terça-feira, 26 de março de 2013

A elite global revelada

Thomaz Ferreira Jensen*

     Como acontece todo início de ano, desde 1987, a elite empresarial global se reuniu na cidade de Davos, na Suíça, para seu convescote, que denominam Fórum Econômico Mundial. Além dos principais executivos das maiores corporações transnacionais, acorreram ao “conclave” presidentes e ministros de diversos países, em geral, aqueles cujos governos são sustentados e dirigidos aos interesses destas corporações.
Aproveitando esta reunião, o Transnational Institute of Policy Studies (Instituto Transnacional de Estudos Políticos, TNI, na sigla em inglês), divulgou estudo sobre o poder econômico global. O TNI é uma rede de
pesquisadores militantes criada em 1974 com o objetivo de realizar análise crítica dos problemas globais atuais e futuros. Sua missão é contribuir com apoio intelectual aos movimentos sociais que lutam por um mundo mais democrático, igualitário e ambientalmente sustentável. A ampla série de informações públicas sistematizadas pelo TNI indica que:
- das 10 maiores corporações globais, 7 atuam na exploração e produção de
petróleo e gás;
- menos de 1% das corporações, sobretudo os bancos, controlam as ações de
40% dos negócios mundiais;
- mais da metade dos principais bancos e indústrias de petróleo mantém
interconexões entre suas respectivas direções executivas;
- num ranking listando os países segundo o tamanho de suas economias,
medido pelo PIB (Produto Interno Bruto), encontramos, entre as 100 maiores
economias do mundo, 40 corporações privadas
- apenas 0,001% da população mundial (cerca de 100 mil pessoas) detêm
patrimônio de 14,6 trilhões de dólares, mais de 20% do PIB mundial
- nos EUA, apenas 400 indivíduos detêm riqueza equivalente à de 50% da
população do país.

Para ver o relatório completo, em espanhol, acesse:
http://www.tni.org/es/report/estado-del-poder-2013

Refletindo sobre estes dados, a escritora Susan George, que integra o TNI, afirmou: “A natureza interconectada das corporações mais poderosas do mundo, indivíduos intercambiáveis com interesses e objetivos comuns, revela uma verdadeira classe social internacional, nômade, a qual eu chamo ‘a classe de Davos’. Seus membros não fazem parte de nenhuma conspiração e seu modus operandi pode ser facilmente observado e identificado”. Estudos como esse ajudam a entender, muito concretamente, do que se trata o capital financeiro e como atua para concentrar empresas e poder econômico em pouquíssimas famílias e corporações, que adquirem tamanho e força muito maior do que a imensa maioria dos Estados Nacionais.
A forma contemporânea do capitalismo está calcada na grande empresa, nos bancos e na predominância do cálculo financeiro sobre a estratégia produtiva. Resultado de longo processo que remonta ao século XIX, quando a Inglaterra dominava o comércio e a indústria em nível global, o capitalismo atual recebeu impulso definitivo a partir das modificações ocorridas na economia dos EUA na virada para o século XX. O surgimento e o desenvolvimento da grande corporação estadunidense se constituem no embrião nacional do desdobramento transnacional do grande capital. É o papel desempenhado pelo capital financeiro que explica tanto o surgimento da grande empresa como o caráter de sua hegemonia presente. As mudanças técnicas e administrativas profundas operadas no interior desta organização industrial acompanharam a emergência de uma “classe financeira”, constituída pelos grandes bancos, da qual passam a depender as estratégias empresariais.
      O que distingue essa forma de capital financeiro das que a precederam historicamente é o caráter universal e permanente dos processos especulativos e de criação de capital fictício. Como o conjunto da economia capitalista só pode avançar com o alargamento do crédito, cabe aos bancos desempenhar papel crucial no financiamento das grandes corporações. À medida que o crédito vai se tornando a força vital
dos negócios, a classe que detém o controle sobre sua destinação se vai tornando cada vez mais poderosa, tomando sob a forma de lucro financeiro uma proporção cada vez maior do produto da indústria. Desta forma, o sistema financeiro e de crédito é a pedra angular da economia capitalista porque:
a) adianta recursos para sancionar a aposta do empresário que resolveu gastar – colocando o seu estoque de capital em operação e contratando trabalhadores;
b) promove diariamente a avaliação e a negociação dos títulos de propriedade e de dívida que geram renda a seus detentores.

