sábado, 23 de fevereiro de 2013
Brasil tem déficit em conta corrente recorde em janeiro
Por Mônica Izaguirre e Murilo Rodrigues Alves | Valor
As transações correntes com o exterior geraram para o Brasil déficit recorde de US$ 11,371 bilhões no mês passado. Resultado da diferença entre despesas e receitas internacionais com comércio, serviços, transferências de renda e transferências unilaterais, o número foi bem pior que o de igual mês do ano passado (déficit de US$ 7,050 bilhões). Os números foram divulgados nesta sexta-feira pelo Banco Central (BC).
A balança comercial contribuiu expressivamente para que o Brasil registrasse um déficit recorde. Sozinha, a conta de comércio gerou saldo negativo de US$ 4,036 bilhões no mês, com as importações alcançando US$ 20,003 bilhões e as importações foram de US$ 15,967 bilhões.
Além da balança comercial, o chefe do departamento econômico da BC, Tulio Maciel, citou o volume maior de remessas de lucros e dividendos para explicar o déficit recorde em conta corrente. O Brasil remeteu liquidamente ao exterior em janeiro US$ 2,068 bilhões a título de lucros e dividendos. O valor é mais que o dobro do registrado em igual mês do ano passado (US$ 981 milhões), embora bem inferior aos US$ 4,383 bilhões vistos em dezembro.
Na conta de serviços, o economista do BC ressaltou que mais uma vez os brasileiros continuam batendo recorde de gastos no exterior. Os gastos internacionais do país com serviços, já descontadas receitas correspondentes, atingiram US$ 3,680 bilhões, dos quais US$ 1,598 bilhão relativos a despesas líquidas com viagens ao exterior. Em termos brutos, isto é, sem abater os recursos que viajantes estrangeiros deixaram no território nacional, tais despesas somaram US$ 2,293 bilhões.
“A despeito do câmbio, o brasileiro continuou viajando”, afirmou Macial. Para ele, os fatores que explicam esses gastos são o aumento da renda nos últimos anos e os preços “atrativos” em termos de serviços dos países que estão fragilizados pela crise internacional.
Maciel também destacou que o item aluguel de equipamentos está influenciando o déficit na conta de serviços, que se mantém constante, segundo ele em torno de US$ 3,6 bilhões. No mês passado, o déficit em aluguel de equipamentos foi de US$ 1,565 bilhão. “Esse serviço está associado aos investimentos na área de petróleo, que precisa arrendar máquinas e equipamentos”, afirmou.
Déficit recorde
No acumulado de 12 meses, o déficit encerrou janeiro em US$ 58,568 bilhões, o equivalente 2,58% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado pelo BC para o mesmo período.
O resultado da chamada conta corrente do balanço de pagamentos externos do país no primeiro mês deste ano também ficou mais deficitário na comparação com dezembro de 2012, quando os gastos superaram as receitas em US$ 8,413 bilhões (recorde até então).
18
A autoridade monetária projetava para janeiro déficit corrente de US$ 8,3 bilhões, mais baixo, portanto, que o efetivamente apurado.
Para o ano inteiro de 2013, o BC projeta saldo negativo de US$ 65 bilhões (2,72% do PIB).
Balanço de pagamentos
Apesar do déficit recorde do país em suas transações com o exterior, o ingresso líquido de capitais financiou com alguma sobra essa conta em janeiro. Dessa forma, o balanço de pagamentos externos do país foi superavitário em US$ 1,376 bilhão no mês.
O resultado representa uma retomada dos fluxos líquidos de empréstimos, financiamentos e investimentos internacionais em direção ao Brasil.
O BC espera que o ingresso de investimentos estrangeiros diretos (IED) em fevereiro seja de US$ 3,5 bilhões, segundo Tulio Maciel. Até o dia 20, a entrada líquida já é de US$ 2,2 bilhões.
Em janeiro, esses ingressos foram de US$ 3,703 bilhões, montante inferior à projeção da autoridade monetária de US$ 4,5 bilhões. Maciel disse que é comum no primeiro trimestre um certo arrefecimento desses fluxos, mas ressaltou que eles continuam “muito expressivos”.
PSICOLOGIA DE BARBEARIA
Frei Betto
Ignoro se alguém, psicólogo ou cientista social, já se deu ao trabalho de investigar a psicologia dos salões de barbearia. Da infância à adolescência, frequentei o salão do Vicente, no bairro Savassi, em Belo Horizonte.
Estará vivo o Vicente? Figura! Alto, atlético, moreno, exalava sempre sorrisos e paciência. Estendia uma tábua entre os braços da cadeira (forrada de couro verdadeiro!), de modo a aproximar a cabeça da criança de sua ágil tesoura.
