segunda-feira, 20 de maio de 2013

Da indignação à rebelião

São aterradores os números da OIT sobre o desemprego europeu. E há o risco de ocorrer uma convulsão social

Os números sobre a situação do emprego na Europa, divulgados na primeira semana de maio pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), são aterradores. Quando se esperava um pequeno alívio em 2012, em seguida à leve desaceleração da taxa de crescimento do desemprego no período 2010-2011, o levantamento mais recente apurou um aprofundamento da tragédia nos últimos seis meses.
Ex-Conselheiro Antonio Delfim Netto
20/05/2013
 

Da indignação à rebelião Da indignação à rebelião
Um milhão de pessoas engrossaram uma estatística já quase inacreditável: somavam 26 milhões no início do ano passado os desempregados em 22 dos 27 países da Comunidade Europeia.

Não refresca nada saber que chegaram a ser 30 milhões, no auge da crise econômica deflagrada nos EUA, em 2008, produto da soma da concupiscência do sistema financeiro e suas "inovações", com o tratamento descuidado pelos governos que deveriam regulá-las. Em alguns casos, em evidente conspiração com o mesmo sistema financeiro!

Uma conspiração que em quatro anos aumentou extraordinariamente os níveis da pobreza universal. E continua a manter os próprios mercados financeiros sob estresse e alta volatilidade.
Não deixa de ser patético, portanto, imaginar o reequilíbrio da economia mundial como uma obra a ser executada por governos "salvadores". Eles só podem salvá-la à custa de recursos do setor privado produtivo graças ao seu poder de império e caso consigam reconquistar um padrão mínimo de credibilidade entre seus cidadãos, de forma a convencê-los a voltar a procurar trabalho.

Aliás, a descrença a respeito da capacidade de reação dos governos europeus revela-se no comunicado em que a OIT pede mudanças urgentes nas atuais políticas de aperto orçamentário e a voltar do objetivo de criação de empregos.

Segundo a instituição, o desemprego está tornando-se um problema estrutural na Europa. Mais de 40% dos desempregados em 19 países estão fora do mercado por mais de um ano. Em apenas três países importantes do bloco (Alemanha, Áustria e Hungria) os níveis de emprego se mantêm acima do nível anterior à crise.

Na Espanha, Portugal e Grécia, as taxas de desemprego pioraram nos últimos 24 meses. A OIT adverte ter aumentado o risco de convulsão social nesses países, ameaça visível adotada nos slogans da manifestação popular em Madri no último fim de semana com o lema principal: "Da indignação à rebelião"...

Professor graduado, doutor pela Universidade de Cambridge, o economista sul-coreano Ha-Joon Chang, autor de dois livros em que critica "a ideologia do livre-comércio dominante no mundo desde a década de 1980", comentou recentemente: "Os enormes déficits orçamentários criados pela crise obrigarão os governos a reduzir de maneira significativa os investimentos públicos e as aplicações na área do bem-estar social, o que afetará negativamente o crescimento econômico. Esses cortes provocarão uma conjuntura que pode persistir por décadas".

"A economia mundial está destroçada", diz Chang, que alerta para a possibilidade dramática de "algumas pessoas desempregadas, e sem suas casas em razão da crise, talvez nunca mais consigam ingressar novamente na economia convencional."

Há uma trágica ironia no fato de a renda e o emprego dos que ganham (ou ganhavam) a vida honestamente virem a pagar a conta do governo "salvador". Nunca é demais lembrar um fato físico: os governos não criam recursos. No máximo podem transferi-los. Tomam de u m setor produtivo e os transferem a outro, apropriando-se no caminho de um pedaço para o seu custeio...

Agrande lição da crise é que a percepção da existência de um sólido equilíbrio fiscal de longo prazo e uma apropriada relação entre a dívida pública e o PIB (corretamente medida) são fundamentos do sucesso da boa governança. São eles que dão aos governos a capacidade de cumprir bem o seu papel no enfrentamento das crises globais de oferta e procura.

O Brasil é um exemplo do sucesso dessa lição, enquanto os fatos mostraram a velocidade com que controles fiscais aparentemente bem-sucedidos podem deteriorar-se e ameaçar o equilíbrio dos países.
 
Delfim Netto, ex-conselheiro do CDES, é economista, formado pela USP e professor de Economia. Foi ministro de Estado e deputado federal.
Publicado na Carta Capital

domingo, 19 de maio de 2013

A volta do príncipe do neoliberalismo à América Latina

Gaudêncio Penaforte

19/05/2013


Ex-garoto prodígio de Harvard, o economista norte-americano Jeffrey Sachs notabilizou-se internacionalmente nos anos 80 e 90 como conselheiro para reformas econômicas e ajustes estruturais de governos de países em desenvolvimento na América Latina, no Leste Europeu e na África, destacando-se como ardoroso defensor das virtudes do mercado e mentor de alguns dos experimentos neoliberais mais radicais.

