assunto vem sendo abordado por nossa aguerrido pool de empresas midiáticas.
O assunto da prisão no aeroporto de Heatrow (Londres), por algumas horas, do namorado do jornalista norte-americano Glenn Greenwald, responsável por ajudar na divulgação das denúncias e documentos de outro norte-americano Edward Snowden (este, antigo funcionário da NSA americana), recebeu formidável espaço na mídia impressa e na mídia televisiva. Contraste flagrante com o pouco caso com que essa mesma mídia abordou a questão que a todos interessa – sob o pretexto de preservar sua soberania nacional às custas da soberania de outras nações que, no caso do Brasil, trata-se nada menos que uma nação historicamente amiga.
Façamos um segundo exercício mental. É o seguinte:
Qual seria a reação da mídia brasileira, de sua maior rede de televisão aberta, de seus principais jornais e revistas impressos, se os emails, telefonemas e documentos da própria presidenta Dilma Roussef fossem espionados pelo governo cubano?
E se o fossem pelo governo russo?
E se o fossem pelo governo venezuelano?
E se o fossem pelo governo iraniano?
O presente tema objeto deste prosaico artigo nos convida a uma vigorosa reflexão sobre a aplicação do “dois pesos duas medidas” no fazer jornalístico do Brasil, ajuda a desvelar a teia de interesses escusos (sejam ideológicos, sejam partidários), que há muito minam a credibilidade dessa importante força motriz de uma sociedade justa e equânima, amante da liberdade e defensora dos direitos das populações vulneráveis – a imprensa.
A humanidade tem sido vítima constante de ambições imperialistas do Norte e do Sul, de sistemas ideológicos que privilegiam o mercado em detrimento do ser humano, de organismos multilaterais, como a Organização das Nações Unidas, com legitimidade crescentemente questionável, em que menos que meia dúzia de nações impõe sua vontade e suas agendas política e econômica aos restantes 196 países, que não titubeiam em declarar guerras a seu bel prazer, seja para movimentar sua portentosa indústria bélica, seja para se apoderar de valiosas fontes de recursos energéticos ou, tão-somente, fortalecer a insidiosa dualidade do eu-produtor e todo-o-resto-do-mundo-consumidor.
Estamos testemunhando uma época de absoluta carência de grandes líderes, de grandes estadistas, de grandes pensadores que consigam entender que toda a humanidade tem um só destino, um destino inescapável e comum a todos, um destino que se imanta à percepção de que aquilo que infelicita parte infelicita o todo. Somos, a bem dizer, nada mais que um só planeta e um só povo

Bolsa Família do Tio Sam

Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:
Aproveitando que a presidenta está nos EUA fazendo discursos duros contra a espionagem, vamos dar uma espiada na cozinha do Tio Sam. O que ele come quando não tem dinheiro? Há alguns dias, o Tijolaço comentou e reproduziu artigo do Paul Krugman que denuncia a tentativa dos republicanos de fazerem cortes no mais antigo e popular programa social do governo americano, o Food Stamps, hoje conhecido simplesmente como Snaps, sigla para Supplemental Nutrition Assistance Program, ou Programa de Assistência Nutricional Suplementar.


A matéria merece alguns complementos estatísticos.

Segundo informações oficiais, o programa atingiu em 2012 um total de 46,60 milhões de americanos, e custou US$ 78,44 bilhões. Em reais, usando o câmbio médio dos últimos dias, em R$ 2,2, este valor corresponde a R$ 172 bilhões. O programa paga de US$ 100 a US$ 600 por pessoa (o valor médio é de US$ 133,41, ou R$ 293,00). Existe pelo menos desde 1969, sendo que programas similares existem nos EUA desde o fim da II Guerra.

Para efeito de comparação: o Programa Bolsa Família (PBF) beneficiou, no mês de set de 2013, 13,8 milhões de famílias, que receberam benefícios com valor médio de R$ 152,35. O orçamento federal para o programa em 2013 é de R$ 23,18 bilhões.

