sábado, 21 de maio de 2011

Riscos para a América Latina, segundo o economista uruguaio Enrique Iglesias

Primeiro: os desequilíbrios não resolvidos dos países centrais. Ainda temos riscos de uma involução do ciclo internacional e um longo processo de instabilidade, que nos afeta particularmente. O G-20 até agora não disse nada sobre isso. E nesses desequilíbrios globais temos as grandes correntes de capitais que levam a esses tsunamis financeiros, que geram apreciação das moedas locais.
Um segundo problema é controlar os desafios macroeconômicos de curto prazo, para os quais não há soluções mágicas, usando políticas macroprudenciais. Precisamos de soluções híbridas para fazer uma combinação difícil.
Depois vêm os problemas da educação e da violência. A violência é muito grave, pois se instalou na região o crime organizado.
O último risco é uma preocupação com um ajuste na economia chinesa. A China tem uma dinâmica particular, mas eu me pergunto se realmente vai continuar com esse crescimento tão vigoroso. Pode haver um ajuste, e isso afetaria o preço das matérias-primas.
Mas temos finalmente a grande chance de uma grande década. Pela primeira vez temos uma potência global, que é o Brasil. Para nós, é muito importante que o Brasil cresça. Será uma década da América Latina, mas temos de fazer nossos deveres.
Entrevista para o Jornal Valor Econômico.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

DIEESE divulga nota técnica "A Informalidade e o Movimento Sindical: uma agenda para o século XXI"

Abaixo a apresentação do trabalho



As mudanças das últimas décadas conferiram características peculiares quanto à estruturação do mercado de trabalho em praticamente todos os países. Observou-se uma redefinição das relações de trabalho, com uma diversificação crescente dos tipos de contratação, das formas de inserção dos trabalhadores na estrutura produtiva e, ainda, a persistência de importantes segmentos em atividades produtivas tradicionais. Diante disso, a relação padrão de assalariamento não pode mais ser considerada a única e inexorável forma de inserção produtiva e de inclusão social.  Recentemente, a reconhecida complexidade que envolve o tema e a crescente interação entre as atividades desenvolvidas pelo setor informal e os setores dinâmicos da economia propiciaram maior relevância ao debate. Também estimularam a formulação de novas concepções e categorias de análise, voltadas para o desafio de incrementar a proteção social no âmbito de pequenos empreendimentos e das atividades cooperativadas, e fomentaram avanços sistêmicos para o combate à precarização do trabalho assalariado.
 Nesse sentido, o DIEESE, por meio de projeto específico sobre o tema, vem desenvolvendo estudos e debates para refletir sobre os impactos da informalidade; elaborar diagnósticos atualizados; e identificar soluções direcionadas à forma específica de inserção ocupacional (seja como assalariados, trabalhadores por conta-própria, pequenos empregadores, trabalhadores domésticos, cooperativados, não remunerados,
dentre outros), dada a premência de se equacionar não só as questões relacionadas ao financiamento da rede de proteção social, mas também de se criar um ambiente voltado ao desenvolvimento com inclusão social. A dimensão do mercado de trabalho brasileiro e a grande heterogeneidade aí observada colocam o país como importante referência para a investigação sobre informalidade e o seu enfrentamento, por meio do diálogo social e da construção de um quadro regulatório adequado e de políticas públicas inovadoras e inclusivas. Para o movimento sindical, este desafio implica na formulação de estratégias adequadas à dimensão e à complexidade do problema.
     Esta Nota Técnica está organizada em duas partes. Na primeira, apresentamos brevemente as dificuldades conceituais que sempre marcaram o debate sobre informalidade, as quais implicam em divergências na própria aferição do fenômeno. A partir das recomendações da OIT e das concepções adotadas, buscou-se dimensionar o fenômeno no Brasil. Na segunda parte, são propostas formas alternativas de atuação do movimento sindical brasileiro para o enfrentamento da informalidade, considerando-se uma nova tipologia de agregação das situações encontradas na realidade decorrentes: das relações entre o setor formal e informal, da dinâmica da atividade produtiva e das condições específicas da inserção ocupacional. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Fechado o acordo entre Sindicato e Empresas de ônibus em Floripa

Segundo Ricardo Freitas, assessor do Sindicato o acordo se deu nas seguintes bases:


Reajuste nos salários = 8,3%


Com a transformação do triênio em biênio, a galera terá de 1% a 2% a mais, de acordo
com o tempo de trabalho de cada um. Então o aumento salarial será de 8,3% para mais
ou menos 10% da galera; 9,3% para mais ou menos 50% da galera; e 10,3% para mais
ou menos 40% da galera.

