quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Carcará

http://youtu.be/4L0DInKUnzc

Joao Bosco - Nação

http://youtu.be/UkMzpJaut6M

Jornalista Audálio Dantas

O jornalista Audálio Dantas é o único concorrente ao prêmio "Intelectual do Ano - Troféu Juca Pato", conferido há 51 anos pela União Brasileira de Escritores. A entrega da honraria deverá ocorrer em setembro, durante o Congresso Internacional de Escritores que acontecerá no Memorial da América Latina, em São Paulo.
Um dos mais respeitados jornalistas brasileiros em atividade, Audálio começou sua carreira na Folha de S. Paulo, tendo passado pelas revistas O Cruzeiro, Realidade e 4 Rodas, entre outras. Tornou-se conhecido na década de 60, quando descobriu durante uma reportagem numa favela da capital paulista a moradora Carolina Maria de Jesus, que escrevia diários em cadernos que recolhia no lixo. Editados pelo repórter, os diários ganharam forma do livro, "Quarto de Despejo", que foi o maior sucesso editoral daqueles anos, traduzido em 13 idiomas e com mais de um milhão de exemplares vendidos.
Em 1975, Audálio era o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo quando uma onda de sequestros perpetrados pelo DOI-Codi do então II Exército culminou com o assassinato do jornalista Vlado Herzog. Ao lado do arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, do rabino Henri Sobel e do pastor James Wright, o sindicalista organizou o Ato Ecumênico pela morte de Herzog, na Catedral da Sé, que tornou-se um marco na luta pela redemocratização do país.
Eleito deputado federal pelo MDB, em 1978, Audálio foi considerado pela imprensa um dos dez parlamentares mais influentes da Câmara, e o mais atuante da bancada paulista. Em 1981, recebeu nas Nações Unidas, em Nova Iorque, o prêmio David Kenneth Kaunda de Direitos Humanos, que dividiu com o ex-presidente Jimmy Carter e a atriz sueca Liv Ülmman.
No ano passado, lançou seu décimo-primeiro livro, "As Duas Guerras de Vlado", aguardado depoimento de um dos principais protagonistas dos trágicos fatos de 1975. Nos últimos anos, Audálio dirige a revista "Negócios da Comunicação", percorre o país para lançamentos e palestras e coordena os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade dos Jornalistas, da qual é presidente.
Sobre sua indicação ao Juca Pato, feita inicialmente por 50 associados da UBE e depois por muitas adesões espontâneas, Audálio declarou: "Sem falsa modéstia, devo dizer que não me julgo merecedor desta distinção. Afinal, trata-se de uma honraria já atribuída a alguns dos mais importantes intelectuais brasileiros, um prêmio de alto prestígio cultural". Os últimos agraciados com o troféu foram Tatiana Belinky (2012), Aziz Ab'Saber, Lygia Fagundes Telles, e Antonio Candido.
Para votar em Audálio não é preciso ser sócio da UBE, bastando enviar uma declaração de apoio para secretaria@ube.org.br.
(texto de Antonio Barbosa Filho, publicado também no Observatória da Imprensa)