Ou seja, mesmo com o aumento de 60% dos gastos públicos com o Bolsa Família em 2013, o governo americano gasta com o seu principal programa de assistência social um valor sete vezes superior ao Bolsa Família.



Considerando que não apenas a quantidade de pobres no Brasil é bem superior a de pobres nos EUA, e que a qualidade da nossa pobreza é bem pior, conclui-se que as críticas que sempre se fizeram ao Bolsa Família eram profundamente desinformadas, pois os críticos ao Bolsa Família, em geral, são pessoas que admiram o modelo norte-americano.

O Snaps tem estado na berlinda da mídia americana por causa da movimentação de alguns republicanos, em especial o deputado republicano pela Flórida Steve Southerland, que vem protagonizando uma espécie de cruzada pela revisão do programa, com vistas a cortar beneficiários. Apesar do apoio entre republicanos, e do esforço quase místico de Southerland, a iniciativa não tem tido apoio na sociedade, em virtude da deterioração nas estatísticas sociais dos últimos anos. O número de famílias norte-americanas em situação de “insegurança alimentícia” tem disparado, e a recuperação econômica observada nos últimos meses tem ajudado apenas as camadas superiores, não os mais pobres.

Mesmo o Washington Post, jornal conservador, que publicou longa reportagem favorável às ideias Southerland, não demonstra otimismo de ver sua proposta prosperar, por causa da oposição radical que ela encontra entre os Democratas, além do poder de veto do presidente.

Discurso de Mujica, completo, na ONU

http://www.youtube.com/watch?v=O4A_DvV_UD8&feature=player_embedded#t=327

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Dilma, não entregue nosso pré-sal às empresas estrangeiras