Meus irmãos mais novos deixaram o cabelo aos cuidados do Pedrinho, na rua Major Lopes (a dois quarteirões da casa da Dilminha, hoje presidente). Vicente fincou pé no mesmo salão da rua Pernambuco. Pedrinho, empreendedor, de fio em fio criou uma teia de barbearias, com cadeiras temáticas para os meninos se sentirem pilotando um carro de Fórmula 1 ou um batmóvel.
Conversa de barbearia de adultos é sempre amena. Todo barbeiro é um conciliador nato. Voz pausada, enquanto faz correr o pente, dançar a tesoura ou escorregar a navalha, vai tirando do cliente comentários e confidências.
Vai chover, diz o da barba. É, pelo jeito vem água aí, murmura o profissional com o pincel de barba à mão. Em seguida, senta o sitiante para aparar as costeletas: Já não há quem aguente essa seca. Pelo jeito, tão cedo não cai um pingo dágua. Com navalha afiada o barbeiro reduz dois centímetros da costeleta, e concorda: Lá onde moro logo logo vai faltar água até pra beber.
Não é nada fácil descobrir duas coisas em barbeiro: time para o qual torce e preferência partidária. Tomou assento o cabeludo, agasalhado pelo camisão impecavelmente branco, diga o que disser o profissional jamais o contestará.
Nunca vi quebrarem o pau numa barbearia por discordância política. Felizmente, considerando a profusão de navalhas e tesouras em volta! Futebol é a mesma coisa: o barbeiro quase sempre torce pelo time do cliente. Você tem razão, o Corinthians se precipitou ao comprar o Pato. É, doutor, nós santistas ficaremos na pior no dia em que venderem o Neymar!
Um comentário aqui, uma observação ali, e o papo segue enquanto a chuva de fios depenados escurece o camisão.
Há outra dimensão, esta sim, prato cheio para os psicólogos. É a secreta motivação que leva muitos clientes à estofada cadeira móvel. Tive um vizinho que todas as manhãs entregava o rosto no salão da esquina. Perguntei-lhe um dia se a preguiça o impedia de cuidar da própria barba. Bem casado, pai de uma trinca de filhos, não escamoteou: Vou ao salão porque me faz bem o carinho do barbeiro. E não me leve a mal, frisou. Aquelas mãos suaves, a nuvem de creme suscitada pela dança do pincel, o perfume, tudo me faz lembrar o tempo de menino, quando meu avô me punha no colo e, com as costas das mãos, me acarinhava o rosto. Que mulher tem paciência de uma coisa dessa?
Outro amigo, careca a reluzir, apenas uns fiozinhos estendidos entre as orelhas a na nuca, me confidenciou quando indaguei por que frequentava o salão toda semana: Gosto de sentar na cadeira, sentir-me abraçado pelo camisão branco, percorrer os olhos em revistas antigas, escutar o leve ruído metálico da tesoura surpreendendo um fio aqui, outro ali, a extremidade do couro cabeludo acertada pela navalha e, por fim, o espanador de pelos e o borrifar da água de colônia...
Quem tem grana ou prestígio se dá o luxo de convocar barbeiro a domicílio. Lembro de um deputado que, sentado à varanda, entregue ao corte, revestido de tantas toalhas que mais parecia uma noiva gorda, insistia, a todo momento, em interromper a dança do pente e da tesoura para falar ao telefone, cujo fio se estendia desde a sala de visitas.
Um dia, irritado, o barbeiro, sem querer, feriu de leve sua excelência e foi despedido no ato. No mês seguinte, foi chamado à casa do parlamentar. Relutou. O cliente veio ao telefone, pediu desculpas e dobrou o valor a pagar.
Doutor, eu volto, disse o profissional, mas com uma condição: nada de telefone. O deputado consentiu. Em meio ao trabalho, o barbeiro perguntou por que havia sido chamado de volta. Ora, admitiu o político, tenho uma imagem a preservar e ninguém deixa o meu cabelo tão de acordo comigo mesmo como você.
É isso: muitos clientes mantêm fidelidade capilar a um barbeiro, como um cão a seu dono. Tudo porque barba e cabelo são as únicas coisas que, com frequência, mudam onde reside o centro de nossa identidade: no rosto. Uma brusca mudança num ou noutro causa sempre estranhamento.
