domingo, 27 de janeiro de 2013

À flor da pele


Retirado do Blog de Luís Nassif

Por Vaas
"A chance dos três irmãos terem nascido albinos na mesma família era de uma em um milhão,  mas aconteceu. Kauan, 5 anos, Ruth Caroline, 10, e Esthefany Caroline, 8, nasceram brancos em uma família de negros na cidade de Olinda, em Pernambuco. A mãe, Rosemere Fernandes de Andrade, 27, é negra, o o pai é moreno. Pobres, eles moram em uma favela chamada V-9 e, sem recursos para comprar protetores solares especiais, vivem correndo ap ara se esconderem do sol. O jeito é brincar dentro da casa. A dura rotina destas crianças foi registrada pelas lentes do fotojornalista pernambucano Alexandre Severo. O projeto, intitulado À Flor da Pele, nasceu de uma reportagem feita para o Jornal do Commercio, com texto do jornalista João Valadares. O trabalho, realizado em agosto de 2009, foi mundialmente reconhecido."
Mais sobre ele na Revista Foto+Grafia, com o link abaixo. http://www.alexandresevero.com.br/files/gimgs/4_aflordapele002.jpg
 
        

A carta de Karl Marx para Abraham Lincoln


Por Diogo Costa
A CARTA DE KARL MARX PARA ABRAHAM LINCOLN - Muito tem-se falado atualmente sobre o filme "Lincoln". Esse filme de Spielberg é um tanto quanto incompleto. Poderia ter sido citado, por exemplo, como os comunistas europeus da recém criada Associação Internacional dos Trabalhadores (Primeira Internacional) viam a figura de Lincoln. A carta escrita por Karl Marx felicitando Abraham Lincoln pela sua reeleição (em nome da Primeira Internacional), em novembro de 1864, bem que poderia servir para abrilhantar a película de Spielberg...
Pelo menos serviria também para aprimorar as reflexões, um tanto quanto sectárias e principistas, de certo esquerdismo que viceja alegremente hoje em Pindorama. Segue então a significativa epístola, escrita por ninguém mais ninguém menos do que Karl Marx:

A Abraham Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América

Karl Marx

22 - 29 de Novembro de 1864

Senhor,

Felicitamos o povo Americano pela sua reeleição por uma larga maioria. Se a palavra de ordem reservada da sua primeira eleição foi resistência ao Poder dos Escravistas [Slave Power], o grito de guerra triunfante da sua reeleição é Morte à Escravatura.
Desde o começo da titânica contenda americana, os operários da Europa sentiram instintivamente que a bandeira das estrelas carregava o destino da sua classe. A luta por territórios que desencadeou a dura epopeia não foi para decidir se o solo virgem de regiões imensas seria desposado pelo trabalho do emigrante ou prostituído pelo passo do capataz de escravos?

Quando uma oligarquia de 300 000 proprietários de escravos ousou inscrever, pela primeira vez nos anais do mundo, «escravatura» na bandeira da Revolta Armada, quando nos precisos lugares onde há quase um século pela primeira vez tinha brotado a ideia de uma grande República Democrática, de onde saiu a primeira Declaração dos Direitos do Homem e de onde foi dado o primeiro impulso para a revolução Europeia do século XVIII; quando, nesses precisos lugares, a contra-revolução, com sistemática pertinácia, se gloriou de prescindir das «ideias vigentes ao tempo da formação da velha constituição» e sustentou que «a escravatura é uma instituição beneficente», [que], na verdade, [é] a única solução para o grande problema da «relação do capital com o trabalho» e cinicamente proclamou a propriedade sobre o homem como «a pedra angular do novo edifício» — então, as classes operárias da Europa compreenderam imediatamente, mesmo antes da fanática tomada de partido das classes superiores pela fidalguia [gentry] Confederada ter dado o seu funesto aviso, que a rebelião dos proprietários de escravos havia de tocar a rebate para uma santa cruzada geral da propriedade contra o trabalho e que, para os homens de trabalho, [juntamente] com as suas esperanças para o futuro, mesmo as suas conquistas passadas estavam em causa nesse tremendo conflito do outro lado do Atlântico. Por conseguinte, suportaram pacientemente, por toda a parte, as privações que lhes eram impostas pela crise do algodão , opuseram-se entusiasticamente à intervenção pró-escravatura — importuna exigência dos seus superiores — e, na maior parte das regiões da Europa, contribuíram com a sua quota de sangue para a boa causa.

Enquanto os operários, as verdadeiras forças [powers] políticas do Norte, permitiram que a escravatura corrompesse a sua própria república, enquanto perante o Negro — dominado e vendido sem o seu consentimento — se gabaram da elevada prerrogativa do trabalhador de pele branca de se vender a si próprio e de escolher o seu próprio amo, foram incapazes de atingir a verdadeira liberdade do trabalho ou de apoiar os seus irmãos Europeus na sua luta pela emancipação; mas esta barreira ao progresso foi varrida pelo mar vermelho da guerra civil.

Os operários da Europa sentem-se seguros de que, assim como a Guerra da Independência Americana iniciou uma nova era de ascendência para a classe média, também a Guerra Americana Contra a Escravatura o fará para as classes operárias. Consideram uma garantia da época que está para vir que tenha caído em sorte a Abraham Lincoln, filho honesto da classe operária, guiar o seu país na luta incomparável pela salvação de uma raça agrilhoada e pela reconstrução de um mundo social.