por João Pedro Stedile, em seu blog
No dia 21 de outubro, a Agencia Nacional de Petróleo vai leiloar o maior campo de reservas de petróleo brasileiro, encontrado a 180 km do litoral, com sete mil metros de profundidade.
Lá estão depositados comprovadamente de 12 a 14 bilhões de barris de petróleo. Equivalem a todas as reservas do México. Corresponde a tudo que a Petrobras já explorou nos seus 60 anos de existência.
A importância estratégica para o país é tão grande que durante o debate do segundo turno, da campanha de 2010, a candidata Dilma Rousseff disse que o candidato José Serra queria privatizar e fazer um leilão do petróleo, e que isso era inadmissível, pois o pré-sal deveria ser uma riqueza a ser utilizada apenas em favor do povo brasileiro”.
Três anos depois, em mensagem pública em rede de televisão, a presidenta muda o discurso e assume o que Serra queria fazer, leiloar as reservas do pré-sal para iniciativa privada.
Como será leiloada tamanha riqueza?
A ANP abriu as inscrições e nada menos do que 11 grandes empresa petrolíferas do mundo se habilitaram. Sete são empresas estatais da China, Índia, Portugal, Espanha e Noruega. Três são empresas privadas transnacionais e mais a Petrobras.
A empresa que fizer a melhor oferta de partilha em percentual do petróleo explorado ganhará o leilão ou poderão acontecer parcerias.
Quem ganhar vai pagar ao governo brasileiro R$ 15 bilhões, no mínimo. Esse dinheiro vai para o Tesouro Nacional, que provavelmente vai botar no caixa comum, aquele mesmo que paga os juros da dívida interna para não mais de 5 mil acionistas de bancos.
Depois do leilão, a empresa ganhadora deve seguir a nova regra de partilha, que passou a vigorar no governo Lula. A empresa extrai o petróleo e paga 15% de royalties, que por sua vez serão redivididos entre União, Estados e Municípios.
Dos 5% que irão para a União, 75% serão destinados para a educação e os outros 25% para saúde. Os estados e municípios podem fazer o que quiserem com os royalties e investir em qualquer coisa.
Portanto, não é certa a propaganda de que a renda do petróleo vai para a educação. Apenas ao redor de 15% do total, que são os royalties, podem ter alguma finalidade social.
Além dos royalties, as empresas descontam o custo real de produção da extração. Com isso, vem a partilha. A empresa é obrigada a entregar 50% do saldo, em petróleo, para a União, que certamente vai repassar a Petrobras. Os outros 50% seguramente serão exportados como petróleo cru para os países de origem das petroleiras.
Portanto, independente de qualquer argumento, na prática, estamos entregando 50% de todo o petróleo do pré-sal para as empresas estrangeiras, que despacham o óleo negro para seus países, sem pagar mais nada. Nem impostos nem royalties.
Entrega de 50% da produção em troca de sua exploração
Pela Lei de Partilha, aprovada durante o governo Lula, há um artigo que diz que a União poderá entregar toda a reserva do pré-sal para exploração exclusiva por parte da Petrobras, sem necessidade de leilão. Por que não fazemos isso?
O governo e os colunistas nos jornais têm defendido que a Petrobras está endividada e não tem caixa para investir. O BNDES tem uma política de crédito para tantas empresas privadas, inclusive transnacionais e picaretas em geral, como o Eike Batista. Por que não poderia emprestar para Petrobras?
Por que o Tesouro Nacional – em vez de pagar juros a meia dúzia de especuladores de títulos da divida interna, que levam R$ 200 bilhões por ano – não aplica recursos em investimentos do pré-sal?
Aliás, foi assim que o presidente Lula fez na crise de 2008, quando orientou o desconto do superavit primário e destinou R$ 100 bilhões para o BNDES investir no setor industrial. Foram medidas desse tipo que fizeram a economia brasileira caminhar e impediram o povo brasileiro de sentir os maiores efeitos da crise internacional.
A Petrobras é uma das maiores empresas do mundo e, certamente, tem crédito para conseguir empréstimos também no exterior. Ou alguém acha que as empresas concorrentes têm dinheiro em caixa? As grandes petroleiras vão ao mercado tomar dinheiro emprestado.
As estatais chinesas podem ser as ganhadoras do leilão. Para isso, o Tesouro chinês liberará bilhões de dólares das reservas para as empresas explorarem e levarem o o petróleo cru para a China. Ou seja, vão fazer o que o Tesouro brasileiro não tem coragem.
O governo e os setores neoliberais defendem que esses investimentos estrangeiros são necessários para a economia voltar a crescer. Ora, alguém notou alguma diferença no PIB brasileiro depois de realizados 11 leilões de petróleo e entregues para as empresas transnacionais?
As empresas estrangeiras que ganharem os leilões usam tecnologias de suas matrizes e já trazem os equipamentos. Dos 67 navios petroleiros construídos no Brasil no governo Lula, 63 foram comprados pela Petrobras e quatro pela venezuelana PDVSA.
Nenhuma empresa transnacional que ganhou outros leilões construiu plataformas no Brasil. Nem contratou engenheiros e operários qualificados para suas instalações.
Um colunista de plantão afirmou recentemente que o governo Dilma tem de fazer o leilão logo, pois se os tucanos voltarem ao governo farão do seu jeito. Ora, que argumento mais insólito, fazer logo uma política equivocada porque os nossos adversários fariam mais rápido. Santa paciência.
Petróleo é riqueza do povo
O povo brasileiro precisa dessa riqueza para investir em educação, saúde e tecnologia, como prometeu a candidata Dilma em campanha.
As nossas riquezas não podem ser exportadas como petróleo cru para resolver os problemas da China, Espanha e Portugal. Nós temos pressa é de reformas estruturais que possam acelerar as soluções dos problemas do povo.
Precisamos de investimentos em transporte público, tecnologia, indústria nacional, que gerem empregos de qualidade para o povo brasileiro. Nada disso virá de leilões de petróleo. Se leilões resolvessem os problemas sociais, não haveria tanta insatisfação nas ruas depois de onze leilões.
A alternativa é dar exclusividade para a Petrobras que, com empréstimos do BNDES, do Tesouro ou mesmo no mercado internacional, poderia extrair o petróleo com sua tecnologia e trabalhadores brasileiros. Depois, industrializar esse óleo para gerar ainda mais riquezas e impostos no Brasil.
O que está em jogo é a nossa soberania nacional sobre uma riqueza estimada em um US$ 1 trilhão a ser retirada em 30 anos. O povo brasileiro vai dividir essa riqueza com as empresas estrangeiras? Quem não gostaria de ter garantido o acesso a US$ 500 bilhões ao longo de 30 anos ?
Diante disso, especialistas da universidade, técnicos da Petrobras, dirigentes que atuaram no próprio governo Lula-Dilma, sindicatos dos petroleiros, centrais sindicais e movimentos sociais nos reunimos recentemente em uma plenária e decidimos fazer uma campanha nacional pelo cancelamento do leilão.
O Brasil descobriu uma imensa reserva depois de décadas de pesquisa financiada pelo povo. Temos a garantia constitucional de que o petróleo pertence a todo o povo. Temos tecnologia necessária para explorá-lo.
Esperamos que a presidenta Dilma não entre na história do país no mesmo capítulo que o FHC, referente à entrega das nossas riquezas. FHC entregou os nossos minérios, privatizando a Vale do Rio Doce, a Embraer, as ferrovias e as empresas de telecomunicações.
Não admitimos dividir a nossa riqueza com capitalistas estrangeiros. Lutaremos por nossas ideias e pelos interesses do povo brasileiro. Um governo passa rápido, mas a história de um povo é eterna.