PLR - 30% dos pisos por semestre
          Mot = R$ 463,80 em Nov/11 e Mai/12 - R$ 927,60
          Cob = R$ 272,40 em Nov/11 e Mai/12 - R$ 544,80

Tíquete alimentação - R$ 380,00 - inclusive nas férias, sem desconto
                                    e fixo (não é por dia trabalhado). (11,35%)

Jornadas - 06:40 - intervalo de 20 a 60 min.
                   06:00 - intervalo de 15 min
                   03:00 - s/ intervalo

Muitos avanços em cláusulas de:
saúde - obrigatoriedade de laudos técnicos submetidos ao sindicato, que pode acompanhar fiscalizações
e indicar técnicos e lavrar pareceres; programa de prevenção ao tabagismo, alcoolismo e outras drogas, aids etc;
cláusulas de garantias a mulheres grávidas, aleitamento e licenças para acompanhamento de
doença de filhos(as); bancos ergonômicos e outras.
Sociais - ausências permitidas bem além da lei; processos acompanhados pelo sindicato
no caso de punições  e multas; regramento rigoroso de processo para apurar responsa-
bilidade em acidentes de trânsito e erros de catraca; obrigatoriedade de seguros para aci-
dentes (motoristas pagam apenas a franquia se forem responsáveis).

São 60 itens e tem muitas outras garantias sociais e sindicais, como a obrigatoriedade de
comunicar ao sindicato todas as demissões e com motivação, assim como afastamentos
para tratamento de saúde etc.

Abraços

Ricardo Freitas
 

Lucro da BRF cresce 527% no 1º trimestre

São Paulo - A BRF encerrou o primeiro trimestre de 2011 com lucro líquido de 383 milhões de reais. O valor é 527% superior ao do primeiro trimestre de 2010. O ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação)  foi de 816,4 milhões de reais, a margem foi de 13,6%.
A empresa destacou, entre os fatores que contribuíram para o resultado, o acerto na estratégia de aquisição de insumos em um ambiente de alta de commodities; a melhoria na gestão de custos e despesas operacionais da empresa; a continuidade da captura de sinergia nas áreas autorizadas pelo CADE e a melhoria na performance no mercado externo. O mercado externo foi a divisão que mais contribuiu para o aumento de 4,8 pobntos percentuais na margem ebitda, segundo a empresa. 
A receita líquida da BRF foi de 6 bilhões de reais no trimestre. O valor é 19,3% superior ao do primeiro trimestre de 2011. As vendas no mercado interno aumentaram 20,4% e somaram 3,6 bilhões de reais.  Em volumes o crescimento chegou a 13%. Os investimentos da empresa no primeiro trimestre chegaram a  278 milhões de reais. 
Os investimentos foram destinados para projetos de melhoria, reposição e produtividade, As maiores parcelas destinaram-se as unidades de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Centro-Oeste, além da cadeia logística e de suprimentos. A empresa informou que o ritmo de aplicação dos recursos do capex segue aquém do planejado, enquanto a BRF espera o julgamento do CADE.
A receita com exportações foi de 24 bilhões de reais. O valor é 17,7% superior ao primeiro trimestre de 2010, acumulando 549.900 toneladas. 

Fonte: Exame

quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Retomada dos leilões de petróleo traz imensos prejuízos à soberania nacional"


Para Moraes (FUP), “Estado precisa deter o controle deste bem estratégico para o desenvolvimento”

Escrito por: Leonardo Wexell Severo

Em entrevista ao Portal do Mundo do Trabalho, o coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Antonio Moraes, condenou a retomada dos leilões de concessão de petróleo e gás, marcada para 12 de setembro, “cinco dias depois do dia da Pátria”, como “uma agressão à nacionalidade”. “É como se desconhecessem que cada gota deste patrimônio é estratégico para o desenvolvimento desta e das futuras gerações. A retomada dos leilões de petróleo traz imensos prejuízos à soberania nacional”. Na entrevista, Moraes demonstra como o país necessita contar com estruturas públicas, e elogia a postura da BR Distribuidora de enfrentar os abusos do cartel de combustíveis e derrubar o preço a fim de beneficiar o consumidor. Caso a Petrobrás tivesse sido privatizada, como queriam Fernando Henrique, David Zilberstajn e Reichstul Henri Philippe - recém nomeado para ser conselheirodo governo – o estado não teria como intervir, destaca.  “A FUP entrará em campo ao lado dos movimentos sociais para defender o patrimônio dos brasileiros, mobilizando a sociedade contra a alienação das nossas riquezas a meia dúzia de exploradores privados, na sua maioria estrangeiros, que querem se adonar do nosso petróleo”, acrescentou.
O que significa esta retomada dos leilões de petróleo e gás num momento em que as grandes potências fomentam guerras e intervenções para dominar as fontes de energia?
Pensamos que a retomada dos leilões de petróleo e gás significa um imenso prejuízo à nossa soberania e ao futuro do Brasil enquanto nação. O petróleo é e continuará sendo por décadas um recurso estratégico para o desenvolvimento das nações, portanto não deve ser disponibilizado para interesses privados – principalmente estrangeiros - que têm o lucro em primeiro lugar, colocando em risco o futurodas novas gerações. O fato é que o mundo todo precisa de energia para se desenvolver. Se um país necessita crescer 5%, o consumo de energia terá de ser de 6% e este é um desafio para as nações. Com o desastre ocorrido em Fukushima, no Japão, muitos países como a Alemanha, estão revendo sua política nuclear, o que amplia a procura por petróleo. Ou seja, se já havia necessidade de petróleo e gás, agora ela está ampliada. Então, as nações imperialistas promovem guerras e usam todo o tipo de subterfúgios e alegações para intervir, como ficou demonstrado nas agressões ao Afeganistão, ao Iraque e, mais recentemente, à Líbia. A retomada dos leilões de concessão de petróleo e gás marcada para 12 de setembro, cinco dias depois do dia da Pátria, é uma agressão à nacionalidade.
Uma agressão à nacionalidade...
Exatamente. É como se desconhecessem que cada gota deste patrimônio é estratégico não só para nós, mas para as grandes potências também. As nações imperialistas já demonstraram até onde estão dispostas a ir, e vão à guerra se necessário, para garantir a manutenção dos seus interesses energéticos, do seu padrão de consumo. Este será o 11º leilão de concessão de petróleo e gás, desde a criação da Lei 9.478, em 1997, quando FHC abriu o setor - após ter quebrado o monopólio estatal que era exercido pela Petrobrás - junto com gente como David Zilberstajn e Henri Philippe Reichstul, recém nomeado pelo governo para ser seu “conselheiro”. Graças à nossa luta, não serão licitados blocos do pré-sal, cuja regulamentação ainda não foi concluída, pois aguarda aprovação na Câmara dos Deputados do projeto de lei que trata da partilha dos royalties. No entanto, serão ofertados às multinacionais 174 blocos, dos quais 87 no mar, alguns deles “em águas não rasas”, como disse o ministro Edson Lobão. Ou seja, na chamada franja do pré-sal. Ao todo serão 123 quilômetros quadrados de áreas exploratórias, localizadas no Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Alagoas, Ceará, Bahia, Maranhão, Amapá, Piauí e Pará.
Como a FUP vê a nomeação de Reichstul, um privatista empedernido, que até posou para foto ao lado de placa da Petrobrax, que tudo fez para privatizar a empresa, como conselheiro do governo?
Este senhor foi colocado pelo governo FHC na presidência da Petrobrás entre 1999 e 2001. Era tamanha a identidade de Reichstul com o projeto privatista de FHC que até os estatutos da Petrobrás foram modificados para que ele pudesse ocupar a presidência. Para ser presidente tinha de ser brasileiro nato e ele tem nacionalidade francesa. É uma figura muito conhecida dos petroleiros, pois dentro do processo de desmonte da empresa, de tudo fez para implantar o arrocho salarial, comandando diversos ataques a direitos, ao mesmo tempo em que promovia uma farta distribuição de bônus  para gerentes, coordenadores e supervisores.  No triste período de três anos em que presidiu a Petrobrás, Reichstul foi um agente do sucateamento e da privatização da estatal, em sintonia com o projeto de demos e tucanos. Em sua ficha corrida está a tentativa de mudança de nome da empresa para Petrobrax, a entrega de 30% da Refap para a Repsol/YPF, o afundamento da P-36 que matou 11 petroleiros, os catastróficos acidentes ambientais na Baía de Guanabara e no rio Iguaçu Paraná, a reestruturação que fragmentou a Petrobrás em 40 unidades autônomas de negócio, entre outras performances de triste memória.
Mais do que figura carimbada, um entreguista de carteirinha.
Sem dúvida, Reichstul nunca dormiu em serviço quando o que estava em jogo era prejudicar o país. Só não privatizou as FAFENs, a Replan, a Reduc e outras refinarias do Sistema Petrobrás porque os trabalhadores, organizados nacionalmente pela FUP, resistiram com muita mobilização. Após deixar a Petrobrás, Reichstul integrou vários Conselhos de Administração de multinacionais, entre elas a Repsol – a mesma que foi agraciada em sua gestão com ativos da Refap e de blocos de petróleo. Na nossa opinião, é, no mínimo, muita ingenuidade do governo querer ouvir conselhos desse tipo de empresário para controlar e reduzir gastos públicos. Se este senhor ainda fosse o presidente da Petrobrás, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não existiria, pois a estatal jamais investiria no fortalecimento do Estado e em projetos de desenvolvimento nacional. O pré-sal, então, já estaria entregue às multinacionais há muito tempo. Caso tivesse êxito o projeto de FHC, Zilberstajn e Reichstul, hoje o governo não teria como intervir no mercado de combustíveis, pois o Brasil não contaria mais com a Petrobrás Distribuidora, e os consumidores ficariam à mercê da flutuação do mercado internacional e dos interesses gananciosos dos usineiros de álcool.
Diante dos reiterados abusos do cartel de combustíveis, a Petrobrás decidiu intervir no mercado e derrubar o preço. Este aumento da participação da estatal na produção do etanol não é uma demonstração inequívoca da necessidade de uma maior participação do estado para evitar novas crises?
Ao decidir reduzir o preço de venda da gasolina e do etanol hidratado para os postos revendedores, a Petrobrás Distribuidora age, por determinação do governo, muito corretamente para enfrentar os abusos provocados pelo domínio privado e pela crescente desnacionalização. Assim, a previsão é de que o álcool vai cair 13 % e a gasolina, 6%. Isso só foi possível, como disse anteriormente, porque a BR Distribuidora não foi privatizada e é líder do mercado com sete mil postos em todo o Brasil e 47,8% do volume de combustíveis vendido. Assim, consegue forçar as demais distribuidoras a também reduzir seus preços aos postos e fazer com que esta diminuição seja repassada ao consumidor. É particularmente grave a desnacionalização e a crescente monopolização na produção de álcool e açúcar no Brasil, como exemplifica a compra da brasileira Cosan, maior produtora de açúcar e álcool do mundo, pela multinacional anglo-holandesa Shell. Com o negócio, a Shell passou a deter o controle de etanol, açúcar e energia e o suprimento, além da distribuição e comercialização de combustíveis. Resultado: a Shell passou a controlar aproximadamente 60 milhões de toneladas de capacidade de moagem de cana-de-açúcar por ano, com capacidade de produção de mais de dois bilhões de litros de etanol. O Brasil precisa ter o controle dos setores estratégicos.
Focado no mercado interno, o governo Lula decidiu que o grosso das compras da Petrobrás fossem feitas dentro do Brasil, encomendando vários navios e plataformas. Agora, o dono da OGX, Eike Batista, anuncia que vai importar plataformas e navios. O que achas disso?
É a lógica de um arquimilionário, de uma das maiores fortunas do mundo: colocar em primeiro lugar os seus interesses, em detrimento do país. Vale lembrar que, durante o governo Lula, a orientação de privilegiar o interesse nacional repercutiu muito favoravelmente na geração de emprego, sendo responsável, só na indústria naval, por cerca de 60 mil novos postos de trabalho aqui dentro, no país. O caso de Eike Batista, que passou a ser dono de poços de petróleo, devido ao governo não ter modificado a lei dos tempos de FHC, é um bom exemplo de como não devemos deixar ao “mercado” a definição de questões que são estratégicas para o desenvolvimento nacional.
Quais serão os próximos passos dos petroleiros?
A FUP entrará em campo ao lado da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e os movimentos sociais para defender o patrimônio dos brasileiros, mobilizando a sociedade contra a alienação das nossas riquezas a meia dúzia de exploradores privados, na sua maioria estrangeiros, que querem se adonar do nosso petróleo. Com certeza, a mobilização popular cumprirá um papel fundamental na definição dos rumos do setor