A Bolívia serviu como primeiro laboratório de teste da sua "terapia de choque", que depois seria aplicada em vários países em transição do sistema comunista para economia de mercado. Esta sinistra expressão, cunhada pelo próprio Sachs, refere-se à liberalização acelerada da economia, por meio da abertura comercial, corte drástico de gastos públicos, fim dos subsídios estatais, adoção do câmbio livre e privatização em larga escala de empresas e ativos controlados pelo Estado.

Outra característica deste tratamento de choque é o total desprezo pelos chamados "efeitos colaterais". Isso significa, na prática, ignorar os elevados custos sociais, medidos em termos de taxas galopantes de desemprego, aumento da pobreza e, como aconteceu na Rússia, escalada da taxa de suicídio. Tudo em nome da estabilização da economia.

O inventor da "terapia de choque" e patrono do neoliberalismo foi o economista Milton Friedman, que testou a sua fórmula de reformas pró-mercado no Chile, sob a sangrenta ditadura de Augusto Pinochet. Sachs, uma espécie de antípoda de Che Guevara, ajudou a destroçar a já combalida economia boliviana, deixando para trás um país devastado.

Com a derrocada dos regimes comunistas e o colapso da União das Repúblicas Soviéticas, Sachs encontrou terreno fértil para o seu apostolado sobre a redenção prometida pelo neoliberalismo. Faria jus, merecidamente, ao título que nunca lhe foi dado de patrono dos oligarcas russos, que se apropriaram das estatais a preço vil - modelo que o Brasil tentou copiar na era FHC.

Agora eis que Sachs, convertido na última década em militante da luta contra a pobreza na África – fenômeno que prefere abordar como algo atávico, não consequência da voracidade do capital financeiro internacional, exacerbada pelas políticas neoliberais que ajudou a disseminar pelo mundo – reaparece na América Latina como consultor do governo do Paraguai.

As poucas informações que se tornaram pública dão conta que, em 24 de setembro de 2012, ele teria assinado um contrato de sete meses para assessorar o governo do contestado presidente Frederico Franco em matéria de política de energia, especialmente nas negociações com o grupo Rio Tinto para a implantação de uma indústria de alumínio.

Todavia, o seu trabalho só ganhou visibilidade a uma semana da eleição presidencial, realizada no último dia 21 de abril, quando a mídia paraguaia divulgou com estardalhaço que o "principal assessor econômico da ONU afirma que a dívida de Itaipu já se pagou" (ABC Color, 15/04/13).

O vazamento ardilosamente orquestrado às vésperas do pleito presidencial de um suposto relatório confidencial, ao qual parece que todos os principais jornais do país tiveram acesso simultaneamente, colocou Itaipu no centro do debate eleitoral. De acordo com fragmentos reproduzidos pela mídia guarani, Sachs teria apresentado a seguinte conclusão: "sob presunções financeiras razoáveis, o Paraguai já pagou a sua parte das dívidas de Itaipu por meio da exportação de eletricidade para o Brasil durante um período de mais de 25 anos."

E prossegue no seu argumento: "As dívidas remanescentes nos livros contábeis deveriam ser canceladas por meio de um novo acordo com o Brasil. O fato de o Paraguai ainda ter dívidas em aberto decorre do fato de que ao longo dos anos o país tem sido sobretaxado pelo pagamento de juros e subcompensado pela eletricidade exportada [para o Brasil]".

Com base nesta premissa, Sachs assume o seu papel preferido de conselheiro para vaticinar: "é fortemente recomendado que o próximo governo do Paraguai conclame o Brasil a cancelar as dívidas remanescentes e a estabelecer uma tarifa mais favorável e realista [para a energia cedida pelo Paraguai]."

Como uma confissão antecipada da análise superficial e aligeirada na qual baseou suas conclusões assertivas, Sachs se apressa em fazer uma desconcertante ressalva: "É claro que os termos revisados [do novo acordo a ser firmado] seriam baseados numa clara e transparente análise da história dos pagamentos da dívida, das taxas de juros, das exportações de eletricidade, e de outros fatores que contribuíram para a dinâmica da dívida". (Grifo do autor).

Bingo! O conselheiro contratado a peso de ouro concluiu o seu "relatório confidencial" recomendando ao governo paraguaio que faça ou encontre alguém disposto a fazer o trabalho que supostamente ele deveria ter feito, mas admite candidamente que não o fez, se quisesse que as suas conclusões fossem realmente levadas a sério.