“Só me tornei médico graças ao processo revolucionário de Cuba”, diz médico do MST

10 de setembro de 2013


Por Iuri Müller e Samir Oliveira
Do Sul21

O nome de Marcos Tiaraju Correa da Silva foi escolhido de forma coletiva, mediante votação em uma assembleia com quase 10 mil pessoas. O cenário desta decisão era a ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) na fazenda Annoni, no norte do Rio Grande do Sul, no dia 1° de novembro de 1985.

“Marcos”, porque tratava-se do nascimento da primeira criança em uma ocupação do movimento. “Tiaraju”, em homenagem ao indígena Guarani Sepé Tiaraju, que liderou seu povo em uma guerra contra os colonizadores na América do Sul. Filho da histórica militante Roseli Nunes, Marcos Tiaraju nasceu, como ele mesmo define, “embaixo da lona preta”.

Marcos Tiaraju nasceu sem terra, mas permaneceu anos politicamente afastado desta condição. Muito tempo depois, retomou o contato com MST e passou a militar na organização. Em 2006, foi estudar Medicina em Cuba, retornando ao Brasil em setembro de 2012. Atualmente, trabalha em três postos de saúde da rede municipal de Nova Santa Rita, município de 20 mil habitantes, a 21 quilômetros de Porto Alegre, que possui quatro assentamentos do MST.

Nesta entrevista ao Sul21, Marcos Tiaraju fala sobre o ensino da Medicina em Cuba e o programa Mais Médicos do governo federal brasileiro. Para ele, a iniciativa “vai fazer uma grande diferença para aquelas famílias que não tem acesso a médicos durante os 365 dias do ano”.

Podes começar contando um pouco sobre a tua história. Tu foste a primeira criança a nascer em uma ocupação do MST. Tu nasceste no território que, naquela época, pertencia à fazenda Annoni, é isso?
Isso. Foi no Rio Grande do Sul que a luta do MST se iniciou de forma mais organizada e unificada, particularmente na região Norte do estado. Na história da luta agrária do país, o território conhecido como a antiga fazenda Annoni é conhecido como berço da luta pela terra. Era uma propriedade que concentrava aproximadamente 10 mil hectares e estava nas mãos de um latifundiário que não a utilizava para produzir. A primeira grande ocupação deste território ocorreu em 1985. E eu nasci no dia 1 de novembro daquele ano, durante a ocupação. Já nasci embaixo da lona preta, como parte de uma classe social excluída de um dos bens mais importantes, que é a terra.