Socialismo e integração Latino Americana




O Instituto Lula promoveu, no dia 21 de janeiro, um encontro com intelectuais sul-americanos, para debater os Caminhos progressistas para o desenvolvimento e a integração regional. Abaixo, a versão resumida da fala de Valter Pomar, secretário-executivo do Foro de São Paulo, durante o seminário, na discussão do tema: Estágio atual, desafios e perspectivas da integração regional.

"Meu posto de observação, para opinar sobre o tema integração, é o Foro de São Paulo, do qual sou secretário-executivo desde 2005.

Todos os partidos do Foro consideram que a integração é algo central, estratégico, seja como proteção contra ingerências externas em geral e contra os impactos da atual crise internacional em particular; seja para aproveitar melhor todo o potencial regional; e, também, como "guarda-chuva" para os diferentes projetos estratégicos que os partidos do Foro perseguem.

Dos que defendem o socialismo, aos que defendem um novo modelo de desenvolvimento capitalista, todos reconhecem que a integração é um fator decisivo para limitar o alcance e a ingerência da aliança conservadora entre as oligarquias locais e seus aliados metropolitanos.

Agora, os partidos que integram o Foro também reconhecem a existência de um déficit teórico. Não apenas nos itens indicados até aqui, neste encontro (o balanço da década de governos progressistas e de esquerda, a integração regional), mas também em três outros temas.

Os temas nos quais se aponta a existência de um déficit teórico são: a análise do capitalismo do século XXI, pois muitos continuam operando com uma interpretação acerca do capitalismo que corresponde ao século XX; o balanço das experiências socialistas, social-democratas e nacional-desenvolvimentistas do século XX, pois muitos repetem erros e desconsideram acertos daquelas experiências; e a estratégia, pois no imaginário de grande parte da esquerda latinoamericana Che ainda suplanta Allende, apesar de que estamos todos envolvidos hoje numa experiência que tem mais a aprender com Allende do que com Che.

Claro que o déficit teórico não significa "pouca produção intelectual", mas sim debilidade desta produção.

No caso do Brasil, as causas desta debilidade são pelo menos três.

Em primeiro lugar, a perda de status da "classe média tradicional" empurra parcelas deste setor social para posturas fascistas ou esquerdistas. E como a classe média é a base de grande parte da intelectualidade, inclusive a de esquerda, isto afeta a produção teórica.

Em segundo lugar, o impacto do neoliberalismo e da tripla crise (do socialismo soviético, da social-democracia e do nacional-desenvolvimentismo) no terreno da cultura, da educação e da comunicação social.

Estes impacto afeta os mecanismos de formação e promoção da intelectualidade, não favorecendo o pensamento de esquerda.

Por outro lado, a influência neoliberal na cultura, educação e comunicação obstaculiza a formação de um pensamento de massas: não haverá uma cultura popular, com dezenas e dezenas de milhões a favor da integração, se não tivermos uma indústria cultural, uma educação pública e uma comunicação de massas de novo tipo.

Sem  esta mudança, continuaremos colhendo o que foi registrado na recente pesquisa que aponta o PT como partido mais querido (24%, contra 6% do PMDB e 5% do PSDB), mas no contexto de uma redução no número de pessoas que têm preferência partidária (caímos de 61% em 1988 para 44% em 2012).

Em terceiro lugar, há diferenças políticas sobre como se articulam nossas duas grandes tarefas: superar a hegemonia neoliberal  e realizar reformas estruturais que superem o desenvolvimentismo conservador.

Estas diferenças políticas geram duas posturas: ou um governismo exacerbado, que só tem olhos para o que é "possível fazer" aqui e agora, atacando qualquer postura crítica; e um esquerdismo também exacerbado, que só tem olhos para o objetivo final, desconsiderando qualquer análise realista da correlação de forças.

O governismo e o esquerdismo expressam um mesmo fenômeno: a ruptura entre teoria e prática, entre objetivos finais e os meios políticos, entre estratégia e tática.

Neste sentido, aplaudo o que disse o Lula na fala inicial deste seminário: precisamos de uma "doutrina", pois afirmar isto equivale a reconhecer a necessidade de uma conexão forte entre teoria e política.

Aliás, não é por acaso que nos damos conta desta necessidade de doutrina, neste momento, em que atingimos um sucesso parcial, mas em que também percebemos que para seguir adiante será preciso alterar a maneira como viemos nos comportando até agora.

Agora, como outros, eu prefiro não falar de doutrina. Sem entrar em outras considerações, eu prefiro não falar de doutrina, porque acho que não devemos cair no erro de construir "uma" doutrina; devemos sim constituir um campo de ideias, que terá um núcleo duro, composto pela prioridade ao social, pela defesa da ampliação das liberdades democráticas, pela afirmação do papel do Estado, pela combinação entre soberania nacional e integração regional.

Agora, este campo de ideias compreende um leque de posições que não cabe nas palavras "doutrina" e "progressista".

É importante assinalar que o tempo corre contra nós.

Não está dado que vamos conseguir passar da ênfase à superação do neoliberalismo, para a ênfase nas reformas estruturais.