Sintomaticamente, o jornal ABC Color, o mais ardoroso crítico do Tratado de Itaipu, registrou a seguinte manifestação do engenheiro paraguaio Guilhermo López Flores, membro do Conselho da Hidrelétrica de Yacyretá: "se não sabe algo tão básico como quem é o devedor, é legítimo duvidar da qualidade do resto da análise do economista norte-americano." E conclui que, como especialista, "teria chegado a melhores conclusões por uma ínfima fração dos honorários do Sr. Sachs". (ABC Color, 16/04/13).

Só faltou Sachs ter conjecturado que se, durante as escavações para a construção da barragem, tivesse sido encontrado um improvável veio de ouro ou diamante em meio aos derrames de basalto, a obra poderia ter sido integralmente paga antes mesmo de gerar o primeiro megawatt de energia.

Mas a simples evocação dessa hipótese é perigosa, pois pode induzir parte da mídia paraguaia a levantar a suspeita de que de fato uma mina de ouro foi descoberta no sítio de Itaipu e o Brasil teria se apropriado de toda riqueza extraída.

Pelo menos das passagens pinçadas do "relatório confidencial" divulgadas pela mídia paraguaia, depreende-se que Sachs não foi tão longe a ponto de propor a privatização de Itaipu, como fez com o setor de energia e a indústria de base na Rússia, o que mostra uma evolução do seu pensamente econômico!

Mas não surpreenderá se ele vier a incluir a proposta de privatização do setor elétrico paraguaio como parte da sua conhecida "terapia de choque". Com tanta energia disponível, o setor é a cereja do bolo da emergente economia paraguaia.

A existência do Relatório Sachs comissionado pelo governo paraguaio veio a público num momento em que a credibilidade dos economistas de Harvard está em baixa em razão do recente escândalo em torno da clamorosa fraude acadêmica praticada pelos economistas Ken Rogoff e Carmen Reinhart.

Para quem não vem acompanhando o assunto, é de autoria da dupla o estudo "Crescimento em uma época de endividamento", o qual chegou à conclusão de que quando o nível de endividamento de um país ultrapassa a marca de 90% do PIB (Produto Interno Bruto), a média de crescimento despenca. Esta correlação vinha sendo invocada por governos de países europeus e dos Estados Unidos para justificar draconianos cortes orçamentários e outras medidas de austeridade fiscal.

Acontece que os autores do referido estudo foram desacreditados quando um estudante de doutorado de 28 anos, Thomas Herndon, resolveu revisar os seus métodos de cálculos e constatou que os resultados nos quais os dois renomados economistas de Harvard basearam-se eram fajutos. Um erro nas planilhas de Excel excluiu dados importantes e provocou graves distorções nos resultados. Feitas as correções, Herndon demonstrou que os países com endividamento superior a 90% do PIB alcançaram crescimento médio de 2,25%.

A favor de Sachs, registre-se que depois de duas décadas em Harvard, em 2002 ele a trocou pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque, com um contrato da ordem de US$ 300 mil por ano. Na Big Apple, iniciou também uma bem-sucedida carreira de conselheiro especial do Secretário-Geral da ONU. Sua apologia das políticas neoliberais, desacreditadas pelo desastre que culminou com o colapso financeiro de 2008, deu lugar a preocupações com pobreza e desenvolvimento sustentável, temas em alta na agenda dos organismos internacionais.

Mas suas novas convicções não resistem a um bom contrato de consultoria, mesmo que o contratante seja um governo repudiado em toda a região pela forma ilegítima como foi instaurado, fruto do golpe parlamentar de junho de 2012, que apeou do poder o presidente democraticamente eleito Fernando Lugo, que acaba de ser eleito senador pelo voto popular.

Mas o currículo internacional de Sachs mostra que ele nunca teve pruridos em se aliar a governos não-democráticos nem nunca exigiu credenciais democráticas dos governantes aos quais prestou serviços a soldo. Conforme já registrado, o primeiro experimento neoliberal deu-se no Chile de Pinochet. Portanto, a terapia de choque neoliberal, da qual Sachs se tornou o principal proselitista, nasceu umbilicalmente vinculada ao autoritarismo.

A volta do príncipe do neoliberalismo à América Latina, agora na condição de consultor do governo do Paraguai, poderá render novo fiasco, mesmo que o futuro governo colorado do presidente eleito Horacio Cartes, a ser empossado em agosto próximo, decida mantê-lo na sua folha de pagamento.

Em entrevista ao ABC Color, ele se oferece para assessorar o governo paraguaio numa possível renegociação do Tratado de Itaipu e se vangloria de ter "trabajado mucho con gobiernos brasileños" e de manter "buenas relaciones con Brasil". (ABC Color, 24/04/13) Alguém precisa avisá-lo de que o governo FHC terminou em 2002 e que desde então o Brasil não segue mais a cartilha neoliberal.

Por fim, as suas conclusões apressadas e oportunistas sobre Itaipu, sem uma "clara e transparente análise da história de pagamentos da dívida", conforme admitiu o próprio economista, demonstram mais uma vez que ele está disposto a defender a posição que convém ao seu cliente, sem qualquer compromisso com a verdade e com as conseqüências políticas, econômicas e sociais – como fez com sua "terapia de choque" em diversos países.

Inflação: O pulo do gato

A inflação atinge a todos, reduzindo o poder de compra e prejudicando os mais os mais pobres, que têm menos condições de se defender da alta de preços. Portanto, o enfrentamento da inflação é prioridade de qualquer governo. Mas como enfrentá-la sem usar a Selic, uma falsa solução que denota o atraso em matéria de política econômica? O artigo é de Amir Khair Data: 17/05/2013
O que inviabiliza a política econômica é o fantasma da inflação. Aniquilou o crescimento no governo FHC, que abusou da Selic elevada para combatê-la, não deixou aproveitar melhor o surto de crescimento internacional no governo Lula, frustrou o crescimento nos últimos dois anos e ameaça os próximos dois.

A inflação atinge a todos, reduzindo o poder de compra e prejudicando mais os mais pobres, que têm menos condições de se defender da alta de preços. Portanto, o enfrentamento da inflação é prioridade de qualquer governo. Mas como enfrentá-la?

Falsa solução - O pensamento dominante, inclusive de parte do governo, é o uso da Selic como o remédio para conter a inflação. É aí que ocorre o pulo do gato, ao se afirmar que precisa subir a Selic. Isso denota o atraso na política econômica do país. O consolo é que já foi pior. Armínio Fraga inaugurou o regime de metas para a inflação posicionando a Selic no seu recorde histórico de 45%. A banca internacional vibrou junto com os rentistas domésticos.

É mais provável que uma elevação da Selic prejudique mais a oferta do que a demanda, pois onera as empresas no custo financeiro e no capital de giro, o que pressiona preços, e não mexe na demanda, pois, num país de alto spread bancário a eficácia da alteração da taxa básica de juro quase nada altera a taxa de juro do tomador.

Mas alguns ainda defendem que o BC ao usar a Selic estaria orientando as expectativas dos agentes econômicos para a fixação dos preços. Mas essas expectativas se dão pela consulta à inflação passada e presente. Nada a ver com a Selic.

Além disso, segundo o BC, a alteração da Selic leva de seis meses a um ano (?) para surtir efeito. Nesse período tanta coisa pode acontecer que torna impossível caracterizar o eventual efeito.

Existem políticas adequadas para enfrentar a inflação como: a) a desoneração de produtos de consumo popular; b) redução e controle dos preços monitorados pelo governo; c) encarecimento do crédito por medidas macroprudenciais; d) estímulos à oferta por empréstimos com melhores condições e; e) controle de preços aos monopólios e oligopólios.

Determinantes do IPCA - O IPCA é influenciado em 36% pelos bens comercializáveis, 40% pelos não comercializáveis e 25% pelos monitorados. Vejamos esses componentes.

Comercializáveis - São todos os bens sujeitos à concorrência externa. A evolução dos seus preços depende do mercado internacional, que desde a crise de 2008, passa por acirrada concorrência.

Em 2011 a inflação desses bens foi de 4,4% e no ano passado 4,5%, portanto, no centro da meta de inflação. Os alimentos é que dispararam pelas quebras de safra nos Estados Unidos e Brasil.

Desde meados do ano passado o IPCA sem os alimentos está no nível de 4%, abaixo do centro da meta de 4,5%. Basta isso para derrubar os que usam o fantasma da inflação para elevar a Selic. Em adição, neste ano a safra é recorde, contribuindo para a queda da inflação.

E o que causou a elevação dos preços dos alimentos foram os in natura que cresceram nos últimos doze meses 55% (!). Interessante observar que há um ano esses alimentos tiveram deflação de 5,3% (!).

Não Comercializáveis - São basicamente os serviços que não estão sujeitos à concorrência externa. Desde 1997 até 2004 contribuíram para baixar a inflação e a partir de 2005 passaram a ser o vilão da inflação. A razão para isso é maior demanda do que oferta pelo acelerado crescimento da classe C.

Para conter os preços no curto prazo, alguns economistas ortodoxos defendem a política suicida de elevar o desemprego. O lamentável é que até alguns economistas não ortodoxos embarcaram nessa.