Como foi a adesão da tua família ao MST? Tua mãe, Roseli Nunes, foi uma militante histórica para o movimento.
Minha família era similar a todas que se organizavam em torno desta luta. Era uma família pobre, com filhos para criar, sem acesso à alimentação, ao trabalho e à terra. Minha mãe assumiu um papel protagônico. Era uma mulher, mãe de dois filhos – antes de eu nascer -, que ingressou na luta e assumiu um papel de liderança. Ela dizia que a reforma agrária ajudaria a transformar a sociedade. Era uma camponesa sem um grau elevado de estudo, mas possuía a consciência social de que era necessário lutar. Queria mostrar para a sociedade porque a luta pela terra se desenvolvia e sabia exatamente de quem cobrar: o Estado brasileiro. A Constituição reconhece que toda a terra que não cumpre sua função social deve ser destinada para fins de reforma agrária.
Roseli Nunes e Marcos Tiaraju, na foto dos anos 1980 | Foto: Carlos Carvalho
Como foi esse período inicial na ocupação da fazenda Annoni?
Na época, como a luta pela terra estava em efervescência, muitas pessoas foram até a região da fazenda Annoni documentar o que acontecia. Uma delas foi a Tete Moraes, uma cineasta do Rio de Janeiro. Em uma ocasião, ela estava filmando uma manifestação em que as famílias bloqueavam uma rodovia e um caminhão investiu contra o grupo e acabou matando a minha mãe. Isso ocorreu em março de 1987. Então ela acabou sendo homenageada pelo documentário, que se chama “Terra para Rose”.

Tua família permaneceu na ocupação depois deste episódio?
Meu pai tinha três filhos para cuidar e acabou não resistindo. Ficamos mais alguns anos no acampamento e depois fomos morar na cidade de Rondinha. Meu pai trabalhava como pintor de casas. No verão havia trabalho, mas no inverno, com a umidade e as chuvas, não havia como fazer pintura. Vivíamos em uma realidade de bastante pobreza. Muitas vezes, para nos alimentarmos, íamos para o lixo de um supermercado recolher as mercadorias vencidas. Minha irmã, desde os 11 anos, começou a trabalhar como doméstica. Cresci nesta realidade, com muitos questionamentos na cabeça e muita angústia. Eu não compreendia porque a vida tinha que ser daquela forma.

Com essa mudança, não houve mais contato com o MST?
Até os 14 anos, não tive mais contato com a história do MST e da minha mãe. Com a minha própria história. Na minha casa não se comentava sobre isso. Lembro que tinha uma bandeira do MST. Era algo que meu pai guardava com muito carinho. Mas eu não sabia o que significava e não perguntava sobre a minha mãe. Nunca tive coragem de perguntar e meu pai nunca teve coragem de comentar. Foi um processo muito duro para ele: ter lutado por terra, não ter conquistado nenhum pedaço de terra e ainda ter perdido a esposa e ficado com três filhos para criar. Até que, dez anos depois do primeiro documentário, a Tete Moraes voltou à região para fazer outro filme. Ela queria verificar o que havia acontecido com as famílias que tinham participado da ocupação da fazenda Annoni.

Ela reencontrou vocês?
Sim. Ela encontrou nossa família em Rondinha e o documentário acabou homenageando novamente minha mãe com o título “O sonho de Rose”. Esse documentário fez ressurgir um debate dentro do MST de que era necessário fazer se tornar realidade o sonho de Rose e dar um pedaço de terra para que a sua família pudesse viver em condições melhores. Então, entre 1999 e 2000, minha família acabou conquistando um lote de terra em um assentamento em Viamão. É neste momento que minha história se modifica. Comecei a ter contato novamente com a história do MST, a compreender o que era um assentamento e de onde vinham as famílias assentadas. Também comecei a conhecer a história da minha mãe. Aprendi a admirar a história da minha família, do MST e do compromisso social que existe por trás da luta pela terra.

Foi quando te tornaste, efetivamente, militante do movimento?
Aí comecei a militar, participar de ocupações, marchas e manifestações. Neste contexto, fui adquirindo consciência de classe. Fui me assumindo como sem terra por consciência social, já que nasci como um excluído da terra. Dentro do MST, comecei a compreender e resolver as angústias que eu tinha quando era mais novo. Compreendi que a história da minha família não era única e singular. Era uma história que se repetia milhões de vezes no Brasil. Compreendi que, para modificar essa situação, é necessário se organizar, lutar, ocupar terras, bater em governos.