ELES SÃO RESPONSÁVEIS PELO "CORREDOR POLONÊS"?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Do jornal “Brasil 247”
“Não foi por explosão espontânea que os médicos cearenses chamaram seus colegas cubanos de "escravos, escravos!"; o ódio, a violência e o preconceito demonstrados na noite da segunda-feira 26 foram atitudes disseminadas a partir do conforto das redações da mídia tradicional, por três colunistas: Reinaldo Azedo, Eliane Cantanhêde e Augusto Nunes. Assim como não existiria o nazismo sem o “Mein Kampf”, de Hitler, o corredor polonês de Fortaleza não ocorreria sem os jornalistas que gravaram no imaginário dos médicos o rebaixamento completo dos cubanos.
O que move o mundo são as ideias. Para frente ou para trás. A instalação do nazismo, na Alemanha dos anos 1930, foi precedida pela publicação do ideário de Adolf Hitler, o livro “Mein Kempf”. Na China comunista, Mao Tsé-Tung tinha o seu “Livro Vermelho”, de leitura obrigatória nas escolas. De ambos, nasceram ideologias totalitárias, cegas aos direitos humanos, avessas à diversidade, pregadoras da violência.
Hoje, no Brasil, o conjunto dos ideais disseminados por alguns dos mais conhecidos colunistas da mídia tradicional aponta para um caminho análogo, sem volta, de interdição do debate, aviltamento do adversário, exclusão do diferente. Corteja o totalitarismo já superado pela sociedade brasileira.
"Escravos, escravos!". A palavra de ordem dos médicos cearenses contra seus colegas cubanos, que se preparavam para receber as primeiras noções sobre que Brasil é esse que eles vieram apoiar, não foi gritada por acaso. Essa figura foi gravada no imaginário coletivo dos médicos cearenses – e pode estar se multiplicando em outras regiões brasileiras – por três, em particular, colunistas adulados na mídia tradicional.
Do conforto de suas redações, Reinaldo Azevedo, primeiro, [des]classificou em “Veja” os médicos cubanos, cujo trabalho é elogiado em todo o mundo no qual eles atuam em programas do tipo “Mais Médicos”, da Finlândia à África, de "escravos". Na “Folha”, a decana Eliane Cantanhêde disse que os profissionais viajariam em "aviões negreiros". Augusto Nunes, para não ficar atrás, escreveu em seu blog que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, se tornou uma "princesa Isabel às avessas". Todos, sem exceção, com a mesma imagem de degradação do ser humano.
Não ocorreu à trinca de colunistas circunscrever suas diatribes ao irmãos Castro, Fidel e Raúl, ou a Karl Marx e Frederic Engels, os grande teóricos do comunismo. Não. Eles pularam na jugular de cada um e de todos os médicos cubanos que atenderam, sob supervisão da “Organização Panamericana de Saúde”, ao chamamento oficial do governo brasileiro.[OBS deste blog: A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) Sediada em Washington, nos Estados Unidos, atua como escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas e faz parte dos sistemas da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU). Possui escritórios em 27 países, além de oito centros científicos]
Na leitura de Azevedo, Eliane e Nunes, depreende-se que eles são "escravos" porque merecem. Vivem em Cuba porque são covardes para enfrentar a sua ditadura. Isso de um lado. Noutra hipótese, felizes, percorrem o mundo para agirem como arautos do socialismo, espiões à luz do dia, propagandistas de uma ideologia ultrapassada. Nenhuma linha sobre o trabalho que os médicos cubanos desempenharam no Haiti pós-terremoto que devastou o país em 2010, classificado de "maravilhoso" por seus colegas de primeiro mundo (finlandeses). Nada sobre a ação pacificadora na África, na década de 1970. Nenhuma referência ao mundialmente exemplar programa de medicina da família executado dentro da própria Cuba, que por esse tipo de expediente tem um Índice de Desenvolvimento Humano maior que o do Brasil.
Igualmente, os três colunistas não comentaram sobre os médicos de outros países – Espanha, Portugal, Argentina, Itália – que igualmente aceitaram a proposta do governo brasileiro para preencher vagas que os médicos brasileiros recusaram – com salários de R$ 10 mil por mês. Afinal, por que entrar em questões mais complexas para análise, se o mais importante é se divertir pela humilhação aos cubanos?
Sabe-se que, por esse tipo de posicionamento rasteiro, a mídia tradicional está se afogando pela soma de dívidas demais e leitores de menos. Mas guarda-se ainda, é claro, um tipo de influência muito útil os momentos mais intensos de polaridade ideológica. Nessas horas, diante de programas como o “Mais Médicos”, que, efetivamente, podem mudar para melhor o padrão de atendimento de saúde nos rincões do País. Os mesmos rincões que não recebem médicos desde seu desbravamento.
Os três colunistas poderiam usar seus espaços para discutir por que, afinal, a chamada classe médica jamais, em tempo algum, como um todo, voltou seus esforços para o Brasil real. A orientação da medicina brasileira é cobrar, e caro, pelo menor atendimento. Os médicos querem os grandes hospitais, jamais os pequenos pronto-socorros. Podia-se alegar, até aqui, que faltava incentivo para o avanço pelas artérias do País, mas agora não há mais. A remuneração oferecida pelo governo superou todas as expectativas. O programa “Mais Médicos”, por outro lado, nada mais é que uma cópia escarrada do que já existe em diferentes partes do mundo, notadamente nos países mais avançados, como Inglaterra e Alemanha. Lá como cá foi preciso importar profissionais para superar carências. O que fazer, então, para dizer que o “Mais Médicos” não presta?
Ocorreu aos três colunistas chamarem os cubanos – esquecendo-se de todos os outros – de “escravos”. Uma distorção não apenas da situação que eles vivem em Cuba, mas uma covardia contra cada um e todos os integrantes do grupo recém-chegado. A opção foi criar um clima hostil, de guerra, de oposição total e completa à presença deles aqui. Viraram a mira de seus canhões para os mais fracos e indefesos.
Após chamar os profissionais de “escravos”, restará aos colunistas continuar o linchamento moral sobre eles. Poderiam, como Gandhi ou Luther King, atuarem pela conciliação entre o homens, mas se inspiraram em Hitler e Mao para disseminar o ódio. O resultado foi visto no Ceará.” 
FONTE: jornal online “Brasil 247”  (http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/113050/Eles-s%C3%A3o-respons%C3%A1veis-pelo-corredor-polon%C3%AAs.htm).

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cubanos chegam e já diagnosticam a doença do Brasil



Por Saul Leblon - www.cartamaior.com.br   
    

Eles desembarcaram há apenas quatro dias.

Ainda nem começaram a trabalhar. Mas alguma coisa de essencial já foi diagnosticada entre nós, apenas com a sua presença.

Uma foto estampada na Folha de S. Paulo desta 3ª feira sintetiza a radiografia que essa visita adicionou ao diagnóstico da doença brasileira.

Um médico negro avança altivo pelo corredor polonês que espreme a sua passagem na chegada a Fortaleza, 2ª feira.

O funil do constrangimento é formado por jovens de jaleco da mesma cor alva da pele.

Uivam, vaiam, ofendem o recém-chegado.

Recitam um texto inoculado diuturnamente em sua mente pelas cantanhêdes, os gasparis e assemelhados.

Centuriões de um conservadorismo rasteiro, mas incessante.

É força de justiça creditar a esse pelotão a paternidade da linhagem, capaz de cometer o que a foto cristalizou para a memória destes tempos.

“Escravo!” “Escravo!” “Escravo!”.

Ecoa a falange cevada no pastejo da semi-informação, do preconceito e das tardes em shopping center.

Foi programada para cumprir esse papel, entre outros, de consequências até mais letais para a democracia e a civilização entre nós.

Um desembarque que em outros países seria motivo de festas, homenagens e bandas de música.

Aqui é emoldurado pelo espetáculo deprimente de uma classe média desprovida de discernimento sobre o país em que vive, o mundo que a cerca e as urgências da sociedade que lhe custeou o estudo.

Para que agora sabotasse a assistência cubana aos seus segmentos mais vulneráveis, aos quais ela se recusa a atender.

Os alvos da fúria deixaram família, rotinas e camaradagem para morar e socorrer habitantes de localidades das quais nunca ouviram falar.

Mas que a maioria dos brasileiros também sequer desconfia que existam.

Com o agravante de que ali talvez jamais pousem seus pés. Coisa que os cubanos farão. Por três anos.

E que graças a eles, agora saberemos que existem.

Se o governo for safo – espera-se que seja – fará do Mais Médico uma ponte de conexão de nós com nós mesmos.

O futuro da democracia agradecerá.

Os pilares dessa ponte, de qualquer forma, são os que transitam agora altivos diante da recepção que indigna o Brasil aos olhos do mundo.

Perfis médicos ainda improváveis entre nós, apesar do Prouni e das cotas satanizadas pela mesma cepa mental adestrada em compor corredores e funis.

Nem sempre físicos, como agora.

Mas permanentemente intolerantes, na defesa da exclusão e do privilégio.

Formados em uma ilha do Caribe desguarnecida de recursos, por uma escola de medicina que contorna a tecnologia cara, apurando a excelência do exame clínico – aquele em que o médico demora uma hora ou mais com o paciente, rastreando o seu metabolismo – eles passarão a cuidar da gente brasileira pobre e anônima. (Leia a excelente entrevista de Najla Passos com a doutora Ceramides Carbonell sobre a formação de um médico em Cuba).

Campos Alegres de Lourdes, Mansidão, Carinhanha, beira do São Francisco, Cocos, Sítio do Quinto, Souto Soares... Quem conhece esse Brasil?

É para lá que eles vão. E para mais 3.500 outras localidades.

Um Brasil esquecido, em muitos casos, mantido na soleira da porta, do lado de fora do mercado e da cidadania.

Que sempre esteve aí. Mas que agora, pasmem, terá um sujeito interessado em ouvir o que sua agente tem a dizer, esforçando-se por entender pronúncias que até nós, os locais, muitas vezes teríamos dificuldade de discernir.

O ‘doutor de Cuba’ de fala estrangeira e jeito parecido com a gente vai examinar, apalpar dores, curar vermes, prescrever cuidados, encaminhar cirurgias, ouvir e confortar.