A desacumulação que estamos vendo na esquerda mexicana e colombiana, mais a operação denominada "Arco do Pacífico", são alguns dos sinais de que a situação está se complicando. E está se complicando, entre outros motivos, porque as oligarquias, a começar da brasileira, não querem alterar de maneira estrutural a repartição da riqueza entre Capital e Trabalho e dão sinais de que não vão respeitar as regras do seu próprio jogo, se estas regras levam-nas a perder o jogo: vide Paraguai e Honduras.

O caso de Honduras confirma, por outro lado, que devemos manter uma orientação latinoamericanista e caribenha. É claro que nosso foco imediato é a integração da América do Sul. Mas para esta integração ter sucesso, é inescapável enfrentar a hegemonia dos Estados Unidos junto ao México, Caribe e América Central.

Por fim, não haverá integração sem Brasil. Talvez sejamos o país menos latinoamericano da região, mas somos também o capitalismo mais potente, que tem melhores condições para ajudar a financiar a integração.

Mas para podermos fazer isto, teremos que afastar a sombra de que somos sub-imperialistas, o que exigirá entre outras coisas mais presença do Estado e mais controle sobre a atuação das transnacionais privadas brasileiras.

Um bom momento para prosseguir esta discussão será o XIX Encontro do Foro de São Paulo, que será realizado no Brasil, na cidade de São Paulo, de 31 de julho a 4 de agosto de 2013."


Publicado no Blog do Valter Pomar http://valterpomar.blogspot.com.br/

A solidão na era das redes sociais


Sozinhos na multidão: A solidão na era das redes sociais

Marcelo Bernstein
Correio do Brasil - 25/01/2013

Solidão. Essa parece ser uma palavra recorrente e uma constante no comportamento das pessoas no século XXI, o século onde o ser humano nunca esteve, teoricamente, mais conectado aos seus semelhantes em toda a sua história, através do mundo digital da Web e das redes sociais.

Por mais estranho que possa parecer, ao mesmo tempo que a Internet abriu um mundo novo e revolucionou praticamente todas as formas conhecidas de relacionamento entre pessoas, comunidades e países, as pessoas nunca estiveram mais solitárias e nunca se registrou tantas ocorrências de doenças psíquicas como os diversos transtornos de ansiedade, comportamentos compulsivos originados de quadros de carência afetiva aguda e fratura narcísica, além do impressionante aumento de queixas de depressão, nos mais diversos níveis e sintomatologias.

Todos estão conectados, linkados e interligados aos outros através das redes sociais como Facebook, Google+ e outras muitas plataformas existentes com a mesma finalidade (teoricamente): aproximar pessoas. Entretanto, nunca estivemos tão distantes da conexão real, entre as pessoas, seja afetiva ou socialmente. As pessoas hoje preferem passar mais tempo conectadas através do computador, tablet, celular ou qualquer outro dispositivo, móvel ou não, do que se encontrarem fisicamente para poderem interagir no mundo real.

Pode-se ter uma medida disso ao se observar comportamentos de famílias em restaurantes, grupos de adolescentes no shopping, amigos/amigas/colegas de trabalho almoçando juntos. Chega a ser impressionante o tempo dedicado por todos aos seus dispositivos eletrônicos para envio de mensagens ou e-mails, acompanhar as atualizações feitas pelos seus respectivos “amigos” e conhecidos nas diversas redes sociais, ao invés de dedicar o mesmo tempo para tentar desenvolver algum tipo de interação ou de conexão afetiva real.

No caso das famílias e dos grupos de adolescentes esse fenômeno chega a ser mais impressionante (ou diria, talvez, mais preocupante). Os núcleos familiares pós-modernos, por exemplo, dão nitidamente a impressão de que os pais e mães não tinham a exata noção da responsabilidade e do trabalho que é criar filhos, já que se cercam de verdadeiras entourages de babás e outros auxiliares, que se encarregam de cuidar destes herdeiros da sociedade do século XXI, sem que os pais precisem tomar conhecimento da presença dos pimpolhos, em muitos dos casos.

Na verdade, além do exército de auxiliares domésticos, o arsenal destes pais pós-modernos é completado por um leque de dispositivos eletrônicos que servem como “babás” eletrônicas, smartphones e tablets, tudo isso com uma única finalidade: manter entretidos e quietos (o máximo possível) estes novos integrantes da sociedade da informação do século XXI, onde a realidade é substituída pelo espetáculo e a relação pessoal pela interação homem-máquina.

A cena resultante chega a ser cômica, se não fosse preocupante. As crianças, ao invés de se relacionarem e brincarem umas com as outras, passam a interagir umas com as outras através de seus tablets e smartphones (dados por pais que não param para avaliar se os filhos já têm idade para serem expostos ao mundo digital desta forma), mandando mensagens (ao invés de conversarem ao vivo e a cores) entre si, jogando online (ao invés de brincarem umas com as outras). Com o adolescentes, a cena não é muito diferente, onde numa mesma mesa pode-se ver a interação sendo feita através dos mesmos smartphones e tablets, com o envio de mensagens de um para o outro (ao invés de tentar simplesmente conversar), ou através das atualizações de suas respectivas atividades no “Face” (diminutivo de Facebook, porque dá muito trabalho falar Facebook, segundo estes adolescentes cuja marca registrada é um imenso e constante cansaço).

