quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Manter as conquistas, não se curvar à crise





   * José Álvaro de Lima Cardoso
        O economista-chefe do Banco Mundial para a América-Latina, Augusto de la Torre, durante encontro nesta semana em Lima, no Peru, em meio a análise da conjuntura mundial, propôs tornar o salário mínimo mais “flexível”. Sugeriu, entre outras coisas, que o salário mínimo, seja diferente por empresa, já que as pequenas e médias têm maior dificuldade para contratar do que as grandes, e que o mesmo varie segundo a faixa etária dos trabalhadores, de forma que os jovens recebam um valor menor. Para o economista do Banco Mundial, “se o salário mínimo é muito elevado, a empresa simplesmente deixa de contratar. Nesse caso, pode acontecer algo inesperado. Pretendíamos proteger o trabalhador, para que ele tivesse uma vida decente, mas perdemos o controle por questões políticas e, em tempos de retração econômica, esse salário mínimo se torna um inimigo do emprego”.
         Esse tipo de intervenção tem se tornado cada vez mais comum. O momento é muito duro para a defesa de direitos básicos dos trabalhadores em todo o globo, como salário mínimo, saúde pública, previdência pública, trabalho decente e outros. Em face da profundidade e da duração da crise, assistimos em todo o mundo o retorno (ou a tentativa de fazer retornar) do receituário neoliberal, que havia caído em desuso, especialmente em algumas partes do mundo. No Brasil, observa-se a defesa, nos meios de comunicação, de propostas que haviam sido sumariamente derrotadas na última década.  Os mais radicais vêm defendendo abertamente o fim da política de valorização do salário mínimo, rediscussão da estabilidade no emprego para o funcionalismo público, flexibilização da legislação trabalhista e a retomada das privatizações (inclusive da joia da coroa, a Petrobrás), como solução para superação da crise. Para alguns, os direitos sociais advindos da Constituição de 1988 (chamada de Constituição Cidadã) constituiria um empecilho à competitividade do país, na medida em que elevaria o custo do investimento privado e não permitiria a poupança no setor público. No fundo, estes críticos estão dizendo que o problema do país é o Estado brasileiro e que tem que reduzir ao máximo o seu tamanho, para o país deslanchar.
       Análises desse tipo desconsideram a dívida pública como questão fundamental no debate sobre o enfrentamento da crise no Brasil. No último Boletim de Política Fiscal do Banco Central (BC) verificamos que, entre setembro de 2014 e agosto de 2015, as despesas com pagamento de juros chegaram a R$ 484 bilhões, somatório que tende a aumentar nos últimos quatro meses de 2015. Ao invés de se financiar serviços públicos essenciais como saúde ou educação, ou investir-se no combate à pobreza, bilhões de reais são destinados a pagar os serviços da dívida, servindo uma minoria parasitária, que nada produz, e não coloca o pé no chão de fábrica. Para efeito comparativo, observe-se que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com importância estratégica para o país, tem orçamento para 2015 de R$ 64,9 bilhões. O PAC, que viabiliza a construção de rodovias, ferrovias, aeroportos, portos, hidrovias, habitação, equipamentos e obras para a defesa nacional, etc., e que servirão ao país, por um século ou mais, possui um orçamento que representa uma fração pequena dos gastos com a dívida pública no intervalo de 12 meses.
        Neste cenário adverso para a maioria da população, a aplicação de um ajuste do tipo neoliberal, só vem a piorar as coisas, pois coloca a economia em um ciclo vicioso de queda da renda, perda de direitos, redução do consumo, desemprego, redução da demanda agregada e assim por diante. Por isso, a orientação que os economistas do DIEESE e outros desenvolvimentistas têm passado em suas intervenções públicas, tem um caráter oposto à visão neoliberal. É justamente nessa conjuntura difícil que deve ser preservada a grande conquista da sociedade brasileira na última década, que foi a ampliação inédita do mercado consumidor interno através da elevação da renda, especialmente dos trabalhadores, e dos mais pobres. A elevação dos salários reais, exerce efeito imediato sobre o nível de bem-estar das famílias, com resultados positivos sobre saúde, educação e outros indicadores.
        A ampliação do nível de renda das famílias tende, inclusive, a abreviar o período recessivo do ciclo econômico, porque possibilita a manutenção da distribuição de renda e dos níveis de consumo. Evita assim, que o empobrecimento das famílias alimente e prolongue o processo recessivo. Não podemos aceitar o arrocho, pois as empresas já vêm ajustando seus custos com mão de obra via redução do quadro de pessoal, assim como através do rebaixamento salarial por meio da rotatividade, que é enorme no Brasil. Além disso nem todos os setores estão em crise, e mesmo os impactos desta são muito diferenciados setor a setor. Os dados de balanços mostram que vários setores da economia obtiveram lucros expressivos no primeiro semestre.
*Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário