sábado, 23 de fevereiro de 2013

Brasil tem déficit em conta corrente recorde em janeiro


Por Mônica Izaguirre e Murilo Rodrigues Alves | Valor

 As transações correntes com o exterior geraram para o Brasil déficit recorde de US$ 11,371 bilhões no mês passado. Resultado da diferença entre despesas e receitas internacionais com comércio, serviços, transferências de renda e transferências unilaterais, o número foi bem pior que o de igual mês do ano passado (déficit de US$ 7,050 bilhões). Os números foram divulgados nesta sexta-feira pelo Banco Central (BC).
A balança comercial contribuiu expressivamente para que o Brasil registrasse um déficit recorde. Sozinha, a conta de comércio gerou saldo negativo de US$ 4,036 bilhões no mês, com as importações alcançando US$ 20,003 bilhões e as importações foram de US$ 15,967 bilhões.
Além da balança comercial, o chefe do departamento econômico da BC, Tulio Maciel, citou o volume maior de remessas de lucros e dividendos para explicar o déficit recorde em conta corrente. O Brasil remeteu liquidamente ao exterior em janeiro US$ 2,068 bilhões a título de lucros e dividendos. O valor é mais que o dobro do registrado em igual mês do ano passado (US$ 981 milhões), embora bem inferior aos US$ 4,383 bilhões vistos em dezembro.
Na conta de serviços, o economista do BC ressaltou que mais uma vez os brasileiros continuam batendo recorde de gastos no exterior. Os gastos internacionais do país com serviços, já descontadas receitas correspondentes, atingiram US$ 3,680 bilhões, dos quais US$ 1,598 bilhão relativos a despesas líquidas com viagens ao exterior. Em termos brutos, isto é, sem abater os recursos que viajantes estrangeiros deixaram no território nacional, tais despesas somaram US$ 2,293 bilhões.
“A despeito do câmbio, o brasileiro continuou viajando”, afirmou Macial. Para ele, os fatores que explicam esses gastos são o aumento da renda nos últimos anos e os preços “atrativos” em termos de serviços dos países que estão fragilizados pela crise internacional.
Maciel também destacou que o item aluguel de equipamentos está influenciando o déficit na conta de serviços, que se mantém constante, segundo ele em torno de US$ 3,6 bilhões. No mês passado, o déficit em aluguel de equipamentos foi de US$ 1,565 bilhão. “Esse serviço está associado aos investimentos na área de petróleo, que precisa arrendar máquinas e equipamentos”, afirmou.
Déficit recorde
No acumulado de 12 meses, o déficit encerrou janeiro em US$ 58,568 bilhões, o equivalente 2,58% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado pelo BC para o mesmo período.
O resultado da chamada conta corrente do balanço de pagamentos externos do país no primeiro mês deste ano também ficou mais deficitário na comparação com dezembro de 2012, quando os gastos superaram as receitas em US$ 8,413 bilhões (recorde até então).
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A autoridade monetária projetava para janeiro déficit corrente de US$ 8,3 bilhões, mais baixo, portanto, que o efetivamente apurado.
Para o ano inteiro de 2013, o BC projeta saldo negativo de US$ 65 bilhões (2,72% do PIB).
Balanço de pagamentos
Apesar do déficit recorde do país em suas transações com o exterior, o ingresso líquido de capitais financiou com alguma sobra essa conta em janeiro. Dessa forma, o balanço de pagamentos externos do país foi superavitário em US$ 1,376 bilhão no mês.
O resultado representa uma retomada dos fluxos líquidos de empréstimos, financiamentos e investimentos internacionais em direção ao Brasil.
O BC espera que o ingresso de investimentos estrangeiros diretos (IED) em fevereiro seja de US$ 3,5 bilhões, segundo Tulio Maciel. Até o dia 20, a entrada líquida já é de US$ 2,2 bilhões.
Em janeiro, esses ingressos foram de US$ 3,703 bilhões, montante inferior à projeção da autoridade monetária de US$ 4,5 bilhões. Maciel disse que é comum no primeiro trimestre um certo arrefecimento desses fluxos, mas ressaltou que eles continuam “muito expressivos”.

PSICOLOGIA DE BARBEARIA


Frei Betto



      Ignoro se alguém,  psicólogo ou cientista social, já se deu ao trabalho de investigar a  psicologia dos salões de barbearia. Da infância à adolescência, frequentei o  salão do Vicente, no bairro Savassi, em Belo Horizonte.  
      Estará vivo o  Vicente? Figura! Alto, atlético, moreno, exalava sempre sorrisos e paciência.  Estendia uma tábua entre os braços da cadeira (forrada de couro verdadeiro!),  de modo a aproximar a cabeça da criança de sua ágil tesoura.  
      Meus irmãos mais  novos deixaram o cabelo aos cuidados do Pedrinho, na rua Major Lopes (a dois  quarteirões da casa da Dilminha, hoje presidente). Vicente fincou pé no mesmo  salão da rua Pernambuco. Pedrinho, empreendedor, de fio em fio criou uma teia  de barbearias, com cadeiras temáticas para os meninos se sentirem pilotando um  carro de Fórmula 1 ou um batmóvel.
      Conversa de  barbearia de adultos é sempre amena. Todo barbeiro é um conciliador nato. Voz  pausada, enquanto faz correr o pente, dançar a tesoura ou escorregar a  navalha, vai tirando do cliente comentários e confidências.  
      Vai chover, diz o  da barba. É, pelo jeito vem água aí, murmura o profissional com o pincel de  barba à mão. Em seguida, senta o sitiante para aparar as costeletas: Já não há  quem aguente essa seca. Pelo jeito, tão cedo não cai um pingo d’água. Com  navalha afiada o barbeiro reduz dois centímetros da costeleta, e concorda: Lá  onde moro logo logo vai faltar água até pra beber.
      Não é nada fácil  descobrir duas coisas em barbeiro: time para o qual torce e preferência  partidária. Tomou assento o cabeludo, agasalhado pelo camisão impecavelmente  branco, diga o que disser o profissional jamais o contestará.  
      Nunca vi  quebrarem o pau numa barbearia por discordância política. Felizmente,  considerando a profusão de navalhas e tesouras em volta! Futebol é a mesma  coisa: o barbeiro quase sempre torce pelo time do cliente. Você tem razão, o  Corinthians se precipitou ao comprar o Pato. É, doutor, nós santistas  ficaremos na pior no dia em que venderem o Neymar!
      Um comentário  aqui, uma observação ali, e o papo segue enquanto a chuva de fios depenados  escurece o camisão.
      Há outra  dimensão, esta sim, prato cheio para os psicólogos. É a secreta motivação que  leva muitos clientes à estofada cadeira móvel. Tive um vizinho que todas as  manhãs entregava o rosto no salão da esquina. Perguntei-lhe um dia se a  preguiça o impedia de cuidar da própria barba. Bem casado, pai de uma trinca  de filhos, não escamoteou: Vou ao salão porque me faz bem o carinho do  barbeiro. E não me leve a mal, frisou. Aquelas mãos suaves, a nuvem de creme  suscitada pela dança do pincel, o perfume, tudo me faz lembrar o tempo de  menino, quando meu avô me punha no colo e, com as costas das mãos, me  acarinhava o rosto. Que mulher tem paciência de uma coisa  dessa?
       Outro amigo, careca a reluzir, apenas uns fiozinhos estendidos entre as  orelhas a na nuca, me confidenciou quando indaguei por que frequentava o salão  toda semana: Gosto de sentar na cadeira, sentir-me abraçado pelo camisão  branco, percorrer os olhos em revistas antigas, escutar o leve ruído metálico  da tesoura surpreendendo um fio aqui, outro ali, a extremidade do couro  cabeludo acertada pela navalha e, por fim, o espanador de pelos e o borrifar  da água de colônia...
      Quem tem grana ou  prestígio se dá o luxo de convocar barbeiro a domicílio. Lembro de um deputado  que, sentado à varanda, entregue ao corte, revestido de tantas toalhas que  mais parecia uma noiva gorda, insistia, a todo momento, em interromper a dança  do pente e da tesoura para falar ao telefone, cujo fio se estendia desde a  sala de visitas.
      Um dia, irritado,  o barbeiro, sem querer, feriu de leve sua excelência e foi despedido no ato.  No mês seguinte, foi chamado à casa do parlamentar. Relutou. O cliente veio ao  telefone, pediu desculpas e dobrou o valor a pagar.
      Doutor, eu volto,  disse o profissional, mas com uma condição: nada de telefone. O deputado  consentiu. Em meio ao trabalho, o barbeiro perguntou por que havia sido  chamado de volta. Ora, admitiu o político, tenho uma imagem a preservar e  ninguém deixa o meu cabelo tão de acordo comigo mesmo como  você.
      É  isso: muitos clientes mantêm fidelidade capilar a um barbeiro, como um cão a  seu dono. Tudo porque barba e cabelo são as únicas coisas que, com frequência,  mudam onde reside o centro de nossa identidade: no rosto. Uma brusca mudança  num ou noutro causa sempre estranhamento.


Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do  Ouro” (Rocco), entre outros livros.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Trabalhadores da LMG paralisam atividades

Enviado pelo jornalista Sérgio Homrich

No início da tarde de hoje, os mais de 150 trabalhadores retornaram ao trabalho, mantendo o estado de greve
Os trabalhadores da LMG Roupas Ltda, em sua maioria costureiras, paralisaram parcialmente as atividades na empresa do setor do Vestuário, na manhã de hoje (22), em virtude dos baixos salários e, especialmente, devido à prática contumaz de assédio moral praticado pelas chefias e prepostos. O movimento começou dentro da própria empresa, contando com o apoio e orientação do Sindicato dos Trabalhadores do Vestuário e sua assessoria jurídica. No início da tarde, representantes da empresa receberam uma comissão formada por cinco trabalhadores da LMG, mais o presidente do STIVestuário, Gildo Antônio Alves e os assessores jurídicos, advogados Cláudio e Cleverson Selhorst, onde ficou acordado o compromisso de mudar as relações de trabalho dentro da empresa. Os mais de 150 trabalhadores decidiram, então, retornar ao trabalho, mantendo o Estado de Greve, até que a situação se resolva. "Os trabalhadores deram um voto de confiança à empresa", disse Gildo Alves, logo após a assembleia realizada na frente do portão principal da LMG, às margens da BR-280.
Pela manhã, a adesão dos trabalhadores à paralisação foi tomando corpo. Cada trabalhador que aderia ao movimento era aplaudido pelos demais companheiros. Antes do meio-dia já eram mais de 150 trabalhadores parados defronte ao portão de acesso à empresa e todos assinaram a lista de presenças, por solicitação do Sindicato.  Os trabalhadores reclamam, entre outros motivos, da "prática de baixos salários; do tratamento com rigor excessivo, principalmente pelas chefias dos setores de costura, corte e manutenção; da exigência de produção excessiva; restrição e controle de uso de sanitários; prática de assédio moral; exigência de realização de horas extras, sob pena de represália; aplicação de advertência e suspensão sem motivo específico; falta de exaustão de ar no setor de costura; obrigação da aquisição por parte do empregado de EPIs, como guarda-pó, calça e sapatão; exigência de entrega de atestados médicos antes do primeiro dia de retorno ao trabalho; falta de atendimento médico no ambulatório e não aceitação de atestados médicos".
As reclamações contra o assédio moral predominam. "Não valorizam a gente, quanto mais você faz, mais eles querem", reclamou a costureira F.A.. "O salário é pago certo, temos convênio, plano de saúde, mas o relacionamento humano é difícil, aqui a gente trabalha sob ameaça constante", criticou a costureira A.P., 7 anos de trabalho na LMG. "Humilham, fazem a pessoa se sentir um lixo", emenda a costureira M.C.F, quatro anos de empresa. O presidente do STIVestuário advertiu que "o tratamento desumano dentro da empresa tem que acabar" e adiantou que "O Sindicato estará ao lado dos trabalhadores até que essa situação se resolva". Gildo Alves reclamou ainda dos baixos salários pagos pela empresa e, regra geral, pela quase totalidade das empresas do setor do vestuário de Jaraguá do Sul e Região, o que tem provocado, inclusive, o aumento dos pedidos de demissão, na categoria.