Com remédios, atenção e esperança.

Houve um tempo em que essas expedições a um Brasil distante do mar eram feitas por brasileiros, e de classe média.

Protagonistas de um relato épico, de nacionalismo não raro ingênuo. Mas que aproximava e treinava o olhar do país sobre ele mesmo.

Coisa que a hiper-conexão disponível agora poderia fazer até melhor.

Não fosse a determinação superior de afastar e dissimular, o que muitas vezes se alcança destacando o pitoresco.

Em detrimento do principal: as questões do nosso tempo, do nosso desenvolvimento, as escolhas que elas nos cobram. E os interesses que as bloqueiam.

Tivemos a Coluna Prestes, nos anos 20.

Os irmãos Villas Boas, apoiados por malucos como Darcy Ribeiro e entusiastas como Antonio Calado, fizeram isso nos anos 40/50 e início dos 60, quando foi criado o Parque Nacional do Xingu.

Trouxeram a boca do sertão para mais perto do olhar litorâneo e urbano.

Desbastavam distancias a facão.

Na raça, traziam horizontes, aproximavam rios, tribos, desafios e, de alguma forma, semeavam um espírito de pertencimento a algo maior que a linha do mar e a calçada de Copacabana.

A utopia geográfica, se por um lado borrava os conflitos de classe, ao mesmo tempo colidia com o país real que os esperava em cada socavão, de trincas sociais, fundiárias, étnicas e econômicas avessas à neblina da glamorização.

Paschoal Carlos Magno, a UNE e o CPC, o Centro Popular de Cultura, fariam o mesmo nos anos 60, antes do golpe militar.

As famosas ‘Caravanas do CPC’ rasgaram o mapa do sertão, a exemplo do que fizeram as Caravanas da Cidadania, de Lula, nos anos 80.

Desceriam o São Francisco nas gaiolas lendárias para garimpar e irradiar a cultura popular em lugares onde agora, possivelmente, um doutor cubano irá se instalar.

Caso de Carinhanha, um dos mais belos entardeceres do São Francisco.

Onde foi que a seta do tempo se quebrou?

Por que já não seduz a grande aventura de nossa própria construção terceirizada, por décadas, aos mercados autoregulados?

Uma leitora de Carta Maior, Odette Carvalho de Lima Seabra, resume em comentário enviado ao site o núcleo duro do problema.

“ A geração dos nossos jovens doutores”, escreve, “ jamais compreenderá de que se trata. Foram criados nos shopping centers. A escola secundária limitadíssima no seu alcance humanístico os fez também vítimas sem que o saibam que são. Uma revolução que durou vinte anos e cujo sentido era o de esvaziar de sentido a vida de todos nós deixou no seu rescaldo, esse bando de jovens, como são os nossos doutores, muito alienados. É tempo de aprender com os cubanos”, conclui Odette.

Colocado nos seus devidos termos, o impasse readquire a clareza histórica de que se ressente a busca de soluções.

Entre indignado e estupefato, o conservadorismo nega aos visitantes cubanos outra referência de exercício da medicina que não a dos valores argentários.

Ética médica, solidariedade, internacionalismo e humanismo formam uma constelação incompreensível a quem divide o mundo entre consumidores e escravos.

À esquerda, no entanto, cabe também evitar simplificações.

Se quiser enxergar a real abrangência das tarefas em curso, é preciso admitir que não estamos diante de uma batalha entre anjos e demônios.

Os médicos do Caribe não nascem bonzinhos. Tampouco endemoninhados, os dos trópicos.

Eles são formados assim. Por instituições.

A escola, por certo, mas a mídia, sem dúvida, que a completa pelo resto da vida.

É vital que o governo, lideranças sociais e os intelectuais compreendam o fundamental em jogo.

Se quisermos colher frutos duradouros com o ‘Mais Médicos’, o passo seguinte do programa terá que ser a reforma universitária brasileira.

Que reaproxime universidade e a juventude das grandes tarefas coletivas do nosso tempo.

As diferenças entre a formação do cubano hostilizado na chegada a Fortaleza, e aqueles que o ofendiam não são apenas de ordem técnica.

Mas, sobretudo, de discernimento diante do mundo.

A ponto de um não achar estranho sair de seu país para ajudar um outro.

Nem considerar despropositado que parte de seu ganho se transforme em fundo público de reinvestimento.

O oposto das convicções dos que o agraciavam com o corolário de sua própria servidão.