     Os Estados Nacionais debilitados estruturalmente pela dependência do capital externo – caso do Brasil – devem repudiar os falsos profetas que cantam as proezas do capitalismo sem regulamentação pública. No cassino em  que se transformou o sistema capitalista globalizado, cabe precisamente aos Estados Nacionais alicerçarem sobre rocha firme suas expectativas de desenvolvimento econômico e social. Tem sido grande a ruína das economias erigidas sobre a areia movediça do capital fictício. Esmorecem aos primeiros ventos das crises financeiras da globalização. Susan George conclui sua análise afirmando que “nossa tarefa, a dos 99% da população mundial, consiste em construir uma grande coalizão com todas as pessoas que desejam lutar por seu futuro e também por uma sociedade mais justa, um mundo melhor, um planeta mais saudável”.

                                                                                                        *Economista e técnico do DIEESE.

O modelo dependente é incurável


 
Adriano Benayon * - 25.03.2013

1. O percentual no PIB dos investimentos na produção e na infra-estrutura física e social está em patamar muito baixo na comparação com os países em que a indústria é basicamente nacional. Isso ocorre desde os  anos 70, quando já se deveria ter entendido que o modelo dependente é incompatível com o desenvolvimento.

2. Embora o crescimento natural da população tenha sido contido, devido à intervenção de fundações norte-americanas, a produção é de longe insuficiente para assegurar sequer tolerável  qualidade de vida à esmagadora maioria dos brasileiros. Ademais, a produção e a infra-estrutura são orientadas em função de interesses estrangeiros.

3. O modelo dependente gerou enorme endividamento, cujo serviço asfixia a economia brasileira. De há muito, a taxa de investimento do Brasil corresponde a cerca de metade das da China, Coreia, Taiwan e outros.

4. Houve  um processo cumulativo de desnacionalização e de concentração econômica, determinantes de crescente ascendência das transnacionais sobre o “poder público”, criando  instituições e mentalidade que levam a brutal desperdício dos recursos investidos.

5. Por isso não só se investe pouco, mas se investe mal, em todos os sentidos: na escolha de em que investir e no modo de realizar os investimentos.

6. Enquanto o Titanic afunda, economistas prosseguem fazendo propostas tópicas, sem perceber – ou fingindo não perceber – que nenhuma delas resolve coisa alguma enquanto perdurar o modelo dependente.

7. Lembrando que, desde 1990, a renda per capita cresce a 1,7% ao ano  (4% entre 1930 e 1980)  e que a taxa de investimentos patina em torno de míseros 18%, Bresser Pereira propõe, como solução salvadora, reduzir substancialmente os juros e desvalorizar a taxa câmbio do real.