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Combate à inflação e contas públicas

Combate à inflação e contas públicas
*José Álvaro Cardoso
     No Brasil, como está ocorrendo no mundo, o problema inflacionário continua no centro da conjuntura. Para controlar os preços o governo vem utilizando um mix de instrumentos que inclui política monetária, fiscal, contração creditícia nos bancos oficiais, e as chamadas medidas macroprudenciais. No Relatório de Inflação do primeiro trimestre, divulgado em 30 de março, os técnicos do Banco Central (BC) constatam que uma parte da inflação advém de um aquecimento na demanda, mas apontam que o principal fator de aceleração nos preços é o aumento das commodities, especialmente os alimentos. Numa economia aberta, como é a brasileira, a elevação dos preços internacionais das commodities agrícolas e minerais (trigo, milho,soja, açúcar, petróleo, minério de ferro, entre outros) ocorrida aqui e em outros países, se transfere rapidamente para os preços internos. Como se sabe esse tipo de inflação não se combate com elevação pura e simples dos juros, que pode, sim, fazer efeito quando se tem uma inflação decorrente de um desequilíbrio entre oferta e demanda, o que não parece ser o caso do Brasil.
     A partir desse diagnóstico, não tem sentido apostar todas as fichas no aumento da taxa básica de juros, como deseja parcela expressiva do chamado “mercado”. Essa combinação de políticas do BC, que inclui esforço fiscal, elevação mais moderada dos juros e medidas de arrocho do crédito, pode ser considerada um avanço em relação às políticas da gestão anterior, que, no enfrentamento da inflação, utilizava apenas a elevação da taxa Selic como instrumento de atingimento das metas de inflação. Avanço importante, num contexto em que os gastos com juros do setor público devem atingir R$ 230 bilhões neste ano, equivalente a 5,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e quase 15 vezes os R$ 15,5 bilhões que o governo federal deve gastar com o programa Bolsa Família (aumento expressivo em relação aos R$ 195 bilhões gastos em 2010).
       O fato é que, uma esfera importante de enfrentamento da questão inflacionária, a fiscal, que não era dramática, como afirmavam vários economistas ortodoxos, está em trajetória de franca melhoria. O superávit primário do setor público no primeiro trimestre do ano ficou próximo a R$ 40 bilhões, praticamente um terço da meta fical prevista para este ano, de R$ 117,89 bilhões. Se a trajetória se mantiver, mesmo com os efeitos da desaceleração do crescimento, o governo irá atingir a “meta cheia” com certa tranqüilidade, inclusive sem utilizar o desconto dos investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como permite a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).
      Com isso, pode-se afirmar que o governo retoma o padrão de austeridade fiscal existente antes da crise de 2008, alterado em 2009 e 2010 em função da necessidade de realizar política fiscal anticíclica. Curiosamente, o FMI está mais otimista do que o mercado financeiro brasileiro sobre o desempenho fiscal do Brasil. Em documento divulgado no mês de abril, o Fundo defende que o governo vai cumprir a meta de superávit primário deste ano e projeta um déficit nominal do setor público de 2,4% do PIB, uma melhora significativa em relação aos números divulgados pela instituição em janeiro.
                                  

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Riscos e oportunidades na relação entre o Brasil e a China