Esse talvez seja o aspecto mais chocante da visita que acaba de chegar.

E, sobretudo, o mais instrutivo.

Ela escancara a doença social que corrói o nosso metabolismo. E adverte para as limitações que irradia.

Na sociedade que estamos construindo.

Na mentalidade que vai se sedimentando. No risco que ela incide sobre o todo.

Para que o ‘Mais Médicos’ um dia possa ser dispensável, o Brasil precisa se tornar ele próprio um grande ‘Mais Solidariedade’.

Como faz Cuba desde 1959, com todos os seus erros, acertos e percalços.



Participação da indústria de transformação na economia caiu para o mesmo patamar de 1956

, diz Fiesp

28/08/2013 - 18h31
Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil
São Paulo – A participação da indústria de transformação na economia brasileira atingiu em 2012 o mesmo nível de 1956, primeiro ano do governo de Juscelino Kubitschek. Segundo estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), no ano passado o setor representou 13,25% do Produto Interno Bruto (PIB). O percentual indica uma queda de 14 pontos percentuais em relação ao patamar de 1985, quando a indústria de transformação era responsável por 27,2% do PIB.
A indústria de transformação compreende atividades que envolvem transformação física, química e biológica de materiais, substâncias e componentes para obter produtos novos.
Com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Fiesp aponta que de 1985 a 2011, a participação da indústria de transformação no número de empregos formais caiu de 27,1% para 17,5%.
De acordo com a pesquisa Panorama da Indústria de Transformação Brasileira, o processo de desindustrialização é causado pelo cenário macroeconômico adverso, que reduziu ao longo dos últimos anos a competitividade das empresas nacionais. “A economia mundial passou por vários eventos adversos que influenciaram negativamente o ambiente macroeconômico, a demanda agregada e, por consequência, o crescimento da indústria”, diz o estudo ao se referir à aceleração da inflação nos anos 1980 e às crises financeiras da década de 1990.
Por isso, segundo a pesquisa, o processo de redução da participação da indústria na economia brasileira é um fenômeno negativo, ao contrário do que ocorreu em países mais desenvolvidos economicamente. “Nos países desenvolvidos, o processo de desindustrialização foi resultado do crescimento da produtividade na indústria de transformação, ou seja, esteve associado ao aumento do emprego de alta produtividade e elevada qualificação da mão de obra no setor, o que transferiu trabalhadores para os outros setores da economia”, informa o texto.
No caso do Brasil, segundo o estudo, o processo de desindustrialização é precoce e nocivo à economia nacional, pois “se associa a fenômenos negativos, como a perda de competitividade das exportações industriais, que se manifesta por meio da reprimarização da pauta exportadora; e o aumento das importações não somente de bens de capital e de consumo”.
Para inverter esse processo, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, defendeu adoção de medidas que criem um melhor ambiente para as indústrias brasileiras. “Não adianta ter todo tipo de inovação, tecnologia, marca, imagem, mercado, pessoal treinado e um câmbio distorcido em 30%, 40%, que rouba todo tipo de competitividade”, disse. “O Brasil tem muito imposto, carga tributária alta, uma burocracia tremenda. E isso tem que mudar. Precisamos de uma reforma que simplifique isso e acabe com a guerra fiscal”. Skaf criticou também as altas taxas de juros cobradas no país.
Edição: Fábio Massalli