8. Essas medidas seriam em si benéficas. De fato, seis pontos percentuais na redução dos juros públicos, incidindo sobre a dívida interna de 3 trilhões de reais,  liberariam recursos para investimentos de infra-estrutura e produtivos de R$ 180 bilhões anuais (4% do PIB).
9. Vantagem adicional decorreria da baixa dos juros pagos pelas empresas produtivas e por pessoas físicas, diminuindo custos e elevando renda. Ademais, é  infundada a ideia, amplamente disseminada, de que juros altos detêm a inflação.
10. A queda dos juros induziria, ainda, a desvalorização cambial,  já que, eliminado o grande diferencial entre as taxas reais de juros internas e as taxas deprimidas dos EUA, Europa etc., cessaria o grande afluxo financeiro  que vem “equilibrando” o balanço de pagamentos (BP).
11. Entretanto, sem essa entrada de capitais, sem grandes investimentos diretos estrangeiros e aquisições de empresas nacionais, o elevado déficit de transações correntes se traduziria em déficit no BP. Desencadear-se-ia  fuga de capitais estrangeiros (dos quais uma parte é de brasileiros com depósitos no exterior).
12. Isso faria o real desvalorizar-se muito além do desejável e acelerar a inflação, pois o País está mais dependente, que no passado, de importações de bens de capital, insumos e bens finais.
13. É evidente, pois, que não seria viável reduzir significativamente os juros,  sem instituir rigoroso controle de capitais e sem racionar de divisas, diferenciando importações essenciais das demais, seja com taxas múltiplas de câmbio, seja com elevados impostos para as importações menos essenciais e para as supérfluas.
14. Óbvio também que tudo isso só é viável se o governo tiver autoridade, poder e vontade de afrontar as regras da comunidade financeira (oligarquia da ordem mundial anglo-americana) instrumentadas através de seus cães de guarda, FMI,  Banco Mundial e  Organização Mundial do Comércio (OMC).
15. Além de ter autonomia em face dessas instâncias “internacionais”, teria o governo de, ou exercer efetivo controle sobre  bancos e  empresas oligopolistas, ou estatizá-los, já que, do contrário, represálias de uns e das outras  levariam à  desestabilizaçáo do governo, como de hábito, dirigida por  serviços secretos das potências imperiais.
16. Precisaria, ainda, elevar, inclusive qualitativamente, a produção e manter a inflação sob controle, e isso só seria possível  retirando dos oligopólios, na maioria de transnacionais, o domínio, sem concorrência, sobre os mercados e acabando com os abusos dos detentores dos serviços públicos privatizados e dados em concessões.
17. Ora, o que o atual Executivo federal está fazendo é o contrário de tudo isso, apoiado pelo Congresso, sempre entreguista. Não só mantêm-se as privatizações e as concessões, que já haviam deteriorado a qualidade e encarecido os preços da eletricidade e das telecomunicações, como se ampliam os privilégios dos grupos que os exploram. Além disso, o Estado prossegue fugindo a seus deveres, ao  entregar novas áreas, como aeroportos, portos e ferrovias.
18. O modelo é  outorgar a exploração dos serviços, oferecendo dinheiro público e financiamento, a juros mínimos, por bancos estatais, e garantir lucro elevado e sem risco aos beneficiários. 
19. Em requinte privatista, regado a dinheiro dos contribuintes, o governo planeja que o Tesouro e  o BNDES repassem recursos aos bancos privados para  emprestarem aos concessionários dos novos serviços privatizados.
20. Ou seja: mais negócios para os bancos lucrarem com dinheiro que não lhes pertence, acrescendo aos colossais fundos que já lhes são providos pelos depositantes (em dezembro, o governo reduziu em  mais R$ 15 bilhões, os  depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central).
21. Lucro sem comparação em todo o mundo para grupos privados - garantido e  sem risco -  tudo bancado pelo Estado – é  como  o governo pretende promover o crescimento dos investimentos em infra-estrutura.  
22.  “Pretendem”  diminuir o famigerado “custo Brasil”, melhorando a competitividade da economia. Mas não atentam para:

a) custos artificialmente elevados pela contabilidade dos oligopólios;

b) o kafkiano e abstruso método usado para que as distribuidoras (privatizadas) da energia fiquem com o grosso dos ganhos decorrentes de preços altíssimos, sem nada terem investido na geração e na transmissão;

c) as restrições impostas por IBAMA, FUNAI, organizações estrangeiras e ONGs, e ministérios públicos federal e estaduais, a que hidrelétricas sejam construídas com integral aproveitamento do potencial hídrico;

d) a supressão das eclusas, cuja falta deixa de criar vias fluviais navegáveis, num País em que a infra-estrutura de transportes não poderia ser mais horrorosa;

e) a falta de adequados procedimentos de controle dos custos das obras e de concorrência que viabilize a participação de empresas de capital nacional de menor porte.

23. Por fim, não se consegue tornar o Brasil competitivo aplicando  vultosos recursos em pesquisa científica e tecnológica (previstos R$ 32,9 bilhões em 2013/2014), apregoando grande salto na inovação, porque esse dinheiro é dissipado enquanto não houver condições para que empreendimentos de capital nacional vinguem no mercado.

* - Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

AS VIAGENS DE FHC E LULA E A ESCANDALIZAÇÃO SELETIVA

terça-feira, 26 de março de 2013

Banco ITAÚ por trás de FHC (ao centro)
“Um ex-presidente brasileiro está rodando o mundo, em viagens patrocinadas por empresas e corporações que cresceram e ganharam muito dinheiro em seu período de governo. Nessas viagens, a presença do ex-presidente ajuda as empresas patrocinadoras a captar investimentos e ganhar mercados.
As empresas amigas também patrocinam palestras desse líder político no Brasil e contribuem com fundos milionários para o Instituto que leva seu nome e destina-se a preservar sua memória.
Se esse ex-presidente se chamasse Luiz Inácio, suas atividades no exterior seriam manchete da “Folha de S. Paulo”, colocando-o sob suspeita de atuar como lobista de empresas sujas.
Mas estamos falando de Fernando Henrique Cardoso, que também viaja fazendo palestras, a convite de empresas, ONGs e instituições diversas. A diferença mais notável entre eles (há muitas outras) é que FHC vai lá fora para falar mal do Brasil.
Nas asas do Itaú, seu patrocinador master, Fernando Henrique esteve no Paraguai em 2010, no dia em que o banco inaugurou a operação para tomar o mercado no país vizinho.
O Itaú também o levou a Doha e aos Emirados Árabes ano passado, como informou a imprensa financeira, com a intenção de morder parte dos 100 milhões de dólares que o “Barwa Bank” tem para investir no mercado imobiliário brasileiro. 
  