Se aumentar o desemprego, o resultado seria certamente a estagnação, com graves repercussões sociais. Como o governo não é irresponsável a esse ponto, esses economistas vão falar ao vento.

Enquanto não aumentar a oferta de serviços, atraída pela procura em expansão, não será possível evoluir os preços dos não comercializáveis abaixo do centro da meta de inflação.

Monitorados - São os que dependem de decisões do governo. Esses preços evoluíram acima da inflação desde 1995 até 2006, com média anual de 13,9% (!). A sociedade teve que aguentar isso, que é um subproduto da privatização marcada por forte elevação de tarifas para ampliar lucros.

A partir de 2007 tiveram crescimento médio anual de 3,8%, agindo como freio à inflação. Que o diga a Petrobras que foi fragilizada pelo governo, ignorando a posição estratégica para enfrentar o desafio do pré-sal e, ainda foi obrigada a fazer compras com forte conteúdo local e participação de 30% nos investimentos futuros. A crítica não é nos objetivos que foram determinados à empresa, mas a inviabilização de atingi-los pela política desastrosa de preços imposta.

Para romper com a paralisia econômica é necessário não se deixar levar pelo fantasma da inflação, nem pelo falso remédio da elevação da Selic em autêntico pulo do gato.

Documentário sobre Darcy Ribeiro estreia na tevê neste domingo

O filme “Darcy – um brasileiro”, dirigido por Maria Maia, estreia na programação da TV Senado às 20h30 deste domingo (19). O documentário conta a história do antropólogo, político e ativista que foi chefe da Casa Civil de João Goulart, lutou contra a ditadura, defendeu os índios, fundou a Universidade de Brasília e lançou a Lei de Diretrizes Básicas da Educação. Data: 18/05/2013
Um homem de causas, assim pode ser definido Darcy Ribeiro. No documentário “Darcy – um brasileiro”, dirigido por Maria Maia, o telespectador vai conhecer um pouco desta personalidade, visto por ele mesmo e pela ótica de amigos e colaboradores.

Com estreia prevista para 19 de maio, às 20h30 na TV Senado, o documentário conta a história do pensador Darcy, das suas inquietações e da sua busca por soluções para o Brasil. Mineiro de Montes Claro, Darcy dedicou a sua vida aos menos favorecidos.

Na pele de antropólogo, defendeu os índios, fundou o Museu do Índio, ajudou na Criação do Parque Nacional do Xingu, documentou várias etnias em livros e fotografias; na de educador e professor criou a Universidade de Brasília, a Lei de Diretrizes Básicas da Educação e os CIEPS e na de político, foi chefe da Casa Civil de João Goulart, lutou contra a ditadura, foi exilado, foi vice-governador do Brizola, senador da República.

Mesmo vencido, como costumava afirmar, Darcy assumiu preferir o lado dos derrotados do que ter contribuído com os vencedores, neste caso, com aqueles que limitaram a democracia. Para quem perder a estreia, a TV Senado prevê reprises em 25/5 (13h30) e 2/6 (12h30).

Venezuela, papel higiênico e a mídia


Por Vanessa Silva, no sítio Vermelho:

A Venezuela vive um golpe. Os golpistas, ao contrário do que querem fazer crer setores conservadores latino-americanos, não são os integrantes do governo, mas a oposição do país e a imprensa venezuelana e internacional. O editorial do jornal O Estado de S. Paulo desta quinta-feira (16) deixa isso claro. Intitulado “O naufrágio venezuelano”, o texto é um apanhado de equívocos e manipulações a respeito da situação política e econômica do país.

O estopim do rosário de críticas tecidas pela mídia nesta quinta-feira (16) se baseia no anúncio feito no dia anterior de que o governo comprará 50 milhões de rolos de papel higiênico para suprir a demanda interna. Diante da crise de desabastecimento que o país enfrenta, em muito devido a sabotagens da direita, a resposta do governo tem sido de procurar países produtores de alimentos, materiais essenciais e matérias-primas para firmar parcerias e garantir o consumo no país.

Este foi o objetivo central da visita do presidente Nicolás Maduro aos países do Mercado Comum do Sul (Mercosul), no começo do mês, e dos acordos firmados recentemente com a China. Somente com o Brasil e a Argentina, o presidente venezuelano Nicolás Maduro fechou parceria para importar 760 mil toneladas de alimentos e assim garantir reserva alimentícia para três meses.