Observados de todos os ângulos, os indicadores da China sempre impressionam. A China é de fato, o grande país vencedor da disputa econômica entre as nações, nas últimas décadas. Cresce a uma média de 10% ao ano e, nos últimos trinta anos o tamanho de sua economia aumentou mais de 20 vezes. Em 2010 a economia chinesa ultrapassou a do Japão, tornando-se a segunda economia do mundo, e o seu Produto Interno Bruto (PIB) alcançou 40% do valor do produto estadunidense.
Do ponto de vista comercial e geopolítico, a importância de o Brasil estreitar a relação bilateral com a China é indiscutível. As duas economias são complementares em várias áreas, especialmente nas atividades do agronegócio. Hoje a China é o maior parceiro comercial brasileiro e compra 15% de tudo que o Brasil exporta para o mundo. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior, em 2010 a China respondeu por 19,8% de toda a corrente de comércio do Brasil com o mundo e foi o maior investidor estrangeiro no país. Os produtos baratos importados da China, especialmente os bens intermediários e bens de capital, possibilitam ganhos de produtividade e produção de produtos industriais mais baratos. Por outro lado, atualmente o saldo comercial brasileiro vem sendo garantido pela China, cuja demanda crescente vem elevando os preços das commodities agrícolas e minerais que o Brasil exporta (minério de ferro, soja etc.). A China também representa grandes oportunidades para empresas brasileiras que têm competitividade e planejam estrategicamente as suas ações, especialmente com a emersão de uma imensa classe média, que adota hábitos mais ocidentalizados, inclusive na sua dieta.
O esforço da recente missão brasileira à China foi, principalmente, o de expandir a venda de produtos manufaturados, de maior valor agregado, o que é muito louvável. Mas, aqui não podem caber ilusões. Se existe complementaridade em algumas áreas, a China concorre fortemente com o Brasil em vários mercados externos e os seus produtos industriais (com seus preços imbatíveis), e sua moeda desvalorizada, significam uma ameaça para imensos setores industriais no Brasil. Por outro lado, os investimentos chineses no Brasil até agora têm se dirigido para projetos modestos e com
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larga escala de importação de componentes, da própria China e de outros países da Ásia. A abertura do mercado chinês para os produtos brasileiros também não tem sido tarefa fácil. A recente missão, que contou inclusive com a presença da presidente Dilma, avançou pouco nessa área, apesar dos muitos gestos de prestígio, realizados pelo governo de Pequim, como a possibilidade de venda de carne suína (há cerca de cinco meses uma missão chinesa veio ao Brasil inspecionar 13 frigoríficos, mas apenas três foram considerados aptos a exportar para a China: um em Goiás, da BrazilFoods, outro em Porto Alegre e outro no Nordeste.), o destravamento da venda de 35 aviões da Embraer (negociação que já estava em curso), e algumas outras promessas.
O desafio do Brasil é estreitar relações comerciais com a China, defendendo, ao mesmo tempo, os seus próprios interesses. O jogo é duríssimo, pois, como se sabe, a piora da balança comercial (em 2010 o superávit comercial brasileiro ficou positivo em apenas 20 bilhões de dólares, o pior nos últimos oito anos) está relacionada ao quadro de sobrevalorização do real, num contexto em que está cada vez mais difícil exportar produtos manufaturados. Com o nível atual do câmbio, além de ser difícil a indústria competir lá fora, cada vez mais há a substituição de produtos nacionais por importados, especialmente de componentes da cadeia de produção industrial. O risco maior que o Brasil corre é o de déficits externos crônicos, que são uma tendência histórica da economia brasileira. Períodos de superávits externos, como o mais recente, entre 2003 e 2007, são excepcionais. O “normal”, por refletirem problemas estruturais de nossa economia, são os saldos negativos em transações correntes, como novamente vem acontecendo nos últimos três anos.
No que se refere à defesa de sua produção industrial e de seus empregos, a China tem muito que ensinar ao Brasil. Juntamente com Japão, Índia, Coréia do Sul e outros asiáticos, aquele país montou uma cadeia industrial integrada, tendo como objetivo ser a manufatura do mundo. Ademais, a produção industrial naquela região tem sido desenvolvida com grande dinamismo e inovação tecnológica, não observados em qualquer outra região do mundo. Enquanto o Brasil assiste à chegada de multinacionais de todas as origens e procedências, disseminando a instalação de verdadeiras linhas de montagem dependentes de importação de peças, partes e componentes, o governo chinês exige que empresas estrangeiras instaladas no país exportem pelo menos 30% de sua produção, protegendo assim o seu balanço de pagamentos.
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A determinação chinesa na preservação de suas exportações deveria servir de exemplo para o Brasil, no sentido de desenvolver uma política mais proativa de defesa comercial, contra a concorrência dos importados. Mudou o cenário mundial nos últimos anos e o governo brasileiro tem que operar uma política eficiente no enfrentamento do problema, fazendo tudo que esteja ao alcance, dentro e fora da Organização Mundial do Comércio (OMC), para proteger o saldo comercial. Tudo deve ser feito para impedir a valorização do real, mantendo a taxa de câmbio competitiva, como a redução da taxa de juros e o controle mais forte dos capitais especulativos (hoje admitido até pelo Fundo Monetário Internacional). A dificuldade neste momento é dobrada, ressalte-se, pois o governo tem que controlar o câmbio, sem gerar mais pressão inflacionária, que é um dos principais desafios macroeconômicos atuais. Simultaneamente, é fundamental também acelerar o processo de expansão de um forte mercado consumidor interno, que possibilite cada vez mais fatias crescentes da população ter acesso a salários dignos e a uma vida decente. Isso reduzirá muito a nossa dependência das exportações e deverá ser um dos alicerces para o país ingressar em um processo de crescimento sustentado com distribuição de renda.

José Álvaro, economista.