quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Inflação de prestígio

Folha de São Paulo




VLADIMIR SAFATLE

Inflação de prestígio

"Enquanto eu cobrava R$ 100 por sessão, tinha poucos pacientes. Quando comecei a cobrar R$ 200, por incrível que pareça, os pacientes afloraram." Esta afirmação de um amigo psicanalista talvez valha um capítulo na teoria geral da formação de preços, ao menos no Brasil.
A mudança no preço de sua sessão não foi o resultado de alguma nova conformação das dinâmicas de oferta e de procura. Ela foi, na verdade, a descoberta de que, em países com alta concentração de renda, certas pessoas estão dispostas a pagar mais simplesmente devido à crença de que as coisas caras foram feitas para ela.
Por mais que economistas gostem de dizer o contrário, a ação econômica é baseada em sistemas de crenças e expectativas cuja racionalidade é fundada em fortes disposições psicológicas "irracionais"-pois estão ligadas a fantasias.
Atualmente, alguns dos aluguéis mais caros do mundo podem ser encontrados em cidades improváveis como, São Paulo, Moscou e Luanda (capital angolana).
A razão é que tais sociedades emergentes crescem com alta desigualdade de renda, o que faz com que uma parcela mínima da população, com poder aquisitivo exorbitante, puxe para cima a cadeia de preços. Para o resto da população, melhor seria que essa parcela simplesmente não existisse.
Qualquer pessoa que frequenta restaurantes nessas cidades percebe que a disparada de preços pouco tem a ver com a flutuação do valor dos alimentos. Nossos agricultores continuam recebendo, em larga medida, valores irrisórios. Tal disparada vem da existência de pessoas que não sentem diferença entre pagar R$ 30 ou R$ 70 por um prato. Mobilizando a crença de que as coisas caras são exclusivas, elas geram, assim, um forte problema econômico.
Há de perguntar-se por que, sendo a inflação uma questão tão premente na vida nacional, nunca encontramos reflexões sobre a relação, aparentemente tão evidente, entre pressão inflacionária e desigualdade social.
Ao contrário, vê-se apenas pessoas dispostas a falar contra os "gastos públicos", isto em um país onde, vejam só vocês, escolas e saúde pública são subfinanciadas e grandes investimentos públicos em infraestrutura são urgentes.
Talvez um dia descobriremos que a economia brasileira só estará mais bem defendida contra a inflação quando a desigualdade e o consumo conspícuos que ela gera forem realmente combatidos.
O que é melhor do que reduzir os mecanismos de controle da pressão inflacionária à definição de taxas de juros, pois a disparidade de renda, além de gerar fratura social e conflito de classe, é fator de instabilidade econômica.

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Não há bolha de crédito no Brasil