É sabido que a Venezuela produz muito pouco. Importa a grande maioria dos produtos que consome – é o efeito da chamada doença holandesa, fruto do boom petroleiro do país a partir da década de 1950. No caso, não houve mudanças no cenário econômico do país: a economia segue no mesmo ritmo, as exportações de petróleo não caíram, o governo não deixou de importar o essencial e não houve nenhuma seca/geada/catástrofe que tenha impactado a produção local de alimentos. O que explica então o desabastecimento? A resposta do governo, bem razoável, é que os setores que controlam o mercado de produção e distribuição de alimentos estão manipulando as reservas nacionais e, com o auxílio dos meios de comunicação, provocando uma corrida da população às gôndolas dos supermercados para fazer estoque em suas casas.

Crise e golpe
O jornal brada ainda que “Maduro não apresentou nenhum plano de longo prazo para lidar com a crise, limitando-se a apagar o incêndio muitas vezes com gasolina”. Desconhecimento ou má-fé? O fato é que o presidente Hugo Chávez deixou como herança política o Plano Socialista para a Pátria 2013-2019, no qual traça os caminhos para a solidificação de uma Venezuela livre, soberana e potência regional. Ali estão as linhas gerais, e as específicas, Maduro está tratando de garantir dando prioridade à industrialização do país e à produção de produtos de primeira necessidade, sempre com base na solidariedade das nações amigas.

Não é fácil governar um país, sendo ele o Brasil, a Argentina, o Uruguai, como também não é fácil governar a Venezuela. É, no mínimo deselegante, no entanto, chamar o projeto de governo de um país amigo de “irresponsável aventura estadista bolivariana”. Ou afirmar que este governo tem “incapacidade administrativa” e “falta de legitimidade”. A verdade é que a Venezuela que se pinta não existe de fato.

Estive duas vezes no país caribenho – a primeira em outubro de 2012 e a segunda em abril deste ano, ambas para acompanhar as eleições. Em nenhuma delas encontrei um país à beira do caos, com uma economia em frangalhos, com pessoas desesperadas, tristes, com medo. Ao contrário! Há um país em que as pessoas têm emprego como nunca antes, em que seus filhos podem cursar universidades públicas, em que a saúde melhorou, em que os idosos podem se aposentar. É um país com alto nível de investimento brasileiro com empresas como a Braskem, Camargo Correa e Odebrecht atuando em obras estratégicas de infraestrutura. Aliás, o comércio entre as nações atinge a marca de US$ 6 bilhões por ano e a meta é chegar a US$ 15 bi.

Caracas tampouco é tão perigosa como relatam. É uma grande cidade com problemas como os de São Paulo ou Rio de Janeiro. Há crise política no país? Sem dúvida. Afinal, há ali uma oposição golpista que, apesar dos resultados limpos e transparentes das eleições de 14 de abril, insiste em cantar fraude – discurso encampado pela imprensa brasileira – inviabilizando o avanço de debates importantes sobre o futuro da pátria. A posição é encampada pelo governo dos Estados Unidos que, até o momento, não reconheceu Maduro como presidente legítimo, dando munições para um cenário de desestabilização no país. Maduro terá pela frente muito trabalho nos campos político e econômico, mas o diabo não é tão feio como pintam nossos jornais.

Torcedores pessimistas e... embriagados

Washington Araújo

19/05/2013


Abrir os jornais do dia e conferir a escalada de assuntos dos telejornais noturnos, surfar nas ondas da Web, nossa conhecida internet, é convite solene para dar de cara com um mundo de personagens embriagados. A revista ‘Veja’ está aí para provar. Data: 17/05/2013
Tudo o que é real não resiste a uma breve análise, a um sopro de sanidade, a um reles mergulho na profundidade de um pires. Abrir os jornais do dia e conferir a escalada de assuntos dos telejornais noturnos, surfar nas ondas da Web, nossa conhecida internet, é convite solene para dar de cara com um mundo de personagens embriagados. Alguns por mera vaidade e generosas doses de arrogância, outros, por revelar o que pode ser mais sórdido na natureza humana – esse simulacro de cidadania e humanidade que mal encobre interesses não mais que mesquinhos, escusos e espúrios.

Agora entendamos esta abertura de artigo como se fosse não mais que uma luva. Pois bem, a luva está pronta para ser usada e o palavreado precisa agora de imagens, sensações, frases, eventos, fatos e até mesmo, versões.

Em poucas semanas foi notícia fatos por demais desabonadores de personagens há apenas um passo de canonização dos principais meios de comunicação do Brasil.