A este panorama, de pessoas altamente conectadas com tudo e todos à sua volta e, por si só, bastante para desencadear a ansiedade e o aparecimento de neuroses diversas nesta sociedade global do século 21, adicione-se o surgimento de uma sociedade onde nunca se viu um contingente tão grande de solitários e de laços afetivos tão fluidos e instáveis, a era do chamado “amor líquido”. Uma era onde é mais fácil deletar, do que tentar resolver obstáculos e conflitos dentro dos relacionamentos, onde todos estão ligados a todo mundo, mas poucos conseguem estabelecer relações estáveis e saudáveis, seja do ponto-de-vista afetivo ou sexual.

Estas constatações, consolidadas pelas minhas observações do quotidiano das pessoas no Rio de Janeiro, são reforçadas por uma pesquisa feita por duas universidades alemãs e publicada recentemente pela Reuters, que mostra o Facebook como capaz de provocar infelicidade e solidão. Segundo os pesquisadores da Universidade Humboldt de Berlim, uma em cada três pessoas tiveram experiências negativas com a rede social e sentem-se solitários, frustrados ou com raiva.

Isso me leva a refletir que, neste novo mundo de relações digitais e fluidas está se criando uma nova geração, onde os relacionamentos virtuais, diferente dos relacionamentos reais; pesados, lentos e confusos, são muito mais fáceis de entrar e sair; eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Quando o interesse acaba, ou a situação chega a determinado ponto que exige pelo menos elaboração, sempre se pode apertar a tecla “delete”. Não sem consequências psíquicas ou com tanta leveza quanto se aparenta, já que a modernidade não chega com esta velocidade ao psiquismo.

O que vemos é cada vez mais casos de pacientes com discursos fragmentados, ocorrências de dissociação de personalidade (um resultado nítido das alter personalidades tão usuais no mundo digital), quadros de carência afetiva aguda e comportamentos compulsivos diversos (muito provavelmente originados no abandono gerado pelos pais pós-modernos), além de transtornos de ansiedade e depressão, nos mais diversos níveis. Um mundo onde as pessoas não só estão mais sozinhas, como estão sozinhas, deprimidas, ansiosas (todas buscando aceitação, acolhimento, conexões afetivas e amor), compulsivas e, paradoxalmente, conectadas com o mundo. Ou seja, ao contrário do ditado, não basta estar sozinho, mas sozinho apesar de acompanhado.

Marcelo Bernstein é jornalista e também atua como psicanalista e terapeuta sexual. Ele pode ser contatado através do e-mail marcelobernstein@hotmail.com e dos telefones (21) 2290-9324/2260-7976 ou (21)7228-4649