 Itaú Unibanco and Fernando Henrique Cardoso visiting Qatar and the UAE

A “Folha” estava lá (mas não diz quem pagou a viagem da colunista Maria Cristina Frias): FHC VAI AO ORIENTE MÉDIO COM ITAÚ PARA ATRAIR INVESTIMENTO, ela escreveu.  Zero de suspeição ou malícia. O jornal não se preocupou em saber se a embaixada brasileira alugou impressoras para apoiar o ex-presidente em sua missão, mas registrou direitinho o que ele disse lá sobre o governo brasileiro atual: Corrupção cresceu em relação a meu governo, diz FHC. Com esse papo, o ex deve ter atraído investimentos para o Chile.
FHC também falou mal do Brasil quando foi à China, em maio passado, de novo pelas asas do Itaú (nem parece que é um banco, deve ser uma agência de viagens). Reclamou do ajuste do câmbio, da falta de planejamento, e fez o comercial do patrocinador: “Baixar a taxa de juros (no Brasil) é importante, mas tem que olhar as consequências”, ele disse aos chineses. O “Estadão” resumiu no título a visão de Brasil que FH passou em Pequim: NÃO SE PODE CRESCER A QUALQUER A CUSTO, DIZ FHC”. 
Em novembro do ano passado, a casa americana “JP Morgan” pagou FHC para falar do Brasil sem sair de casa: O BRASIL ESTÁ PAGANDO O PREÇO POR NÃO TER DADO CONTINUIDADE AOS AVANÇOS IMPLEMENTADOS, ele disse, numa palestra para investidores estrangeiros em São Paulo.
Na edição de sábado, a “Folha” sugeriu ao Ministério Público que promova uma ação para alguém devolver “gastos indevidos” com horas extras de motoristas e deslocamento de funcionários nas embaixadas por onde Lula passou. Mas não se comove com o fato de a estatal paulista SABESP ter pingado R$ 500 mil [de dinheiro público] na caixinha do Instituto FHC (ah se fosse o Visanet...).
Fernando Henrique ainda era presidente da República, em 2002, quando chamou ao Palácio da Alvorada os donos de meia dúzia empresas para alavancar o instituto que ainda ia criar: Odebrecht, Camargo Corrêa, Bradesco, Itaú, CSN, Klabin e Suzano. A elas se juntaria a Ambev. Juntas, pingaram 7 milhões no chapéu de FH. Mas foi o Tesouro que pagou o jantar, descrito em detalhes nesta reportagem da revista “Época”: “Todos à mesa eram gratos à FHC pelo Plano Real e não se duvide de que alguns tenham coçado o bolso por idealismo”.
Mas se a “Folha” utilizasse o mesmo relho com que trata Lula, teria registrado que os Itaú e Bradesco eram gratos pela maior taxa de juros do mundo; a Ambev deve seu monopólio ao CADE dos tucanos; a CSN é a primogênita da privataria e quase todos ali deviam algum ao BNDES.
FHC e seu instituto prosperaram. No primeiro ano como ex-presidente, ele faturou R$ 3 milhões em palestras (o critério é cobrar metade do que cobra o Bill Clinton”, explicou, modestamente, um assessor de FHC). A primeira palestra, de US$ 150 mil de cachê, que serviu de parâmetro para as demais, foi bancada pela “Ambev” [empresa cujo dono é sócio de Verônica Serra, filha de José Serra]. O IFHC já tinha R$ 15 milhões em caixa e planejava gastar o dobro disso nas instalações.
O IFHC abriga o projeto “Memória das Telecomunicações” (esqueçam o que ele escreveu, mas não o que ele privatizou), patrocinado naturalmente pela “Telefónica de Espanha”.
Todas as empresas citadas neste relato são anunciantes da “Folha de S. Paulo” e estão acima de qualquer suspeita enquanto anunciantes. Apodrecem, aos olhos do jornal, quando se aproximam de Lula.
Eis aí o segundo recado da série de manchetes: afastem-se dele os homens de bem. O primeiro recado, está claro, é: mãos ao alto, Lula!
A “Folha” também se considera acima de qualquer suspeita. Só não consegue mais disfarçar o ódio pessoal que move sua campanha contra o ex-presidente Lula.”