Tenhamos em mente as estripulias verbais e gestos tresloucados do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa. Em uma ocasião é ríspido com presidentes de associações de magistrados (portanto, entidade representativa de juízes como ele); já em outra, repete a rispidez, agora acrescida de desmedida grosseria, ordenando que jornalista que cobre regularmente o STF “vá chafurdar no lixo”; já em outra, lança pesadas cortinas de demonização contra advogados – “juiz não deve recebê-los sem a presença de advogados da outra parte”, “advogados acordam por volta das 11 da manhã” e por aí vai. E não faz muito as diatribes de Barbosa eram dirigidas sem pit stop algum diretamente aos seus pares no Supremo: Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski, Eros Grau. Enfim, quase todos foram alvos de achincalhe do presidente da Suprema Corte do Brasil.

Vejamos o jeito truculento de ser do igualmente ministro do STF, Gilmar Mendes. Em curiosíssima interpretação do texto constitucional decide sustar a tramitação de Proposta de Emenda Constitucional na Câmara dos Deputados. Cria assim a figura do “exame prévio” dos temas e assuntos que podem ou não podem ser apreciados pelos 513 parlamentares que, eleitos por sufrágio universal e secreto, representam lidimamente os pouco mais de 200.000.000 de brasileiros.

A politização do Poder Judiciário é um desserviço explícito ao estado democrático de direito, nubla o próprio horizonte da justiça, obscurece o notório saber jurídico que deveria vestir como luva os gestos, as palavras e as ações dos 11 ministros que formam nosso Supremo Tribunal Federal. A mera existência de tais precedentes conspira contra a harmonia entre os Poderes da República e contribui de maneira significativa para o descrédito das instituições responsáveis pelo bem-estar da Nação como um todo.

Reflitamos sobre a parcialidade midiática dos principais (com maior tiragem e com maior Ibope) meios de comunicação do país para com temas que afetam diretamente a vida de cada cidadão e cidadã residente no Brasil. A torcida – cada vez mais escancarada – pelo retorno da espiral inflacionária se esconde nos editoriais, cadernos de economia, colunas, e também nos personagens selecionados cautelosamente para entrevista de página inteira, bem como pululam nos infográficos. A embriaguês nos escaninhos do Quarto Poder (a imprensa) tudo faz para se comportar como se fosse irmã siamesa de um novo surto infeccioso - a paixonite partidarizada.

É desse caldo que vemos surgir previsões de que a Petrobras encontra-se em estado pré-falimentar. Aliás, uma exótica falência, para quem não cessa de receber apoio financeiro escancarado de megaempresários de todo o mundo – leiam-se os US$ 11 bilhões captados pela Petrobras em bônus no mercado internacional, representando nada menos que “a maior emissão feita por uma companhia sediada em mercados emergentes, de acordo com uma fonte próxima ao negócio.” E, para quem se encontra tão mal das pernas, segundo o noticiário, parece que o problema é bem mais grave e trata-se de um surto de demência econômico-financeira: a estatal brasileira do petróleo amealhou estes recursos... para tornar viável ambicioso plano de investimento, que contempla um desembolso de US$ 236,5 bilhões até 2017.

E de quebra, ainda podemos ouvir as trombetas apocalípticas do carro-chefe da Editora Abril, a revista ‘Veja’, em edição nº 2218 (25 maio de 2011), descascando a incapacidade de o Brasil conseguir realizar uma boa Copa do Mundo em 2014. Em relação à construção e/ou reforma estrutural dos estádios de futebol a revista parece haver contratado como articulista Mãe Dinah. ‘Veja’ o que a ‘Veja’ (desculpe o trocadilho infame) previu e o que a realidade, teimosa como ela só, tratou de desdizer:

1. Maracanã – Rio de Janeiro: ‘Veja’ previu a entrega em 2038, mas foi inaugurado em 27/04/2013

2. Mineirão – Belo Horizonte: ‘Veja’ previu a entrega em 2020, mas foi inaugurado em 21/12/2012.

3. Castelão – Fortaleza, ‘Veja’ previu a entrega em 2013, mas foi inaugurado em 15/12/2012

4. Fonte Nova – Salvador, ‘Veja’ previu a entrega em 2015, mas foi inaugurado em 5/4/2013

5. Estádio Nacional de Brasília, ‘Veja’ previu a entrega em 2021, mas será concluído em maio de 2013

6. Arena Pernambuco – Recife, ’Veja’ previu a entrega em 2017, mas será inaugurado em maio de 2013

7. Arena da Baixada – Curitiba, ‘Veja’ previu que NUNCA seria inaugurada, mas já tem 56% das obras concluídas

8. Arena das Dunas – Natal, ‘Veja’ previu que NUNCA seria inaugurada, mas já tem 61% das obras concluídas

9. Arena Corinthians – São Paulo, ‘Veja’ previu que NUNCA seria inaugurada, mas já tem 70% das obras concluídas

10. Arena Pantanal – Cuiabá, ‘Veja’ previu a entrega em 2017, mas já tem 62% das obras concluídas

11. Arena da Amazônia – Manaus, ‘Veja’ previu a entrega em 2024, mas já tem 56% das obras concluídas

12. Beira-Rio – Porto Alegre, ‘Veja’ previu a entrega em 2017, mas já tem 65% das obras concluídas

É pertinente – e não deixa de ser risível – destacar os dons proféticos de Reinaldo Azevedo, articulista de ‘Veja’: “O Maracanã, um símbolo do futebol brasileiro, escolhido para receber a partida final do torneio, tudo o mais constante, ficará pronto em… 2038!”