Como ocorreu o convite para ir estudar Medicina em Cuba?
Dentro desse processo de crescimento de consciência social, em 2005, durante uma marcha de Goiânia para Brasília, acabei sendo convidado para estudar medicina em Cuba. A Revolução Cubana sempre teve como prioridade, para si e para o mundo, a melhoria na área da saúde. Sempre foram organizadas missões humanitárias de médicos cubanos para países pobres. Em um determinado momento, Cuba se dá conta de é necessário formar médicos nas próprias comunidades para onde suas missões humanitárias se destinam. Então o governo criou a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), com a intenção de formar jovens pobres que, concluído o curso, retornem para as suas comunidades. Neste processo, ofereceram uma bolsa para mim e para outros jovens brasileiros de movimentos sociais e partidos políticos.

Tu já tinhas interesse em estudar Medicina?
Nunca tinha pensado em estudar Medicina. Até porque, geralmente, nossa cabeça pensa onde nossos pés pisam. Qual o sonho do filho de um pequeno agricultor sem terra? É trabalhar na terra. Não acredito que exista vocação ou destino. O que determina essas coisas é o status social da família que precede o indivíduo. Eu nunca havia sonhado em fazer Medicina, mas já havia compreendido que para modificar a sociedade não bastava só lutar, só estar organizado e protestar. Era preciso buscar o conhecimento, a educação e elementos que ajudassem a compreender o funcionamento da sociedade e, através disso, assumir uma posição social e dizer: “é a este grupo que eu pertenço, é por esse grupo que eu vou lutar e é por essas melhorias que dedicarei a minha vida”. Eu queria estudar, me dedicar a algo e buscar conhecimento para ajudar na luta da reforma agrária e, de forma geral, ajudar a transformar a sociedade brasileira. Então, tendo essa compreensão, tive menos de 24h para decidir se estudaria Medicina ou não. Em 2005 acabou não saindo a viagem. Fui para Cuba em abril de 2006.

Em Cuba, tu encontraste a sociedade que pensavas em construir?
Em muitos aspectos, encontrei uma sociedade muito mais avançada do que a nossa. Sonhamos com um sistema de saúde público, gratuito, universal e equitativo. Lá em Cuba isso já existe. Toda a saúde é gratuita. A cada três quadras existe um médico de família, que vive na própria comunidade. Em Cuba não existem hospitais superlotados porque 80% dos problemas de saúde são resolvidos na atenção básica pelo médico da comunidade.

Como é o ensino da Medicina em Cuba?
Durante dois anos, ficamos alojados na ELAM e temos aulas relacionadas às ciências básicas da Medicina: bioquímica, anatomia, fisiologia, microbiologia… Já no primeiro ano somos colocados em contato com os consultórios dos médicos de família. Então podíamos visualizar para que sistema o médico é preparado. Desde muito cedo íamos despertando para essa necessidade de que um país que respeita seu sistema de saúde deve apostar na atenção básica. A partir do terceiro ano do curso começamos a ter contato com os hospitais cubanos. Saímos da ELAM e somos distribuídos pelas províncias do país. Neste processo, damos mais ênfase ao interrogatório médico – a anamnese – e à relação  médico-paciente, reforçando o exame físico de qualidade. Boa parte do diagnóstico final depende de uma boa anamnese e de um bom exame físico. Os exames complementares muitas vezes não são necessários.