Frei Betto é escritor, autor do romance Minas do Ouro (Rocco), entre outros livros.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Trabalhadores da LMG paralisam atividades
Enviado pelo jornalista Sérgio Homrich
No início da tarde de
hoje, os mais de 150 trabalhadores retornaram ao trabalho, mantendo o estado de
greve
Os trabalhadores da LMG Roupas Ltda,
em sua maioria costureiras, paralisaram parcialmente as atividades na empresa do
setor do Vestuário, na manhã de hoje (22), em virtude dos baixos salários e,
especialmente, devido à prática contumaz de assédio moral praticado pelas
chefias e prepostos. O movimento começou dentro da própria empresa, contando com
o apoio e orientação do Sindicato dos Trabalhadores do Vestuário e sua
assessoria jurídica. No início da tarde, representantes da empresa receberam uma
comissão formada por cinco trabalhadores da LMG, mais o presidente do
STIVestuário, Gildo Antônio Alves e os assessores jurídicos, advogados Cláudio e
Cleverson Selhorst, onde ficou acordado o compromisso de mudar as relações de
trabalho dentro da empresa. Os mais de 150 trabalhadores decidiram, então,
retornar ao trabalho, mantendo o Estado de Greve, até que a situação se resolva.
"Os trabalhadores deram um voto de confiança à empresa", disse Gildo Alves, logo
após a assembleia realizada na frente do portão principal da LMG, às margens da
BR-280.
Pela manhã, a adesão dos
trabalhadores à paralisação foi tomando corpo. Cada trabalhador que aderia ao
movimento era aplaudido pelos demais companheiros. Antes do meio-dia já eram
mais de 150 trabalhadores parados defronte ao portão de acesso à empresa e todos
assinaram a lista de presenças, por solicitação do Sindicato. Os trabalhadores reclamam, entre outros
motivos, da "prática de baixos salários; do tratamento com rigor excessivo,
principalmente pelas chefias dos setores de costura, corte e manutenção; da
exigência de produção excessiva; restrição e controle de uso de sanitários;
prática de assédio moral; exigência de realização de horas extras, sob pena de
represália; aplicação de advertência e suspensão sem motivo específico; falta de
exaustão de ar no setor de costura; obrigação da aquisição por parte do
empregado de EPIs, como guarda-pó, calça e sapatão; exigência de entrega de
atestados médicos antes do primeiro dia de retorno ao trabalho; falta de
atendimento médico no ambulatório e não aceitação de atestados
médicos".
As reclamações contra o assédio
moral predominam. "Não valorizam a gente, quanto mais você faz, mais eles
querem", reclamou a costureira F.A.. "O salário é pago certo, temos convênio,
plano de saúde, mas o relacionamento humano é difícil, aqui a gente trabalha sob
ameaça constante", criticou a costureira A.P., 7 anos de trabalho na LMG.
"Humilham, fazem a pessoa se sentir um lixo", emenda a costureira M.C.F, quatro
anos de empresa. O presidente do STIVestuário advertiu que "o tratamento
desumano dentro da empresa tem que acabar" e adiantou que "O Sindicato estará ao
lado dos trabalhadores até que essa situação se resolva". Gildo Alves reclamou
ainda dos baixos salários pagos pela empresa e, regra geral, pela quase
totalidade das empresas do setor do vestuário de Jaraguá do Sul e Região, o que
tem provocado, inclusive, o aumento dos pedidos de demissão, na
categoria.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
OS LIMITES DA PÁTRIA
Por Mauro Santayana em seu Blog
(JB) - É difícil saber se a Sra. Marina Silva é uma
pessoa ingênua e de boas intenções, ou se optou, conscientemente, por defender
os interesses das grandes potências que, sob o comando de Washington, exercem o
solerte condomínio econômico do mundo e pretendem o absoluto império político.
Há uma terceira hipótese que, com delicadeza, devemos descartar: desmesurada
ambição de poder, sem as condições concretas para obtê-lo e exercê-lo.
Os admiradores lembram sempre sua origem modesta, o que não quer dizer tudo, mas
não podem, com a mesma convicção, dizer que ela tenha mantido, ao longo da
carreira, o que os marxistas chamam “consciência de classe”. Suas alianças são
estranhas a esse sentimento. Ela se tornou uma figura homenageada pelos grandes
do mundo, mas, sobretudo, do eixo Washington-Londres. Se ela mantivesse a
consciência de classe, desconfiaria desses mimos. Para dizer a verdade, nem mesmo
seria necessária a consciência de classe: bastaria a consciência de pátria.
A Sra. Silva, como alguns outros
brasileiros que se pretendem na esquerda, é uma internacionalista. O meio
ambiente, que querem preservar tais verdes e assimilados, não é o do Brasil
para os brasileiros, mas é o do Brasil para o mundo. Quando a Família Real
Inglesa e os círculos oficiais e financeiros norte-americanos cercam a menina
pobre dos seringais de homenagens, usam de uma astúcia velha dos colonialistas,
e fazem lembrar os franceses na aliança com a Confederação dos Tamoios, e os
holandeses em suas relações com Calabar.