FONTE: escrito por Hugo Carvalho e postado no portal de Luis Nassif (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/as-viagens-de-fhc-e-lula-e-a-escandalizacao-seletiva).

segunda-feira, 25 de março de 2013

PREFÁCIO À DÉCIMA EDIÇÃO de Geografia da Fome

Nos dois artigos,* ora transcritos nesta nova edição de uma das obras clássicas de nossa literatura, a Geografia da Fome de Josué de Castro (1956), artigos esses publicados em 1973, tive ocasião de apreciar a atualidade, a originalidade e o sentido profético da sua obra. O regime político ditatorial, que o perseguiu em vida, longe de afetar o valor de sua obra monumental em prospetiva, não fez senão ressaltar seu valor permanente. Passados 25 anos da publicação desse livro-chave, representa ele ainda hoje o retrato mais trágico e igualmente mais fiel de nossa realidade nacional. Comparável a ele, somente Os Sertões de Euclides da Cunha. Durante esses 25 anos nada foi feito para que a carência alimentar do nosso povo fosse atendida. A grande novidade do momento é... a volta à agricultura. Nunca deveríamos ter saído dela. O primado da agricultura, da mineração e da pecuária, em um país de tão vastas dimensões e de natureza tão diversificada, não prejudica em nada, e antes incentiva, a organização de um grande parque industrial. Campo e cidade devem sempre estar intimamente ligados. O que faz a sua separação é a antítese de classes, como é a política de recurso contínuo aos capitais estrangeiros, para promover o progresso nacional. Quando este deve ter sempre, por base, o trabalho e não o capital. Foi o segredo [pg. 19] do Japão. Pois o capital, para ser sólido e não atentar contra a independência nacional, prejudicando outrossim a própria interdependência, deve ter por base o trabalho. A política da primazia do recurso ao capital estrangeiro é, sem dúvida, uma das fontes desse drama da fome, que Josué de Castro foi o primeiro a colocar como o problema básico do Brasil. Hoje se fala muito na primazia do Homem. É bom que se fale, pois a verdadeira filosofia social se baseia nessa primazia. Mas, para que isso não seja apenas uma figura de retórica, é preciso partir do problema da alimentação desse homem, em
cujo trabalho reside a riqueza nacional. Foi tudo isso que levou Josué de Castro a levantar esse monumento de sabedoria social, que tanto entusiasmou o Padre Lebret e é, até hoje, como será para sempre, uma das pedras angulares de nosso edifício social.
* Os dois artigos a que se refere o prefaciador foram publicados no Jornal do Brasil, em 1973, sob o pseudônimo de Tristão de Athayde.
Hoje também se invertem outros valores que Josué de Castro sempre colocou como fundamentais. Procuram, hoje, reduzir artificialmente a população, para melhor alimentá-la. Josué de Castro, pelo contrário, partia do elemento qualitativo e não do elemento quantitativo. Não é preciso reduzir artificialmente a população, para melhor alimentá-la. E sim alimentá-la melhor, para que o seu aumento quantitativo se processe normalmente e não artificialmente. Invertendo a equação, colocando o carro da quantidade adiante dos bois da qualidade, altera-se completamente o equilíbrio da situação homem-alimento, que Josué de Castro coloca numa base racional e moral e não irracional e amoral. Colocaram a pirâmide com a ponta para baixo. Menos habitantes para melhor alimentação. Quando o racional é melhor alimentação (base), para mais habitantes (ponta). Chesterton propôs, com humour, a seguinte fórmula: quando existem 7 crianças e 6 chapéus, ou se arranja mais um chapéu, ou se corta a cabeça de uma criança...
Por essas e outras é que a obra clássica de Josué de Castro merece ser relida e aproveitada, pois sua inspiração é, ao mesmo tempo, científica e moral, como deve ser toda fórmula social, para o bem de uma nacionalidade de vasto futuro como a nossa. Josué de Castro pagou caro sua sabedoria. Mas a posteridade lhe faz justiça e há de aproveitar-se de sua ciência. Como a tragédia da fome não é privilégio do Brasil, nem do Sahel, Josué de Castro [pg. 20] deixou, para a posteridade, aquela sua frase famosa, já citada em um dos meus artigos: “Metade da humanidade não come e a outra não dorme com medo da que não come...”
Alceu Amoroso Lima
Rio, 1980

Geografia da Fome - Josué de Castro


http://youtu.be/Ob92n3OGtaA

Mais de 350 trabalhadoras participam do 14º Encontro Estadual da Mulher da Fetiesc