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

OS LIMITES DA PÁTRIA




Por Mauro Santayana em seu Blog





         (JB) -           É difícil saber se a Sra. Marina Silva é uma pessoa ingênua e de boas intenções, ou se optou, conscientemente, por defender os interesses das grandes potências que, sob o comando de Washington, exercem o solerte condomínio econômico do mundo e pretendem o absoluto império político. Há uma terceira hipótese que, com delicadeza, devemos descartar: desmesurada ambição de poder, sem as condições concretas para obtê-lo e exercê-lo.
                Os admiradores lembram sempre sua  origem modesta, o que não quer dizer tudo, mas não podem, com a mesma convicção, dizer que ela tenha mantido, ao longo da carreira, o que os marxistas chamam “consciência de classe”. Suas alianças são estranhas a esse sentimento. Ela se tornou uma figura homenageada pelos grandes do mundo, mas, sobretudo, do eixo Washington-Londres. Se ela mantivesse a consciência de classe, desconfiaria desses mimos. Para dizer a verdade, nem mesmo seria necessária a consciência de classe: bastaria a consciência de pátria.
               A Sra. Silva, como alguns outros brasileiros que se pretendem na esquerda, é uma internacionalista. O meio ambiente, que querem preservar tais verdes e assimilados, não é o do Brasil para os brasileiros, mas é o do Brasil para o mundo. Quando a Família Real Inglesa e os círculos oficiais e financeiros norte-americanos cercam a menina pobre dos seringais de homenagens, usam de uma astúcia velha dos colonialistas, e fazem lembrar os franceses na aliança com a Confederação dos Tamoios, e os holandeses em suas relações com Calabar.
            Os tempos mudam, os interesses de conquista e domínio permanecem, com sua própria dinâmica e solércia. Os limites intransponíveis da razão política são os da pátria. Todos os devaneios são admissíveis, menos os que comprometam a soberania nacional.  Não são apenas os estrangeiros que adoçam os sonhos da defensora da natureza. São também brasileiros ricos e conservadores que, é claro, procuram dividir a cidadania, para que  fiéis servidores políticos mantenham sua posição no Parlamento e nos outros poderes. Há informações de que  grande acionista de banco poderoso se encarregou das despesas do espetáculo de lançamento do partido de dona Marina, que não quer ser chamado de partido. E não se esqueça de que quem sempre a financiou é um industrial enriquecido com a biodiversidade amazônica.
             Não há coincidências em política. Os mentores da Sra. Silva querem que seu movimento, como ela anunciou, não seja de direita, nem de esquerda, e muito menos de centro - que é o equilíbrio pragmático entre as duas pontas do espectro. É interessante a ilogicidade da proposta. Como é possível dissociar a ideologia da política e, ainda mais, a ideologia do viver cotidiano? Esquerda e Direita existem na vida dos homens desde as primeiras tribos  nômades, e são facilmente identificáveis na postura solidária de alguns e no egoísmo de outros. Sempre que pensamos em igualdade, somos, menos ou mais, de esquerda; sempre que pensamos na superioridade, de qualquer natureza, de uns sobre os outros, estamos na direita.  Mais ainda: idéia é a imagem que construímos previamente na consciência, seja a de um objeto, seja a de uma conduta social e política.
           Não é possível viver sem um lado. A doutrina da mal chamada Rede (apropriação apressada e ingênua do mundo da internet, que é um meio neutro) oferece essa aporia: é um partido sem partido, uma realidade sem geometria, uma idéia sem idéia.