A mídia brasileira segundo Mino Carta


A mídia brasileira segundo Mino Carta

20/01/2013 |
Pedro Nogueira
Diario do Centro do Mundo
Uma coisa é certa: Mino não é definitivamente o admirador número 1 do jornalismo nacional.
Fuçando em velhos arquivos do computador, eis que me deparo com uma entrevista que fiz, dois anos atrás, com o jornalista ítalo-brasileiro Mino Carta, diretor de redação da Carta Capital e fundador da Veja. Escrevi a matéria em parceria com minha amiga Cátia Cananea para o jornal Diretriz, da faculdade em que eu estudava na época, o Mackenzie. Ao relê-la, percebi que suas ideias continuam bastante atuais e decidi publica-la aqui no Diário. Segue abaixo.
A sala de Mino Carta, o diretor de redação da Carta Capital, tem um quê de vintage. Em cima da mesa, não há computador. No seu lugar, uma máquina de escrever Olivetti. “Tenho medo do computador”, diz Mino. “Ele engole as pessoas, sem que elas se dêem conta disso.” Aos 79 anos, Mino é dono de um currículo impressionante: ele fundou as revistas Veja, IstoÉ , Carta Capital e o Jornal da Tarde, entre outras publicações. Numa tarde de segunda-feira, ele me recebeu em sua sala para uma entrevista, na qual afirmou que a imprensa brasileira é “de uma safadeza e hipocrisia imbatível” e disse que entrou no jornalismo porque queria comprar um terno azul-marinho.
O que o senhor acha da imprensa brasileira?
Ela é excepcionalmente ruim. O melhor jornal que circula em São Paulo é esse aqui, olha. [Pega uma edição do italiano Corriere Della Sera]. Essa reforma da Folha é para rir, né? A imprensa de qualquer país democrático é melhor do que a brasileira. A meu ver, a imprensa brasileira tem dois problemas sérios.
O primeiro está na posição deles. No mundo todo, você vai encontrar posições diferentes entre os jornais. Cada jornal tem a sua postura, que se diferencia da do concorrente. No Brasil, não. Todos os jornais e revistas se juntam contra um inimigo comum. No caso, o PT. Eles não querem incentivar o debate. A nossa imprensa é de uma safadeza e de uma hipocrisia imbatível. Não existe igual no mundo. A imprensa está sempre a favor do que é pior, do que há de mais rançoso, do que há de mais reacionário. Eles gostam de ser súditos, gostam de ser súditos dos Estados Unidos.
O segundo ponto é que os jornais são tecnicamente ruins. Muito ruins. Sem contar as ofensas diariamente cometidas contra a língua portuguesa, uma língua muito bonita, flexível e que mereceria um tratamento melhor.
Então, a imprensa brasileira é tendenciosa, na sua opinião?
A imprensa tem obrigação de ser honesta. Aquela história de ela ser objetiva está errada. Você não consegue ser objetivo em momento algum da vida. Imagina escrevendo! Você é subjetivo até quando deposita uma vírgula. Mas precisa existir honestidade, entende? Ouvir quem está de um lado, quem está de outro. Dar o mesmo peso às declarações de ambos. E, depois, dar a sua opinião, acentuando a diferença entre o que é verdade factual e o que é opinião. A verdade é um fato simples. Esta é uma mesa [ele aponta para a mesa], isso é um copo, estou tomando Coca-Cola. Vocês são jovens estudantes, eu me chamo Mino. Essa é a verdade factual. A imprensa brasileira mente o tempo inteiro, omite informações, quando não convém ao ponto de vista deles.
Há alguma revista que se salva?
A Carta Capital. A Carta Capital é um milagre. Pela qualidade de análise, pela coragem. Você não precisa concordar com a Carta Capital, não é esse o ponto. Não somos os donos da verdade. Absolutamente. Mas, pelo menos, ela te oferece um trabalho em bom português, de análise profunda com a qual se pode concordar ou não. Nós temos a convicção de que o jornalismo se faz para iluminar os leitores.
Além da Carta Capital, há alguma outra?
Não. Tem algumas que são carregadas de boa-fé. Isso já é meio caminho andado. A Brasileiros é uma revista feita com muito boa fé, muita esperança. A Caros Amigos também. Agora, são publicações pouco incisivas, porque são mensais. É complicado fazer uma revista mensal. Ela acaba exercendo uma pressão, uma influência muito pequena. Dilui-se demais. Isso cria problemas sérios.
Qual é a diferença entre a Veja da década de 1970, editada pelo senhor, e a Veja de hoje?
A Veja nasceu uma revista independente, em um momento que não tem comparação com os dias de hoje. Ela nasceu em tempos de ditadura, foi apreendida nas bancas na 5ª edição. Foi submetida a uma censura infernal. Eu fui preso duas vezes e tive que prestar 40 depoimentos na Polícia Federal.
Enfim, eram outros tempos. Quando saí da Veja, ela entregou-se nas mãos da ditadura. Embora tenha mudado a sua postura, ainda era feita por uma equipe competente. Antes, a Veja era de franca oposição dentro das possibilidades, determinadas por uma censura duríssima. Então, naquele momento, a censura foi embora e tudo ficou bem pra eles. Mas, repito, a Veja não perdeu qualidade, mesmo mudando de posição.
Já a Veja de hoje é um acinte, é uma cloaca. Não é uma revista. Ela mente todo dia.
O senhor ainda usa máquina de escrever? Não gosta de computador?
Sim, ainda escrevo na minha Olivetti. Não chego perto do computador. Acho que ele engole as pessoas, sem que elas se dêem conta de que estão sendo engolidas. Tenho medo do computador.
Há quem diga que o jornalismo digital vai acabar com o impresso. Qual é a posição do senhor em relação a isso?
Confesso que esse raciocínio tem a sua lógica. Mas ainda tenho muitas dúvidas. Eu vejo que a internet está sendo muito mal usada. A internet hoje facilita tanto a vida do repórter que ela está acabando com a reportagem, com a cobertura profunda dos acontecimentos. O jornalista já não vai mais a campo. Está tudo lá, na internet. É um instrumento fantástico, negar isso é besteira. É fantástico porque, se você quiser ler tal livro, está lá. Ou, se quiser entrar na melhor biblioteca do mundo, no melhor museu, pode. Enfim, temos à nossa disposição o mundo via internet.
Mas não me parece que ela esteja sendo bem usado. Não tenho muita confiança no gênero humano, entende? Muito pelo contrário. Eu sou dostoievskiano na minha visão do homem. Não acredito que o homem vai produzir grandes coisas. Acho que o homem vai se meter, sempre, em guerras e lutas. E, o pior: em mutretas, em obras escusas.
Como o senhor entrou para o jornalismo?
Meu pai era jornalista, meu avô era jornalista. Meu irmão sonhava em ser jornalista. Eu, não. Achava os jornalistas um bando de chatos. Falando sempre de coisas, segundo eles, extraordinárias e, na verdade, terrivelmente iguais. As pessoas mudam de nome, mas você lida sempre com o mesmo tipo de personagem.
Enfim, quando eu tinha 15 anos, queria muito ir aos bailes de sábado. E eu precisava de um terno azul-marinho para ir. Meu pai recebeu uma proposta de um jornal italiano para fazer algumas matérias de futebol. Acontece que ele odiava futebol. Detestava cordialmente o futebol. Eu gostava, e eu jogava. Ele me chamou e disse: “Olha, tão me oferecendo isso. Você quer escrever?” Eu disse: “Quanto vale?” Ele falou que era tanto. E eu: “Perfeito, muito bom!” Com aquele dinheiro, eu podia fazer um terno azul-marinho num bom alfaiate. Bom mesmo! [risos] Aí, descobri que a felicidade estava ao alcance de quem quisesse escrever os artigos. Quer dizer, aquilo que eu concebia como felicidade, né?
Qual é a maior virtude que um jornalista pode ter, em sua opinião?
Posso dizer quais são as regras que devem inspirar o jornalista, aqueles princípios básicos. O primeiro é a fidelidade à verdade factual. Fidelidade total, não omitir nada daquilo que está ali. Em segundo, o exercício do espírito crítico. Isso é fundamental. Ter uma postura diante das coisas. Aliás, essa é a melhor maneira de ser efetivamente vivo. É um sinal de vida quase tão importante quanto respirar. E o terceiro ponto é a fiscalização do poder. Não só o poder do governo. Mas, também, o poder do banqueiro, é o poder da cultura, o poder em geral. O poder sempre se manifesta, existe em qualquer lugar.
Agora, esses são os princípios. O jornalista precisa ter talento, ter vocação. É possível desenvolver a técnica. Mas é fundamental ter algum talento, saber escrever bem. Jornalismo é uma forma de literatura, é um braço literário indiscutível. Grandes jornalistas foram grandes escritores. Você aprende a escrever realmente bem lendo muito. A leitura é fundamental para quem quer escrever. Tem que entrar em você. É a partir daí que você ganha um enorme desembaraço em relação à escrita.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Por que Chávez foi reeleito