Os tempos mudam, os interesses de
conquista e domínio permanecem, com sua própria dinâmica e solércia. Os limites
intransponíveis da razão política são os da pátria. Todos os devaneios são
admissíveis, menos os que comprometam a soberania nacional. Não são apenas os estrangeiros que adoçam os
sonhos da defensora da natureza. São também brasileiros ricos e conservadores
que, é claro, procuram dividir a cidadania, para que fiéis servidores políticos mantenham sua
posição no Parlamento e nos outros poderes. Há informações de que grande acionista de banco poderoso se
encarregou das despesas do espetáculo de lançamento do partido de dona Marina,
que não quer ser chamado de partido. E não se esqueça de que quem sempre a
financiou é um industrial enriquecido com a biodiversidade amazônica.
Não há coincidências em política. Os mentores
da Sra. Silva querem que seu movimento, como ela anunciou, não seja de direita,
nem de esquerda, e muito menos de centro - que é o equilíbrio pragmático entre
as duas pontas do espectro. É interessante a ilogicidade da proposta. Como é
possível dissociar a ideologia da política e, ainda mais, a ideologia do viver
cotidiano? Esquerda e Direita existem na vida dos homens desde as primeiras
tribos nômades, e são facilmente
identificáveis na postura solidária de alguns e no egoísmo de outros. Sempre
que pensamos em igualdade, somos, menos ou mais, de esquerda; sempre que
pensamos na superioridade, de qualquer natureza, de uns sobre os outros,
estamos na direita. Mais ainda: idéia é
a imagem que construímos previamente na consciência, seja a de um objeto, seja
a de uma conduta social e política.
Não é possível viver sem um lado. A doutrina
da mal chamada Rede (apropriação apressada e ingênua do mundo da internet, que
é um meio neutro) oferece essa aporia: é um partido sem partido, uma realidade
sem geometria, uma idéia sem idéia.
OS FATOS DE ONTEM
20/02/2013
(HD) - Duas
notícias ocuparam os meios de comunicação ontem, e nessa ordem: a visita ao
Brasil da dissidente cubana Yoani Sanchez, e o lançamento, pela presidente da
República, do Programa Brasil sem Miséria.
Comecemos pela que ocupa maior espaço, e
com uma dúvida não só do colunista: quem está pagando pelo tour internacional
da bloguista de Havana, que se diz perseguida em seu país? Não é,
evidentemente, o governo cubano, atacado, todos os dias, pela dissidente. É
estranha a situação da nova musa revolucionária do Caribe. Ela passou dois anos
na Suíça, quando – segundo se sabe – só as pessoas de estrita confiança do
governo cubano podiam deixar o país.
Seria bom que ela revelasse como obteve o passaporte
então. Como sabemos, Cuba é sempre um mistério. E no mistério cubano, é curiosa
a situação dessa senhora que está zanzando pelo mundo, começando pelo Brasil,
para denunciar o regime socialista em declínio na pátria de Maximo Gomez e José
Marti.
Enfim, dentro de alguns dias, a
senhora Sanchez seguirá para a Espanha onde, naturalmente, receberá as devidas
homenagens do ínclito Rajoy e do sábio e magnânimo monarca, Juan Carlos, de
seus filhos e do genro metido em falcatruas.
Cuba não é o melhor nem o pior país do mundo –
mas seus líderes tiveram a coragem de enfrentar o poderoso vizinho e opressor
histórico, com o apoio da maioria de seu povo. E coragem maior ainda de tentar
criar uma sociedade sem ricos e sem pobres. Não conseguiram, e buscam
reorganizar o país e o estado, depois do malogro. Seu projeto frustrou-se, mas
os seus sacrifícios e o seu sonho devem ser respeitados.
A outra notícia é mais importante.
Estamos, no Brasil, buscando construir
sociedade igualitária, mediante os processos políticos e administrativos
de uma república democrática. É ação coerente com o velho programa da
social-democracia européia, de busca da igualdade sem prejuízo da liberdade,
mediante a luta política; da revolução sem armas e sem a ditadura partidária
sobre o Estado. Não inovamos em
nada. O programa de inclusão social mediante subsídios do
Estado aos mais pobres tem, entre outros precedentes, o do New Deal, de
Roosevelt, que salvou a economia norte-americana durante a Grande Depressão e,
em conseqüência, ajudou o mundo, no esforço de guerra, a livrar-se da peste do
nazismo.