Ricardo Loureiro) – Desde o início do ano, ouvimos alertas quanto aos riscos de estouro de uma bolha de crédito no Brasil. O crescimento acelerado do crédito no país, o alto comprometimento de renda do brasileiro com dívidas e a escalada dos preços dos imóveis nas principais urbes costumam ser listados como sinais da existência dessa bolha. Assim, mais cedo ou mais tarde, sucumbiríamos à crise que acomete o hemisfério Norte.
Em primeiro lugar, o termo não é, a rigor, adequado ao mercado de crédito; tecnicamente, “bolha” representa o descolamento significativo e prolongado do preço de algum ativo financeiro ou real dos seus fundamentos. No entanto, como bolhas especulativas costumam ser precedidas por “booms” de crédito, acaba-se utilizando a terminologia, com certa liberalidade.
Essa associação entre “boom” de crédito e bolha especulativa foi o que ocorreu nos EUA e na Europa: um longo período de crédito farto gerando movimentos especulativos nos preços das residências. Para que essa “tempestade perfeita” se dê, entretanto, é preciso um combustível: a prevalência, por tempo razoável, de taxas reais de juros próximas de zero ou até negativas.
É aqui que começam as diferenças entre o mercado de crédito brasileiro e aquilo que se viu no exterior. Nossa taxa de juros é uma das mais altas do planeta, o que faz com que os bancos brasileiros não precisem, a título de rentabilização, buscar mercados de altíssimo risco.
Outra grande diferença: no Brasil, os bancos possuem baixa alavancagem e operam num ambiente regulatório e fiscalizatório que é referência mundial. Lá fora, os empréstimos de alto risco evoluíram em um impressionante vácuo regulatório e fiscalizatório, disseminando o risco através de operações cruzadas com derivativos exóticos.
Assim, a expansão do crédito no Brasil ocorre sob rigoroso monitoramento da autoridade monetária, que adota medidas macroprudenciais para coibir excessos.
Há quem diga que o mercado de veículos, influenciado pela expansão do crédito nos últimos anos, seria o “subprime” (títulos de crédito hipotecário de alto risco que levaram à crise de 2008) brasileiro. Outros enxergam na valorização dos preços dos imóveis o esboço de uma bolha imobiliária no Brasil.
Não é o que pensamos. No caso dos veículos, é fato que o preço de um zero km pode recuar pouco mais de 20% após o seu primeiro ano de uso, fragilizando a garantia do financiamento. Mas é por isso mesmo que se costuma exigir uma entrada mais ou menos equivalente, no ato do financiamento.
Quanto aos imóveis, as altas de mais de 100% em algumas regiões metropolitanas, nos últimos três anos, refletem o forte crescimento da demanda -induzida pelo elevado grau de confiança dos consumidores, pela ascensão das classes C e D, pelos impactos das novas regras de financiamento imobiliário introduzidas pelo programa Minha Casa, Minha Vida-, que não encontrou devida resposta da oferta.
Afinal, o setor imobiliário passou por quase 20 anos de letargia, com baixo investimento em mão de obra, produção de insumos e bancos de terrenos. Quando a demanda aflorou, a oferta não conseguiu evoluir no mesmo ritmo, e os preços subiram. Logo, são os fundamentos -e não a bolha- que explicam a alta dos preços das residências.
Uma última consideração: a inadimplência dos consumidores está crescendo pouco mais de 20% neste ano. Mais um sinal de bolha, diriam alguns. Porém, se há bolha de crédito, a inadimplência sobe depois, e não antes do seu estouro. Na verdade, a alta da inadimplência em 2011 se deve à aceleração da inflação no início do ano. Nossos indicadores já apontam para uma estabilização da mesma.
Em suma, não vislumbramos existir bolha de crédito no Brasil. Temos, sim, um movimento saudável de crescimento do crédito. (Folha de São Paulo).
RICARDO LOUREIRO é presidente da Serasa Experian e da Experian América Latina

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O processo de redução da pobreza em Santa Catarina