Fica evidente que na falta de tempo de Mãe Dinah para apresentar prognósticos certeiros à revista semanal dos Civita, esta teve que se contentar com a solução caseira, qual seja, os préstimos da prata da casa.

Vivemos, certamente, em tempos embriagados.


Uma escola de defesa para a América do Sul

Mauro Santayana

19/05/2013



Representantes dos países da América do Sul estiveram reunidos nos últimos dias em Lima, Peru, no âmbito do Conselho de Defesa da região. Ao estreitar a colaboração entre suas forças armadas, os sul-americanos barram as tentativas de manipulação externa.
Data: 19/05/2013
Discretamente, como convém, estreita-se a cooperação de defesa sul - americana. Nos últimos dias, em Lima, no Peru, reuniram-se os vice-ministros de 12 países, entre eles o Brasil, no âmbito do Conselho de Defesa da América do Sul, para discutir a cooperação, com ênfase na transparência no processo de aquisição de armamentos, e em monitoramento conjunto da situação continental.

Em Quito, no Equador, no dia 5 de maio, já ocorrera outro encontro, para a discussão de uma proposta histórica: a criação de uma Escola de Defesa Sul-americana. Ela se contrapõe à célebre Escola das Américas, que, com sede no Panamá, serviu, durante muitos anos, à conspiração golpista contra governos democraticamente eleitos, e para o treinamento de repressores por oficiais do Exército norte-americano.

Ao estreitar a colaboração entre suas forças armadas, a América do Sul não pretende agredir ninguém; seus militares e políticos sabem que é preciso preparar-se contra eventuais agressões externas. Com essas medidas, não nos deixaremos manipular por potências de outras regiões, que gostariam de nos ver divididos, como no passado. Essa cooperação servirá para o desenvolvimento conjunto de métodos de treinamento, de tecnologia própria na produção de novos armamentos e meios de defesa.

O Brasil estuda, nesse momento, a construção de um reator nuclear binacional com a Argentina, com fins pacíficos. Compramos lanchas de patrulha naval da Colômbia, e desenvolvemos projeto mais avançado, nessa área, com o Perú. Colômbia, Chile e Argentina, participam, diretamente, do desenvolvimento do novo jato militar de transporte da EMBRAER, o KC-390, voltado para a substituição, no mercado internacional, dos antigos Hércules C-130 norte-americanos.

A Argentina estuda a compra de blindados Guarani, projetados pelo Exército Brasileiro. E se estuda a construção conjunta - por todos os países - de novo avião de treinamento. O Perú pretende comprar, agora, seis caças ligeiros Super-Tucano, que já fazem parte, na América do Sul, das Forças Aéreas da Colômbia, do Chile e do Equador.

Estamos começando este século de forma muito diferente do que começamos o século passado, com guerras como a do Chaco, e disputas territoriais do século 19, que deixaram marcas até hoje, como no caso da disputa entre o Chile e o Peru pela região de Atacama.

É ingenuidade pensar que a aproximação na área de defesa entre os países das América Latina seja desejada, ou não esteja sendo observada com atenção por nações de outras regiões. Para certos países, o ideal seria que nossos corpos de defesa cuidassem exclusivamente do combate ao tráfico de drogas e à repressão política interna.

Esta semana, o embaixador da França no Brasil, Bruno Delaye, visitou o Deputado Nelson Pellegrino, Presidente da Comissão de Defesa e Relações Externas da Câmara dos Deputados, para oferecer que fragatas sejam montadas no Brasil, pela estatal francesa DNCS, que já faz o mesmo com os submarinos do PROSUB.

É urgente a criação de uma grande empresa estatal de indústria bélica, em nosso país, como ocorre em quase todos os países do ocidente, para participar, majoritariamente, de consórcios destinados a produzir armamentos no Brasil.

Ao mesmo tempo, devemos continuar avançando nos esforços diplomáticos para a cooperação e associação com os nossos vizinhos, para a eventual defesa da integridade territorial e soberania política da região.