Enviado pelo jornalista Sérgio Homrich

"Violência contra a Mulher" foi o tema do Encontro, realizado domingo (dia 24), na Fetiesc

Itapema – Mulheres trabalhadoras de todo o Estado se reuniram domingo (dia 24 de março) no Centro de Educação Sindical da Fetiesc (Federação dos Trabalhadores de Santa Catarina), em Meia Praia, para um debate sobre o grave problema da violência doméstica, que vem crescendo de forma assustadora em todos os municípios. Mais de 350 mulheres participaram do 14° Encontro Estadual da Mulher Trabalhadora, promovido pelas secretarias da Mulher e da Juventude da Fetiesc.
O Grupo Teatral Biriba fez uma apresentação divertida no início do evento, seguida das participações da delegada da Polícia Civil, Fedra Luciana Konell, da psicóloga Alessandra Rodrigues de Mello, da escrivã da Delegacia da Mulher de Jaraguá do Sul, Marci Deretti e da advogada do Sindicato dos Trabalhadores do Vestuário de Timbó, Dilma Marquetti. De acordo com a secretária da Mulher da Fetiesc, Elfi Hiller, a escolha do tema foi motivada pelo elevado número de casos de agressão e todo o tipo de humilhações sofridas pelas mulheres em Santa Catarina, tanto em casa como no ambiente de trabalho.
É preciso reagir
Foi consenso entre as participantes que a única maneira de combater a violência doméstica é denunciar o agressor, mesmo que o mesmo seja o pai dos seus filhos. Na avaliação das debatedoras, o agressor conta com o medo da vítima e com a impunidade gerada pela omissão. A delegada Fedra Luciana Konell mostrou coragem ao admitir já ter sofrido agressão do ex-marido e mais coragem ainda ao denunciá-lo, isso em uma época anterior à Lei Maria da Penha. “Só quem pode mudar a história é a própria mulher agredida”, alertou a delegada, afirmando ainda que, entre o público presente ao Encontro, certamente havia muitas vítimas de agressão doméstica. “É preciso dar um basta”, reforçou Fedra, salientando que a mudança pode começar com a educação que damos aos nossos filhos e filhas.
Feridas da alma
Na avaliação da psicóloga Alessandra Rodrigues de Mello as marcas deixadas pela agressão não são apenas físicas, mas permanecem para sempre na alma das mulheres. De acordo com ela, são muitas as seqüelas da violência doméstica, especialmente no aspecto psicológico. “As vítimas sofrem com angústias, mágoas, ressentimentos, baixa autoestima e esses males atingem a família toda”, avisa a psicóloga. Segundo ela, não é apenas a violência física que deixa marcas, e cita a violência psicológica, moral e patrimonial como causadoras de grandes males físicos e emocionais.
Coragem para denunciar
A advogada Dilma Marquetti atende todas as quartas-feiras no Sindicato dos Trabalhadores do Vestuário de Timbó. Segundo ela, a busca de informações por parte das mulheres sobre os direitos em caso de agressão começou a aparecer há alguns anos e tem aumentado a cada ano que passa. “Elas nos procuram antes mesmo de irem à delegacia para fazer o Boletim de Ocorrência”, revela a advogada. Entre as causas da agressão, as vítimas apontam o alcoolismo como o mais freqüente. “O alcoolismo é muito grande na região”, revela a advogada.
Informação e Prevenção
A escrivã Marci Deretti convive com a violência todos os dias na Delegacia de Proteção à Mulher de Jaraguá do Sul. Na avaliação de Marci, a violência doméstica é uma doença que ataca toda a família e se perpetua de geração em geração. “Já temos filhos de agressores agredindo também, o que prova que a agressão é um mal que afeta toda a família”, insiste. A informação e a prevenção, ainda de acordo com Marci, são os caminhos que devem ser trilhados para libertar as mulheres e lembrou que os tipos de violência são os mais variados, desde queimar com ferro de passar roupa a arrancar os cabelos, sem contar as ameaças. “São relacionamentos doentios que devem ser analisados como tal. Temos que achar um caminho para o conflito familiar que está destruindo não apenas uma geração, mas as gerações futuras”, avisa. Marci Deretti lembra que a Lei Maria da Penha está aí para ser usada e que todas as mulheres devem estar cientes de que não estão sozinhas, mas amparadas pela Lei. Em Jaraguá do Sul,em apenas um ano, foram lavrados 2 mil boletins de ocorrência, sendo 30% de ameaças e 70% de agressões com lesão.
Defesa pessoal
Cansada de apanhar do ex-marido a costureira de Timbó, R., teve a coragem de reagir. Entrou em uma academia de Karatê e não deixou por menos. “Eu apanhei, mas também bati”, afirmou a trabalhadora, que atualmente é casada com outro companheiro, que lhe tem respeito e amor. “Não acreditava mais em homem, mas, felizmente, nem todos são iguais”, concluiu. Ela aconselha às mulheres que apanham do marido a reagirem. “Eles batem quando sentem que a mulher tem medo”.
Situação no Estado
O Estado de Santa Catarina ainda não possui Defensoria Pública, o que dificulta o acesso das mulheres pobres a um advogado. O Estado também foi o último a assinar o Pacto de Enfrentamento à Violência Doméstica, que deve criar políticas públicas de combate e prevenção à violência. Dos quase 300 municípios catarinenses, apenas 24 têm Delegacia da Mulher e nenhuma delas é especializada, ou seja, não atendem apenas mulheres, mas idosos, crianças e adolescentes e não abrem nos finais de semana. São apenas seis casas abrigos.
O orçamento para assistência é praticamente zero e não temos políticas públicas voltadas ao enfrentamento do problema da violência doméstica. A rede protetiva, prevista na Lei Maria da Penha, que tem sete anos de existência, não existe e as pessoas envolvidas em trabalhar com o problema são obrigadas a buscar soluções por conta própria. Estas foram as avaliações das participantes do 14° Encontro Estadual da Mulher. Recentemente, o governo federal anunciou a liberação de R$ 100 milhões para o combate à violência doméstica e a construção de 27 casas da mulher brasileira, em todo o País.