*Odilon Luís Faccio
**José Álvaro de Lima Cardoso
  Dentre o conjunto de objetivos estabelecidos pelo Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), definidos pelas Nações Unidas (ONU), as metas relacionadas à redução da pobreza e da miséria estão entre as que obtiveram o maior percentual de alcance dentre todas em Santa Catarina. Os números são eloqüentes. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD), em 1991, o Estado possuía 37% de sua população vivendo em situação de pobreza absoluta (rendimento médio domiciliar per capita de até meio salário mínimo mensal), percentual que, em 2010, havia caído para 13,17%. Em 1991 o número de indigentes em Santa Catarina, isto é, a proporção de pessoas com renda familiar per capita mensal inferior a ¼ de salário mínimo, alcançava 15,7% da população, percentual que recuou para 3%, uma expressiva queda acima de 80% no indicador. Este desempenho superou com folga a meta do ODM, que propunha reduzir pela metade a população em condições de indigência.
  Estes são avanços muito consideráveis. Especialmente se levarmos em conta que, no período mencionado, o salário mínimo apresentou aumentos reais significativos. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio Econômicos (DIEESE), o salário mínimo de agosto de 1991, equivalia a R$ 424,04 em valores de hoje, o que corresponde a 77% do salário mínimo atual.
Isto significa que, se o salário mínimo não tivesse tido aumentos reais no período analisado, a queda do percentual da população que vive com renda inferior a ½ salário mínimo teria ficado ainda mais evidente, o que revela o indiscutível avanço no objetivo de reduzir a pobreza no Estado.
                Esse desempenho dos indicadores de pobreza, dentre outros fatores, está relacionado com a evolução da conjuntura sócio econômica nacional. Após um início de década difícil para o crescimento, a partir de 2004 a economia brasileira voltou a crescer, alcançando 5,7% e puxando também o PIB per capita, que aumentou 4,3%, um ganho bastante importante, considerando o cenário da década de 1990 e os primeiros anos da década de 2000. Com o crescimento da economia o emprego começou a expandir, correlação bastante evidente. O ano de 2010 concluiu, assim, com sucesso o decênio que alguns especialistas chamaram de a “década da formalização”. Santa Catarina, um Estado extremamente pujante e que possui o maior grau de formalização do emprego entre todos os estados da Federação, de forma natural, se beneficiou do crescimento do emprego formal.
          Todo esse contexto de crescimento do emprego, e também da renda, através dos programas de transferência de renda, especialmente o Bolsa Família, acaba possibilitando que as pessoas saiam da pobreza. Cada emprego gerado significa um membro a mais da família que passa a dispor de renda, melhorando o rendimento familiar. Se o mercado de trabalho continuar apresentando o dinamismo dos últimos anos, num contexto de crescimento sustentado, é de se prever que seja acelerada a melhora no padrão de remuneração dos trabalhadores catarinenses e reduzida a rotatividade na maioria dos segmentos econômicos.
No caso de Santa Catarina que tem na agricultura familiar um fator importante para o seu desenvolvimento e inclusão social, os investimentos públicos destinado ao Programa de Valorização da Agricultura Familiar (Pronaf) contribuíram positivamente para elevar a renda dos agricultores e diminuir a pobreza no meio rural.  Só na Safra 2009/2010 foi investido R$ 1,5 Bilhão com aproximadamente 140.000 contratos, beneficiando aproximadamente 70.000 famílias.  Outro exemplo importante é o investimento realizado para indenizar agricultores familiares que sofrem por sinistros climáticos  (excesso chuva, seca, granizo, vendavais etc). O Seguro da Agricultura Familiar ( SEAF)  pagou em SC de 2004 a 2010, mais de 246 milhões em indenizações  para mais de 70.000 contratos de agricultores familiares, contribuindo para evitar o aumento do êxodo rural.
    Pelo ritmo de redução da pobreza extrema e absoluta em Santa Catarina nas últimas duas décadas, pode-se considerar bastante factível a possibilidade de erradicação da pobreza nos próximos anos aqui no Estado, inclusive a pobreza absoluta. A este propósito, segundo estudo recente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), a projeção do comportamento de queda na taxa de pobreza extrema nos últimos anos permite prever que Santa Catarina e Paraná sejam os primeiros estados da federação a transpor a condição de miséria já em 2012.
*Engenheiro agrônomo e Coordenador Estadual do Movimento Nós Podemos Santa Catarina.
**Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.
   

sábado, 8 de outubro de 2011

A força das cidades médias - Revista Exame

A força das cidades médias

Campo Grande, o norte-nordeste de Santa Catarina e três outras regiões metropolitanas têm potencial para crescer duas vezes mais que São Paulo e Rio de Janeiro nos próximos 15 anos

Márcio Kroehn, da EXAME São Paulo - São Bento do Sul é a terceira cidade brasileira com o melhor índice de responsabilidade fiscal, social e de gestão dos últimos sete anos. Não é por acaso que a cidade catarinense de 75 000 habitantes, conhecida como um polo moveleiro, aparece entre as primeiras colocações no estudo da Confederação Nacional dos Municípios, atrás da paulista Cerquilho e da gaúcha Tupandi.
São Bento do Sul está localizada no norte-nordeste de Santa Catarina, uma das regiões urbanas mais pujantes do Brasil, com 20 municípios cujo epicentro econômico é Joinville.
Na última década, ali foram gerados 160 000 novos empregos formais, ampliando o número de trabalhadores com carteira assinada para 381 000, numa população de 1,2 milhão de pessoas.
É uma proporção de 31%, ante 23% da média do país. Além da geração de empregos, o consumo tomou impulso nas cidades do norte-nordeste catarinense.
De 2000 a 2010, a frota de veículos da região mais que duplicou, para 621 000 carros. São Bento do Sul é a terceira cidade mais populosa nessa área, atrás de Joinville, com 515 000 habitantes, e de Jaraguá do Sul, com 143 000.
Nos próximos 15 anos, o crescimento populacional ficará dentro da média nacional, mas a economia continuará se diferenciando. “É um momento de ouro”, afirma Udo Döhler, presidente da tecelagem Döhler, de Joinville.
Ele é membro da quarta geração da família de origem alemã que fundou a empresa há 130 anos. “Haverá uma nova onda de oportunidades e a região dará um salto ainda maior na próxima década.”
Enquanto a economia brasileira cresceu 33% de 2000 a 2008, a da região catarinense avançou 40%. Para os próximos anos, a previsão é de manter uma média de 5,8% de crescimento anual.
De acordo com um estudo da consultoria McKinsey, o norte-nordeste de Santa Catarina é a região urbana brasileira com mais de meio milhão de habitantes que mais vai crescer até 2025.