OS FATOS DE ONTEM

20/02/2013


             (HD) - Duas notícias ocuparam os meios de comunicação ontem, e nessa ordem: a visita ao Brasil da dissidente cubana Yoani Sanchez, e o lançamento, pela presidente da República, do Programa Brasil sem Miséria.
             Comecemos pela que ocupa maior espaço, e com uma dúvida não só do colunista: quem está pagando pelo tour internacional da bloguista de Havana, que se diz perseguida em seu país? Não é, evidentemente, o governo cubano, atacado, todos os dias, pela dissidente. É estranha a situação da nova musa revolucionária do Caribe. Ela passou dois anos na Suíça, quando – segundo se sabe – só as pessoas de estrita confiança do governo cubano podiam deixar o país.
           Seria bom que ela revelasse como obteve o passaporte então. Como sabemos, Cuba é sempre um mistério. E no mistério cubano, é curiosa a situação dessa senhora que está zanzando pelo mundo, começando pelo Brasil, para denunciar o regime socialista em declínio na pátria de Maximo Gomez e José Marti.
           Enfim, dentro de alguns dias, a senhora Sanchez seguirá para a Espanha onde, naturalmente, receberá as devidas homenagens do ínclito Rajoy e do sábio e magnânimo monarca, Juan Carlos, de seus filhos e do genro metido em falcatruas.
           Cuba não é o melhor nem o pior país do mundo – mas seus líderes tiveram a coragem de enfrentar o poderoso vizinho e opressor histórico, com o apoio da maioria de seu povo. E coragem maior ainda de tentar criar uma sociedade sem ricos e sem pobres. Não conseguiram, e buscam reorganizar o país e o estado, depois do malogro. Seu projeto frustrou-se, mas os seus sacrifícios e o seu sonho devem ser respeitados.
           A outra notícia é mais importante. Estamos, no Brasil, buscando construir  sociedade igualitária, mediante os processos políticos e administrativos de uma república democrática. É ação coerente com o velho programa da social-democracia européia, de busca da igualdade sem prejuízo da liberdade, mediante a luta política; da revolução sem armas e sem a ditadura partidária sobre o Estado. Não inovamos em nada. O programa de inclusão social mediante subsídios do Estado aos mais pobres tem, entre outros precedentes, o do New Deal, de Roosevelt, que salvou a economia norte-americana durante a Grande Depressão e, em conseqüência, ajudou o mundo, no esforço de guerra, a livrar-se da peste do nazismo.
             Não devemos hostilizar a blogueira cubana. Ela tem o direito – e, como vemos, facilitado pelo governo de Havana – de exibir sua popularidade e gozar do aplauso dos setores da direita brasileira que, pelo que se informa, ajudam a subsidiar sua vida confortável em Cuba e no estrangeiro.
             É melhor tratar de nossos próprios problemas, que não são poucos, e enfrentar, com prudência e sem arroubos, as dificuldades econômicas previstas para o tempo próximo.

Brasil Sem Miséria retira 22 milhões da pobreza extrema



A presidenta Dilma Rousseff anunciou nesta terça-feira (19) a extensão da complementação de renda do Bolsa Família para alcançar os últimos 2,5 milhões de beneficiários do programa que ainda permaneciam em situação de extrema pobreza. Com essa medida, o governo federal alcança a retirada de 22 milhões de brasileiros da extrema pobreza nos últimos dois anos. Data: 19/02/2013
Brasília – A presidenta Dilma Rousseff anunciou nesta terça-feira (19) a extensão da complementação de renda do Bolsa Família para alcançar os últimos 2,5 milhões de beneficiários do programa que ainda permaneciam em situação de extrema pobreza. Com essa medida, o governo federal alcança a retirada de 22 milhões de brasileiros da extrema pobreza nos últimos dois anos.

Com a ampliação do Programa Brasil sem Miséria, cerca de 2,5 milhões de pessoas cadastradas no Bolsa Família vão receber complemento para ultrapassar a renda de R$ 70 por pessoa, considerado o patamar que supera a linha da extrema pobreza. A partir de março, quando passarão a receber o benefício, nenhuma família cadastrada estará abaixo dessa linha. A complementação de renda para esses 2,5 milhões de beneficiários do Bolsa Família terá investimento de R$ 773 milhões em 2013.