Não devemos hostilizar a blogueira
cubana. Ela tem o direito – e, como vemos, facilitado pelo governo de Havana – de
exibir sua popularidade e gozar do aplauso dos setores da direita brasileira
que, pelo que se informa, ajudam a subsidiar sua vida confortável em Cuba e no
estrangeiro.
É melhor tratar de nossos próprios
problemas, que não são poucos, e enfrentar, com prudência e sem arroubos, as
dificuldades econômicas previstas para o tempo próximo.
Brasil Sem Miséria retira 22 milhões da pobreza extrema
A presidenta Dilma Rousseff anunciou nesta
terça-feira (19) a extensão da complementação de renda do Bolsa Família
para alcançar os últimos 2,5 milhões de beneficiários do programa que
ainda permaneciam em situação de extrema pobreza. Com essa medida, o
governo federal alcança a retirada de 22 milhões de brasileiros da
extrema pobreza nos últimos dois anos.
Redação (*)
Data: 19/02/2013
Brasília – A presidenta Dilma Rousseff
anunciou nesta terça-feira (19) a extensão da complementação de renda do
Bolsa Família para alcançar os últimos 2,5 milhões de beneficiários do
programa que ainda permaneciam em situação de extrema pobreza. Com essa
medida, o governo federal alcança a retirada de 22 milhões de
brasileiros da extrema pobreza nos últimos dois anos.
Com a ampliação do Programa Brasil sem Miséria, cerca de 2,5 milhões de pessoas cadastradas no Bolsa Família vão receber complemento para ultrapassar a renda de R$ 70 por pessoa, considerado o patamar que supera a linha da extrema pobreza. A partir de março, quando passarão a receber o benefício, nenhuma família cadastrada estará abaixo dessa linha. A complementação de renda para esses 2,5 milhões de beneficiários do Bolsa Família terá investimento de R$ 773 milhões em 2013.
Segundo a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, o benefício complementar é um primeiro passo para a superação da miséria. “É só um começo, não vamos nos limitar à miséria monetária. Está em curso a verdadeira reforma: colocar o Estado a serviço de quem mais precisa”, destacou Tereza Campello.
A presidenta Dilma Rousseff destacou que "o marco que comemoramos hoje não seu deu por mágica, mas por 10 anos de muito trabalho. Nesse período, construímos a tecnologia social mais avançada do mundo, o Cadastro Único e o Bolsa Família".
Aliado à garantia de renda, o plano também promove ações de inclusão produtiva – como qualificação profissional, assistência técnica e extensão rural e fomento à produção – e de acesso a bens e serviços públicos, em especial nas áreas de saúde, educação, habitação, acesso à água e à energia elétrica.
Apesar de eliminar a pobreza extrema das famílias cadastradas, o MDS estima que aproximadamente 700 mil famílias estejam nessa condição e precisem ser localizadas. Dilma reforçou, nos discursos que fez este ano, a importância da colaboração dos prefeitos para encontrar essas famílias e cadastrá-las no Bolsa Família para que também deixem a situação de miséria até 2014.
Por meio do Cadastro Único, o poder público conhece quem são os brasileiros mais pobres, onde vivem, quais as características de seus domicílios, sua idade, escolaridade etc. Assim, pode incluir essas famílias em programas de transferência de renda e também matricular seus integrantes em cursos profissionalizantes, oferecer-lhes serviços de assistência técnica e extensão rural, dar-lhes acesso a água ou a tarifas reduzidas de energia elétrica, por exemplo. A Tarifa Social de Energia Elétrica, o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Verde são alguns exemplos de ações que utilizam o Cadastro Único como referência para a seleção de beneficiários.
Em 2011 havia 36 milhões de pessoas no Cadastro Único que estariam na miséria caso sobrevivessem apenas com sua renda familiar. Graças ao Bolsa Família, 14 milhões escapavam dessa condição. Mas ainda restavam 22 milhões de brasileiros que, mesmo recebendo os benefícios do programa, continuavam na extrema pobreza. Medidas tomadas no âmbito do Plano Brasil Sem Miséria diminuíram esse total para 19 milhões.
Em 2012, com o Brasil Carinhoso, mais 16,4 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza. Permaneceram os 2,5 milhões de pessoas que agora superam a miséria, 40% delas na faixa dos 16 aos 25 anos. Assim, totalizamos 22 milhões de beneficiários do Bolsa Família que saíram da extrema pobreza desde o começo do Brasil Sem Miséria.
(*) Com informações do MDS e da Agência Brasil
Com a ampliação do Programa Brasil sem Miséria, cerca de 2,5 milhões de pessoas cadastradas no Bolsa Família vão receber complemento para ultrapassar a renda de R$ 70 por pessoa, considerado o patamar que supera a linha da extrema pobreza. A partir de março, quando passarão a receber o benefício, nenhuma família cadastrada estará abaixo dessa linha. A complementação de renda para esses 2,5 milhões de beneficiários do Bolsa Família terá investimento de R$ 773 milhões em 2013.