Com a ida aos hospitais, há um distanciamento da atenção básica?
Mesmo a partir do terceiro ano mantivemos contato com a atenção básica. Havia uma matéria chamada MGI – Medicina Geral Integral. É aquele médico que sai do ambiente hospitalar e vai para a comunidade fazer visita às famílias. É uma prática que abarca os diferentes aspectos da comunidade: o biológico, o psicológico e o social. Não basta diagnosticar uma doença e prescrever um medicamento. É preciso conhecer a comunidade em que vive o indivíduo. É preciso compreender a história do paciente. Quem se forma como médico na sociedade cubana assume um papel social; não se vê somente como um profissional, mas como parte integrante de um todo que, de acordo com a sua formação, vai aportar para o avanço da sociedade desde a sua área. É um indivíduo que preza pela defesa da vida em primeiro lugar.

Ao final do curso, tu te formas em alguma especialidade?
No final da formação, somos reconhecidos como médico geral integral – o que, no Brasil, chamamos de clínico geral. É uma formação generalista que não abarca nenhuma especialidade e, ao mesmo tempo, é o médico que consegue intervir em várias frentes, desde a infância até a pessoa idosa. Claro, essa intervenção se dá até um certo nível. Se a situação é mais complexa, é necessário um atendimento mais especializado. Em Cuba não se nega isso. Inclusive em Cuba existem vários especialistas de ponta, de qualidade.

Depois que tu te formaste, como foi o retorno ao Brasil?
Depois que eu me formei, em 2012, cheguei no Brasil e tive que passar pelo processo de revalidação do diploma. Desde 1998, todo médico que se forma no exterior não pode chegar no país e começar a trabalhar. Até 2010, cada universidade desenvolvia seu próprio processo de revalidação do diploma. Em 2010, o governo federal vem tentando unificar esse processo no exame nacional de revalidação, que é o Revalida. Foi a esse exame que me apresentei em 2012. Ele consta de duas etapas: uma teórica e uma prática. A teórica é dividida em questões objetivas e discursivas. Desta etapa consegui ser aprovado. A segunda etapa é realizada em Brasília, no Hospital das Forças Armadas. São apresentados dez casos clínicos para serem resolvidos, cada um, em 10 minutos. É preciso ter uma porcentagem de acerto de 60%. Existe um tribunal que avalia e o processo é todo filmado.

Qual é a tua posição sobre esta prova? É um processo justo?
O conteúdo da prova e o grau de dificuldade são o que de fato se espera de um médico generalista. Mas a elaboração da prova é injusta, no sentido de que são 110 questões para serem resolvidas em cinco horas. Nenhum médico consegue atender, com qualidade, 110 pacientes em cinco horas. São dois minutos por questão. Nenhum médico consegue atender um paciente, realizar um interrogatório, um exame físico, solicitar exames complementares, fechar um diagnóstico e prescrever um tratamento em dois minutos. Por mais que as questões estejam dentro da capacidade de resolução dos profissionais formados no exterior, a forma como elas são elaboradas cria muita dificuldade.

A prova precisaria ser diferente?

Não somos contrários à realização da prova. Sabemos que temos capacidade para ser aprovados nesse exame. Mas deve ser uma prova justa. O Conselho Federal de Medicina vive utilizando os índices de reprovação para dizer que os médicos formados no exterior não estão preparados para exercer a Medicina no Brasil. Gostaria de ver qual seria o grau de aprovação se esta prova fosse feita por médicos formados no Brasil.

Como foi o processo de escolha do teu futuro local de trabalho?
Depois de passar na prova, começamos um processo de discussão interna no MST. Fui para Cuba na condição de militante do movimento que retornaria depois com o compromisso de atuar nas áreas de maior necessidade. Debatemos isso com o MST, junto com outro companheiro que se formou comigo, durante três meses. Visitamos várias comunidades e assentamentos. Vendo as diferentes condições, acabamos decidindo coletivamente que iríamos trabalhar no município de Nova Santa Rita. É um município onde existem quatro assentamentos do MST e onde boa parte da população vive na zona rural e ainda é desassistida em termos de atenção médica. Desde abril deste ano estamos desenvolvendo o trabalho lá. Ainda estamos em uma fase inicial. O município não tem nenhuma equipe de saúde da família, tem quatro postos de saúde, não tem hospital. A cidade carece não só de atenção médica, mas de organização do sistema municipal de saúde.