Por que Chávez foi reeleito



WASHINGTON - Para a maioria das pessoas que já ouviram falar ou ler sobre Hugo Chávez na mídia internacional, a sua reeleição no domingo como presidente da Venezuela por uma margem convincente pode ser intrigante.
Quase todas as notícias que ouvimos sobre ele é ruim: Ele pega brigas com os Estados Unidos e os lados com "inimigos", como o Irã, ele é um "ditador" ou "homem forte" que tem desperdiçado a riqueza da nação de petróleo, a economia venezuelana é atormentado pela escassez e é geralmente à beira do colapso.
Depois, há o outro lado da história: Desde que o governo Chávez tem controle sobre a indústria nacional de petróleo, a pobreza foi reduzida pela metade , ea pobreza extrema em 70 por cento. Matrícula na faculdade mais do que duplicou, milhões de pessoas têm acesso aos cuidados de saúde pela primeira vez eo número de pessoas elegíveis para pensões públicas quadruplicou.
Portanto, não deve ser surpreendente que a maioria dos venezuelanos reeleger um presidente que tem melhorado seus padrões de vida. Isso é o que aconteceu com todos os governos de esquerda que agora governam a maioria da América do Sul. Isso apesar do fato de que, como Chávez, têm a maioria dos meios de comunicação de seus países contra eles, e sua oposição tem a maioria da riqueza e da renda de seus respectivos países.
A lista inclui Rafael Correa, que foi reeleito presidente do Equador por ampla margem em 2009, o enormemente popular Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, que foi reeleito em 2006 e, em seguida, campanha com sucesso para seu ex-chefe de equipe, agora presidente Dilma Rousseff , em 2010; Evo Morales, o primeiro presidente Bolvia do indígena, que foi reeleito em 2009, José Mujica, que sucedeu a seu antecessor da mesma aliança política no Uruguai - Frente Ampla - em 2009, Cristina Fernández de Kirchner, que sucedeu a seu marido, o falecido Néstor Kirchner, ganhando a eleição 2011 presidencial argentino por uma margem sólida.
Esses presidentes de esquerda e seus partidos políticos ganhou a reeleição, porque, como Chávez, que trouxe significativo - e, em alguns casos enorme - melhorias nos padrões de vida. Eles todos originalmente campanha contra o "neoliberalismo", uma palavra usada para descrever as políticas dos anteriores 20 anos, quando a América Latina experimentou seu pior crescimento econômico em mais de um século.
Não surpreendentemente, os líderes esquerdistas ter visto a Venezuela como parte de uma equipe que tem trazido mais democracia, soberania nacional e progresso económico e social para a região. Sim democracia,: mesmo a Venezuela muito criticado é reconhecida por muitos estudiosos a ser mais democrático do que na era pré-Chávez.
Democracia estava em causa quando a América do Sul ficaram juntos contra Washington em questões como o golpe militar de 2009 em Honduras. As diferenças foram tão pronunciada que levou à formação de uma organização hemisférica novo - a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, que excluiu os Estados Unidos e Canadá - como uma alternativa à Organização dominado pelos EUA dos Estados Americanos.
Aqui está o que Lula disse no mês passado sobre a eleição da Venezuela: ". Uma vitória de Chávez não é apenas uma vitória para o povo da Venezuela, mas também uma vitória para todos os povos da América Latina ... esta vitória vai atacar outro golpe contra o imperialismo"
A administração de George W. Bush adotou uma estratégia de tentar isolar a Venezuela de seus vizinhos, e acabou isolando-se. Presidente Obama deu continuidade a esta política, e na Cúpula das Américas 2012, na Colômbia, foi tão isolado quanto o seu antecessor.
Embora alguns meios de comunicação falaram de iminente colapso econômico da Venezuela por mais de uma década, isso não aconteceu e não é provável que aconteça.
Após se recuperar de uma recessão que começou em 2009, a economia venezuelana vem crescendo há dois anos e meio e agora a inflação caiu drasticamente, enquanto o crescimento se acelerou. O país tem um superávit comercial considerável. Sua dívida pública é relativamente baixo, e assim é o seu fardo do serviço da dívida. Ele tem espaço de sobra para emprestar moeda estrangeira (que tomou emprestado 36 bilião dólares da China [ pdf ], em sua maioria com taxas de juros muito baixas), e pode contrair empréstimos internos e também em baixas ou negativas as taxas de juros reais.
Assim, mesmo se os preços do petróleo estavam a falhar temporariamente (como fizeram em 2008-2009), não haveria necessidade de austeridade ou recessão. E quase ninguém está prevendo um colapso a longo prazo dos preços do petróleo.
A economia da Venezuela tem problemas de longo prazo, como a inflação relativamente alta e infra-estrutura inadequada. Mas a melhora substancial na renda das pessoas (a renda média subiu muito mais rápido do que a inflação sob Chávez), além de ganhos em saúde e educação, parece ter superado falhas do governo em outras áreas, incluindo a aplicação da lei, nas mentes da maioria dos eleitores .
O embargo econômico dos EUA contra Cuba tem persistido por mais de meio século, apesar de sua óbvia estupidez e fracasso. Hostilidade americana para a Venezuela é de apenas 12 anos, mas não mostra sinais de ser reconsiderado, apesar da evidência de que ele também é alienar o resto do hemisfério.
Venezuela tem cerca de 500 bilhões de barris de petróleo e está queimando eles atualmente a uma taxa de um bilhão de barris por ano. Chávez ou um sucessor de seu partido provavelmente será governar o país por muitos anos vindouros. A única questão é quando - ou nunca - Washington vai aceitar os resultados da mudança democrática na região.
Mark Weisbrot é co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política de Washington e presidente da Just Foreign Policy.