EUA, um governo do 1%, para o 1% e pelo 1%

O texto abaixo é uma condensação de um artigo do Nobel de Economia Joseph E. Stiglitz publicado, originalmente, na revista Vanity Fair.
Não adianta fingir que não aconteceu nada porque de fato aconteceu. O 1% mais rico dos americanos tem agora quase um quarto da renda anual do país. Em termos de riqueza, o 1% controla 40 por cento. Sua vida tem melhorado consideravelmente. Vinte e cinco anos atrás, os números correspondentes eram 12 e 33. Uma resposta a isso poderia ser celebrar a criatividade esforçada que trouxe boa sorte para essas pessoas, e afirmar que a maré crescente  acaba elevando todos os barcos. Seria um equívoco.
Enquanto o 1% viu os seus rendimentos aumentarem 18 % na última década, aqueles que estão no meio da pirâmide viram a sua renda cair. Para os homens com apenas ensino médio, o declínio tem sido intenso – 12 %  apenas no último quarto de século. Todo o crescimento nas últimas décadas, e muito mais, foi para aqueles no topo. Em termos de igualdade social, os Estados Unidos perdem de qualquer país da “velha, ossificada” Europa, para usar uma expressão usada pelo presidente George W. Bush para ridicularizar os europeus. Competimos em desigualdade com a Rússia com seus oligarcas e o Irã.
Muitos dos antigos centros de desigualdade da América Latina, como o Brasil, têm se esforçado nos últimos anos, com sucesso, para melhorar a situação dos pobres e reduzir as disparidades de renda. Mas os Estados Unidos têm permitido que a desigualdade cresça.
Os economistas há muito tempo tentam justificar as vastas desigualdades que pareciam tão preocupantes em meados do século 19 – desigualdades que são apenas uma pálida sombra do que estamos vendo nos Estados Unidos de hoje.  Uma justificativa que surgiu foi chamada de “teoria da produtividade marginal”. Em poucas palavras, esta teoria associava rendimentos mais elevados a uma maior produtividade e maior contribuição para a sociedade. É uma teoria que sempre foi valorizada pelos ricos. As evidências de sua validade, no entanto, são escassas. Os executivos das empresas que ajudaram a trazer a recessão dos últimos três anos receberam grandes bônus em troca de uma contribuição maciçamente negativa para a sociedade – e para as suas próprias empresas.
Em alguns casos, as empresas ficaram tão envergonhadas que trocaram o nome das recompensas: “bônus por desempenho” viraram “bônus de retenção” (mesmo que a única coisa a ser retida tenha sido o mau desempenho). Aqueles que contribuíram com grandes inovações positivas para a sociedade, dos pioneiros da compreensão genética aos pioneiros da Era da Informação, receberam uma ninharia em comparação com os responsáveis pelas invenções financeiras que levaram a economia global à beira da ruína.
Algumas pessoas olham para a desigualdade e sacodem os ombros  O que importa, elas argumentam, não é como o bolo é dividido, mas o tamanho do bolo. Fundamentalmente, este argumento está errado. Uma economia em que a maioria dos cidadãos está pior ano após ano não se sustenta a longo prazo. Há várias razões para isso. Primeiro, a desigualdade crescente é o outro lado de uma outra coisa: oportunidades encolhendo. Sempre que a igualdade de oportunidades se reduz, isso significa que não estamos usando alguns dos nossos bens mais valiosos, o povo, da forma mais produtiva possível.
Ajuntamentos de
                barracas nos Estados Unidos: símbolo do crescimento da
                pobreza
Ajuntamentos de barracas nos Estados Unidos: símbolo do crescimento da pobreza