Segundo a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, o benefício complementar é um primeiro passo para a superação da miséria. “É só um começo, não vamos nos limitar à miséria monetária. Está em curso a verdadeira reforma: colocar o Estado a serviço de quem mais precisa”, destacou Tereza Campello.
A presidenta Dilma Rousseff destacou que "o marco que comemoramos hoje não seu deu por mágica, mas por 10 anos de muito trabalho. Nesse período, construímos a tecnologia social mais avançada do mundo, o Cadastro Único e o Bolsa Família".
Aliado à garantia de renda, o plano também promove ações de inclusão produtiva – como qualificação profissional, assistência técnica e extensão rural e fomento à produção – e de acesso a bens e serviços públicos, em especial nas áreas de saúde, educação, habitação, acesso à água e à energia elétrica.
Apesar de eliminar a pobreza extrema das famílias cadastradas, o MDS estima que aproximadamente 700 mil famílias estejam nessa condição e precisem ser localizadas. Dilma reforçou, nos discursos que fez este ano, a importância da colaboração dos prefeitos para encontrar essas famílias e cadastrá-las no Bolsa Família para que também deixem a situação de miséria até 2014.
Por meio do Cadastro Único, o poder público conhece quem são os brasileiros mais pobres, onde vivem, quais as características de seus domicílios, sua idade, escolaridade etc. Assim, pode incluir essas famílias em programas de transferência de renda e também matricular seus integrantes em cursos profissionalizantes, oferecer-lhes serviços de assistência técnica e extensão rural, dar-lhes acesso a água ou a tarifas reduzidas de energia elétrica, por exemplo. A Tarifa Social de Energia Elétrica, o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Verde são alguns exemplos de ações que utilizam o Cadastro Único como referência para a seleção de beneficiários.
Em 2011 havia 36 milhões de pessoas no Cadastro Único que estariam na miséria caso sobrevivessem apenas com sua renda familiar. Graças ao Bolsa Família, 14 milhões escapavam dessa condição. Mas ainda restavam 22 milhões de brasileiros que, mesmo recebendo os benefícios do programa, continuavam na extrema pobreza. Medidas tomadas no âmbito do Plano Brasil Sem Miséria diminuíram esse total para 19 milhões.
Em 2012, com o Brasil Carinhoso, mais 16,4 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza. Permaneceram os 2,5 milhões de pessoas que agora superam a miséria, 40% delas na faixa dos 16 aos 25 anos. Assim, totalizamos 22 milhões de beneficiários do Bolsa Família que saíram da extrema pobreza desde o começo do Brasil Sem Miséria.
(*) Com informações do MDS e da Agência Brasil
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
O câmbio que nos convém
Valor Econômico, 19/02/2013 - Artigo
19/02/2013 às 00h00 3
Por Antonio Delfim Netto
Criou-se um injustificado pessimismo sobre a política cambial. Talvez valha a pena
tentar introduzir alguma ordem na discussão.
Começando do começo: o Produto Interno Bruto mede o valor adicionado numa
unidade de tempo da produção de bens e serviços finais, de acordo com as definições da
contabilidade nacional. Nas economias abertas, a demanda nacional total possui cinco
componentes: o consumo, o investimento, os gastos do governo e as exportações,
deduzida das importações, também nos termos da contabilidade nacional.
Cada um desses componentes é "determinado" pelo comportamento de algumas
variáveis:
O câmbio livremente flutuante é só exercício de livro-texto
1) o consumo privado (C) é determinado pelo PIB disponível, isto é, deduzido dos
impostos pagos e das transferências do governo para o setor privado;
2) o investimento (I) é fugidio. É influenciado positivamente pelo nível da renda e pelo
nível do uso da capacidade instalada e, negativamente, pela taxa de juros real. Depende
fundamentalmente das "expectativas" do investidor. As decisões de investir são
frequentemente tomadas pelo "espírito animal" dos empresários, mas elas não se
sustentam, se a sua taxa de retorno real não for superior à taxa de juros real;
3) o gasto do governo (G) é discricionário, mas é limitado pelas condições de
sustentabilidade fiscal no longo prazo, o que significa déficits nominais relativamente
pequenos e dívida pública manejável com relação ao nível de renda global;
4) a exportação (X) é influenciada positivamente pelo nível de renda do resto do mundo
e pela taxa de câmbio real (preço relativo dos bens importados em termos dos bens
nacionais); e
5) a importação (M) depende positivamente do nível de produção do país, e
negativamente da taxa de câmbio real. A diferença entre a exportação e a importação é
chamada de exportação líquida ou saldo em conta corrente (NX).