A demonização de Chávez


O viés conservador dos meios de comunicação é muito evidente na Espanha, inclusive daqueles considerados de centro ou centro-esquerda . O liberal El Pais, que jamais publica qualquer artigo favorável ao venezuelano, é espaço aberto para críticos como Moisés Naím, um dos arquitetos das políticas de austeridade no governo de Carlos Andrés Pérez, e o hiperbólico Mario Vargas Llosa. O artigo é do catalão Vicenç Navarro
Data: 26/01/2013
Um dos indicadores da baixa qualidade da democracia espanhola é a limitadíssima diversidade ideológica nos meios de comunicação de maior difusão da Espanha. O viés conservador desses meios - inclusive daqueles considerados de centro ou centro-esquerda - é muito evidente na Espanha. Não é necessário dizer que tal viés é também característico em grande parte dos países chamados democráticos. Mas o caso da Espanha é extremo. Um exemplo disso é a cobertura da política venezuelana pelos cinco jornais de maior circulação do país.

Nos EUA, por exemplo, onde o domínio dos meios de comunicação também é acentuado, a cobertura da presidência Chávez é desequilibrada, dando importância às vozes críticas a tal governo. Mas vozes menos críticas, e inclusive favoráveis ao governo, aparecem nos mesmos meios. Segundo Mark Weisbrot (e seu artigo no The Guardian) nos EUA, o Los Angeles Times, o Boston Globe, o Miami Herald e inclusive o conservador Washington Post têm publicado artigos favoráveis ao governo Chávez, embora a maioria sejam críticos. E no último final de semana, o The New York Times, em sua seção Summary of the Week, publicou a visão conservadora neoliberal, representada por Moises Naím, junto à do próprio Mark Weisbrot, Diretor do Center for Economic and Policy Research, de Washington, que contestou os dados apresentados por Naím, expondo uma realidade menos catastrófica do que a descrita por tal autor.

Muito bem, convido-os a contar quantos artigos críticos à presidência Chávez foram publicados nos grandes meios espanhóis e quantos favoráveis. E poderão ver que não foi publicado nenhum favorável. Inclusive El País, o jornal considerado liberal (e que por simples coerência ideológica deveria estar aberto a posturas divergentes, até a críticas de seus editoriais) publica críticas virulentas ao governo Chávez do Sr. Moises Naím (entre outros artigos como os do hiperbólico Mario Vargas Llosa), sem nunca, repito, nunca publicar um artigo favorável a tal governo.

E esse é um dos pontos mais vulneráveis e defeituosos da chamada democracia espanhola: o monopólio midiático dos interesses conservadores no sistema informativo espanhol. E este monopólio supõe um custo elevadíssimo para a democracia espanhola. Não só impede que a população esteja bem informada, oferecendo um amplo leque de posturas em seus meios, mas também reduz a qualidade do debate político, já que as vozes conservadoras-neoliberais, conhecedoras da ausência de crítica de suas posturas, e donas portanto, de uma imunidade intelectual, dizem e sustentam argumentos baseados em dados fácil de demonstrar errados.

Vejamos, por exemplo, a crítica de Moisés Naím, um dos arquitetos das políticas de austeridade no governo de Carlos Andrés Pérez durante o período 1989-1990, ministro da Indústria quando em 1989 aconteceu o Caracazo, onde o governo atirou contra civis que protestavam contra as políticas de austeridade, assassinando mais de três mil venezuelanos. Tal autor, que em sua coluna em El País se apresenta paradoxalmente como o grande defensor dos Direitos Humanos, tem sido uma voz super crítica do governo Chávez, promovendo políticas do Departamento de Estado dos EUA, o que explica a sua grande visibilidade midiática nos meios internacionais, sujeitos à hegemonia do governo federal dos Estados Unidos.