Segundo, muitas das distorções que levam à desigualdade — tais como aquelas associadas com o poder de monopólios e o tratamento fiscal preferencial desfrutado por grandes corporações – afetam a  eficiência da economia. Tudo isso cria novas distorções, prejudicando ainda mais a eficiência. Para dar apenas um exemplo, muitos de nossos jovens mais talentosos, vendo as recompensas astronômicas, vão trabalhar em finanças em vez áreas ligadas a uma economia mais produtiva e mais saudável.
Terceiro, e talvez o mais importante, uma economia moderna exige “ação coletiva”, que precisa do governo para investir em infraestrutura, educação e tecnologia. Os Estados Unidos e o mundo se beneficiaram muito de pesquisas patrocinadas por governos que conduziram à internet, a avanços na saúde pública, e assim por diante. Mas os Estados Unidos há muito tempo sofrem de subinvestimentos em infraestrutura (basta olhar para a condição de nossas estradas e pontes, nossas ferrovias e aeroportos), em pesquisa básica e na educação em todos os níveis. Mais cortes nessas áreas estão por vir.
Quando a distribuição de riqueza de uma sociedade fica desequilibrada, os efeitos colaterais são enormes. Os ricos se tornam mais relutantes em gastar dinheiro em coisas para o bem público. Eles não precisam do governo para educação, saúde ou segurança. Podem comprar todas essas coisas por si mesmos. No processo, eles se tornam mais distante das pessoas comuns, perdendo qualquer empatia com elas. Eles também temem que governos fortes possam  ajustar a balança, tirando um pouco da sua riqueza, e investindo-a no bem comum. O 1%  pode reclamar do governo que temos nos Estados Unidos, mas na verdade eles gostam muito do quadro: muita dificuldade para redistribuir renda e sem força para fazer qualquer coisa que não seja reduzir impostos.
O Nobel Stiglitz, autor
                deste ensaio
O Nobel Stiglitz, autor deste ensaio
Nas últimas semanas, temos visto milhões de pessoas sair às ruas no mundo árabe para protestar contra as condições políticas, econômicas e sociais em sociedades opressivas. Governos foram derrubados no Egito e na Tunísia. Protestos varreram Líbia, Iêmen e Bahrein. As famílias dominantes em outras partes da região olham nervosamente do ar condicionado de suas mansões: seremos os próximos? Elas têm razão para se preocupar. Estas são sociedades onde uma fração minúscula da população, menos de 1%, controla a maior parte da riqueza, onde o dinheiro é um fator determinante de poder e onde os ricos muitas vezes trabalham ativamente para evitar ações que melhorem a vida das pessoas em geral.
Quando é que isso vai acontecer nos Estados Unidos? De várias formas, o nosso país se tornou parecido com aqueles lugares remotos e iníquos.
Alexis de Tocqueville afirmou que a principal característica da sociedade americana era o “interesse pessoal bem compreendido”. As duas últimas palavras eram a chave. Todos possuem interesse pessoal no sentido estrito: quero o que é bom para mim agora! Interesse pessoal “bem compreendido” é diferente. Significa prestar atenção nos interesses pessoais dos outros, igualmente. Em outras palavras, o bem-estar comum é, de fato, uma condição prévia para o próprio  bem-estar. Tocqueville não estava sugerindo que havia qualquer coisa de sublime ou idealista no americano. Na verdade, estava sugerindo o contrário. Era uma marca do pragmatismo americano. Olhando para o outro não é apenas bom para a alma, é bom para os negócios.
Uma pequena elite de 1% tem as melhores casas, as melhores escolas, os melhores médicos, mas há uma coisa que o dinheiro não parece ter comprado: a compreensão de que seu destino está ligado com o dos outros 99%. Ao longo da história, isso é algo que o 1 % costuma tardar a aprender. Em geral, aprende tarde demais.