Segundo a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, o benefício complementar é um primeiro passo para a superação da miséria. “É só um começo, não vamos nos limitar à miséria monetária. Está em curso a verdadeira reforma: colocar o Estado a serviço de quem mais precisa”, destacou Tereza Campello.

A presidenta Dilma Rousseff destacou que "o marco que comemoramos hoje não seu deu por mágica, mas por 10 anos de muito trabalho. Nesse período, construímos a tecnologia social mais avançada do mundo, o Cadastro Único e o Bolsa Família".

Aliado à garantia de renda, o plano também promove ações de inclusão produtiva – como qualificação profissional, assistência técnica e extensão rural e fomento à produção – e de acesso a bens e serviços públicos, em especial nas áreas de saúde, educação, habitação, acesso à água e à energia elétrica.

Apesar de eliminar a pobreza extrema das famílias cadastradas, o MDS estima que aproximadamente 700 mil famílias estejam nessa condição e precisem ser localizadas. Dilma reforçou, nos discursos que fez este ano, a importância da colaboração dos prefeitos para encontrar essas famílias e cadastrá-las no Bolsa Família para que também deixem a situação de miséria até 2014.

Por meio do Cadastro Único, o poder público conhece quem são os brasileiros mais pobres, onde vivem, quais as características de seus domicílios, sua idade, escolaridade etc. Assim, pode incluir essas famílias em programas de transferência de renda e também matricular seus integrantes em cursos profissionalizantes, oferecer-lhes serviços de assistência técnica e extensão rural, dar-lhes acesso a água ou a tarifas reduzidas de energia elétrica, por exemplo. A Tarifa Social de Energia Elétrica, o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Verde são alguns exemplos de ações que utilizam o Cadastro Único como referência para a seleção de beneficiários.

Em 2011 havia 36 milhões de pessoas no Cadastro Único que estariam na miséria caso sobrevivessem apenas com sua renda familiar. Graças ao Bolsa Família, 14 milhões escapavam dessa condição. Mas ainda restavam 22 milhões de brasileiros que, mesmo recebendo os benefícios do programa, continuavam na extrema pobreza. Medidas tomadas no âmbito do Plano Brasil Sem Miséria diminuíram esse total para 19 milhões.

Em 2012, com o Brasil Carinhoso, mais 16,4 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza. Permaneceram os 2,5 milhões de pessoas que agora superam a miséria, 40% delas na faixa dos 16 aos 25 anos. Assim, totalizamos 22 milhões de beneficiários do Bolsa Família que saíram da extrema pobreza desde o começo do Brasil Sem Miséria.

(*) Com informações do MDS e da Agência Brasil

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O câmbio que nos convém

Valor Econômico, 19/02/2013 - Artigo
19/02/2013 às 00h00 3
Por Antonio Delfim Netto
Criou-se um injustificado pessimismo sobre a política cambial. Talvez valha a pena
tentar introduzir alguma ordem na discussão.
Começando do começo: o Produto Interno Bruto mede o valor adicionado numa
unidade de tempo da produção de bens e serviços finais, de acordo com as definições da
contabilidade nacional. Nas economias abertas, a demanda nacional total possui cinco
componentes: o consumo, o investimento, os gastos do governo e as exportações,
deduzida das importações, também nos termos da contabilidade nacional.
Cada um desses componentes é "determinado" pelo comportamento de algumas
variáveis:
O câmbio livremente flutuante é só exercício de livro-texto
1) o consumo privado (C) é determinado pelo PIB disponível, isto é, deduzido dos
impostos pagos e das transferências do governo para o setor privado;
2) o investimento (I) é fugidio. É influenciado positivamente pelo nível da renda e pelo
nível do uso da capacidade instalada e, negativamente, pela taxa de juros real. Depende
fundamentalmente das "expectativas" do investidor. As decisões de investir são
frequentemente tomadas pelo "espírito animal" dos empresários, mas elas não se
sustentam, se a sua taxa de retorno real não for superior à taxa de juros real;
3) o gasto do governo (G) é discricionário, mas é limitado pelas condições de
sustentabilidade fiscal no longo prazo, o que significa déficits nominais relativamente
pequenos e dívida pública manejável com relação ao nível de renda global;
4) a exportação (X) é influenciada positivamente pelo nível de renda do resto do mundo
e pela taxa de câmbio real (preço relativo dos bens importados em termos dos bens
nacionais); e
5) a importação (M) depende positivamente do nível de produção do país, e
negativamente da taxa de câmbio real. A diferença entre a exportação e a importação é
chamada de exportação líquida ou saldo em conta corrente (NX).
A taxa de câmbio real tem influência na composição dos dispêndios de consumo (entre
bens transacionáveis nacionais e estrangeiros) e dos dispêndios de investimento
(compra de equipamento nacional ou importado). Não há, entretanto, evidência
empírica de que ela influa no nível do consumo.
O mesmo ocorre, aliás, com os investimentos: a taxa de câmbio real determina a escolha
mais econômica para as empresas na comparação entre bens e serviços nacionais e
estrangeiros, mas tem importância negligível na decisão do nível do investimento
global.
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Obviamente, o equilíbrio do mercado exige que o nível da produção interna (oferta) seja
igual à demanda total interna e externa, o que depende do próprio nível de produção,
das decisões discricionárias de tributação líquida de transferências (T) dos gastos do
governo (G) e de duas variáveis, que são endogenamente determinadas quando se
introduz o mercado financeiro: a taxa real de câmbio e a taxa de juros real.
Duas observações são necessárias. A primeira é que as decisões discricionárias - o nível
de investimentos, que depende da taxa de juro real, e a exportação líquida, isto é, o
saldo em conta corrente, que depende da taxa de câmbio real - estão ligadas por uma
identidade da contabilidade nacional: investimento = poupança privada + poupança do
governo - exportação líquida.
Um saldo positivo na conta corrente mostra que se exporta poupança; um saldo
negativo, que se está importando poupança. Como o investimento depende da taxa de
juro real, e o saldo em conta corrente da taxa de câmbio real, a identidade cria uma
relação entre elas.
A identidade é apenas consequência da coerência imposta pela contabilidade nacional.
Não tem nada a ver com qualquer relação de causalidade. Ela sempre se realiza pela
manobra das variáveis endógenas: as taxas de câmbio e de juro reais.
Ela não autoriza, portanto, a afirmação "que um saldo negativo em conta corrente
produzido pela valorização do câmbio real aumenta, necessariamente, o nível de
investimento", porque é contingente ao comportamento da poupança privada nacional
(renda menos consumo privado) e ao comportamento discricionário das contas públicas
(tributação líquida menos gastos do governo).
A segunda observação é que existe ampla sustentação empírica sugerindo que em
situações normais de pressão e temperatura, isto é, quando se verifica a condição
chamada de Marshall-Lerner entre as elasticidades da exportação e importação com
relação à taxa de câmbio real, sua desvalorização tende a reduzir, depois de algum
tempo, o déficit em conta corrente (a famosa "curva J", claramente visível em alguns
momentos no Brasil).
Uma desvalorização cambial tende a influir tanto na poupança como no investimento
privado, pelo aumento da produção causado pela expansão das exportações e a redução
das importações. O aumento do PIB pode, por sua vez, aumentar a poupança privada e
exercer um papel importante na poupança do governo, se o aumento da receita for
acompanhado por um controle da despesa pública.
Isso sugere que, provavelmente, o ajuste para satisfazer a identidade da contabilidade
nacional em resposta à redução do saldo em conta corrente (produzido pela
desvalorização da taxa de câmbio real) vai fazer-se por um aumento do investimento,
motivado pelo ajuste da taxa de juro real.
Não tenhamos ilusões: o regime de câmbio livremente flutuante é apenas exercício de
livro-texto, como mostraram na semana passada Draghi, François Hollande e Shinzo
Abe! O Brasil precisa de uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada, pouco volátil
e imune ao excesso de ativismo que perturba as expectativas dos agentes. Ela não é
tudo, mas é um coadjuvante essencial da atual política econômica que estimula o
desenvolvimento.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda,
Agricultura e Planejamento.