Nos últimos artigos, Moisés Naím promove a visão, também transmitida pelo governo federal dos Estados Unidos, de que o governo Chávez levou a Venezuela ao desastre, criando um déficit público que, segundo ele, representa 20% do PIB; estabelecendo um setor público hipertrofiado que afoga a economia venezuelana; gerou uma dívida pública dez vezes superior à de 2003; criou um sistema bancário que está à beira do colapso; e uma indústria petrolífera nacionalizada (a maior fonte de renda do Estado) que está em claro descenso, e uma longa lista de "calamidades". Como na Espanha não existe a possibilidade de que os meios de maior circulação publiquem análises críticas de tais afirmações, a população é pessimamente informada e acredita que a Venezuela está em uma situação de crise e colapso.

Se na Espanha tivessem sido publicadas as respostas de Mark Weisbrot, por exemplo, publicadas no New York Times e no The Guardian, poderiam ter percebido o grau de exagero, hipertrofia e falsidades dos dados apresentados por Moisés Naím, entre outros. Mark Weisbrot é um dos economistas mais críveis em temas econômicos internacionais dos EUA. Vejamos os dados. O déficit público da Venezuela representa, segundo o Fundo Monetário Internacional, não 20% do PIB, mas sim 7,4%. Quanto à suposta hipertrofia da dívida pública da Venezuela, esta representa 51,3% do PIB, uma porcentagem menor do que a média da dívida pública da União Europeia (82,5% do PIB) e menor que o objetivo da UE (60% do PIB). Quanto ao colapso da indústria petroleira, a cota de produção de petróleo é a acordada pelos países produtores de petróleo, OPEP. E a diminuição das exportações de petróleo aos EUA responde a uma decisão política do governo Chávez, que tenta diversificar as suas exportações e não concentrá-las em um número reduzido de países. Tal redução das exportações aos EUA não tem nada a ver com um colapso, inexistente, da indústria petroleira venezuelana. Semelhante manipulação e falsidade também aparece quando Moisés Naím fala da hipertrofia do setor público. Na realidade, e como é exposto por Mark Weisbrot (do qual extraio esta informação), a porcentagem de emprego público na Venezuela é de aproximadamente 18,4% da população empregada, inferior à existente na França, Finlândia, Dinamarca, Suécia e Noruega.

Mark Weisbrot aponta também alguns pontos fracos da economia venezuelana, como a elevada inflação, um problema generalizado na América Latina. Mas, inclusive nesta situação problemática, o governo Chávez conseguiu diminuir tal inflação de 28,2% a 18%, redução conseguida apesar do grande aumento do gasto público e, especialmente, do gasto público social. Durante os últimos dez anos, o governo aumentou tal gasto a 60%, expandindo consideravelmente o insuficiente Estado do Bem-Estar venezuelano, causa de sua grande popularidade entre as classes populares. Como documentaram os investigadores sociais de grande credibilidade internacional, os professores Carles Muntaner (da Universidade de Toronto), Joan Benach e María Páez Victor (da Universidade Pompeu Fabra), a pobreza passou de 71% da população em 1996 a 21% em 2010, especialmente acentuada a redução da pobreza extrema, que passou de 40% em 1996 a 7,3% em 2010 (ver o artigo "As conquistas de Hugo Chávez e a Revolução Bolivariana", de Carles Muntaner, Joan Benach e María Páez Victor).

Portanto, é lógico e previsível que Hugo Chávez e o partido liderado por ele, em umas eleições democráticas (nas quais a grande maioria dos meios de comunicação de maior difusão venezuelanos, controlados por grupos midiáticos conservadores e neoliberais, estavam contra) tenha vencido em 13 das 14 eleições nacionais. Todos estes dados não aparecem nos meios de maior circulação da Espanha, onde maliciosamente aquele governo foi demonizado. As causas desta demonização são fáceis de entender. Em primeiro lugar, a Venezuela é hoje o país com as maiores reservas petrolíferas do mundo. Os governos estadunidense e europeus que apoiam regimes feudais no Oriente Médio para garantir o abastecimento de tal produto, agora se opõem a morte a um governo que quer atender as necessidades de suas classes populares, e que não aceita ser, como esses regimes feudais, simples servidor daqueles interesses estadunidenses e europeus.

A segunda causa é que a América Latina foi governada durante longos períodos por governos neoliberais, como aquele ao qual Moisés Naím serviu, que expandiram a pobreza de suas populações significativamente. Isso criou uma resposta de protesto que levou ao estabelecimento, através de meios democráticos, de governos reformistas de esquerda, não só na Venezuela, mas também no Equador, Bolívia, Argentina e Uruguai, entre outros (que aparecem como os capetas), e que eleição após eleição continuam sendo reeleitos. Por isso a grande adversidade, porque parte de sua vocação reformadora se baseia em romper os monopólios midiáticos que controlam a informação naquele continente. Mas disto o leitor espanhol não ficará sabendo. E isto é conhecido como democracia.


*Vicenç Navarro (Barcelona, 1937) é cientista social. Foi professor catedrático da Universidade de Barcelona e hoje dá aulas nas universidades Pompeu Fabra e Johns Hopkins. Por sua luta contra o franquismo, viveu anos exilado na Suécia.
Traducción al portugués: Equipo de redacción en portugués de teleSUR