Como tu avalias a eficácia do programa Mais Médicos no teu trabalho, por exemplo? Em cidades como Nova Santa Rita?
Acredito que o programa Mais Médicos é um momento onde se passa a ver de fato a saúde do povo como prioridade. A iniciativa surge com a ideia de interiorizar os médicos, levá-los aos municípios onde não existe atenção médica. Geralmente os médicos, quando se formam, não querem se distanciar dos grandes centros urbanos. Isso ocorre por vários fatores: querem seguir estudando, não querem morar no interior ou querem manter um padrão de vida com o qual já estão acostumados. Eu apoio o programa Mais Médicos porque é um avanço social. Vai fazer uma grande diferença para aquelas famílias que não tem acesso a médicos durante os 365 dias do ano.

Uma das críticas ao programa é o fato de que somente a presença de um médico não resolve muitos outros problemas da área da saúde, como condições de trabalho e estrutura, por exemplo.
É claro que o médico, sozinho, não consegue resolver os problemas da saúde brasileira. Esse médico precisa de uma equipe que dê suporte ao seu trabalho, de condições estruturais e do apoio dos demais níveis da área da saúde. Mas não podemos dizer que, se não tiver tudo isso, o programa Mais Médicos se torna sem serventia. O programa vai resolver muitas coisas, sim, principalmente do ponto de vista mais imediato. Vai fazer uma enorme diferença para as pessoas que não possuem atenção médica em suas comunidades. O que precisamos fazer é, ao longo do tempo, criarmos as condições que faltam para que os médicos tenham o suporte necessário ao seu trabalho. É preciso dar o primeiro passo, e esse primeiro passo é a ida do médico para a comunidade.

Como tu vês as reações mais exacerbadas ao programa? Um médico cubano e negro foi vaiado e chamado de escravo por colegas brasileiros.
É muito contraditório que um profissional que jurou defender a vida negue auxílio a um colega só porque ele é de outro país. Será que esses médicos brasileiros que fizeram isso estão cumprindo o juramento que assumiram? Será que estão cumprindo a função social da Medicina ou estão defendendo interesses pessoais e corporativos? Comentários como esses são vergonhosos. Acredito que quem diz uma coisa dessas não deve ter estudado história. A sociedade cubana, no que diz respeito a direitos trabalhistas, é muito mais avançada do que a nossa. Esses profissionais não vêm como escravos. Eles vêm ao Brasil porque assumiram para si o compromisso humanitário da Medicina.

Em outra ocasião, uma jornalista disse que as médicas cubanas têm “cara de empregada doméstica”.
São comentários racistas e xenófobos. A sociedade se mostrou contrária a isso. Quer dizer, então, que, para ser médico neste país, é preciso ser loiro e ter olhos azuis? Morenos, negros, mulatos e pessoas que vêm de uma classe social menos favorecida não podem ser médicos? Imagina o meu caso, então: não sou loiro, não tenho olhos azuis e não estou dentro dos padrões estéticos que o mundo prega. Além de tudo, sou sem terra. Eu só me tornei médico na sociedade brasileira graças ao processo revolucionário cubano. Os médicos cubanos não vêm para ferir o interesse de ninguém, mas para ajudar os interesses do povo brasileiro que necessita de atenção médica. Os médicos brasileiros que não estão apoiando os colegas estrangeiros deveriam repensar se de fato são médicos. Será que esse indivíduo que não quer ajudar os colegas a resolver o problema de saúde do Brasil é, de fato, um médico? Será que ele assumiu um compromisso social com aquilo que estudou?

Como tu vês a falta de interesse em se trabalhar com saúde da família no Brasil?
A Medicina de família ainda no Brasil não foi encarada como uma prioridade. Não existe um incentivo durante a formação para que os profissionais atuem como médico de família. Já ouvi de bons colegas brasileiros que, durante a faculdade, é dito que trabalhar com saúde da família não dá status. Como se ser médico fosse defender um status. Os alunos são incentivados pelos professores a trabalhar em super especialidades, porque é o que dá dinheiro, status e faz crescer o nome do indivíduo.