A taxa de câmbio real tem influência na composição dos dispêndios de consumo (entre
bens transacionáveis nacionais e estrangeiros) e dos dispêndios de investimento
(compra de equipamento nacional ou importado). Não há, entretanto, evidência
empírica de que ela influa no nível do consumo.
O mesmo ocorre, aliás, com os investimentos: a taxa de câmbio real determina a escolha
mais econômica para as empresas na comparação entre bens e serviços nacionais e
estrangeiros, mas tem importância negligível na decisão do nível do investimento
global.
2
Obviamente, o equilíbrio do mercado exige que o nível da produção interna (oferta) seja
igual à demanda total interna e externa, o que depende do próprio nível de produção,
das decisões discricionárias de tributação líquida de transferências (T) dos gastos do
governo (G) e de duas variáveis, que são endogenamente determinadas quando se
introduz o mercado financeiro: a taxa real de câmbio e a taxa de juros real.
Duas observações são necessárias. A primeira é que as decisões discricionárias - o nível
de investimentos, que depende da taxa de juro real, e a exportação líquida, isto é, o
saldo em conta corrente, que depende da taxa de câmbio real - estão ligadas por uma
identidade da contabilidade nacional: investimento = poupança privada + poupança do
governo - exportação líquida.
Um saldo positivo na conta corrente mostra que se exporta poupança; um saldo
negativo, que se está importando poupança. Como o investimento depende da taxa de
juro real, e o saldo em conta corrente da taxa de câmbio real, a identidade cria uma
relação entre elas.
A identidade é apenas consequência da coerência imposta pela contabilidade nacional.
Não tem nada a ver com qualquer relação de causalidade. Ela sempre se realiza pela
manobra das variáveis endógenas: as taxas de câmbio e de juro reais.
Ela não autoriza, portanto, a afirmação "que um saldo negativo em conta corrente
produzido pela valorização do câmbio real aumenta, necessariamente, o nível de
investimento", porque é contingente ao comportamento da poupança privada nacional
(renda menos consumo privado) e ao comportamento discricionário das contas públicas
(tributação líquida menos gastos do governo).
A segunda observação é que existe ampla sustentação empírica sugerindo que em
situações normais de pressão e temperatura, isto é, quando se verifica a condição
chamada de Marshall-Lerner entre as elasticidades da exportação e importação com
relação à taxa de câmbio real, sua desvalorização tende a reduzir, depois de algum
tempo, o déficit em conta corrente (a famosa "curva J", claramente visível em alguns
momentos no Brasil).
Uma desvalorização cambial tende a influir tanto na poupança como no investimento
privado, pelo aumento da produção causado pela expansão das exportações e a redução
das importações. O aumento do PIB pode, por sua vez, aumentar a poupança privada e
exercer um papel importante na poupança do governo, se o aumento da receita for
acompanhado por um controle da despesa pública.
Isso sugere que, provavelmente, o ajuste para satisfazer a identidade da contabilidade
nacional em resposta à redução do saldo em conta corrente (produzido pela
desvalorização da taxa de câmbio real) vai fazer-se por um aumento do investimento,
motivado pelo ajuste da taxa de juro real.
Não tenhamos ilusões: o regime de câmbio livremente flutuante é apenas exercício de
livro-texto, como mostraram na semana passada Draghi, François Hollande e Shinzo
Abe! O Brasil precisa de uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada, pouco volátil
e imune ao excesso de ativismo que perturba as expectativas dos agentes. Ela não é
tudo, mas é um coadjuvante essencial da atual política econômica que estimula o
desenvolvimento.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda,
Agricultura e Planejamento.
19/02/2013 às 00h00 3
Por Antonio Delfim Netto
Criou-se um injustificado pessimismo sobre a política cambial. Talvez valha a pena
tentar introduzir alguma ordem na discussão.
Começando do começo: o Produto Interno Bruto mede o valor adicionado numa
unidade de tempo da produção de bens e serviços finais, de acordo com as definições da
contabilidade nacional. Nas economias abertas, a demanda nacional total possui cinco
componentes: o consumo, o investimento, os gastos do governo e as exportações,
deduzida das importações, também nos termos da contabilidade nacional.