Chamada de Manchester catarinense pela concentração e diversidade industrial — lá estão instaladas empresas como Weg, Tupy, Tigre, Malwee, Marisol e Embraco —, a região viveu até meados da década passada uma crônica carência no setor de serviços. Para entrar num shopping center, seus moradores tinham de viajar 140 quilômetros até Curitiba.
Os dois primeiros centros comerciais foram inaugurados em Joinville em 1995. Há um ano e meio, um terceiro abriu as portas, levando para Santa Catarina redes como Etna e Burguer King. A expansão do varejo busca atender uma população que multiplicou seu poder de compra — e deve enriquecer mais.
 Assim como o norte-nordeste catarinense, os centros urbanos de Campo Grande, Grande Vitória, Grande São Luís e João Pessoa têm potencial de crescer duas vezes mais que São Paulo e Rio de Janeiro, segundo a McKinsey.
O potencial de duas delas — São Luís e João Pessoa — se explica principalmente pelas carências atuais. Com grande crescimento populacional nos últimos anos, falta a essas regiões todo o arcabouço de serviços e infraestrutura.
Campo Grande é o centro de um dos principais polos de agronegócio no país. E a Grande Vitória é beneficiada pela atividade econômica de seus portos.
Oportunidades
O norte-nordeste catarinense é uma exceção, com uma atividade industrial já desenvolvida e que vem atraindo mais investimentos nos últimos tempos. Em Joinville, a fabricante de barcos americana Brunswick anunciou em agosto a construção de uma fábrica e a criação de 150 empregos.
A GM investe 350 milhões de reais para inaugurar uma fábrica de motores no ano que vem e pode levar para a cidade uma unidade de transmissões. A BMW estaria entre duas cidades do norte-nordeste catarinense — Joinville e Araquari — para instalar sua primeira unidade brasileira.

Toda essa movimentação já mexe com o sistema educacional. A Universidade Federal de Santa Catarina vai inaugurar seu campus em Joinville com cursos de engenharia naval, ferroviária, aeroespacial e de trânsito. A PUC ampliará sua oferta local em 2012.
Os cursos universitários são um complemento para a formação técnica oferecida pela Weg e pela Tupy. “Investir na capacitação evita que soframos as consequências do crescimento sem controle”, diz Luis Figueiredo, diretor de RH da Weg, a maior empresa da região e empregadora de 10% da população de Jaraguá do Sul, onde sua sede está localizada.
Apesar de todo esse desenvolvimento, o norte-nordeste catarinense sofre com a infraestrutura. Joinville, a maior cidade do estado, trata apenas 14% do esgoto produzido. O aeroporto não tem instrumentos básicos para pousos em condições de tempo adversas.
As estradas que levam ao vizinho porto de São Francisco do Sul não são duplicadas. “Todas as cidades médias têm a oportunidade de investir em planejamento urbano, o que não foi feito nas grandes cidades”, diz Patricia Ellen, sócia da McKinsey especializada no setor público.
Campo Grande é um exemplo de preocupação com o crescimento mais ordenado. As ruas são largas como nas cidades americanas para facilitar a circulação de 790 000 habitantes e 392 000 veículos. A economia se concentra no comércio e nos serviços. Sua força vem do agronegócio de Mato Grosso do Sul.
Nos últimos quatro anos, o número de usinas de açúcar no entorno passou de dois para 21. O governo do estado quer diversificar a fonte de receita do município com a atração de indústrias. Cinco polos empresariais foram criados em Campo Grande na última década.
O setor de construção civil ocupou um terço do espaço oferecido. Com um dinamismo acima da média nacional, as metrópoles regionais são também uma nova fronteira de oportunidades.