Ataque à Síria confirmaria os EUA como potência única

Caso inicie uma guerra sem o apoio de Rússia e China, Washington mostrará que o seu poder continua inquestionável
por Lucas Pereira Rezende — publicado 28/08/2013 12:35, última modificação 28/08/2013 12:40
Justin Lane/Agência Lusa/ABr
 Barack Obama
O presidente Barack Obama, ao assumir o seu segundo mandato
A crise política pela qual passa a Síria, iniciada em janeiro de 2011 e ainda em curso, parece estar com os seus dias contados, quando Estados Unidos, França e Reino Unido anunciam que estão preparados para um ataque militar ao país, justificado pelo suposto uso de armas químicas por parte do governo de Bashar al Assad.
Em grande medida, a demora na definição da balança de poder síria se deu devido ao apoio das grandes potências, o que prolongou o conflito e causou a morte de milhares de pessoas, de ambos os lados do conflito. Os EUA e seus aliados europeus, assim como o secretariado da ONU - que pediam a saída de al Assad do poder para que houvesse qualquer condição de pacificação - apoiavam, direta e indiretamente, as forças oposicionistas. Em maio desse ano, a União Europeia aprovou a suspensão do embargo à venda de armas para a oposição síria, abrindo espaço para que se desse, então formalmente, a consolidação do apoio militar ao grupo que luta contra o governo.
Por outro lado, China e, em especial, Rússia, deixavam claro que uma intervenção direta na Síria não seria autorizada por ambos no Conselho de Segurança da ONU, o que impossibilitaria uma decisão do órgão. A relação entre Rússia e Síria é contínua desde a década de 1950, quando a extinta União Soviética começou a consolidar a parceria estratégica com o partido Ba'ath, ao qual pertence, ainda, Bashar al Assad. Esse relacionamento hoje é sinônimo de uma das maiores parcerias militares russas, de importância não apenas política e estratégica, mas econômica, como principal comprador de armamentos da Rússia.
A não-decisão do Conselho de Segurança da ONU representou, para alguns, uma mudança nos polos globais de poder. Os EUA, diferentemente da autonomia para ditar a agenda política na ONU que viveu nos anos após o colapso soviético, agora enfrentavam uma Rússia reemergente e uma China cada vez mais protagonista, ameaçando, em conjunto, um veto a qualquer intervenção na Síria. O cenário, de fato, não é mais o mesmo, e a agenda da ONU não é mais tão unilateralmente ditada - o que deixou o secretariado da organização "mal-acostumado", com uma série de demandas, ainda politicamente alinhadas aos EUA, sem chance real de implementação. O congelamento do Conselho de Segurança passava a lembrar os anos de divisão de poder vividos pelo órgão nos anos da Guerra Fria.
Os últimos movimentos, contudo, vêm em sentido contrário. Se confirmado, de fato, o uso de armas químicas por parte do governo de Damasco contra oposicionistas combatentes e civis (condição colocada pelos EUA como a gota d'água para a série de "violações aos direitos humanos" praticadas pelas forças governamentais), uma intervenção militar capitaneada por EUA, Reino Unido e França parece iminente - seja aprovada ou não pelo Conselho de Segurança. Tal feito apenas confirmará que, quando julga necessário, os EUA têm condições de fazer o que consideram adequado, independentemente da legislação internacional ou da aprovação de outras potências. Esse é o símbolo máximo do poder estadunidense.
A demora para a decisão de derrubar militarmente al Assad não deve ser lida como uma fraqueza dos Estados Unidos. Em especial após uma controversa guerra ao Iraque em 2003, ficou claro que é menos custoso uma guerra multilateral, que seja vista, politicamente, como legítima. Lembremos, ainda, que os EUA se encontravam ainda no Iraque e no Afeganistão, em duas guerras longas e custosas, além da crise econômica vivida pelo país desde 2008. A decisão de derrubar al Assad já fora feita, mas procurou-se os meios mais baratos e menos controversos para tal. O apoio militar e político à oposição foi o primeiro caminho e, em alguns momentos, quase bem sucedido. A pressão contínua ao governo de Damasco e seus aliados russos e chineses também mostrava a construção de um argumento construção de legitimidade, calcado na democracia, nos direitos humanos e na responsabilidade para proteger. A via barata, contudo, acabou não mostrando resultados. Nesse ínterim, os EUA saíram do Iraque, reforçaram a campanha no Afeganistão e se recuperaram econômica e politicamente.
Em um momento em que o governo de Barack Obama é acusado de agir contra os direitos humanos pelo uso dos veículos aéreos não-tripulados (ou drones), fazer um ataque à Síria multilateral, justificado na proteção aos direitos essenciais dos sírios e, ainda por cima, aproveitando para criticar os direitos humanos na China e na Rússia, parece bem profícuo. Além de entrarem na guerra como os defensores da democracia, reafirmando seu chamado poder brando, sairá dela mostrando que também o seu poder duro continua inquestionável. Podemos ter ainda bons candidatos a novos polos globais, mas são apenas isso: candidatos. Até que consigam, de fato, fazer uma oposição direta aos Estados Unidos, seja politicamente, economicamente ou militarmente, muitos anos terão ainda que se passar. O desenrolar da crise na Síria serve para nos mostrar que, para o desgosto de muitos, o realismo e a velha política do "manda quem pode, obedece quem tem juízo" continua sendo o guia máximo das relações internacionais.

Lucas Pereira Rezende é professor de Relações Internacionais da FACAMP e autor de "O Engajamento do Brasil nas Operações de Paz da ONU" (Ed. Appris, 2012).