Cada um desses componentes é "determinado" pelo comportamento de algumas
variáveis:
O câmbio livremente flutuante é só exercício de livro-texto
1) o consumo privado (C) é determinado pelo PIB disponível, isto é, deduzido dos
impostos pagos e das transferências do governo para o setor privado;
2) o investimento (I) é fugidio. É influenciado positivamente pelo nível da renda e pelo
nível do uso da capacidade instalada e, negativamente, pela taxa de juros real. Depende
fundamentalmente das "expectativas" do investidor. As decisões de investir são
frequentemente tomadas pelo "espírito animal" dos empresários, mas elas não se
sustentam, se a sua taxa de retorno real não for superior à taxa de juros real;
3) o gasto do governo (G) é discricionário, mas é limitado pelas condições de
sustentabilidade fiscal no longo prazo, o que significa déficits nominais relativamente
pequenos e dívida pública manejável com relação ao nível de renda global;
4) a exportação (X) é influenciada positivamente pelo nível de renda do resto do mundo
e pela taxa de câmbio real (preço relativo dos bens importados em termos dos bens
nacionais); e
5) a importação (M) depende positivamente do nível de produção do país, e
negativamente da taxa de câmbio real. A diferença entre a exportação e a importação é
chamada de exportação líquida ou saldo em conta corrente (NX).
A taxa de câmbio real tem influência na composição dos dispêndios de consumo (entre
bens transacionáveis nacionais e estrangeiros) e dos dispêndios de investimento
(compra de equipamento nacional ou importado). Não há, entretanto, evidência
empírica de que ela influa no nível do consumo.
O mesmo ocorre, aliás, com os investimentos: a taxa de câmbio real determina a escolha
mais econômica para as empresas na comparação entre bens e serviços nacionais e
estrangeiros, mas tem importância negligível na decisão do nível do investimento
global.
2
Obviamente, o equilíbrio do mercado exige que o nível da produção interna (oferta) seja
igual à demanda total interna e externa, o que depende do próprio nível de produção,
das decisões discricionárias de tributação líquida de transferências (T) dos gastos do
governo (G) e de duas variáveis, que são endogenamente determinadas quando se
introduz o mercado financeiro: a taxa real de câmbio e a taxa de juros real.
Duas observações são necessárias. A primeira é que as decisões discricionárias - o nível
de investimentos, que depende da taxa de juro real, e a exportação líquida, isto é, o
saldo em conta corrente, que depende da taxa de câmbio real - estão ligadas por uma
identidade da contabilidade nacional: investimento = poupança privada + poupança do
governo - exportação líquida.
Um saldo positivo na conta corrente mostra que se exporta poupança; um saldo
negativo, que se está importando poupança. Como o investimento depende da taxa de
juro real, e o saldo em conta corrente da taxa de câmbio real, a identidade cria uma
relação entre elas.
A identidade é apenas consequência da coerência imposta pela contabilidade nacional.
Não tem nada a ver com qualquer relação de causalidade. Ela sempre se realiza pela
manobra das variáveis endógenas: as taxas de câmbio e de juro reais.
Ela não autoriza, portanto, a afirmação "que um saldo negativo em conta corrente
produzido pela valorização do câmbio real aumenta, necessariamente, o nível de
investimento", porque é contingente ao comportamento da poupança privada nacional
(renda menos consumo privado) e ao comportamento discricionário das contas públicas
(tributação líquida menos gastos do governo).
A segunda observação é que existe ampla sustentação empírica sugerindo que em
situações normais de pressão e temperatura, isto é, quando se verifica a condição
chamada de Marshall-Lerner entre as elasticidades da exportação e importação com
relação à taxa de câmbio real, sua desvalorização tende a reduzir, depois de algum
tempo, o déficit em conta corrente (a famosa "curva J", claramente visível em alguns
momentos no Brasil).
Uma desvalorização cambial tende a influir tanto na poupança como no investimento
privado, pelo aumento da produção causado pela expansão das exportações e a redução
das importações. O aumento do PIB pode, por sua vez, aumentar a poupança privada e
exercer um papel importante na poupança do governo, se o aumento da receita for
acompanhado por um controle da despesa pública.
Isso sugere que, provavelmente, o ajuste para satisfazer a identidade da contabilidade
nacional em resposta à redução do saldo em conta corrente (produzido pela
desvalorização da taxa de câmbio real) vai fazer-se por um aumento do investimento,
motivado pelo ajuste da taxa de juro real.
Não tenhamos ilusões: o regime de câmbio livremente flutuante é apenas exercício de
livro-texto, como mostraram na semana passada Draghi, François Hollande e Shinzo
Abe! O Brasil precisa de uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada, pouco volátil
e imune ao excesso de ativismo que perturba as expectativas dos agentes. Ela não é
tudo, mas é um coadjuvante essencial da atual política econômica que estimula o
desenvolvimento.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda,
Agricultura e Planejamento.
Assinar:
Postagens (Atom)

